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terça-feira, 8 de outubro de 2024

GATO NEGRO (1981). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 8


GATO NEGRO é o encontro entre o escritor Edgar Allan Poe, e o diretor Lucio Fulci.

 

Lançado em 1981, o filme faz parte da grande fase de Fulci no horror, que começou com o clássico Zombie (1979), onde o cineasta mostrou que o seu lugar era no terror.

 

Gato Negro faz parte desse período, e pessoalmente, eu o considero um dos filmes mais bizarros dessa época. Bizarro porque, apesar de ser muito livremente baseado em O Gato Preto, o roteiro foca em uma trama com elementos paranormais, misturada com trama de serial killer, mas, nesse caso, o tal serial killer é o gato preto do título.

 

Parece estranho, mas, também é muito divertido, porque, os níveis de absurdo fazem o espectador fã de Fulci curtir o longa até o final da projeção.

 

Na trama, os habitantes de um vilarejo inglês são assassinados de maneira misteriosa, e, preocupados com o desaparecimento de um casal de jovens, recebem a visita de um inspetor da Scotland Yard, que conta com a ajuda de uma fotografa, que acredita que o responsável pelas mortes é um gato preto que pertence a um professor.

 

Parece ser uma trama um tanto simples, não? Bem, na superfície, até que é, mas, no fundo, ela é bem mais complicada.

 

É uma trama um tanto complexa em certos momentos, porque envolve um pouco de paranormalidade, principalmente por causa do Professor Miles, que possui o dom de se comunicar com os mortos.

 

Eu vou ser sincero aqui, e dizer que tais habilidades do professor não servem para praticamente nada, principalmente por causa de uma cena no cemitério, onde Miles tenta convencer um amigo morto a dizer onde está um determinado item. Infelizmente, isso nunca é explicado, e nunca mais é mencionado no roteiro.

 

Tirando esse problema, eu confesso que me diverti com Gato Negro, e digo que é um ótimo filme de animal assassino, além de ser um ótimo filme de Fulci.

 

Animais assassinos às vezes rendem bons filmes, e este aqui, felizmente, é um desses casos. E o filme não nega a que veio.

 

Logo na primeira cena, somos presenteados com um acidente causado pelo estranho felino, onde o proprietário de um veículo se choca contra o para-brisa, num espetáculo de gore. A partir daí, prepare-se para não levar o filme a sério, com o gato matando diversos personagens ao longo da projeção.

 

As cenas de morte acontecem em momentos aparentemente importantes, e de forma quase aleatória, mas, são muito criativas. Falo de pessoas sufocadas, queimadas e perfuradas por canos de metal. Além disso, não podemos deixar de presenciar cenas com o felino usando suas garras afiadas.

 

A maquiagem é muito boa, e aqui, Fulci quase dá uma pisada no freio no quesito gore, porque não temos corpos mutilados e pessoas com os olhos arrancados, mas, quando os efeitos aparecem, eles convencem muito bem. Ao meu ver, isso era algo comum no cinema de terror italiano da época; a preocupação em criar efeitos convincentes, principalmente nos filmes de Fulci.

 

Além dos efeitos, temos também a direção afiada de Fulci, principalmente nas cenas envolvendo o gato. Em determinados momentos, Fulci faz sua câmera imitar o ponto de vista do animal, ou seja, ela fica próxima ao chão, e as lentes aparentam ser distorcidas. Em relação aos atores, Fulci também consegue fazer um bom trabalho, e quase todos estão muito bem em seus papéis.

 

E por último, temos as locações inglesas. O filme foi rodado em três vilarejos no interior da Inglaterra, além dos estúdios em Roma. As tomadas do vilarejo são muito boas, e chegam até a ser nostálgicas e convidativas. Nostálgicas porque parece que estamos assistindo a algum filme britânico dos anos 70.

 

Outras locações que merecem menção, são a tumba que aparece no começo do filme, e o próprio cemitério do vilarejo. A tumba é cheia de teias de aranhas, esqueletos e ossos espalhados; e o cemitério é envolto pela névoa, e fica mais sinistro durante a noite. Dois cenários perfeitos para um filme de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Edgar Allan Poe no Cinema – Vol.2, em versão restaurada com áudio em italiano. 

 

Enfim, Gato Negro é um filme muito bom. Uma história de animal assassino contada com maestria pelo Padrinho do Gore, Lucio Fulci, livremente baseado na clássica história de Edgar Allan Poe. A direção de Fulci é um dos pontos positivos, com sua câmera que simula o ponto de vista do felino; além disso, o filme conta com boas cenas de morte criativas, levemente carregadas no gore. Um filme que faz parte da melhor fase de Fulci no gênero, e um de seus trabalhos mais interessantes.


 

Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 23 de março de 2024

PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS (1980). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9


Entre 1980 e 1981, o diretor Lucio Fulci realizou a sua Trilogia do Inferno, em parceria com a atriz Catriona MacColl, que também se tornaram um marco em sua filmografia.

 

PAVOR NA CIDADE DOS ZUMBIS é o primeiro filme dessa trilogia, e o que faltava ser comentado aqui.

 

Já irei começar pelo obvio, e dizer que este é um dos melhores filmes do diretor, que estava dando seus primeiros passos no terror, um ano após o lançamento de Zombie, sua obra-prima.

 

Mais uma vez, Fulci se reuniu com o roteirista Dardano Sacchetti, e juntos escreveram outro filme de zumbis, mas desta vez, os mortos-vivos não são os protagonistas da trama, sendo transformados em coadjuvantes; o foco principal são os eventos sobrenaturais que assolam a cidade de Dunwich, após o suicídio do padre local.

 

Conforme pude averiguar na internet, a Trilogia do Inferno é composta por filmes que possuem apenas um fiapo de trama, e o foco são as maluquices presentes no roteiro. Eu pessoalmente acredito que os filmes têm, sim, uma trama, e que os acontecimentos estão relacionados a ela, e aqui não é diferente.

 

O suicídio do Padre Thomas, apresentado logo no início do filme, é um estopim para os acontecimentos sobrenaturais que começam, e Fulci e Sacchetti brincam com tudo que querem para contar sua história, o que deixa ainda mais divertida a cada revisão, assim como fizeram nos dois filmes posteriores dessa trilogia.

 

O filme marca a primeira parceria entre Fulci e a atriz Catriona MacColl, e ela está muito bem aqui, interpretando a vidente Mary Woodhouse. Sua interpretação não é exagerada, e ela transmite tudo aquilo que o roteiro pede, com naturalidade.

 

O restante do elenco também não faz feio; os atores secundários atuam daquela maneira exagerada que estamos acostumados a ver em filmes italianos, mas nada que prejudique a experiência de assistir ao filme.

 

A direção de Fulci também é muito boa, e o cineasta mostra que tem o domínio do gênero, criando cenas tensas e sequências antológicas, graças às suas técnicas criativas para criar terror, com destaque para o próprio padre, que sempre aparece com uma iluminação vinda de baixo, o que aumenta seu aspecto assustador.

 

Este é um filme de zumbis, e como não poderia deixar de ser, eles não ficam para trás. O visual das criaturas é aquele putrefato que se tornou característica de Fulci, com uma maquiagem carregada. Além do visual marcante, eles também podem se tele transportar e possuem um método bem específico que matar suas vítimas.

 

Falando em cenas antológicas, devo destacar a cena do carro, onde uma jovem regurgita suas vísceras, após avistar o padre. É uma cena que demora o tempo certo para acontecer, e começa de uma maneira bem simples, com a personagem vertendo lágrimas de sangue, até chegar ao ápice.

 

E além das cenas, temos também a trilha memorável de Fabio Trizzi, um dos colaboradores de Fulci.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Zumbis no Cinema Vol.2, que conta com um making of como extra.

 

Enfim, Pavor na Cidade dos Zumbis é um filme arrepiante. Uma história fascinante, com ar de pesadelo, repleta de momentos indigestos, com muito sangue e escatologia. Um filme de zumbis putrefatos, com excelentes efeitos de maquiagem e gore. A direção de Lucio Fulci é segura, combinada a um roteiro bem escrito, e uma trilha sonora assustadora. Um belo exemplar do cinema de zumbi italiano, e uma grande obra do Padrinho do Gore, Lucio Fulci.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A CASA DO CEMITÉRIO (1981). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9



Entre 1980 e 1981, o diretor Lucio Fulci realizou a sua Trilogia do Inferno, em parceria com a atriz Catriona MacColl, que também se tornaram um marco em sua filmografia.

 

A CASA DO CEMITÉRIO é o ultimo filme da trilogia, e sem duvida, um dos mais violentos – senão o mais violento – de Fulci, tudo graças aos efeitos especiais, mas não vou falar sobre isso agora.

 

Antes de falar sobre os efeitos, vou falar sobre o filme. O longa é um dos mais estranhos do cineasta, com um clima de horror que predomina a fita desde o começo, com a ambientação sinistra da casa em estilo gótico rodeada por um cemitério.

 

Além disso, o filme é banhado de cenas carregadas no gore característico do diretor, onde o sangue jorra com gosto.

 

O filme é um dos mais estranhos de Fulci porque é uma mistura de vários gêneros, que vão desde casa mal-assombrada, passando pelo gore e chegando a história de crianças fantasmas. Mas isso não impede o longa de ser um dos melhores do diretor.

 

A trama até parece simples: família se muda para uma casa no interior e passa a ser aterrorizada por uma criatura sinistra; mas, conforme acabei de dizer, o roteiro mistura diferentes temas para chegar a tal, graças ao roteirista Dardano Saccheti, que utilizou temas de sua infância e de seu interesse para contar a história.

 

Conforme mencionado acima, o longa marca a terceira parceria de Fulci com a atriz Catriona MacColl, e ela não faz feio. Mais uma vez, a atriz interpreta uma personagem atormentada pelas forças das trevas, e desta vez, faz o que pode para salvar a família. Ao lado dela, temos o ator Paolo Malco, que também entrega uma ótima performance; no entanto, o problema no elenco de personagens, é o filho do casal, um ator mirim bem ruim... O resto do elenco também funciona bem, interpretando aqueles personagens estranhos, comuns no cinema de horror italiano.

 

A ambientação é a melhor coisa do filme, principalmente a casa em estilo gótico rodeada pelo velho cemitério. Desde que aparece em cena pela primeira vez, a casa passa uma sensação de medo e insegurança, principalmente nas cenas noturnas. O cemitério também contribui para isso, porque fica escondido na floresta, cercado de galhos velhos.

 

Conforme mencionado acima, o filme é um dos violentos de Fulci, graças aos efeitos especiais de gore, criados pelo mestre Giannetto de Rossi. Como fez deste que entrou no gênero horror, Fulci não poupa o espectador de cenas sangrentas, desde o começo do filme, em um assassinato duplo. A partir daí, o sangue rola solto, em uma cena mais sangrenta que a anterior, principalmente a cena do morcego, que colocou o longa na famigerada lista dos “Video-Nasties” no Reino Unido. A cena do morcego é a mais exagerada em termos de sangue, porque o mesmo corre em quantidades extremas, passando um pouco do limite, até. Outra cena também carregada de gore é a cena do assassinato da corretora de imóveis, que começa carregada de tensão e termina em um banho de sangue.

 

Além dos efeitos de sangue, temos também os efeitos por trás da criatura que vive no porão da casa, o Dr. Freudstein. A criatura parece um zumbi saído direto do clássico absoluto de Fulci, ao mesmo tempo que se parece também com alguém que sofreu um acidente. O monstro habita o porão da casa da família, que também é uma das melhores ambientações, envolta na escuridão, com cadáveres espalhados por todos os lados.

 

Além das cenas de gore, o filme também é cheio de cenas tensas, graças à direção maestral de Fulci, com a câmera que percorre todos os cômodos da casa, além do uso de lentes distorcidas e zooms e closes nos olhos do elenco.

 

Antes de encerrar, vou deixar uma curiosidade. A locação da casa gótica foi reaproveitada por Umberto Lenzi sete anos depois, no seu Ghosthouse.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror – Vol.4, em versão integral em dual áudio (Inglês ou Italiano).

 

Enfim, A Casa do Cemitério é um filme excelente. Uma história com clima de horror que predomina a narrativa desde o começo, misturado a uma direção inspirada e efeitos especiais carregados no gore. O diretor Fulci consegue criar tensão e horror na medida certa. Um dos melhores do Padrinho do Gore. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.


Créditos: Versátil Home Vídeo


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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (1972). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9.5



Lucio Fulci foi um dos mestres do terror italiano. Desde que resolveu se aventurar no gênero, tornou-se especialista em produções repletas de sangue e gore. No entanto, antes de se aventurar em produções gore, Fulci se aventurou no Giallo, e nos deu grandes exemplares do gênero, como por exemplo, Premonição (1977), Uma Sobre a Outra (1968), Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971).

 

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS é outro Giallo do diretor. Lançado em 1972, marca a segunda parceria de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan, após a colaboração em Uma Lagartixa. O Bosque dos Sonhos é um dos melhores Gialli de Fulci e também o mais polêmico, o que levou a ser excomungado da igreja católica.

 

Polêmicas à parte, o filme é um dos melhores exemplares do gênero, e um dos meus favoritos. O longa apresenta um dos temas mais pesados do gênero: o assassinato de crianças.

 

Não é segredo para ninguém que a morte de crianças é um dos maiores tabus do cinema, e aqui, Fulci faz uso desse tabu sem o menor pudor, com cenas de assassinatos cruéis. Tudo bem, o número de vítimas do assassino não é muito grande, mas mesmo assim, somos brindados com momentos de tensão que parecem piorar a cada revisão.

 

Aqui como em seus outros Gialli, aqui, Fulci não faz uso do assassino tradicional, com luvas pretas, mas mesmo assim, essa é uma grande variação do gênero. Como eu disse, eu aprecio algumas variações do Giallo, mas ainda prefiro o Giallo clássico. Mas mesmo assim, esse filme consegue ser muito agradável.

 

O principal detalhe é a ambientação. Ao contrário dos demais, O Bosque dos Sonhos é ambientado no interior da Itália, e Fulci soube capturar excelentes tomadas do interior, dando um ar convidativo para o filme. Devo dizer que essa ambientação é um dos meus fatores favoritos sobre o filme, e me passa uma ótima sensação. E além da ambientação de interior, temos também ótimos personagens, que passam a sensação de serem realmente pessoas simples do campo. E em relação a isso, Fulci também não teve o menor pudor em mostrar as pessoas como realmente são, então, temos aqui personagens malcuidados, com as roupas e os rostos sujos de terra e suor; além de figurantes idosos desdentados. Tudo isso aumenta ainda mais o realismo e deixa as cenas de tensão ainda melhores.

 

Sobre isso, digo o seguinte: temos aqui cenas dignas de programas sensacionalistas da TV, com o povo se juntando na porta da delegacia para exigir a captura do assassino, ou para linchá-lo em público. E claro, a coisa fica pior com a chegada de vários repórteres, dispostos a tudo para conseguir uma exclusiva. Em resumo, temos um verdadeiro circo midiático e popular. É possível notar que as pessoas daquele vilarejo querem um culpado a qualquer custo, e estão dispostos até a fazer justiça com as próprias mãos, conforme visto na cena do cemitério. Todos esses detalhes aumentam ainda mais o teor chocante do filme e o deixam ainda mais perturbador.

 

E não para por aí. Além da questão do assassino de crianças, temos também uma forte questão sexual, que fica ainda mais perturbadora porque envolve as crianças, principalmente os meninos. Logo no inicio do filme, Fulci nos presenteia com uma cena de nudez da atriz Barbara Bouchet – uma das musas do gênero – cuja personagem possui um forte apelo sexual e também um ar de mistério, que contribui para torna-la suspeita dos crimes. Patrizia, sua personagem, não demonstra pudor ao tentar seduzir um garoto que trabalha para ela, utilizando palavras de cunho sexual explicito. Realmente, uma cena que não seria realizada nos dias de hoje. Na verdade, eu tenho certeza que o filme não seria realizado nos dias de hoje, principalmente por causa de questões politicamente corretas, devo dizer, há muita coisa errada nesse filme, além dos assassinatos das crianças. Claro, Fulci não as exibe na tela, mas deixa a critério do espectador. Eu mesmo tenho algumas teorias perturbadoras envolvendo o personagem do padre.

 

Como mencionado acima, O Bosque dos Sonhos marcou a segunda colaboração de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan. Aqui, ela interpreta a Bruxa do vilarejo, uma mulher que vive sozinha no bosque a pratica feitiços com bonecos de cera. Logo de cara, Fulci faz questão de mostra-la como uma das suspeitas dos crimes, uma vez que ela é vista na cena de um dos crimes. Além disso, ela é mal vista pela população, que tem o habito de cuspir no chão sempre que a vê. E quando a polícia consegue captura-la, a coisa não muda de figura. A população se revolta com toda sua força e se mostra ainda mais hostil. E temos a cena do cemitério, talvez a cena mais cruel e violenta do filme, onde ela é açoitada com correntes, tudo ao som de Ornella Vanoni. A atriz entrega uma ótima atuação aqui.

 

Essa cena e a cena final mostram que Fulci sabia lidar com o gore ainda em seus primeiros filmes de terror, e o diretor não poupa ninguém. A cena do cemitério é a mais violenta do filme todo, graças à atuação e aos efeitos especiais de maquiagem, que lembram a cena de abertura de Terror nas Trevas (1981), que também contou com a presença de correntes.

 

E em certo ponto do filme, Fulci faz questão de mostrar um boneco do Pato Donald, fazendo alusão ao título do filme. E a revelação do assassino, bem como seu motivo para os crimes, são tão pesados que levaram o diretor a ser excomungado pela Igreja Católica; uma prova de que o diretor não tinha o menor medo de mostrar questões pesadas na tela.

 

Bom, seja como for, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um dos melhores filmes de Lucio Fulci e um dos melhores exemplares do Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo, em versão restaurada com áudio italiano.

 

Enfim, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um filme perturbador. Um Giallo com clima de interior que enche a tela. A direção de Lucio Fulci é um dos destaques, e o diretor consegue criar cenas de tensão que deixam o espectador nervoso, além de focar em assuntos proibidos sem o menor pudor. Uma história pesada, cheia de momentos revoltantes, e de suspense. Um filme excelente. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9



Como já mencionei em outras resenhas, o diretor Lucio Fulci era o Padrinho do Gore. Desde que se aventurou no gênero terror, no final dos 70, Fulci mostrou que entendia da arte de assustar o publico com cenas repletas de sangue. Porém, antes de se tornar um dos mestres do terror da Itália, Fulci resolveu se aventurar no Giallo, que na época, estava em alta no país. O diretor iniciou a carreira no gênero com Uma Sobre a Outra (1969), passando pelo polêmico O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), Premonição (1977), e este aqui, UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER, lançado em 1971.

 

O filme, que marca sua primeira parceria com a atriz brasileira Florinda Bolkan, é um dos melhores exemplares do gênero. Com uma trama cheia de mistérios e reviravoltas, o filme consegue prender a atenção do espectador, e deixa-lo intrigado para resolver o mistério.

 

Como já disse outra vezes, o Giallo foi um subgênero que, da mesma forma que o terror, por exemplo, teve suas variações, e esse filme é uma delas. Sim, porque ele não apresenta o tradicional assassino de luvas pretas que sai matando mulheres com requintes de crueldade. Aqui, a trama é bem diferente; o roteiro apresenta uma ideia até original para o gênero, a ideia de que, às vezes, nosso subconsciente nos prega peças. Não digo que esse tema específico não foi abordado outras vezes em outras mídias, até acredito que sim; estou dizendo que, no gênero Giallo, eu vi poucos filmes que tocaram nesse assunto. Claro, a ideia da testemunha ocular que viu algo, mas não tem certeza, é algo recorrente, mas não chegou a ser explorada por um viés cientifico. Então, aqui, temos, sim, a protagonista que não sabe o que viu, mas abordado de outra forma. Segundo o roteiro, tudo acontece no subconsciente da personagem, que sofre de insônia e parece apresentar transtornos psicológicos.

 

Tal argumento é muito bem abordado pelo filme, principalmente nas cenas de investigação, quando os policiais decidem entrevistar o terapeuta. Admito que às vezes, as explicações dele parecem um tanto confusas, mas, se fizermos um esforço, podemos entender o que está sendo dito para nós, e até compreender a chave do mistério. Um mistério, que, como é comum no gênero, só é revelado no final do filme.

 

O roteiro faz uso de algo que já vi em outros exemplares. Em certo ponto da trama, as evidencias coletadas pela policia apontam para um determinado personagem, apesar do mesmo negar sua participação no caso. Pois bem, o filme utiliza desse argumento, e ao mesmo tempo, apresenta outros personagens que podem também ser culpados pelo crime, o que obriga o espectador a pensar um pouco mais. É uma tática muito boa, que funciona.

 

Eu confesso que na primeira vez que assisti ao filme, tive minhas dúvidas, principalmente a respeito do crime e do titulo; mas, conforme fui assistindo outras vezes, comecei a “pescar” as dicas apresentadas no roteiro e passei a compreender o que estava sendo apresentado. É uma coisa que acontece em muitos Gialli, porque as peças do quebra-cabeça nos são entregues aos poucos, então, temos que raciocinar antes de começar a montá-lo. Fulci faz uso desses enigmas com maestria, e consegue, sem esforço, deixar o espectador em dúvida. Ouso até dizer que essa dúvida fica conosco até mesmo depois do mistério ser resolvido, obrigando-nos a rever o filme.

 

Como mencionado acima, o filme marca a primeira parceria entre o diretor e a atriz brasileira Florinda Bolkan. A performance da atriz é excelente. Sua personagem parece tomada pela paranóia constante, provavelmente ocasionada por seus problemas psicológicos. Florinda passa, com total veracidade, tudo aquilo que a personagem está sentindo, seja medo, duvida, ódio... uma atuação excelente. Seus colegas de elenco não ficam atrás. O ator Jean Sorel, que já trabalhou com o diretor em Uma Sobre a Outra, também entrega uma ótima performance como o marido da protagonista; mas, quem rouba a cena, de fato, é o ator Stanley Baker, no papel do inspetor encarregado do caso; parece mesmo que ele é um policial, que não mede esforços para resolver o enigma e prender o culpado. Os outros atores também entregam boas atuações, e seus personagens também tornam-se criveis. Porem, o filme tem um defeito. A vizinha da protagonista é interpretada pela atriz Anita Strindberg, não-creditada. Eu sei que ela é uma das musas do Giallo, mas, como disse na resenha de No Quarto Escuro de Satã, eu não gosto dela, não acho que seja uma boa atriz. Sua participação no filme é pouca, mas, mesmo assim, não me agrada.

 

O responsável pelos efeitos especiais foi o mestre Carlo Rambaldi, famoso por criar o monstro de Alien, o 8º Passageiro e o E.T. de E.T., o Extraterrestre. Com vasto currículo, Rambaldi já trabalhou com alguns mestres do cinema, e no terror, seus truques merecem ser mencionados. Como já sabemos, Fulci tornou-se conhecido por ser o Padrinho do Gore, algo que desempenhou com maestria. Pois bem, mesmo não sendo um filme de terror, aqui temos alguns efeitos de gore, principalmente nos sonhos da protagonista. E Fulci já deu uma amostra do que faria no futuro, porque o gore é caprichado, com direito a tripas expostas e sangue escorrendo. Porem, a cena mais famosa do filme é a tal “cena dos cachorros”, que causou um grande alvoroço na época, devido a sua veracidade. O caso foi tanto que Rambaldi teve de levar os bonecos para o tribunal, a fim de provar que não eram verdadeiros. A cena é, de fato, chocante e impressionante. Um verdadeiro tapa na cara.

 

Além dos efeitos especiais de Carlo Rambaldi, o filme também contou com a trilha sonora do grande Maestro Ennio Morricone. A trilha do Maestro é excelente, com aspecto de fantasia, principalmente nas sequencias de sonho da protagonista. Nas cenas de suspense, a trilha muda de foco, tornando-se até um pouco sombria. Um belo exemplo do trabalho promissor do saudoso Maestro Ennio Morricone.

 

Para finalizar, vou destacar a sequencia em que a protagonista é perseguida por um dos suspeitos do crime dentro do Alexander Palace. Mesmo não sendo um filme de terror, esse é o momento mais assustador do filme, porque é impossível saber o que vai acontecer. A tensão está presente em todos os momentos, e parece que vai aumentando a medida que o homem se aproxima dela. Uma sequencia impressionante, digna de pesadelos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.2, em excelente versão restaurada.

 

Enfim, Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher é um filme excelente. Uma historia enigmática de investigação policial, com elementos de erotismo e terror. Um roteiro muito bem escrito, que não entrega de cara a solução para o espectador, obrigando-o a raciocinar conforme vai acompanhando o filme. Uma direção madura de Lucio Fulci contribui para deixar o filme ainda melhor, combinado com a excelente atuação da atriz brasileira Florinda Bolkan. Um excelente exemplar do gênero Giallo.



Créditos: Versátil Home Vídeo





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sábado, 20 de julho de 2019

ZOMBIE (1979). Dir.: Lucio Fulci.


NOTA: 10



ZOMBIE (1979)
ZOMBIE (1979) é a Obra Máxima de Lucio Fulci, o Padrinho do Gore. Mais do que isso, é um filme que merece destaque em todas as listas dos maiores filmes de zumbi de todos os tempos.

Zombie é excelente, sem duvida, um dos melhores do gênero. É difícil dizer qual o melhor momento, mas o fato é que, quando o terror começa, não poupa ninguém.

Como já mencionei anteriormente, desde que resolveu se aventurar no terror, Fulci mostrou-se um mestre no gênero, e neste filme, ele mostrou toda sua força. Isso é fato.

Se parar pra pensar, o filme apresenta uma historia simples, até, mas é nessa simplicidade que está o brilhantismo. Fulci conseguiu fazer coisas espetaculares, dignas de estudo, não só do gênero de horror, mas do cinema em geral. O diretor mostra-se um mestre com a câmera, e seus enquadramentos são maravilhosos, desde a primeira cena.

Não apenas a direção de Fulci merece destaque, como também a edição de Vincenzo Tomassi. Novamente, desde a primeira cena, o filme é um primor, e nesse caso, também não é diferente. Tomassi conseguiu editar as cenas aéreas do veleiro em Nova York muito bem, intercalando com tomadas mais fechadas, e isso continua conforme a cena avança, culminando em um dos momentos mais memoráveis do filme, o surgimento do primeiro zumbi. Já vi muitas sequencias de abertura bem feitas antes, e com certeza, essa é uma delas.

A trilha sonora, composta por Fabio Frizzi e Giorgio Tucci também merece ser mencionada. Em alguns momentos, o tema musical é um tanto diferente para um filme do gênero; na verdade, parece de filme de ação; no entanto, quando surgem os tambores, aí a coisa muda de figura. O tema causa calafrios na espinha, e não fica cansativo; o mesmo vale para os outros temas musicais. É também o tipo de musica que fica na nossa cabeça, e quando toca, rapidamente, nos lembramos do filme.

E claro, como em todo filme de terror, a ambientação contribui. A ilha de Matul é um lugar abandonado, às moscas mesmo. As casas dos nativos estão caindo aos pedaços; pedaços de troncos estão espalhados; caranguejos andam pelas ruas, enfim... o cenário de um apocalipse. Mas de todos, o mais impressionante é a velha igreja, convertida em hospital. O lugar não passa a sensação de conforto, pelo contrario, chega a ser pior que o próprio vilarejo. O engraçado é que a casa do Dr. Menard é toda arrumada, localizada numa parte bacana da ilha... Detalhes que não merecem explicação, conforme mencionarei adiante. O fato é que o aspecto abandonado da ilha contradiz contra a beleza da cidade de Nova York, mostrada no inicio do filme.

Sendo cria do cinema de horror italiano, Zombie contem cenas absurdas, e a melhor delas, sem duvida, é a cena de luta entre um zumbi e um tubarão. Não sei da onde os roteiristas tiraram essa ideia, mas o fato é que é uma cena bem legal de se ver, além de ser visualmente bem filmada. A cena foi filmada por Ramon Bravo, autor e cinegrafista mexicano, que em 1977, foi responsável pelas cenas submarinas de Tintorera, do diretor René Cardona Jr. Como fizera na cópia mexicana de Tubarão, Bravo executou um excelente trabalho, que chega a ser convidativo até. O mesmo vale para a cena de luta entre o zumbi e o tubarão. O zumbi foi interpretado pelo próprio Bravo, que também foi o treinador do tubarão. Isso explica talvez a naturalidade da cena. Sem dúvida, é uma das cenas mais memoráveis do filme. E existe outra, talvez a mais absurda, mas, na minha opinião, não afeta em nada o filme.

Claro, não posso deixar de mencionar os zumbis. Criados pelo Maestro Gianneto de Rossi, esses são os melhores zumbis que já apareceram em um filme. Falo de zumbis putrefatos, com vermes saindo dos buracos dos olhos, andando devagar, com gosma branca e verde escorrendo da boca, roupas maltrapilhas... Enfim, um trabalho de gênio. Talvez, para os mais exigentes, possa parecer estranho que estejam tão bem assim, até porque, são corpos de conquistadores espanhóis do século XVI, mas, pessoalmente, eu não ligo pra isso. Os zumbis são excelentes, e ponto. Difícil dizer qual o mais assustador, mas o melhor é o que ilustra o pôster do filme, e que arranca a garganta de uma das personagens a dentadas. Uma cena brilhante, tanto pela construção, como pelos efeitos de maquiagem. Sério, de Rossi faz um trabalho espetacular, que compete até com os efeitos criados por Tom Savini nos filmes do saudoso George A. Romero. Além dos zumbis, de Rossi nos presenteia com corpos despedaçados, tripas expostas, mordidas e tiros de cair o queixo. Mas, o melhor fica para a cena da lasca. Conforme mostraria no futuro, Fulci tinha “fetiche” por olhos, e na cena da lasca, ele dá uma amostra do seu poder. É uma cena construída lentamente, de forma que o espectador fica tentado a acompanhar, mas ao mesmo tempo, quer tapar os olhos, porque imagina que o final não vai ser bom. E não vai ser bom, mesmo. Uma cena brilhante, inesquecível.

O filme foi escrito por Dardano Sachetti – não creditado – e Elisa Briganti, e como mencionado acima, é brilhante. Não existem falhas na historia, nem furos de roteiro. A única pista dada, mesmo sutilmente, é que os zumbis são trazidos de volta graças ao vodu, o que difere dos zumbis criados por Romero, que voltam graças à radiação. Aqui, os roteiristas aproveitaram a origem dos monstros, que eram trazidos de volta graças à um feitiço vodu, e eram usados para trabalhar em lavouras e plantações. Claro que aqui não é isso que acontece. Os zumbis voltam famintos por carne e a carnificina é grande.

O filme também marca o inicio da parceria entre Fulci e o produtor Fabrizio de Angelis, que trabalhariam juntos em toda a grande fase do diretor. De Angelis, conforme ele mesmo relata, demonstrou interesse em trabalhar com Fulci, mesmo sabendo de seu temperamento; ele também descreveu a rotina de filmagens como tranquila, com todos se relacionando bem entre si, e também como foi gravar a famigerada e até hoje comentada última cena. De Angelis também declarou que ele foi o responsável por vender o filme para os Estados Unidos, conforme era feito naquela época: o produtor negociava com a distribuidora americana, e vendia o filme, por meio de um resumo da historia ou às vezes, apenas pelo titulo. E também, segundo o próprio, ele e a equipe forma processados por Dario Argento, por lançarem o filme com o título Zumbi 2, como se fosse uma continuação do Clássico O Despertar dos Mortos, que Argento produziu junto com Romero no ano anterior. Mas isso acabou resolvido.

Não sei se chegou a ser lançado em VHS por aqui, mas chegou a ser lançado em DVD há alguns anos; mas, mesmo assim, permaneceu raro, até que foi finalmente lançado em DVD, em excelente versão restaurada sem cortes, pela Versátil Home Vídeo, na maravilhosa coleção Zumbis no Cinema Vol.3.

Recentemente, ganhou uma também excelente versão restaurada em 4k, lançada em Bluray pela Blue Underground, que já lançara o filme anteriormente. Essa versão restaurada vem acompanhada com três modelos de capa, todos muito bem feitos.

Zombie é considerado um dos Filmes Mais Assustadores de todos os tempos, ocupando a 98ª posição na lista do Bravo’s 100 Scariest Movie Moments, e a 41ª posição na lista dos 100 Filmes Mais Assustadores da História, criada pela extinta Revista SET em 2009.

Enfim, Zombie é um Clássico. Um dos maiores filmes de zumbis de todos os tempos. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos. A obra máxima de Lucio Fulci. Clássico absoluto, obrigatório.

Altamente recomendado.




Créditos: Versátil Home Vídeo



segunda-feira, 1 de julho de 2019

TERROR NAS TREVAS (1981). Dir.: Lucio Fulci.


NOTA: 10


TERROR NAS TREVAS
(1981)
TERROR NAS TREVAS é o meu filme favorito do diretor Lucio Fulci, o Padrinho do Gore. Lançado em 1981, é o filme do meio da chamada Trilogia do Inferno, que começou no ano anterior com Pavor na Cidade dos Zumbis, e foi concluída em A Casa do Cemitério, também de 1981.

Eu posso dizer que já vi esse filme varias vezes, e a cada vez que assisto, ele fica ainda melhor. Escrito por Fulci em parceria com Dardano Sacchetti, o filme apresenta uma trama simples, até, mas que serviu para o diretor mostrar todo o seu talento como Padrinho do Gore, algo que já havia feito antes no Clássico Zombie (1979) e em Pavor na Cidade dos Zumbis. E olha, Fulci não nega fogo.

Desde que resolveu se aventurar no terror, Fulci mostrou-se um mestre na arte de espalhar sangue e tripas, algo que ele fez com maestria em sua curta carreira de filmes bem-sucedidos; sim, porque, como boa parte dos cineastas de horror, ele parou de produzir grandes obras em algum ponto da carreira, e os filmes que vieram depois não eram grandes coisas. Felizmente, esse não é o caso de Terror nas Trevas, que consegue ser, de fato, um filme assustador e até nojento, principalmente nas cenas de gore.

O filme marca sua segunda parceira com a atriz Catriona MacColl, que também foi a protagonista do filme anterior, e também do filme seguinte. Apesar de ser considerada “canastrona”, aqui ela entrega uma boa atuação; sua Liza é a típica mocinha inocente, que não sabe dos perigos que lhe rondam, e que tenta se proteger das forças sobrenaturais. Em outros filmes, uma “heroína” assim seria até dispensável, mas aqui, até que dá pra simpatizar com ela.

Em relação aos outros personagens, o seguinte: o Dr. John McCabe é o típico medico de cinema de horror, cético quanto às forças sobrenaturais, sempre disposto à encontrar uma explicação cientifica para o que está acontecendo. Novamente, seria o caso de mais um personagem que chega a ser duvidoso, mas, seguindo o exemplo da protagonista, dá pra sentir uma leve empatia por ele. E a garota cega Emily, que se torna uma espécie de amiga de Liza, ao avisá-la sobre as forças sobrenaturais que rondam o hotel. Posso dizer que ela é a melhor personagem do filme, e também a mais memorável, com seu vestido azul, longos cabelos loiros, rosto branco como papel e olhos vazados. Desde que surge no filme, ela já impacta o espectador, com seu ar misterioso e até um pouco mórbido. Mas, ao invés de ser uma personagem malvada, ela é um tipo de “fantasma camarada”, uma vez que seu objetivo é simplesmente, alertar Liza dos perigos que ela está correndo. Os demais personagens são bizarros, alguns até sinistros, dignos de provocar medo em qualquer um.

Como fizera antes em seus filmes de terror anteriores, Fulci mostra-se um mestre na arte de fotografar os cenários. As estableshing shots do hotel são incríveis, bem filmadas mesmo, principalmente uma que acontece durante um pôr do sol. Talvez, em um filme de terror qualquer, seriam até dispensadas, ou mal filmadas.

Sobre o hotel, ele é uma das construções mais arrepiantes já mostradas no cinema de horror. Todo sujo, cheio de teias de aranha, poeira, musgo e outras coisas, não é nada aconselhável para ninguém, nem para passar uma noite. O porão, por exemplo, é inundado, com as paredes caindo aos pedaços, e a escada cheia de teias de aranha. Em outra cena, uma banheira é cheia até a boca com água imunda, e quando uma personagem decide tirar a tampa do ralo, há uma sensação de sujeira, um nojo autentico, do tipo que sentimos quando vemos coisas assim. Mas tudo isso é de certa forma, proposital, uma vez que o lugar passou anos desocupado, apenas com o tempo para lhe fazer companhia.

Como é um filme de terror, o que não faltam são cenas assustadoras. E elas existem aos montes. Impossível dizer qual a melhor, mas, posso destacar a minha favorita, a cena das aranhas. Como quase todas as cenas do filme, ela acontece do nada, em um momento aleatório, mas quando começa, é um espetáculo. Fulci enche a tela com belíssimas tarântulas de joelho vermelho, e marrons, bem como aranhas animatrônicas, que fazem um belo estrago. Elas sobem no rosto de um personagem que foi derrubado no chão, e se banqueteiam, literalmente. Um espetáculo do gore, e sem duvida, uma cena antológica.

Outra característica que Fulci mostra aqui é o seu “fetiche por olhos”, presente desde Zombie. Mas, se no Clássico de zumbis, o cineasta deu apenas uma palha do que é capaz, aqui ele mostra toda sua força, em três cenas de provocar arrepios, uma delas, mencionada acima.  É sério, são momentos que, mesmo rápidos, deixam o espectador arrepiado: olhos arrancados e perfurados, tudo muito bem feito. E os closes nos olhos dos personagens também merecem destaque, principalmente nos olhos vazios de Emily. Quando Fulci foca sua câmera nos olhos dela, a sensação de medo não passa, causando até pequenos calafrios; e sobre os closes nos olhos de Catriona MacColl, eles são lindos de se ver, seja pelo enquadramento, seja porque os olhos da atriz são lindos mesmo.

Os efeitos de maquiagem ficaram a cargo do maestro Giannetto de Rossi, que trabalhou com o diretor anteriormente em Zombie e posteriormente em A Casa do Cemitério. Os efeitos criados por ele são sensacionais, muito bem feitos mesmo, passando a sensação de realidade, seja na já mencionada cena das aranhas, ou na cena do cachorro. A maquiagem dos zumbis também merece destaque. Em momento nenhum, ela dá a impressão de ser falsa, do contrario, é até melhor do que muita maquiagem de terror atual. Sem duvida, De Rossi possui lugar no hall dos grandes mestres da maquiagem do cinema de terror, ao lado de Lon Chaney, Dick Smith, Rick Baker e Tom Savini.

Para os mais exigentes, talvez Terror nas Trevas apresente falhas em sua concepção, principalmente no que diz respeito à narrativa, mas, pessoalmente, eu não vejo assim. Por ser um filme de terror sobrenatural, muita coisa pode ser vista nas entrelinhas, como por exemplo, a cena em que McCabe visita a casa de Emily, e a encontra em ruinas, e na cena seguinte, ela está em ordem: como é um homem que acredita na Ciência, as forças sobrenaturais não se manifestaram para ele, apenas para Liza, que apesar do seu ceticismo, mostrou-se crente das advertências de Emily. A mesma explicação pode ser aplicada nas outras cenas, até mesmo as mais absurdas. Pelo menos, essa é a minha interpretação.

O filme chegou a ser lançado em VHS no Brasil, pelo menos duas vezes, sendo que uma delas adotou o título Terror nas Trevas, a outra adotou outro titulo. Mesmo assim, por anos, permaneceu raro, até que foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, em excelente versão restaurada, na excelente coleção Obras-Primas do Terror 2.

Enfim, Terror nas Trevas é um filme excelente. Um dos melhores do diretor Lucio Fulci. Um excelente filme de zumbis. Meu filme favorito do diretor Lucio Fulci.

Altamente recomendado.




Créditos: Versátil Home Vídeo




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