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segunda-feira, 20 de maio de 2024

UM BALDE DE SANGUE (1959). Dir.: Roger Corman.

 

EM MEMÓRIA DE ROGER CORMAN.


NOTA: 7.5


Roger Corman foi um dos grandes nomes do cinema, tendo trabalhado em mais de 200 produções desde os anos 50. Além disso, também foi o responsável por revelar grandes nomes do cinema que se tornaram consagrados hoje em dia. No último dia 8 de maio, Corman nos deixou aos 98 anos, mas seu legado é eterno.

 

Hoje, vou falar sobre um de seus filmes, o divertido UM BALDE DE SANGUE (1959), com Dick Miller no elenco, interpretando um de seus personagens mais conhecidos, Walter Paisley.

 

Primeiramente, eu devo dizer que este é um dos filmes mais divertidos que já vi, e tudo isso graças à própria técnica de direção de Corman.

 

Para quem não sabe, Corman foi mestre em trabalhar com pequenos orçamentos e prazos reduzidos de filmagem, mas não se enganem; com isso, ele foi capaz de produzir grandes filmes, com destaque para os longas do nobre Ciclo Edgar Allan Poe, composta por uma série de filmes baseados em contos de Edgar Allan Poe, e estrelados por Vincent Price. Mas, Um Balde não faz parte dessa fase de sua carreira.

 

Um Balde faz parte de outra leva de filmes que o cineasta produziu, com menos tempo de duração, realizados com pequenos orçamentos, e geralmente, em preto e branco. Mas isso não o impede de ser um filme capaz de divertir o espectador.

 

O longa conta a história de Walter Paisley, o garçom de um pequeno bar, que tem o sonho de ser artista. Mas as coisas não acontecem exatamente como ele espera, porque acaba fazendo suas esculturas de argila a partir das pessoas que matou, alcançando o status de artista renomado entre os frequentadores do bar.

 

É uma típica história de algum personagem que acaba se metendo em uma situação fora de controle, que começa por acidente, mas acaba desencadeando uma série de infortúnios para ele, e nesse caso, ele acaba levando tudo ao pé da letra, e acaba cometendo crimes.

 

Mesmo sendo um filme de terror, é um filme de terror cômico, visto que as situações em que o protagonista se envolve são muito absurdas e fica difícil dizer qual é a mais absurda. Eu pessoalmente encaro a sequência da serra como a mais absurda, porque acontece quase do nada, em um momento inoportuno.

 

Eu mencionei acima que as técnicas de direção de Corman são o motivo que fazem deste um filme muito divertido, e de fato é verdade. Corman se mostra um grande diretor, principalmente quando trabalha com os atores. A câmera de Corman se move com fluidez pelos cenários, principalmente no cenário do bar, que conta com planos abertos, mas com movimentos e ângulos espertos. A fotografia em preto e branco também funciona, porque combina muito com o filme, além de contribuir com a atmosfera e o aspecto de filme B.

 

O elenco também funciona, e todos os atores entregam ótimas performances, principalmente o ator Dick Miller, no papel do protagonista – anos antes de se tornar ator figurinha nos filmes do diretor Joe Dante. O Walter Paisley daqui – muito diferente das outras versões do personagem – é tímido e inseguro, e quando conquista 15 minutos de fama, muda de maneira brusca, tornando-se confiante, mas sem perder a timidez e a insegurança.

 

Outro personagem que entrega tudo, é o dono do bar onde Paisley trabalha. Ele é completamente louco, com aspecto de bêbado e desnorteado, principalmente quando descobre a verdade sobre as esculturas de Paisley.

 

E o freguês que recita poesias também merece destaque, porque ele é o primeiro a aparecer no filme, e pode levar o espectador a pensar que ele é o protagonista, mas logo o jogo vira. Ele é muito educado, sempre comentando a respeito de sua arte, e quando recita um poema em homenagem a Walter, o filme fica legal.

 

Um Balde é um dos filmes favoritos do diretor Joe Dante, que o levou a escalar Dick Miller para seus filmes quando se tornou cineasta, além de homenagear o protagonista deste filme, batizando alguns personagens de Miller com o nome Walter Paisley, apesar de todos serem diferentes.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Obras-Primas do Terror 12, em versão restaurada, que contou com um depoimento de Corman nos extras.

 

Enfim, Um Balde de Sangue é um filme bom. Um filme de terror com toques cômicos, contado com as técnicas singulares de Roger Corman, aliadas a um roteiro bacana, com personagens interessantes, e um enredo cômico. Um dos filmes mais divertidos que já vi, contado com a maestria do lendário Roger Corman.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 23 de novembro de 2019

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999). Dir.: Tim Burton.


NOTA: 10



A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA 
(1999)
A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA é um filme belíssimo! É um dos meus filmes favoritos do diretor Tim Burton – o primeiro é Marte Ataca! (1996) – e sem duvida, um dos seus melhores – aliás, nenhum filme do Tim Burton é ruim, e ponto! Não digo isso só porque sou fã, mas porque é verdade.

Eu tive o prazer de ver esse filme no cinema com a minha família duas vezes, a primeira na semana da estreia, e outra no ultimo dia, e adorei. Foi uma das melhores experiências da minha vida, porque a historia original de Washington Irving faz parte da minha vida desde sempre, principalmente por causa da maravilhosa animação da Disney. Aliás, por anos, foi a única versão que eu conhecia, e quando soube que iria acontecer, fiquei muito animado. Eu queria ver esse filme! E minha mãe compartilhava esse sentimento, porque, uns dias antes, ela me acordou de madrugada para assistir a um especial sobre ele na TV, e eu adorei, e a minha vontade de assistir aumentou. E quando fomos ao cinema, fomos pegos de surpresa pela primeira cena, com o cocheiro decapitado. Sem duvida, uma das melhores apresentações de um filme. E o resto da sessão correu muito bem, com as surpresas surgindo a cada momento. E quando fomos novamente para o cinema, a sensação não mudou. E continua assim até hoje.

É o tipo de filme que não fica chato quando assistimos; pelo contrario, fica melhor a cada vez. E isso se deve à genialidade de Tim Burton. Desde que o descobri com Marte Ataca!, lançado três anos antes, eu me apaixonei, e essa paixão dura até hoje. Tim Burton é o meu cineasta favorito, e é o diretor que me inspira a querer fazer filmes, da mesma forma que os filmes de terror que ele assistia na infância também o inspiraram. E aqui, ele presta diversas homenagens a esses filmes.

Burton cresceu assistindo aos filmes de Roger Corman com Vincent Price, seu ídolo maior, além das produções da Hammer com Christopher Lee, e outros. Na minha opinião, infância melhor não há. Nada melhor do que assistir aos filmes que você gosta, com os atores e diretores que você gosta, e acabar se inspirando neles no futuro. Afirmo, sem medo, que Tim Burton é a minha inspiração.

Nada em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é ruim. A fotografia em preto e branco é linda; a direção de arte, impecável; o figurino, belíssimo; a maquiagem, incrível... Tudo é lindo. E é possível ver o quanto Burton é um cineasta excepcional. Sua direção é madura e correta, com todos os detalhes em ordem, do jeito que deveriam estar, tudo feito da maneira que ele sabe fazer.

Com certeza a paixão do cineasta pelo material é um dos fatores a favor do filme. Burton conhecia a historia desde pequeno, através da animação da Disney, e para ele, havia algo de extraordinário na figura de um Cavaleiro Sem Cabeça, correndo a cavalo pela floresta com a espada e a abobora nas mãos. E dá para ver que ele levou isso para o filme. Em vários momentos, a animação da Disney está presente, principalmente nas cenas envolvendo o Cavaleiro. Sério. Parece que Burton pegou a animação e literalmente a transformou em um filme live-action, porque é tudo muito parecido! Não apenas as cenas envolvendo o Cavaleiro, mas a cena da ponte também. A própria ponte que divide o lugarejo de Sleepy Hollow em dois, é idêntica à ponte da animação; foi inclusive uma das coisas que me chamou atenção no cinema. E as homenagens não param por aí.

Além disso, o clima soturno da animação também está presente no filme, principalmente nas cenas noturnas. Um exemplo é a cena de exumação no cemitério. Parece a abertura da animação, com as lapides inclinadas diante da igreja. Muito bem feita. E claro, a sequencia da floresta também remete ao filme da Disney, até porque, a sequencia de perseguição entre Ichabod e o Cavaleiro já era soturna e assustadora; e aqui, Burton recria essa sensação.

Mas claro, além de prestar homenagens aos filmes de sua infância, Burton também homenageia a historia original de Irving, apesar das inúmeras diferenças. A mais evidente, para mim, é a Fazenda Van Tassel. Em vários momentos, Irving descreve a casa de Baltus Van Tassel como um enorme castelo, e aqui, isso foi reproduzido com fidelidade. A casa parece mesmo um castelo; na verdade, parece um castelo de historias de fantasmas; todo imponente, que pode ser visto do topo da colina... Uma construção arrepiante. O próprio lugarejo de Sleepy Hollow também passa essa impressão. Uma pequena comunidade no meio do campo, praticamente isolada do mundo, com animais como vacas, ovelhas e gansos correndo ao ar livre. Um lugar bonito, mas com uma atmosfera assustadora. E claro, o cavalo de Ichabod Crane, Pólvora. Mesmo com pouca presença na historia, ele não poderia faltar, até porque, é o companheiro do professor no clímax. E toda a descrição desajeitada de Ichabod como cavaleiro também aparece, porque, simplesmente, não poderia faltar. É uma das principais características da historia original. Alguns dos personagens também são reflexos da historia original. Ichabod é um covarde, cheio de frescuras; Katrina é doce, amável e sensível; Brom Bones é o valentão que tenta passar a perna em Ichabod; Baltus é o fazendeiro rico; e o próprio Cavaleiro é o espirito dominante da região, que mete medo nos habitantes do lugarejo. Enfim, tudo que aparecia na historia aparece aqui, de maneira excepcional e perfeita.

Com certeza, um dos pontos principais da historia original, é quem era o Cavaleiro Sem Cabeça e como ele perdeu sua cabeça. Aqui, isso é apresentado. O Cavaleiro é um soldado hessiano que lutava em uma batalha nos arredores de Sleepy Hollow. A única coisa que mudaram foi o modo como ele perdeu a cabeça: na historia de Irving, ele é decapitado por uma bola de canhão; aqui é diferente. A cena do flashback é uma das melhores, mostrando o Cavaleiro em toda sua fúria, decapitando e trucidando soldados. Muito bem feita, bem dirigida e atuada. Sangrenta e arrepiante.

Aliás, posso dizer que A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça marca uma espécie de nova fase para o diretor Tim Burton. No inicio de sua carreira, ele fazia filmes com um tom mais família, quase sem nenhum sangue ou violência. Aqui, ele já muda de figura. O filme é repleto de cenas sangrentas, com destaque para as decapitações. Dizem que os responsáveis pela censura acharam as cenas tão pesadas que classificaram o filme para maiores; aqui no Brasil, recebeu classificação “18 anos”, o que gerou problemas para quem foi assistir no cinema. Hoje em dia, talvez as cenas não sejam tão pesadas assim, mas na época, era compreensível. Não me lembro de ver um filme do diretor anterior a esse com essa pegada. O próprio Burton inclusive optou por não cortar as cenas de decapitação. E ao que parece, o diretor seguiu essa nova linha, porque Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) é carregado de cenas sangrentas, por causa do conteúdo original. E mesmo assim, não parece que foi dirigido por outro cineasta. Incrível.

O elenco é também um dos pontos altos. Em sua terceira colaboração com Burton, Johnny Depp está perfeito como Ichabod Crane. Também fã da animação da Disney, ele conseguiu representar o personagem de maneira crível e divertida. Suas cenas de desmaios são muito engraçadas e servem muito bem para quebrar a tensão após uma cena assustadora. Em uma entrevista, Depp declarou que chegou a cogitar a hipótese de usar próteses para ficar mais parecido com o Ichabod Crane da animação, o verdadeiro Ichabod Crane. Sinceramente, achei que foi muito bom que isso não aconteceu porque só existe um Ichabod Crane alto, extremamente magro, com uma cabeça pequena e chata em cima, e nariz comprido, que parece uma das pontas de um cata-vento preso ao seu fino pescoço. E esse Ichabod Crane é o Ichabod Crane da Disney. Ponto! No entanto, as melhores atuações são de Christina Ricci e Christopher Walken. A atriz interpreta Katrina Van Tassel com uma delicadeza e uma beleza impressionantes. Parece que ela assume a personagem, de tão perfeita que é sua atuação. Sem duvida, ela soube traduzir a personagem melhor do que ninguém. Belíssima. Já Christopher Walken está assustador no papel do Cavaleiro Sem Cabeça. Mesmo não aparecendo muito, sua presença é marcante, e dá um ar maligno ao personagem. O Cavaleiro também foi interpretado pelo dublê Ray Park no restante do filme, quando vemos o personagem sem sua cabeça. Outro dublê também deu vida ao Cavaleiro nas cenas de montaria. Mesmo assim, nenhum deles consegue superar Walken. O restante do elenco também está muito bem em suas performances, e não parecem caricatos em momento nenhum.

Como mencionado, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é repleto de homenagens aos filmes que Burton assistia na infância. A começar pelos clássicos da Hammer, estúdio de cinema britânico responsável pelos maiores filmes do gênero nos anos 50, 60 e 70. O filme tem todo um aspecto da Hammer, com suas cores escuras, sangue pulsante e ambientação gótica. Lembra muito os primeiros filmes coloridos do estúdio, como os filmes do Drácula, estrelados por Christopher Lee. Aliás, a presença do ator é uma das maiores homenagens ao estúdio. Christopher Lee era um dos ídolos de Burton, ao lado de Vincent Price, e sua presença é impactante. O ator aparece por poucos minutos, mas valem a pena. A presença dele é imponente, que inspira e exige respeito de quem está ali. Burton até menciona nos comentários que todos da equipe pararam para prestar a atenção no ator, dada a sua magnitude. Em outra cena, Burton cita suas inspirações também em Roger Corman e em Mario Bava. Novamente, a fotografia e a ambientação contribuem. Além de lembrar os filmes da Hammer, o filme também lembra os filmes do Ciclo Edgar Allan Poe, estrelados por Vincent Price, que Corman dirigiu nos anos 60. Eu já tive o prazer de assistir alguns dos filmes do Ciclo Edgar Allan Poe, e posso dizer que a semelhança é impressionante. A floresta assombrada parece muito com as florestas dos filmes de Corman. Aliás, um detalhe. A cena de investigação de Ichabod na floresta possui uma das melhores tomadas do cinema de horror. O investigador avista uma estranha figura branca andando por entre as arvores retorcidas e decide ver o que é; para mim, é uma bela cena de floresta mal-assombrada, e com certeza, vai servir de inspiração no futuro. Mas, voltando, parece mesmo que eu estava vendo um filme de Roger Corman, e parecia que Vincent Price iria aparecer a qualquer momento. A inspiração em Mario Bava também é evidente. A cena em que Ichabod é perseguido por um falso Cavaleiro Sem Cabeça lembra muito as cenas de A Máscara de Satã (1960) e As Três Máscaras do Terror (1963); além disso, existem também duas outras homenagens ao filme de estreia de Bava, todas muito bem feitas e respeitosas. Existe também uma homenagem ao Clássico Frankenstein (1931), estrelado por Boris Karloff: a cena do moinho. Burton já declarou que sua primeira lembrança de moinhos veio do filme de James Whale, e assim como as homenagens à Bava e Corman, ele a presta com todo o respeito que o filme merece. No entanto, além de homenagear seus filmes favoritos, o diretor também homenageia a si mesmo. Os espantalhos que aparecem no milharal no começo do filme lembram a fantasia de espantalho de Jack Skellington; o vestido que Katrina usa em determinada cena lembra a roupa de Beetlejuice; e as participações de seus ídolos, Christopher Lee e Michael Gough, remetem à presença de seu ídolo máximo em Vincent (1982) e em Edward Mãos-de-Tesoura (1990). 

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça foi lançado em novembro de 1999 e tornou-se um sucesso de bilheteria. O filme marca a terceira colaboração entre Tim Burton e Johnny Depp, iniciada em 1990 com o inigualável Edward Mãos-de-Tesoura. Os dois trabalharam juntos novamente em Ed Wood (1994), cinebiografia do “pior diretor de todos os tempos”; A Fantástica Fábrica de Chocolates (2004); A Noiva-Cadáver (2005); Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007); Alice no País das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012), baseado na série de TV “Dark Shadows”, de Dan Curtis.

Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um filme maravilhoso. Um dos meus filmes favoritos. Uma historia de amor com elementos de suspense. Um verdadeiro conto de fadas. Excelente.









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sábado, 1 de junho de 2019

A ORGIA DA MORTE (1964). Dir.: Roger Corman


NOTA: 9.5


A ORGIA DA MORTE (1964)
A ORGIA DA MORTE é o sexto filme do bem-sucedido “Ciclo Edgar Allan Poe”, que o diretor Roger Corman realizou em parceria com a American International Pictures. Novamente, contou com Vincent Price no papel principal, em uma de suas melhores atuações, sem a menor dúvida.

Conforme o título original entrega, o filme é baseado no conto A Máscara da Morte Rubra, ou O Baile da Morte Vermelha, um dos textos mais populares de Egdar Allan Poe. Sem dúvida, pode ser considerado um dos melhores filmes do Ciclo, que começou em 1960 com O Solar Maldito, baseado em A Queda da Casa de Usher, e terminou em 1965, com O Túmulo Sinistro, baseado em Ligeia.

Conforme o diretor Corman afirmou, esse é o seu melhor trabalho baseado em Poe, e não é pra menos. O filme é um espetáculo visual, repleto de cores vibrantes – sobretudo o vermelho – , clima gótico autentico e atmosfera de sonho. Tudo funciona muito bem, apesar do orçamento limitado e o tempo de filmagem apertado: cerca de 5 semanas de filmagem e cerca de 300 mil dólares de orçamento. E não faltou criatividade.

Como o texto de Poe em si só acontece no último ato, os roteiristas Charles Beaumont e R. Wright Campbell tiveram que preencher muitas lacunas na narrativa, o que tornou o filme ainda mais rico. Beaumont e Campbell dedicaram boa parte da historia ao seu protagonista, o sádico Príncipe Prospero e também à sua relação com a jovem Francesca, sua prisioneira. Foi possível perceber que, além de sádico, Próspero também mostrou-se de certa forma, fascinado pela moça, uma vez que não a tortura em nenhum momento – pelo menos não fisicamente; pelo contrario, ela tem livre acesso ao castelo, veste-se elegantemente e participa dos jantares promovidos pelo anfitrião. No entanto, mesmo com essa liberdade, Próspero mostra-se onipresente, pois tem planos diabólicos para a menina, como inicia-la em seus rituais de adoração ao Diabo; inclusive, desde o primeiro momento, o personagem deixa isso muito claro: é um adorador do Diabo, e bane, implacavelmente, qualquer forma de adoração a Deus.

Porém, existem outros pontos que merecem destaque. O primeiro deles é a forma como a monarquia é representada. Numa visão pessoal, eu sempre achei que os ricos eram de fato vulgares, desrespeitosos, e cruéis (ao contrario do que diziam dos pobres), e, aqui, é a mais pura verdade. Na primeira cena de festa promovida pelo Príncipe, os nobres surgem rindo, bebendo, gritando e debochando dos camponeses, tudo sem o menor pudor e discrição. Um desses nobres, Alfredo, mostra-se o pior deles. É um personagem perverso, com a maldade impressa no rosto – porém, não menor que a Próspero, vale lembrar – e disposto a tudo, inclusive, a passar a perna em seu amigo. Grande parte disso, deve-se à magnifica interpretação do ator Patrick Magee, que, com certeza, levou esse sadismo e crueldade para o seu personagem no clássico Laranja Mecânica (1971), de Stanley Kubrick. A atriz Jane Asher também merece destaque: sua Francesca é a personificação da bondade e da pureza, sempre mostrando-se fiel a seu pai e seu amado, e pregando amor a Deus, mesmo diante de Próspero. Juliana, interpretada pela atriz Hazel Court, pretendente de Próspero também merece destaque: ao contrario de Francesca, ela é própria imagem da crueldade, submissa, e perversa, disposta até a unir-se ao Diabo para ter Próspero ao seu lado.

Outro ponto é a ambientação. Naquela época, o cinema de horror era mais focado no clima gótico, de fantasia, o que rendeu grandes obras, e aqui, não é diferente. Com suas florestas de arvores mortas, envoltas em nevoa, o castelo de Próspero todo coberto por teias de aranha, o filme é uma das melhores representações do Gótico no cinema de horror. A direção de arte, a cargo de Robert Jones, e o design de produção, a cargo de Daniel Haller, com certeza, contribuíram para a ambientação medieval da trama. Em todos os momentos, é possível acreditar que aqueles personagens vivem naquela época e vestem aquelas roupas. Trabalho excelente, indicado ao BAFTA, o Oscar® do cinema britânico.

E por fim, duas cenas também devem ser mencionadas. A primeira é a cena do corvo, que culmina na morte de um personagem importante da historia. É uma cena belíssima, bem dirigida, onde, mesmo não sendo possível ver o corvo bicando e arranhando, é crível o que está acontecendo; e quando a cena termina, é um verdadeiro espetáculo. E a ultima menção fica a cargo do ultimo ato, que narra o conto de Poe em si. É um deslumbre visual e colorido, uma representação realista de um baile de máscaras, como visto em muitos filmes clássicos de décadas anteriores, principalmente as décadas de 30 e 40. E claro, o desfecho, onde o vermelho predomina toda a tela, em tons vivos que enchem os olhos.

E como todo filme de terror, possui seus momentos arrepiantes. O melhor deles, sem duvida, é quando os espectros da Morte se juntam no bosque envolto em nevoas, após realizaram seus trabalhos nas regiões próximas. Uma cena sem trilha sonora, onde os personagens sussurram o tempo todo, e, envoltos em suas vestes, tornam-se ainda mais assustadores, uma vez que não vemos seus rostos ou seus olhos. Talvez, uma das melhores personificações da Morte já mostradas em um filme.

Porém, o filme tem um pequeno defeito: uma cena em que Juliana tem uma alucinação, antes de seu matrimonio com Satã. Mesmo sendo bem executada, com seus efeitos visuais e lentes distorcidas, é uma cena que, ao meu ver, não precisava estar no filme, porque, sinceramente, parece muito longa e arrastada. Vale lembrar que Corman fez algumas cenas parecidas nos demais filmes do Ciclo.

E claro, não poderia concluir esse texto sem mencionar o astro Vincent Price. Como mencionado acima, o Príncipe Próspero talvez seja um de seus melhores personagens. Desde sua primeira aparição, o Príncipe mostra-se um verdadeiro sádico, com seu olhar cruel e sua expressão diabólica. Ele não mede esforços para realizar seus desejos sádicos, seja torturando seus prisioneiros, seja realizando seus bailes regados a orgia. Sem duvida, um vilão perfeito, como o ator sempre soube interpretar. Price não se mostra caricato ou atua demais, pelo contrário, faz na medida certa. Próspero é a representação do Mal, sem dúvida.

Enfim, com todos esses toques, A Orgia da Morte é um maravilhoso filme de terror. Uma das melhores adaptações de Edgar Allan Poe. Um dos melhores filmes de Roger Corman. Uma das melhores atuações de Vincent Price.

Foi lançado em DVD aqui no Brasil pela Versátil Home Vídeo, no primeiro volume da Coleção Obras-Primas do Terror.

Altamente recomendado.




Créditos: Versátil Home Vídeo



sábado, 6 de abril de 2019

O CASTELO ASSOMBRADO (1963). Dir.: Roger Corman.


NOTA: 8.5


O CASTELO ASSOMBRADO (1963)
O CASTELO ASSOMBRADO, dirigido por Roger Corman – que fez aniversário ontem – é a primeira excursão de H.P. Lovecraft no cinema. Aqui, no caso, a historia adaptada é O Caso de Charles Dexter Ward, uma das mais conhecidas historias do autor. Porém, O Castelo Assombrado não é considerado como uma adaptação de Lovecraft, mas, sim, um filme do ciclo Edgar Allan Poe, na qual Corman estava envolvido naquela época.

A razão para Corman escolher Dexter Ward foi a de que, até então, ele achava que havia trabalho em muitos filmes baseados em contos de Poe, então, resolveu escolher outro material. Então, com o aval da AIP (American International Pictures), escolheu a historia de Lovecraft. Mas, como mencionado acima, a AIP deu aval para Corman, mas, ao invés de utilizar o título da historia de Lovecraft, acabaram adotando – talvez por razoes de Marketing ou picaretagem – o título de um poema de Edgar Allan Poe, The Haunted Palace, inclusive utilizando o nome de Poe acima do título. Picaretagem ou Marketing? Vai saber.

Bem, mesmo com essa diferença, o fato é que o filme é muito bom. Realizado na década de 60, possui todos aqueles elementos dos filmes daquela época: a neblina, o cemitério retorcido, o castelo cheio de teias de aranha... Enfim, todos os elementos do Terror Gótico dos anos 60. Além desses elementos, merece destaque também a direção de arte, a cargo de Daniel Haller, que trabalhou com Corman nos filmes de Poe, e que, mais tarde, dirigiria duas adaptações da obra de Lovecraft: Morte Para um Monstro (1965) e O Altar do Diabo (1970), respectivamente, baseados em A Cor que Caiu do Espaço e O Horror de Dunwich. O trabalho de Haller é espetacular. Sua recriação da cidade Arkham é extraordinária, praticamente perfeita. Não sei como ela foi retratada em outras adaptações, mas aqui, a cidade fictícia criada pelo autor parece ter saído do papel, literalmente. Quando ela aparece, passa uma sensação de medo e claustrofobia, sensações que devem ter sido imaginadas por Lovecraft em seus textos. O castelo de Curwen também é um espetáculo, com seus corredores empoeirados, paredes cheias de teias de aranhas, e o quadro de seu proprietário acima da lareira; aliás, esse quadro já serve como garantia de muitos arrepios.

Como todos os filmes de Corman dessa época, O Castelo Assombrado é estrelado por Vincent Price, no papel principal; aliás, papeis, uma vez que ele interpreta tanto Charles Dexter Ward quanto seu ancestral, Joseph Curwen, e sua atuação é incrível. Price não tem medo de parecer exagerado, principalmente quando interpreta o vilão, após seu espirito possuir o corpo e a alma de Charles Ward. O resto do elenco também merece destaque, principalmente os atores que interpretam os habitantes de Arkham, tanto no passado como no presente; é possível ver que aqueles homens são vitimas da maldição de Curwen e o medo que sentem de seu descendente é real. Debra Paget também entrega uma ótima atuação como a esposa de Charles Ward; durante todo o filme, ela mostra-se uma mulher apaixonada pelo marido, e que teme por ele quando o terror começa a surgir. Corman sempre soube escolher mulheres bonitas para seus filmes do Poe, e aqui não foi diferente, mesmo não sendo um filme do Ciclo Edgar Allan Poe. E por fim, Lon Chaney Jr., o eterno Lobisomem da Universal, também não faz feio em sua interpretação do servo de Curwen.

Mesmo apostando mais no terror psicológico, O Castelo Assombrado possui momentos que são de fato assustadores. O melhor deles, sem duvida, é quando Charles e sua esposa são encurralados pelos habitantes amaldiçoados de Arkham nas ruas do vilarejo. É uma cena muito bem feita, onde o terror é construído aos poucos, e o resultado dificilmente sai da mente do espectador, e a maquiagem com certeza contribui para isso. Outro é o enterro de um dos habitantes da cidade, vitima da vingança de Curwen. Uma sequencia envolta em neblina, sem trilha sonora, com a figura de Curwen à distancia, observando tudo com seu olhar maligno.

Enfim, O Castelo Assombrado é um filme belíssimo, do jeito que Roger Corman sabia fazer naquela época, antes de se envolver com as produções atuais da Asylium.

Um filme muito bem feito, com toques de Terror Gótico, que enchem a tela de beleza. Bizarramente, nos créditos, o nome de Poe está grifado de maneira errada (Allen Poe ao invés de Allan Poe!). Permaneceu inédito no Brasil, até ser lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, na coleção Lovecraft no Cinema Vol.2.

Um ótimo inicio para a carreira cinematográfica de Lovecraft, que ganhou vida de fato, apenas nos anos 80, com o lançamento de Re-Animator: A Hora dos Mortos Vivos (1985), dirigido por Stuart Gordon, baseado no excelente conto Herbert West Reanimator.


Muito bem recomendado. 




Créditos: Versátil Home Vídeo



AVISO.

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