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segunda-feira, 6 de novembro de 2023

QUATRO MOSCAS SOBRE VELUDO CINZA (1971). Dir.: Dario Argento.

 

NOTA: 9



Entre 1970 e 1971, o diretor Dario Argento lançou sua Trilogia dos Animais, que se tornaram um marco no Giallo italiano.

 

Em 1971, mesmo ano em que lançou O Gato de Nove Caudas, Argento lançou QUATRO MOSCAS SOBRE VELUDO CINZA, ultimo filme da trilogia, e um dos melhores de sua filmografia.

 

Como boa parte de sua filmografia, Quatro Moscas é um exemplar do Giallo, aqui, sem apostar na marca registrada do gênero, o assassino de luvas pretas. Ao invés disso, temos aqui uma outra variação do gênero, apostando em um assassino diferente.

 

Mas antes de falar sobre isso, vou falar sobre a técnica. Como sempre, na primeira fase de sua carreira, Argento se mostrou um grande mestre na direção, com sua câmera criativa, com ângulos e movimentos variados, que apostam até na estranheza.

 

O roteiro, escrito pelo cineasta a partir de um argumento em parceria com Luigi Cozzi, também é o grande ponto, porque mais uma vez aposta no suspense e mistério, principalmente em revelar a identidade do assassino, além de apresentar personagens estranhos e uma lista grande de suspeitos.

 

Além de focar no suspense, o roteiro basicamente se foca em um único personagem, no caso, o musico Roberto Tobias, que é perseguido por uma pessoa misteriosa, após matar acidentalmente um homem que o acompanhava diariamente. Essa é a grande sacada do roteiro, porque, num primeiro momento, pensamos que o estranho de chapéu é um fã obsessivo, que irá transformar a vida do protagonista em um inferno, mas acontece essa virada na trama, e o protagonista é perseguido por outra pessoa, com um motivo muito particular.

 

Mas não irei entrar em mais detalhes para não revelar spoilers; só digo que a identidade do assassino me pegou de surpresa na primeira vez que assisti ao filme; e, nas próximas revisões, é possível ver que as dicas estavam lá, algo comum no gênero.

 

Como de costume no cinema italiano, principalmente nos filmes de Argento, o roteiro aposta também em personagens estranhos e misteriosos, como o escritor de histórias aleatórias, que está sempre contando o enredo para os amigos; o bizarro carteiro, que faz entregas erradas; e principalmente, a dupla que ajuda o protagonista – um homem conhecido como Deus, e outro conhecido como o Professor. Os dois protagonizam os melhores momentos do filme, principalmente o tal do Professor, que recita os versos da Bíblia.

 

Mas o melhor do filme é o mistério, apresentado logo no inicio, com a presença do homem misterioso. Depois da “morte” do homem, somos apresentados a um jogo doentio, onde o assassino envia fotos do ocorrido e pertences do morto ao protagonista, o que o obriga a pedir ajuda aos seus amigos e a um detetive particular, um dos melhores personagens do filme. Conforme mencionei acima, é difícil entender o motivo por trás dos atos do assassino, e qual será o seu próximo passo; culminando numa sequencia de assassinatos, até chegar a sua identidade.

 

Também conforme mencionado acima, Quatro Moscas aposta numa grande técnica de direção de Argento. O cineasta faz uso de métodos criativos, como movimentos rápidos, planos em POV, ângulos criativos e outros.

 

E claro, temos a trilha sonora do Maestro Ennio Morricone, uma das melhores de sua carreira, e a melhor da trilogia.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção A Arte de Dario Argento, em versão restaurada com áudio em italiano.

 

Enfim, Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza é um filme excelente. Um longa de suspense e mistério, contado com a maestria do diretor Dario Argento, com sua direção inspirada e roteiro afiado, combinado com uma trilha sonora maravilhosa do Maestro Ennio Morricone. Um quebra-cabeça, cujas as peças precisam ser encaixadas cuidadosamente, até chegar a um final de cair o queixo. O filme que encerra a Trilogia dos Bichos.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O GATO DE NOVE CAUDAS (1971). Dir.: Dario Argento.

 

NOTA: 9.5



Entre 1970 e 1971, o diretor Dario Argento lançou sua Trilogia dos Animais, que se tornaram um marco no Giallo italiano.

 

O GATO DE NOVE CAUDAS é o filme do meio dessa trilogia, e o meu favorito, embora não seja melhor do que o anterior, o Clássico O Pássaro das Plumas de Cristal (1970).

 

Por que é o meu favorito? Bem, o principal fator é a relação entre os protagonistas, o jornalista Carlo Giordani, e o criador de enigmas Franco Arnò, interpretados por James Franciscus e Karl Malden, respectivamente. Mas não é só isso.

 

O filme é um dos mais bem dirigidos pelo diretor, que aqui começou a apresentar algumas de suas características da carreira. Além disso, temos também uma das melhores variações do Giallo clássico, visto que aqui, não temos a presença das luvas pretas. Conforme mencionei em outras resenhas, eu gosto das variações do gênero, mas prefiro muito mais o clássico, com as clássicas luvas pretas e a navalha. No entanto, O Gato de Nove Caudas me agrada muito por ser um filme do mestre Argento, considerado um dos principais nomes do gênero.

 

Esse é o truque. Eu já vi algumas variações do Giallo, algumas dirigidas por especialistas, mas elas não me agradaram muito. Este aqui é diferente, porque estamos vendo o nascimento do gênero pelas mãos de Dario Argento, então, a meu ver, tais alterações são bem-vindas.

 

Além disso, temos também os personagens, que são muito criveis e simpatizantes, e quando algum morre, é um pouco triste até, porque todos possuem sua importância para a trama. Os melhores são os quatro protagonistas, principalmente a menininha Lori, que acompanha Arnò o tempo todo, porque o personagem é deficiente visual.

 

Além de um Giallo, temos aqui também um filme com elementos de espionagem, visto que após a invasão no instituto, todos começam a suspeitar que foi algo envolvendo espionagem, porque uma das pesquisas era muito secreta, e poderia trazer problemas – a existência do cromossomo XYY, que poderia levar o ser humano a desenvolver tendências criminalísticas, algo que o próprio diretor e o roteirista Dardano Sacchetti pesquisaram antes de desenvolver o roteiro.

 

E a trama toda se desenvolve a partir dessa invasão, porque a partir daí, temos o Giallo clássico, com inúmeros suspeitos, cujas peças vão se encaixando aos poucos, até a conclusão, onde o culpado é revelado. Eu confesso que fiquei surpreso na primeira vez que vi o filme, pois eu não sabia que aquele personagem era o culpado, algo que o gênero faz com maestria, independente do cineasta.

 

E como de costume, temos também os personagens estranhos e engraçados: o barbeiro; Gigi, um ex-condenado especialista em arrombamentos; Morsella, o detetive que adora falar sobre receitas; e alguns dos cientistas do instituto, como por exemplo, o Dr. Braum, que se torna um dos principais suspeitos. Desses personagens, os meus favoritos são Morsella e Gigi, o Perdedor, porque eles protagonizam as cenas mais engraçadas do filme.

 

Temos também o elemento do romance, que se desenvolve entre Giordani e Anna, a filha do dono do instituto, o Dr. Tersi. Pode parecer meio obvio que os dois acabariam se envolvendo, mas eu gosto, acho muito bacana. Os dois protagonizam uma das melhores cenas do filme, uma perseguição de carro por toda a cidade, apenas para despistar a polícia.

 

Mas o que mais impressiona é a técnica. Diferentemente do que veríamos no futuro, aqui temos um Argento ainda em fase de desenvolvimento como cineasta, com seus truques de câmera para simular a presença do criminoso, no caso, a câmera em POV e closes nas pupilas, algo que seria recorrente em sua filmografia. Com sua câmera, o diretor cria cenas verdadeiramente carregadas na tensão, visto que nunca vemos a figura do criminoso, nem mesmo quando há a presença de objetos, como cigarros e seringas, por exemplo. A câmera em POV seria também utilizada por outros diretores nos Gialli futuros, e acabou se tornando também uma característica do gênero; tanto que acabou migrando para os EUA nos Slashers.

 

Além de tudo isso, temos também a relação entre os protagonistas, para mim, a melhor coisa do filme. Desde o primeiro encontro, os dois personagens se dão super bem, e rapidamente começam a investigar o ocorrido, mesmo que isso signifique correr riscos. Como eu disse, é a melhor coisa do filme, e uma inspiração para mim como escritor, porque me lembra de dois personagens que eu e meu irmão criamos quando éramos crianças. Inclusive, essa é outra característica do gênero. Os dois não são policiais e decidem bancar os detetives, porque nos Gialli, a polícia nunca é eficiente, e cabe ao protagonista descobrir a identidade do criminoso. O melhor momento é quando Giordani pede ajuda ao seu amigo Gigi para entrar na casa de Tersi a fim de descobrir alguma pista.

 

E como em todo Giallo, temos as cenas de morte. Aqui, como de costume, o diretor Argento transforma as mortes em espetáculos visuais, principalmente a cena do trem, violenta ao extremo. Mas não se engane, são cenas muito boas de se ver, e o diretor começa a dar os primeiros passos em direção às cenas de assassinatos grandiosos.

 

Não posso concluir essa resenha sem falar da cena mais tensa do filme inteiro, a cena do cemitério. Em determinado momento, Arnò se lembra do relógio que a noiva de uma das vítimas usa, e conclui que ali pode estar a peça-chave do enigma. Então, ele e Giordani vão ao cemitério encontrar o relógio, o que culmina na cena com o jornalista trancado dentro da cripta escura. Mesmo sendo uma cena que dura poucos minutos, é uma cena muito tensa, pois dá para sentir o medo no protagonista. Segundo o roteirista Sacchetti, a cena lhe serviu de inspiração para criar outras cenas tensas no futuro.

 

Como mencionado acima, O Gato de Nove Caudas é o filme do meio da Trilogia dos Animais, produzida entre 1970 e 1971, com todos os filmes dirigidos pelo mestre Dario Argento, que se tornaram clássicos em sua filmografia e no gênero Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção A Arte de Dario Argento, em versão restaurada com áudio em italiano.

 

Enfim, O Gato de Nove Caudas é um filme excelente. Uma história de mistério com toques de espionagem e cenas de ação que o deixam ainda mais divertido. Um verdadeiro quebra-cabeça, onde as peças vão se juntando aos poucos e revelando o mistério para o espectador. Aqui, temos ainda um Dario Argento em fase de desenvolvimento cinematográfico, mas que mostra sua capacidade como cineasta. Um dos melhores filmes do diretor e um clássico dos Gialli italianos.


Créditos: Versátil Home Vídeo

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https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9



Como já mencionei em outras resenhas, o diretor Lucio Fulci era o Padrinho do Gore. Desde que se aventurou no gênero terror, no final dos 70, Fulci mostrou que entendia da arte de assustar o publico com cenas repletas de sangue. Porém, antes de se tornar um dos mestres do terror da Itália, Fulci resolveu se aventurar no Giallo, que na época, estava em alta no país. O diretor iniciou a carreira no gênero com Uma Sobre a Outra (1969), passando pelo polêmico O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), Premonição (1977), e este aqui, UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER, lançado em 1971.

 

O filme, que marca sua primeira parceria com a atriz brasileira Florinda Bolkan, é um dos melhores exemplares do gênero. Com uma trama cheia de mistérios e reviravoltas, o filme consegue prender a atenção do espectador, e deixa-lo intrigado para resolver o mistério.

 

Como já disse outra vezes, o Giallo foi um subgênero que, da mesma forma que o terror, por exemplo, teve suas variações, e esse filme é uma delas. Sim, porque ele não apresenta o tradicional assassino de luvas pretas que sai matando mulheres com requintes de crueldade. Aqui, a trama é bem diferente; o roteiro apresenta uma ideia até original para o gênero, a ideia de que, às vezes, nosso subconsciente nos prega peças. Não digo que esse tema específico não foi abordado outras vezes em outras mídias, até acredito que sim; estou dizendo que, no gênero Giallo, eu vi poucos filmes que tocaram nesse assunto. Claro, a ideia da testemunha ocular que viu algo, mas não tem certeza, é algo recorrente, mas não chegou a ser explorada por um viés cientifico. Então, aqui, temos, sim, a protagonista que não sabe o que viu, mas abordado de outra forma. Segundo o roteiro, tudo acontece no subconsciente da personagem, que sofre de insônia e parece apresentar transtornos psicológicos.

 

Tal argumento é muito bem abordado pelo filme, principalmente nas cenas de investigação, quando os policiais decidem entrevistar o terapeuta. Admito que às vezes, as explicações dele parecem um tanto confusas, mas, se fizermos um esforço, podemos entender o que está sendo dito para nós, e até compreender a chave do mistério. Um mistério, que, como é comum no gênero, só é revelado no final do filme.

 

O roteiro faz uso de algo que já vi em outros exemplares. Em certo ponto da trama, as evidencias coletadas pela policia apontam para um determinado personagem, apesar do mesmo negar sua participação no caso. Pois bem, o filme utiliza desse argumento, e ao mesmo tempo, apresenta outros personagens que podem também ser culpados pelo crime, o que obriga o espectador a pensar um pouco mais. É uma tática muito boa, que funciona.

 

Eu confesso que na primeira vez que assisti ao filme, tive minhas dúvidas, principalmente a respeito do crime e do titulo; mas, conforme fui assistindo outras vezes, comecei a “pescar” as dicas apresentadas no roteiro e passei a compreender o que estava sendo apresentado. É uma coisa que acontece em muitos Gialli, porque as peças do quebra-cabeça nos são entregues aos poucos, então, temos que raciocinar antes de começar a montá-lo. Fulci faz uso desses enigmas com maestria, e consegue, sem esforço, deixar o espectador em dúvida. Ouso até dizer que essa dúvida fica conosco até mesmo depois do mistério ser resolvido, obrigando-nos a rever o filme.

 

Como mencionado acima, o filme marca a primeira parceria entre o diretor e a atriz brasileira Florinda Bolkan. A performance da atriz é excelente. Sua personagem parece tomada pela paranóia constante, provavelmente ocasionada por seus problemas psicológicos. Florinda passa, com total veracidade, tudo aquilo que a personagem está sentindo, seja medo, duvida, ódio... uma atuação excelente. Seus colegas de elenco não ficam atrás. O ator Jean Sorel, que já trabalhou com o diretor em Uma Sobre a Outra, também entrega uma ótima performance como o marido da protagonista; mas, quem rouba a cena, de fato, é o ator Stanley Baker, no papel do inspetor encarregado do caso; parece mesmo que ele é um policial, que não mede esforços para resolver o enigma e prender o culpado. Os outros atores também entregam boas atuações, e seus personagens também tornam-se criveis. Porem, o filme tem um defeito. A vizinha da protagonista é interpretada pela atriz Anita Strindberg, não-creditada. Eu sei que ela é uma das musas do Giallo, mas, como disse na resenha de No Quarto Escuro de Satã, eu não gosto dela, não acho que seja uma boa atriz. Sua participação no filme é pouca, mas, mesmo assim, não me agrada.

 

O responsável pelos efeitos especiais foi o mestre Carlo Rambaldi, famoso por criar o monstro de Alien, o 8º Passageiro e o E.T. de E.T., o Extraterrestre. Com vasto currículo, Rambaldi já trabalhou com alguns mestres do cinema, e no terror, seus truques merecem ser mencionados. Como já sabemos, Fulci tornou-se conhecido por ser o Padrinho do Gore, algo que desempenhou com maestria. Pois bem, mesmo não sendo um filme de terror, aqui temos alguns efeitos de gore, principalmente nos sonhos da protagonista. E Fulci já deu uma amostra do que faria no futuro, porque o gore é caprichado, com direito a tripas expostas e sangue escorrendo. Porem, a cena mais famosa do filme é a tal “cena dos cachorros”, que causou um grande alvoroço na época, devido a sua veracidade. O caso foi tanto que Rambaldi teve de levar os bonecos para o tribunal, a fim de provar que não eram verdadeiros. A cena é, de fato, chocante e impressionante. Um verdadeiro tapa na cara.

 

Além dos efeitos especiais de Carlo Rambaldi, o filme também contou com a trilha sonora do grande Maestro Ennio Morricone. A trilha do Maestro é excelente, com aspecto de fantasia, principalmente nas sequencias de sonho da protagonista. Nas cenas de suspense, a trilha muda de foco, tornando-se até um pouco sombria. Um belo exemplo do trabalho promissor do saudoso Maestro Ennio Morricone.

 

Para finalizar, vou destacar a sequencia em que a protagonista é perseguida por um dos suspeitos do crime dentro do Alexander Palace. Mesmo não sendo um filme de terror, esse é o momento mais assustador do filme, porque é impossível saber o que vai acontecer. A tensão está presente em todos os momentos, e parece que vai aumentando a medida que o homem se aproxima dela. Uma sequencia impressionante, digna de pesadelos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.2, em excelente versão restaurada.

 

Enfim, Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher é um filme excelente. Uma historia enigmática de investigação policial, com elementos de erotismo e terror. Um roteiro muito bem escrito, que não entrega de cara a solução para o espectador, obrigando-o a raciocinar conforme vai acompanhando o filme. Uma direção madura de Lucio Fulci contribui para deixar o filme ainda melhor, combinado com a excelente atuação da atriz brasileira Florinda Bolkan. Um excelente exemplar do gênero Giallo.



Créditos: Versátil Home Vídeo





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sábado, 9 de maio de 2020

O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL (1970). Dir.: Dario Argento.



NOTA: 10



O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL
(1970)
Segundo o próprio Dario Argento, o Giallo é um gênero italiano. Surgiu no país na literatura, com uma pequena editora que lançava os livros de suspense com as capas amarelas – “giallo” quer dizer “amarelo” em Italiano – para diferenciá-las dos demais. A partir de 1963, o gênero migrou para o cinema, graças ao Maestro Mario Bava, que lançou o filme A Garota que Sabia Demais, que possuía algumas características que se tornariam clássicas no gênero. No ano seguinte, foi lançado Seis Mulheres para o Assassino, também do maestro Bava, filme responsável por apresentar as principais características do gênero: as mortes mirabolantes, a ineficiência da policia, a misoginia, as pistas falsas, e principalmente, o assassino de luvas pretas. Apesar desse pontapé inicial, não foram muitos os cineastas que resolveram se aventurar nesse gênero. Até que, em 1970, a coisa mudou.

Além de ser o primeiro filme do diretor Dario Argento, O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL, foi também o filme responsável por lançar de vez o Giallo no cinema. E já em sua estreia, Argento mostrou a que veio.

A história é contada de forma brilhante, com ótima direção, roteiro bem amarrado e ótimas atuações. É o tipo de filme onde tudo funciona a seu favor, e a cada revisão, parece ficar melhor; pelo menos para mim é assim. E mesmo tendo visto várias vezes, é um filme que gosto muito de assistir.

Não sei ao certo quando meu interesse pela obra de Argento começou, mas, desde que resolvi me aventurar em sua filmografia – a melhor parte, pelo menos – me tornei fã e admirador do cineasta, fazendo de seus filmes, uma inspiração. E este aqui é um dos meus favoritos.

Conforme já mencionei, O Pássaro é um filme onde tudo funciona, a começar pelo roteiro. Conforme Argento comentou em entrevistas, ele tinha interesse em modificar as regras do suspense. O que de fato, ele conseguiu. O roteiro é muito bem escrito, e consegue levar o protagonista, o escritor Sam Dalmas, a uma teia cheia de enigmas, que parecem aumentar à medida que ele resolve investigar por conta própria. Esta é também outra característica do gênero: a investigação que o protagonista faz por conta própria – quase sempre motivado por algo que testemunhou anteriormente – uma vez que a policia não consegue resolver os crimes. O fato da policia não conseguir resolvê-los, já fora estabelecido por Bava, mas, antes deste aqui, não me lembro de outro exemplar onde o protagonista resolve investigar o mistério; talvez nos filmes que vieram depois de Bava, mas não posso afirmar com certeza absoluta. O fato é que aqui, Dalmas faz exatamente isso, uma vez que o Comissário Morossini e seus homens estão em um beco sem saída.

Já no primeiro filme, Argento apresentou uma de suas principais características: o uso de câmeras subjetivas. É incrível o que a câmera faz em determinadas cenas, principalmente simula os POV’s – pontos de vista. E um cena em especial, Argento e o diretor de fotografia, Vittorio Storano, posicionam a câmera sobre um lance de escadas de um prédio, dando uma ótima perspectiva do ambiente. Outra que o diretor soube fazer muito bem foi enquadrar as mulheres. Segundo o próprio Argento, essa habilidade surgiu ao seu costume de observar o trabalho da mãe, a fotógrafa brasileira Elda Luxardo, que passava horas fotografando atores e atrizes italianos famosos. E dá para perceber que o diretor aprendeu muito bem. Os enquadramentos são perfeitos, principalmente das mulheres. Acho que nunca vi um filme em que as atrizes foram tão bem enquadradas pela câmera, algo que o cineasta utilizou em seus filmes futuros.

Outra coisa que funciona muito bem é a trilha sonora, composta pelo Maestro Ennio Morricone. Ao invés de uma trilha pesada, Morricone utilizou vozes femininas para fazer um coro parecido com uma canção infantil. É uma trilha que combina muito bem com a atmosfera.

Mas talvez as melhores coisas do filme sejam as cenas de assassinato, e o próprio assassino. Como já havia dito no começo, um dos atributos que tornaram o Giallo conhecido, foi a figura do assassino em roupas escuras, usando luvas de couro pretas, e aqui temos isso na melhor forma. O assassino encaixa-se perfeitamente na descrição clássica: usa roupas pretas, jaqueta com a gola levantada para esconder o rosto, chapéu, e claro, as luvas de couro pretas. Não tem nada melhor do que isso. Apesar de gostar das variações do gênero, eu sou fã do Giallo que tenha o assassino com luvas.

Agora, sobre os assassinatos. Se em Seis Mulheres para o Assassino, Mario Bava conseguiu transformar cenas de assassinato em obras de arte, aqui, Argento faz a mesma coisa. Apesar de o assassino ter matado cinco mulheres durante o filme, Argento só mostra duas delas sendo assassinadas, e ambas as cenas são muito bem feitas, construídas da maneira mais simples, mas com clima de suspense que deixa tudo mais tenso, deixando o espectador roendo as unhas. E quando os assassinatos acontecem, são fantásticos desse ver; não que o homicídio seja uma coisa bonita; eu me refiro ao modo como as cenas são filmadas. Não espere um banho de sangue. O sangue é espirrado na tela na quantidade certa e do jeito certo. A melhor cena de assassinato é a segunda, com uma navalha enorme fazendo seu trabalho; uma cena quase claustrofóbica. Argento levaria essa técnica de transformar cenas de assassinato em obras de arte para seus filmes futuros.

Uma das coisas pela qual Argento é questionado são as atuações do seu elenco. Há quem diga os aspectos técnicos do filme são melhores que as atuações, mas eu não vejo problema. As atuações são muito boas, principalmente dos quatro personagens principais. Outro “ponto negativo” é o fato de o protagonista não conseguir identificar o som do pássaro do título – o Grou coroado oriental – já que ele também estuda aves raras. Minha explicação é que, no calor da investigação, ele não se lembrou da espécie, ou então, não chegou a ler sobre ela. Essa é a minha interpretação.

O Pássaro das Plumas de Cristal foi lançado em Fevereiro de 1970 na Itália, e foi um sucesso de bilheteria; nos Estados Unidos, ficou em primeiro lugar por três semanas, tornando-se um sucesso por lá também.

O sucesso do filme foi responsável da introdução do Giallo no cinema, levando vários cineastas a produzir seus próprios filmes do gênero, muitos deles com nomes de animais nos títulos.

O filme é o primeiro da chamada “Trilogia dos Bichos”, composta também pelos filmes O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza, ambos lançados em 1971, também escritos e dirigidos por Dario Argento.

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em versão restaurada, com áudio italiano, na coleção A Arte de Dario Argento, juntamente com os outros filmes da “Trilogia dos Bichos”, e Terror na Ópera (1987), um de seus últimos grandes trabalhos.

Enfim, O Pássaro das Plumas de Cristal é um dos maiores exemplares do Giallo italiano. Um filme com atmosfera de suspense muito bem construída, que deixa o espectador arrepiado. A direção experiente de Dario Argento contribui para o ótimo desempenho do filme, além de mostrar o quão habilidoso ele se tornaria. O filme responsável por catapultar o Giallo no cinema, além de ter influenciado uma serie de cineastas a seguir o mesmo caminho. Um filme excelente, que merece ser visto e apreciado. Maravilhoso. Altamente recomendado.



Créditos: Versátil Home Vídeo




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domingo, 17 de março de 2019

O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE? (1972). Dir.: Massimo Dallamano.


NOTA: 10


O QUE VOCÊS FIZERAM 
COM SOLANGE? (1972)
Dentre os Gialli que já vi até agora, O QUE VOCÊS FIZERAM COM SOLANGE? (1972) é um dos melhores e um dos meus favoritos.

Uma história violenta de sexo, romance e suspense, como todos os filmes do gênero.

Basicamente, o que o torna diferente dos demais é a temática: boa parte da história acontece em uma escola feminina católica de Londres. Boa parte dos Gialli acontece em grandes cidades, principalmente na Europa.

Solange é um Giallo Clássico, com todos os elementos do gênero: o clima de mistério, a trama cheia de reviravoltas, a misoginia, a incapacidade da polícia em resolver os crimes, e principalmente, o assassino com as luvas de couro pretas.

A trama fala sobre uma série de assassinatos ocorridos em uma escola feminina católica em Londres. A polícia tenta solucionar o caso, mas não consegue. Resta então a um casal de professores tentar desvendar os crimes e descobrir a identidade do assassino.

Apesar de sua simplicidade, o filme consegue ser arrepiante em alguns momentos, principalmente aqueles envolvendo o assassino. Como em todos os filmes do gênero, vemos somente suas mãos enluvadas durante boa parte da trama. Porém, o que difere aqui é a maneira com que as cenas são filmadas. Os enquadramentos - praticamente em close - deixam as cenas de homicídio ainda mais assustadoras do que as de outros Gialli.

O filme marca a estreia de Camille Keaton no cinema, no papel da Solange do título, uma menina marcada por um trauma que a incapacitou psicologicamente. Anos mais tarde, a atriz protagonizaria A Vingança de Jennifer (1978), talvez o seu filme mais famoso, que recentemente, ganhou um péssimo remake, batizado de Doce Vingança. Camille dá um show de interpretação, assim como boa parte do elenco.

Outro destaque do filme é a trilha sonora, composta pelo mestre Ennio Morricone. Sem dúvida, é uma das melhores do compositor, e dá um toque dramático ao filme, com a presença de um coro feminino.

Como já mencionado, o Giallo é famoso por apresentar uma polícia ineficiente em praticamente todos os filmes, e aqui, isso é levado ao extremo, principalmente após a cena do parque de diversões.


O Que Vocês Fizeram com Solange? é um dos melhores Gialli de todos os tempos. Um filme arrepiante e maravilhoso. Um dos meus Gialli favoritos.


AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.