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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

LISA E O DIABO (1973). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10


LISA E O DIABO é um filme belíssimo.

 

Uma história de horror, fantasia e mistério contada com a maestria do Maestro Mario Bava, e um de seus melhores filmes.

 

Eu já comentei sobre alguns filmes do Maestro aqui, e até agora, não encontrei nenhum que me decepcionasse.

 

Lisa e o Diabo faz parte do ciclo gótico do cineasta, ciclo esse que o tornou bastante conhecido, visto que ele foi um dos responsáveis por torna-lo popular na Itália, graças ao sucesso que O Vampiro da Noite (1957) fez no país.

 

Podemos também encarar o filme como uma espécie de homenagem que Bava faz a si mesmo, visto que existem cenas que lembram seus filmes anteriores, além do uso de suas técnicas bastante conhecidas.

 

Na trama, Lisa é uma turista que se perde em Toledo, na Espanha, e vaga pelas ruas da cidade, até se encontrar com um casal rico, e o carro deles quebra nas proximidades de uma antiga mansão, onde moram uma condessa e seu filho, além de um estranho mordomo que intriga Lisa, por se parecer com o Diabo.

 

Essa é a sinopse básica do filme, e pode até parecer simples, mas, na verdade, o roteiro envolve alguns outros elementos, como segredos de família e triângulos amorosos, que necessitam de um pouco de raciocínio do espectador para serem compreendidos.

 

Esse é um detalhe da trama que precisa ser analisado com muita calma, pois, não é explicado para nós logo de cara, ele acontece aos poucos. E a cada revisão, o mistério parece aumentar, o que pede ainda mais raciocínio de quem está assistindo.

 

Mas não se engane. Apesar dessa trama um pouco complicada, Lisa e o Diabo é um filme belíssimo, feito com as técnicas que somente o diretor Bava conhecia e sabia utilizar.

 

A começar pela direção. Bava era um mestre com a câmera, e sabia fazer coisas que nenhum outro cineasta soube. Aqui, mais uma vez, ele mostra sua competência e cria cenas memoráveis, com ângulos inspirados, além de uma movimentação suave, combinada a uma fotografia habilidosa.

 

Além da fotografia, o roteiro também merece menção, porque, conforme mencionei, é um grande quebra-cabeça, onde as peças vão se encaixando lentamente, com um mistério em torno dos três habitantes da mansão, que aos poucos vai mostrando sua face e seu motivo.

 

Os cenários também são maravilhosos, principalmente a mansão, que parece um gigantesco labirinto, com seus quartos vazios, um jardim enorme e aspecto de decadência, algo que Bava adorava utilizar em seus filmes. Como o filme se passa praticamente durante a noite, não é difícil nos sentirmos ameaçados dentro daquele ambiente, principalmente o quarto do mordomo Leandro, cheio de manequins.

 

Os personagens também são um ponto positivo, e os atores atuam maravilhosamente. É possível acreditar que aquelas pessoas são reais, que vivem naquela mansão decadente, presos em seu próprio mundo repleto de segredos macabros. Lisa é a mocinha indefesa, que não entende o que está acontecendo, nem como foi parar naquele mundo estranho, e acredita o tempo todo que tudo não se trata de um sonho. O casal rico também não faz feio, e passam a sensação de já estarem casados há muito tempo, e se cansaram um do outro, tanto que a mulher procura conforto nos braços do chofer.

 

Mas o melhor personagem é o mordomo Leandro, magistralmente interpretado por Telly Savalas. Ele é diabolicamente educado, misterioso e perigoso, e deixa transparecer essas sensações desde a primeira aparição, até o final do filme. Seu melhor momento é quando está em seu quarto recitando um monólogo sobre trabalho e tradição, enquanto come suspiros e bebe conhaque. Além disso, ele se mostra um grande fabricante de manequins, que desempenham um papel importante na história, pois representam os personagens principais.

 

O filme todo possui um aspecto de sonho e fantasia, e isso está presente desde a primeira cena, quando Lisa ouve a caixa de música ao longe e aparenta ser enfeitiçada por ela, visto que acaba se perdendo de seu grupo de excursão. E a sensação predomina até o final do filme, com eventos estranhos e misteriosos acontecendo, como o fato de Lisa se parecer com a amante do padrasto de Maximiliano, o que a deixa completamente confusa.

 

Esse é o grande segredo da trama. Lisa aparenta se dividir entre ela mesma, e Ellena, amante do padrasto de Maximiliano, que também se encanta por ela, e a mata. Como eu disse, é um mistério que vai se resolvendo aos poucos, o que obriga o espectador a pensar no que está acontecendo.

 

Acredito que tal sensação de estranheza se deve ao fato do produtor Alfredo Leone, após o sucesso do filme anterior de Bava, Os Horrores no Castelo de Nuremberg (1972), ter dado carta branca ao cineasta para fazer o filme que quisesse; então, chamou dois roteiristas que haviam trabalhado com ele anteriormente, e os dois desenvolveram a história a partir das ideias do diretor.

 

Tal mistério não impede o filme de ser uma verdadeira obra de arte, onde Bava aparentemente faz um resumo de sua vida, segundo dizem os biógrafos do cineasta. De fato, existem conexões com outros filmes anteriores do diretor, seja em takes e cenas, seja na própria história. Menções à A Maldição do Demônio (1960), O Ciclo do Pavor (1966) e Hércules no Centro da Terra (1961), por exemplo, estão presentes no longa.

 

Além disso, o filme também pode ser encarado como uma espécie de final de ciclo, visto que, naquela época, o gênero gótico dava sinais de declínio, e o que entrava em vigor eram os filmes mais pesados, os exploitation, por exemplo, algo que o cineasta explorou no Giallo Banho de Sangue (1971), que se tornou uma espécie de precursor do Slasher americano.

 

Por esse e outros motivos, Lisa e o Diabo é um filme que merece ser visto pelos fãs de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 2, que conta com um documentário nos extras.

 

Enfim Lisa e o Diabo é um filme excelente. Uma história de horror, mistério, romance e fantasia contada com maestria pelo Maestro Mario Bava, que faz uso de suas técnicas impares e únicas para contá-la. Um clima de mistério toma conta do filme desde a primeira cena e permanece até o final, com a protagonista presa em uma espécie de sonho macabro que encanta. Um dos melhores filmes de Mario Bava, e sua grande obra-prima.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 18 de março de 2024

AS LÁGRIMAS DE JENNIFER (1972). Dir: Giuliano Carnimeo.

 

NOTA: 8.5


Eu sou fã dos Gialli, principalmente dos exemplares tradicionais do gênero, com o assassino trajado com sobretudo e luvas.

 

AS LÁGRIMAS DE JENNIFER, lançado em 1972, com direção de Giuliano Carnimeo, é um desses exemplares, e um dos meus favoritos.

 

O filme é muito bem feito, com uma direção inspirada e um roteiro bem escrito, aliado a um elenco de peso, que atua muito bem.

 

Quando o longa foi lançado, no inicio dos anos 70, o gênero estava em seu auge, com diversos exemplares clássicos, desde os mais tradicionais, até as variações criativas, e este aqui pegou carona no movimento e acertou na mosca.

 

Primeiramente, Jennifer foi escrito por Ernesto Gastaldi, um dos grandes nomes do cinema popular italiano de gênero, e o roteirista acerta em cheio em sua narrativa, apostando no clima de suspense, com diversos suspeitos e cenas de morte criativas. Além disso, Gastaldi aposta principalmente no personagem Andrea, interpretado por George Hilton, como principal suspeito, visto que ele conhece o prédio onde os crimes aconteceram e tem aversão ao sangue, o que, segundo os policiais do filme, pode ser um motivo para torna-lo um assassino.

 

Aliado a esse roteiro, temos uma direção afiada de Carnimeo, que também aposta no clima de suspense, mas faz uso de ângulos e lentes criativas para contar sua história, ao mesmo tempo em que se mostra um ótimo diretor de atores, visto que nenhum membro do elenco está atuando de maneira exagerada ou caricata.

 

Conforme mencionei acima, o filme é um exemplar clássico do gênero, então, temos um assassino clássico também, com sua roupa e máscara pretas, além de uma máscara da mesma cor para esconder sua identidade, e uma faca característica. No entanto, apesar do figurino, aqui não temos um psicopata com luvas de couro pretas, pelo contrário; o criminoso utiliza luvas marrons de borracha, semelhantes àquelas luvas de cirurgião. Eu pessoalmente não vejo nenhum problema, porque, como eu mesmo já disse, sou um adepto do Giallo Tradicional, com o assassino de luvas, então, qualquer par de luvas é bem-vindo.

 

Além disso, temos outras características clássicas do gênero: a misoginia, a forte sexualidade, e a polícia ineficiente. Esta é a melhor coisa do filme, a polícia ineficiente, formada por um comissário viciado em selos e seu parceiro tapado. O parceiro tapado é o melhor personagem do filme, porque é exatamente isso que ele é. O personagem não é muito eficiente no seu trabalho e faz sempre cara de bobo. Eu me divirto com esses dois. E claro, não são eles quem resolvem o crime.

 

O filme foi produzido por Luciano Martino, irmão do diretor Sergio Martino, outro especialista no gênero. Provavelmente o maior fator que comprova que o filme foi produzido pelo irmão Martino, é a presença dos atores Edwige Fenech e George Hilton, que formavam grandes casais em diversos filmes do gênero. E aqui, eles não fazem feio, aparentemente repetindo os mesmos papéis que interpretaram em outros filmes. Hilton é sedutor e Edwige é sensual; e como de costume, os dois ficam juntos no decorrer da narrativa.

 

No entanto, apesar do roteiro afiado no suspense, existe um problema na narrativa. Em determinados momentos, Jennifer – personagem de Edwige – é assediada pelo ex-marido stalker, que está disposto a tudo para não perdê-la. Até aí, tudo bem, mas, eles fazem parte de um grupo que pratica o amor livre, e, do meu ponto de vista, a ideia desse grupo atrapalha o desenvolvimento da trama, visto que o mesmo grupo não tem muita relevância.

 

Mas, deixando esse problema de lado, Jennifer é um ótimo exemplar do Giallo, e um dos meus favoritos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Giallo Vol.7, com áudio italiano, que conta com um depoimento de George Hilton como extra.

 

Enfim, As Lágrimas de Jennifer é um filme muito bom. Um Giallo clássico, com todos os elementos, contado de maneira ímpar, a partir de um roteiro afiado, aliado a uma direção criativa e um elenco de peso. Um filme que apresenta todos os elementos presentes no gênero, além de subverter alguns deles. Um filme que fica melhor e mais divertido a cada revisão. Um dos meus exemplares favoritos do gênero. 


Créditos: Versátil Home Vídeo.


quinta-feira, 5 de outubro de 2023

A MÚMIA (1932). Dir.: Karl Freund.

 

NOTA: 9.5


O Ciclo dos Monstros Clássicos da Universal foi um dos mais importantes de todos os tempos, não apenas para o cinema de horror, mas para o próprio estúdio também, pois, foi graças aos clássicos Drácula (1931) e Frankenstein (1931), que os lucros aumentaram durante a famigerada época da Grande Depressão.

 

A MÚMIA, lançado um ano depois desses dois primeiros filmes, faz parte desse ciclo, e é um dos melhores. E motivos para isso não faltam.

 

Assim como seus antecessores, este filme foi rodado numa época clássica do Cinema de Horror, e o ciclo da Universal é um dos maiores representantes dessa época.

 

O filme é um dos melhores do Ciclo, isso graças à técnica, a direção do estreante Karl Freund, que foi diretor de fotografia do Clássico de Bela Lugosi; além da direção, temos a maravilhosa maquiagem de Jack Pierce, que transformou o astro Boris Karloff em um dos maiores personagens do gênero; e no topo de tudo isso, temos a excelente atuação de Karloff, que criou um dos maiores vilões de sua carreira.

 

O roteiro, adaptado por John Balderston de um argumento de Nina Wilcox Putnam e Richard Schayer, teve como base a descoberta da tumba do faraó Tutankhamun, ocorrida uma década antes, que foi envolta em lendas a respeito de uma maldição. O roteirista Balderston teve uma certa experiência no assunto, visto que trabalhou como correspondente para um jornal de Nova York, e esteve presente na abertura da tumba.

 

Embora utilize a descoberta da tumba de Tutankhamun como base, o roteiro de Balderston segue por um caminho diferente, abordando a questão do amor que transcende o tempo, no caso, o amor de Imhotep pela Princesa Anck-es-en-Amon, que reencarnou na personagem Helen Grosvenor, interpretada pela atriz húngara Zita Johann. Não sei se o roteiro de Balderston foi o primeiro a abordar tal tema, mas o fato é que o mesmo seria explorado com mais frequência em filmes subsequentes do gênero, como o próprio Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola.

 

Além da temática da reencarnação e do amor que transcende o tempo, o roteiro também apresenta personagens verdadeiramente carismáticos e convincentes, e não fica difícil identificar quem é o protagonista da trama, e também quem são os aliados na luta contra o vilão. O mocinho da vez é Frank Whemple, interpretado por David Manners, saído de Drácula; seu aliado é o Dr. Muller, interpretado por Edward Van Sloan, também saído de Drácula e de Frankenstein também. Os dois personagens são muito bons e fica fácil torcer por eles no combate final.


A Múmia foi uma produção conturbada, não apenas por causa do ritmo de produção – naquela época, segundo historiadores de cinema, o cronograma de filmagens não correspondia a 12 horas de trabalho, então, os cineastas trabalhavam até altas horas da noite – mas também por causa do relacionamento conturbado entre a atriz Zita Johann e o diretor Karl Freund. Ainda segundo historiadores de cinema, o relacionamento entre eles foi conturbado em razão do temperamento da atriz, que era muito forte para a época.

 

Outra questão que merece ser mencionada é a maquiagem, criada pelo mestre Jack Pierce. Segundo maquiador Rick Baker e a filha de Karloff, o processo era muito demorado e muito doloroso devido às técnicas empregadas pelo maquiador – dizem que o processo levava horas e horas e Karloff sentia muitas dores.

 

E claro, antes de encerrar, devo mencionar a grande atuação do astro Boris Karloff. Fica difícil dizer qual o melhor momento do filme em que o astro aparece porque todas as suas cenas são impecáveis. Eu pessoalmente gosto muito da introdução do personagem Ardath Bay, onde ele mostra aos professores onde encontrar o tumulo da princesa. Karloff cria aqui um dos maiores vilões de sua carreira e um dos maiores monstros do Ciclo de Monstros Clássicos da Universal. O combate final também merece uma menção porque deixa o espectador apreensivo.

 

Enfim, A Múmia é um filme excelente. Um dos maiores clássicos do cinema de todos os tempos, com uma atmosfera de aventura, fantasia, terror e romance, que enche a tela e prende a atenção do espectador. O astro Boris Karloff é o grande destaque do filme, com uma atuação inspirada que arranca arrepios do espectador. Um dos melhores filmes de terror de todos os tempos e um verdadeiro clássico.



 

segunda-feira, 3 de julho de 2023

A BELA E A FERA (1978). Dir.: Juraj Herz.

 

NOTA: 9


A Bela e a Fera é um dos contos de fadas mais famosos de todos os tempos, tendo rendido algumas adaptações, seja na literatura, seja no cinema. Dentre as mais famosas, destacam-se a versão da Disney, lançada em 1991, que se tornou o primeiro filme de animação a concorrer ao Oscar® de Melhor Filme; ao seu lado, podemos colocar também a versão francesa de 1946, dirigida por Jean Cocteau.

 

Mas hoje não estou aqui para falar de nenhuma dessas versões, mas sim, de A BELA E A FERA, produção tcheca, lançada em 1978, e dirigida pelo experimental Juraj Herz.

 

Vou ser honesto aqui. Se você está pensando que este filme é próximo à versão colorida da Disney, esqueça. Aqui temos uma versão sombria e gótica, um verdadeiro filme de terror.

 

Eu digo que é um dos filmes mais bonitos e mais assustadores que já vi, graças ao estilo experimental do diretor Juraj Herz, um dos grandes nomes do cinema tcheco.

 

O filme é, acredito, uma adaptação próxima de uma das versões originais, visto que aqui, o personagem do comerciante – batizado aqui de Otec – tem três filhas, e duas delas estão prestes a se casar; sua filha mais nova é solteira e opta por ajudar o pai. Bem, como ainda não li as versões originais, não posso dizer se o roteiro do longa é próximo da fonte original.

 

O que posso dizer é que Herz fez uma versão bastante assustadora e sombria, sempre envolta na escuridão, apostando no clima de tensão para provocar medo no espectador; e isso ele consegue fazer muito bem. Eu já vi o filme algumas vezes, e toda vez que vejo, eu fico realmente assustado, graças à atmosfera gótica do mesmo.

 

E toda vez que eu vejo o filme, eu tenho uma sensação de desconforto, principalmente com a sequencia da floresta, com a caravana que está transportando pedras preciosas e outros itens. Eu sempre tenho a impressão de que tais sequencias foram difíceis de fazer, principalmente por causa da locação; a floresta lamacenta e a ambientação noturna, além dos ângulos e closes nos personagens.

 

A câmera de Herz é um dos destaques do filme – também presente em seus outros filmes de horror – com suas lentes grande-angulares, sempre focando no POV do personagem, que deixam o filme ainda mais assustador e desconfortante. Mas não se engane, o estilo do diretor é muito bom, e além de deixar o filme desconfortante, consegue deixa-lo bonito.

 

Além da câmera, a fotografia também contribui para isso, sempre deixando o filme imerso na escuridão, como mencionei acima. Eu não sei como tais cenas foram rodadas, mas parece que o cineasta não utilizou luzes artificiais. Aliado à fotografia, o design de produção também merece menção, principalmente o castelo da Fera. O lugar é digno daquelas historias de castelo assombrado, visto que é um lugar abandonado, com seus móveis formados por criaturas magicas. Novamente, como não sei se tal fato está de fato presente nas narrativas originais, mas o mesmo foi aproveitado pela Disney na sua versão clássica. Mas, ao contrario da versão Disney, aqui o castelo e seus móveis mágicos dão medo, graças à fotografia e os efeitos especiais.

 

Os efeitos especiais também funcionam, principalmente o visual da Fera. Ao contrario do que conhecemos, o diretor Herz optou por adotar um visual de pássaro para dar vida à sua Fera, e a coisa funciona. A Fera é verdadeiramente assustadora, com sua roupa negra e capa que lembra um par de asas e suas garras afiadas. E assim como nas versões originais, a Fera se apaixona pela mocinha, e faz de tudo para não mata-la, porque se ele o fizer, poderá se libertar da maldição. A maldição da Fera não é muito explorada aqui, e francamente, não faz muita diferença, porque, para quem conhece a história, já sabe como o príncipe ficou como ficou. E o ator que a interpreta, Vlastimil Harapes, não faz feio, passando toda a angustia do personagem com naturalidade.

 

A mocinha, Julie, também merece uma menção, porque, ao lado da Fera, é a melhor personagem do filme. A atriz que a interpreta, Zdena Studenková, também dá um show de atuação, e passa toda a ingenuidade virginal da personagem, principalmente quando ela interage com a Fera. Minha cena favorita é quando Julie está conversando com a Fera no escuro, após ter uma visão do pai numa festa, e a Fera lhe pergunta se deve ir embora, e Julie diz que não. Zdena é dona da cena, principalmente do take em close do seu rosto. E finalmente, quando Julie vê o rosto verdadeiro da Fera, a atriz passa tudo que o diretor deve ter solicitado a ela.

 

E o final do filme é maravilhoso, e mostra o que aconteceu com Julie e a Fera. Esse é um detalhe que eu acho interessante sobre o filme; as irmãs de Julie se casaram com condes pobres, enquanto ela mesma se casou com um príncipe e virou princesa.

 

E para finalizar, deixo aqui a minha menção à sequencia de créditos, composto por pinturas sinistras e uma trilha sonora sombria, que sempre me deixa arrepiado.

 

Juntamente com A Bela e a Fera, o diretor Herz fez mais dois filmes de horror, todos assustadores, desconfortantes e lindos: Morgiana (1972) e O Cremador (1969), todos realizados com o estilo experimental do diretor.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror Vol.14, que conta com um depoimento do diretor como extra.

 

Enfim, A Bela e a Fera é um filme excelente. Uma versão gótica e sombria do clássico conto de fadas, que consegue assustar ainda mais a cada revisão. O estilo experimental do diretor Juraj Herz é um dos atrativos do filme, com suas lentes grande-angulares e fotografia sombria, combinados a grandes efeitos especiais e ambientação gótica e um elenco afiado. Uma das melhores versões do clássico conto de fadas e um dos filmes mais assustadores e lindos que já vi. Altamente recomendado.



Créditos: Versátil Home Vídeo.

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terça-feira, 2 de agosto de 2022

O GATO DE NOVE CAUDAS (1971). Dir.: Dario Argento.

 

NOTA: 9.5



Entre 1970 e 1971, o diretor Dario Argento lançou sua Trilogia dos Animais, que se tornaram um marco no Giallo italiano.

 

O GATO DE NOVE CAUDAS é o filme do meio dessa trilogia, e o meu favorito, embora não seja melhor do que o anterior, o Clássico O Pássaro das Plumas de Cristal (1970).

 

Por que é o meu favorito? Bem, o principal fator é a relação entre os protagonistas, o jornalista Carlo Giordani, e o criador de enigmas Franco Arnò, interpretados por James Franciscus e Karl Malden, respectivamente. Mas não é só isso.

 

O filme é um dos mais bem dirigidos pelo diretor, que aqui começou a apresentar algumas de suas características da carreira. Além disso, temos também uma das melhores variações do Giallo clássico, visto que aqui, não temos a presença das luvas pretas. Conforme mencionei em outras resenhas, eu gosto das variações do gênero, mas prefiro muito mais o clássico, com as clássicas luvas pretas e a navalha. No entanto, O Gato de Nove Caudas me agrada muito por ser um filme do mestre Argento, considerado um dos principais nomes do gênero.

 

Esse é o truque. Eu já vi algumas variações do Giallo, algumas dirigidas por especialistas, mas elas não me agradaram muito. Este aqui é diferente, porque estamos vendo o nascimento do gênero pelas mãos de Dario Argento, então, a meu ver, tais alterações são bem-vindas.

 

Além disso, temos também os personagens, que são muito criveis e simpatizantes, e quando algum morre, é um pouco triste até, porque todos possuem sua importância para a trama. Os melhores são os quatro protagonistas, principalmente a menininha Lori, que acompanha Arnò o tempo todo, porque o personagem é deficiente visual.

 

Além de um Giallo, temos aqui também um filme com elementos de espionagem, visto que após a invasão no instituto, todos começam a suspeitar que foi algo envolvendo espionagem, porque uma das pesquisas era muito secreta, e poderia trazer problemas – a existência do cromossomo XYY, que poderia levar o ser humano a desenvolver tendências criminalísticas, algo que o próprio diretor e o roteirista Dardano Sacchetti pesquisaram antes de desenvolver o roteiro.

 

E a trama toda se desenvolve a partir dessa invasão, porque a partir daí, temos o Giallo clássico, com inúmeros suspeitos, cujas peças vão se encaixando aos poucos, até a conclusão, onde o culpado é revelado. Eu confesso que fiquei surpreso na primeira vez que vi o filme, pois eu não sabia que aquele personagem era o culpado, algo que o gênero faz com maestria, independente do cineasta.

 

E como de costume, temos também os personagens estranhos e engraçados: o barbeiro; Gigi, um ex-condenado especialista em arrombamentos; Morsella, o detetive que adora falar sobre receitas; e alguns dos cientistas do instituto, como por exemplo, o Dr. Braum, que se torna um dos principais suspeitos. Desses personagens, os meus favoritos são Morsella e Gigi, o Perdedor, porque eles protagonizam as cenas mais engraçadas do filme.

 

Temos também o elemento do romance, que se desenvolve entre Giordani e Anna, a filha do dono do instituto, o Dr. Tersi. Pode parecer meio obvio que os dois acabariam se envolvendo, mas eu gosto, acho muito bacana. Os dois protagonizam uma das melhores cenas do filme, uma perseguição de carro por toda a cidade, apenas para despistar a polícia.

 

Mas o que mais impressiona é a técnica. Diferentemente do que veríamos no futuro, aqui temos um Argento ainda em fase de desenvolvimento como cineasta, com seus truques de câmera para simular a presença do criminoso, no caso, a câmera em POV e closes nas pupilas, algo que seria recorrente em sua filmografia. Com sua câmera, o diretor cria cenas verdadeiramente carregadas na tensão, visto que nunca vemos a figura do criminoso, nem mesmo quando há a presença de objetos, como cigarros e seringas, por exemplo. A câmera em POV seria também utilizada por outros diretores nos Gialli futuros, e acabou se tornando também uma característica do gênero; tanto que acabou migrando para os EUA nos Slashers.

 

Além de tudo isso, temos também a relação entre os protagonistas, para mim, a melhor coisa do filme. Desde o primeiro encontro, os dois personagens se dão super bem, e rapidamente começam a investigar o ocorrido, mesmo que isso signifique correr riscos. Como eu disse, é a melhor coisa do filme, e uma inspiração para mim como escritor, porque me lembra de dois personagens que eu e meu irmão criamos quando éramos crianças. Inclusive, essa é outra característica do gênero. Os dois não são policiais e decidem bancar os detetives, porque nos Gialli, a polícia nunca é eficiente, e cabe ao protagonista descobrir a identidade do criminoso. O melhor momento é quando Giordani pede ajuda ao seu amigo Gigi para entrar na casa de Tersi a fim de descobrir alguma pista.

 

E como em todo Giallo, temos as cenas de morte. Aqui, como de costume, o diretor Argento transforma as mortes em espetáculos visuais, principalmente a cena do trem, violenta ao extremo. Mas não se engane, são cenas muito boas de se ver, e o diretor começa a dar os primeiros passos em direção às cenas de assassinatos grandiosos.

 

Não posso concluir essa resenha sem falar da cena mais tensa do filme inteiro, a cena do cemitério. Em determinado momento, Arnò se lembra do relógio que a noiva de uma das vítimas usa, e conclui que ali pode estar a peça-chave do enigma. Então, ele e Giordani vão ao cemitério encontrar o relógio, o que culmina na cena com o jornalista trancado dentro da cripta escura. Mesmo sendo uma cena que dura poucos minutos, é uma cena muito tensa, pois dá para sentir o medo no protagonista. Segundo o roteirista Sacchetti, a cena lhe serviu de inspiração para criar outras cenas tensas no futuro.

 

Como mencionado acima, O Gato de Nove Caudas é o filme do meio da Trilogia dos Animais, produzida entre 1970 e 1971, com todos os filmes dirigidos pelo mestre Dario Argento, que se tornaram clássicos em sua filmografia e no gênero Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção A Arte de Dario Argento, em versão restaurada com áudio em italiano.

 

Enfim, O Gato de Nove Caudas é um filme excelente. Uma história de mistério com toques de espionagem e cenas de ação que o deixam ainda mais divertido. Um verdadeiro quebra-cabeça, onde as peças vão se juntando aos poucos e revelando o mistério para o espectador. Aqui, temos ainda um Dario Argento em fase de desenvolvimento cinematográfico, mas que mostra sua capacidade como cineasta. Um dos melhores filmes do diretor e um clássico dos Gialli italianos.


Créditos: Versátil Home Vídeo

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terça-feira, 26 de julho de 2022

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (Anne Rice).

 

NOTA: 10


EM MEMÓRIA DE ANNE RICE



Ao longo de sua carreira, Anne Rice foi uma das autoras mais populares de todos os tempos, principalmente graças às Crônicas Vampirescas, que ganharam milhões de fãs ao redor do mundo. ENTREVISTA COM O VAMPIRO foi o primeiro livro da série, além de ser o primeiro livro da autora.

 

Esse não foi o meu primeiro contato com o universo vampiresco de Anne Rice; há alguns anos, eu resolvi encarar o livro Pandora, e achei excelente – merece releitura e resenha. E também, eu tinha certo conhecimento em relação a esta história, até porque eu já vira o filme dezenas de vezes, mas nunca cheguei a ler o livro. Cheguei a buscar um exemplar na internet, mas nunca conseguia encontrar, até que a Editora Rocco se propôs a relança-lo em capa dura e novo projeto gráfico, mas com a clássica tradução da autora Clarice Lispector. Dito e feito.

 

Este aqui é um dos melhores livros de vampiro que já li na vida. Anne Rice é uma autora habilidosa e conta uma história dramática e assustadora, com tudo que tem direito.

 

A história, quem já leu – ou viu o filme – conhece, e é muito boa. O vampiro Louis – e a autora – conta sua história com precisão impressionante, e as descrições contribuem para deixar a leitura ainda melhor, e principalmente, fica fácil associar ao filme.

 

O modo como a autora estrutura o livro também merece menção. Ela consegue misturar as passagens do passado do protagonista com o presente de maneira quase imperceptível, tal o nível de mergulho na obra.

 

E claro, temos os personagens. Lestat é sem dúvida, o melhor vampiro da literatura, depois de Drácula, claro. A autora o descreve como um ser perverso, que sente gosto pelo sangue e por matar, seja por necessidade, seja por diversão – algo visto no filme com perfeição. Louis é a figura do vampiro melancólico, que passa a eternidade se lamentando e sofrendo por sua condição, algo que eu abraço também. A vampirinha Cláudia é uma das melhores personagens vampiras da literatura. Não sei se antes dela, existiu alguma personagem como ela, mas, ela é muito boa. Talvez a melhor característica da menina, seja o fato de que ela nunca vai crescer depois de virar vampiro, algo que eu acho muito legal, mas não concordo completamente.

 

Antes de mencionar a passagem deles por Paris, deixa eu falar sobre a segunda parte do livro, onde eles viajam pela Europa, principalmente por Varna, onde encontram diversas superstições sobre vampiros. Em especial, uma sequência em que eles passam a noite numa hospedaria é muito boa. Ali, eles encontram diversas pessoas que tem muito medo dos vampiros, tanto que enfeitam o lugar com coroas de alho e crucifixo; ou seja, a superstição clássica presente nas histórias de vampiros. Dessas pessoas, um homem que está prestes a enterrar a esposa é o melhor, porque ele conta para Louis como foi o seu próprio encontro com um vampiro que acabou de ser enterrado. É uma cena muito boa, digna dos filmes de vampiro da Hammer, por exemplo; inclusive, já digo que virou uma das minhas partes favoritas do livro.

 

No entanto, a melhor parte acontece em Paris, quando Louis e Cláudia conhecem o enigmático Armand e o Teatro dos Vampiros. A autora os descreve como os vampiros realmente devem ser: seres da escuridão, que vestem negro e tem a pele branca como papel, além de serem cruéis e ao mesmo tempo, enigmáticos, principalmente Armand, o segundo melhor personagem da história. Eu já havia conhecido essa parte no filme, mas no livro é muito melhor, porque as descrições são mais profundas, assim como os dilemas do protagonista. Além disso, a personagem Madeleine tem uma participação maior após virar vampira; e temos também outra vampira com mais destaque. Mas o melhor fica com a ideia do Teatro dos Vampiros, algo que a autora descobriu que existe realmente em Paris anos após publicar o livro. Eu acho muito interessante essa ideia de um teatro composto somente por vampiros, que todas as noites encenam suas peças mórbidas para o público parisiense. No filme, isso já era sensacional, mas no livro, é muito melhor. Não posso deixar de mencionar a maravilhosa primeira peça, com a mortal interagindo com os vampiros no palco, aterrorizada. Mesmo lendo o livro, eu não ainda não sei se a mortal é uma atriz ou não. E para finalizar essa parte, temos aqui um conflito do protagonista com seus sentimentos por Armand, que vão consumindo-o por dentro e fazendo-o sofrer mais ainda. Confesso que enquanto eu lia, eu estava esperando que algo fosse acontecer. Enfim, essa é a melhor parte da história, sem dúvida.

 

E o que vem depois não fica atrás, com Louis e Armand viajando pelo mundo, conhecendo lugares famosos, além de lidar com seus próprios problemas, principalmente por causa do que aconteceu em Paris, além disso, temos também o reencontro entre Louis e Lestat, uma das cenas mais tristes do livro, que acontece já em Nova Orleans no século XX. E a conclusão da história também é muito boa.

 

Não é novidade que em 1994, o livro ganhou uma adaptação para o cinema, dirigida por Neil Jordan e roteirizada pela própria autora. E ainda esse ano, a AMC irá lançar uma nova adaptação do livro, desta vez para a televisão, com os mesmos personagens, mas também com alterações na questão da época.

 

Anne Rice nos deixou em dezembro de 2021. Suas obras, no entanto, viverão para sempre, principalmente suas Crônicas Vampirescas, que até hoje, têm legiões de fãs espalhados pelo mundo.

 

Enfim, Entrevista com o Vampiro é um livro excelente. Uma história trágica de horror e sofrimento contada com maestria. A escrita da autora é fantástica e transporta o leitor para dentro da obra e o envolve completamente. Seus vampiros são a representação do puro Mal, com todas as características, além de novas regras. Um dos melhores livros de vampiro de todos os tempos. 



ANNE RICE

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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A ZONA MORTA (Stephen King).

 

NOTA: 10



Que Stephen King é um mestre na arte de contar histórias, todos sabemos disso, e, sinceramente, até agora, não li nenhum livro ou conto de sua autoria que me decepcionou.

 

E mais uma vez, eu tive um exemplo da genialidade do autor. A ZONA MORTA, lançado no final dos anos 70, é um de seus maiores clássicos.

 

Primeiramente, eu acho difícil encaixar o livro em uma única categoria, porque o autor mistura três gêneros diferentes: suspense, ficção cientifica e romance. Mas devo dizer que os três gêneros se juntam com maestria, e cada um desempenha o seu papel.

 

Eu confesso que ouvi falar dessa história pela primeira vez quando assisti à adaptação dirigida por David Cronenberg em 1983, e de cara, eu já me apaixonei, porque naquela época, eu já conhecia o autor, mesmo que pelos filmes, e então, deveria saber que algo grande estava por vir, mas, mais detalhes sobre isso na resenha do filme.

 

As inúmeras vezes que assisti ao filme foram o suficiente para querer ler o livro, e então, decidi ir atrás do mesmo. No entanto, não foi assim de imediato. A primeira vez que eu vi o livro, foi a finada biblioteca daqui da minha cidade, numa edição que era da minha mãe. Anos depois, durante uma viagem à SP, fui a um sebo com meu pai e meu irmão, e comprei o livro, em outra edição. E quando a Suma relançou, eu comprei também e foi essa a edição que eu li.

 

E que livro. A Zona Morta é um livro fantástico. Mais uma vez, King se mostrou um mestre na arte de contar histórias, e ele conseguiu contar uma história redonda, com personagens cativantes e um enredo cheio de surpresas.

Como é de seu costume, King dividiu o livro em três partes, e cada uma tem o seu mérito.

 

A primeira parte mostra a vida de Johnny antes e durante o acidente que o deixou em coma, principalmente enquanto o mundo está mudando ao seu redor. King descreve os acontecimentos com maestria, relatando tudo com detalhes impressionantes; tanto que parece que estamos lá, acompanhando tudo de perto. Vemos principalmente as mudanças nas vidas dos demais personagens, como sua ex-namorada Sarah; seus pais; e Greg Stillson. Sarah se casou com um estudante de Direito e se tornou mãe; sua mãe, Vera, afunda-se cada vez mais na loucura provocada pelo fanatismo; e Greg Stillson dá os primeiros passos em direção à carreira política.

 

O autor mostra o desenrolar desses personagens da mesma forma que mostra os acontecimentos no mundo, intercalando tudo. Dessas histórias paralelas, uma das melhores é a da mãe de Johnny. King mostra que a personagem foi se tornando vítima do fanatismo pouco a pouco, pois acredita que o filho pode acordar do coma, ao contrário de seu pai, que se mostra bem realista quanto ao futuro do filho. Eu achei que bem sensato do autor mostrar que seu pai não acredita que o filho possa voltar, e com isso, ele passa a viver a sua vida; Vera é o oposto. Ela passa a frequentar grupos de orações e a gastar dinheiro com isso, algo que acaba destruindo parcialmente a relação com o marido. Gregg Stillson, por outro lado, também começa a colocar as mangas de fora, mostrando-se um homem verdadeiramente perigoso, disposto a tudo para alcançar seu objetivo, algo mostrado já no prólogo, numa cena horrorosa.

 

Quando Johnny desperta, ele se torna uma espécie de celebridade, por causa de seus poderes, algo que ele renega, porque não acredita que os poderes podem lhe trazer benefícios. Os principais acontecimentos mostrados no filme de Cronenberg aparecem aqui: Johnny tendo a visão da casa da enfermeira pegando fogo; e a perseguição ao assassino. Essa é, na minha opinião, a melhor parte da história, porque dá um toque de suspense e tensão que prendem o leitor e o deixam arrepiado. Toda a investigação é muito bem escrita, além dos momentos anteriores, que mostram o assassino agindo em Castle Rock. Enquanto eu lia toda essa sequência da investigação, eu pude visualizar o que está no filme de Cronenberg, e isso foi muito legal, porque eu já conhecia aquela história, mas do ponto de vista do filme; agora, só precisaria conhece-la do ponto de vista do próprio autor, o mesmo vale para a revelação e a derrota do assassino. E da mesma foram que Cronenberg, King entrega uma cena sangrenta.

 

Na segunda parte do livro, King descreve a rotina de Johnny como professor, algo que ele faz após se recuperar do acidente; tal rotina é relatada com base na relação dele com um garoto rico que tem dificuldades em aprender, mais ou menos como acontece no filme de Cronenberg, mas aqui a coisa é mais extensa. A relação entre os dois é muito boa de acompanhar, e quando o rapaz consegue se destacar em suas atividades, é difícil não se ficar contente. Além da relação entre os dois, o autor também separa um tempo para dedicar a obsessão de Johnny por Stillson, principalmente após conhece-lo em um comício, e ter uma visão, assim como acontece na adaptação de Cronenberg. King separa um capitulo extenso para contar a história de vida do antagonista, destacando sua personalidade perigosa, algo já presente logo em sua primeira aparição no prólogo, naquela cena horrível.

 

Sobre as novas previsões de Johnny, ambas acontecem em momentos chaves. A primeira, com Stillson, acontece durante o comício do político, e assim como no filme, Johnny prevê o fim do mundo. E a segunda, envolvendo o garoto, acontece em sua festa de formatura, e o professor prevê um inferno literal, o que provoca pânico nos presentes, e rende uma auto-homenagem metalinguística bem legal, que me pegou de surpresa.

 

E o capítulo sobre a vida de Stillson também merece nota, porque é tudo escrito com riqueza de detalhes impressionante, que não fica muito maçante.

 

Além de contar como o mundo mudou ao redor de Johnny, King também faz uso de figuras reais, como jornalistas e políticos, relatando, inclusive, o encontro do protagonista com um candidato real que acabou vencendo as eleições da época.

 

Ainda sobre a previsão de Johnny a respeito do garoto. Durante a leitura, eu pude notar semelhanças – terríveis semelhanças – com o famoso incidente da boate que ardeu em chamas em 2013, que ganhou a atenção não apenas do Brasil, mas do mundo inteiro. Não sei se quem já leu o livro teve a mesma impressão, mas vou deixa-la aqui, fique à vontade para concordar ou não.

 

E conforme mencionei, Johnny também dedica seu tempo a descobrir informações a respeito de Greg Stillson, algo que ele faz de maneira obsessiva. E no final, quando Johnny decide fazer alguma coisa a respeito – quem já leu o livro ou viu o filme sabe do que estou falando – King nos presenteia com momentos de tensão extrema, que nos provocam arrepios, pelo menos para mim foi assim.


E na última parte do livro, King relata o que aconteceu com os personagens após o comício de Stillson em Phoenix, por meio de relatos, inquéritos e cartas.

 

Antes de encerrar, um pouco mais sobre o antagonista. King praticamente transforma Stillson em um super-homem, que anda por aí acompanhado de capangas armados até os dentes, a maioria, membros de gangues de motociclistas, talvez inspirado naquela notícia que os Rolling Stones – ou outra banda de rock – iam contratar os Hell’s Angels para serem seus seguranças. Existe também o rumor que King de certa previu a candidatura de Donald Trump para presidência dos EUA, o que de fato ocorreu, visto que os feitos de Stillson se assemelham ao que Trump propagou durante seu mandato. Se isso é verdade ou não, talvez nem o próprio autor saiba. Já eu consegui ver paralelos assustadores com a atual situação política do Brasil – não vou entrar em detalhes, porque isso aqui não é sobre esse assunto.

 

E claro, durante a leitura, eu não tive a menor dificuldade de visualizar Johnny e os outros personagens interpretados pelos atores do filme de Cronenberg, Johnny principalmente, mais durante o início do filme, antes do acidente.

 

Este é um dos primeiros livros do Mestre ambientados na cidadezinha de Castle Rock, cenário recorrente em suas histórias e romances.

 

Em 1983, conforme mencionado, recebeu uma excelente adaptação para o cinema dirigida por David Cronenberg, e estrelada por Christopher Walken, Herbert Lom, Brooke Adams, Tom Skerrit e Martin Sheen.

 

Enfim, A Zona Morta é um excelente livro de Stephen King. Mais uma vez, o autor se mostrou um excelente contador de histórias, com sua habilidade ímpar. O autor conseguiu criar cenas verdadeiramente tensas e trágicas, misturando os temas com maestria, além de contar a história do Estado Unidos com detalhes dignos de nota. Um verdadeiro clássico de sua bibliografia.


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segunda-feira, 5 de abril de 2021

A NOITE DOS DEMÔNIOS (1972). Dir.: Giorgio Ferroni.

 

NOTA: 10



É incrível a variação que existe nas histórias de vampiros. Desde que surgiram no cinema, tivemos uma variedade incrível do subgênero, passando por grandes obras, clássicos obrigatórios, filmes notáveis, medianos e grandes bombas. Eu mesmo já tive contato com muitos desses filmes e posso dizer que, mesmo já tendo visto praticamente tudo, eu ainda me surpreendo com o que aparece de vez em quando.

 

A NOITE DOS DEMÔNIOS (1972), do diretor italiano Giorgio Ferroni é um dos exemplos de grandes obras do gênero. É um filme belíssimo, que, mesmo sendo contemporâneo, possui um forte aspecto gótico, e esse apenas um dos seus vários atrativos.

 

Esse é o tipo de filme de terror que não precisa ser feio para ser assustador; pelo contrario, um filme de terror pode, sim, ser lindo e ser assustador ao mesmo tempo, e exemplos disso não faltam, principalmente os filmes dirigidos pelo Maestro Mario Bava. Mas, vamos falar sobre este filme aqui.

 

Pois bem, devo dizer que a primeira coisa que me chamou a atenção nele foi justamente o seu aspecto gótico e interiorano, que, conforme comentei anteriormente, é algo que me chama muito a atenção. Eu gosto desse tipo de ambientação e clima num filme; faz com que eu me sinta bem, e deixa o filme ainda mais bonito. Realmente é o tipo de coisa que não vemos muito hoje em dia.

 

Outra coisa que acrescenta ao filme é sua trilha sonora. Assim como muitas da época, quase não temos aqui uma trilha pesada, comum nesse tipo de filme; pelo contrario, aqui a trilha é melancólica, mas muito bonita, o tipo de trilha que pode ser ouvida sozinha, sem precisar do filme. Outros pontos como a fotografia dessaturada, o figurino nostálgico e os efeitos especiais também contribuem para deixar o filme ainda melhor e mais bonito.

 

No entanto, conforme mencionado acima, este é um filme de vampiros. O roteiro é baseado na novela The Family of the Vourdalak, de Alekesy K. Tolstoy, escrita no século XIX. O Vurdalak é um vampiro que faz parte da tradição russa, e, segundo a lenda, tem o costume de sugar o sangue das pessoas que amou em vida. E é exatamente isso que acontece aqui. Tudo começa com uma maldição, que aos poucos, é transmitida aos membros da família, infectando um por um com sede de sangue. Mas não pense em encontrar vampiros com longas presas afiadas. Aqui não temos isso, somente a pele branca como papel e o uso da estaca de madeira no peito como arma. Não espere o uso de crucifixos, alho e morcegos, porque nada disso aparece. Além disso, eles podem andar livremente durante o dia. Mas esse é também um ponto positivo, uma vez que cada um cria vampiros do jeito que quiser, conforme disse o diretor John Landis num episodio da série History of Horror: quando se trata de criaturas de “fantasia” como vampiros e lobisomens e outros, não existem regras. E é verdade. Com isso, os autores podem ser criativos. E temos também a questão da maldição que é passada para os membros da família, aliados à superstição. Como disse em outra resenha, essa questão da superstição me atrai muito por causa do medo que os personagens sentem ao cair da noite.



E novamente, esse é um fator que faz deste um filme assustador. As cenas envolvendo os vampiros são as melhores possíveis, com o medo e tensão sendo construídos aos poucos, sem apelar para jump-scares e sangue em excesso. E aqui os vampiros são o que deveriam ser, criaturas sugadoras de sangue que matam suas vitimas com requintes de crueldade. Não estou dizendo que vampiros não podem ter remorso, do contrario, podem, sim; mas aqui nós não temos essa característica e podemos nos familiarizar com os vampiros tradicionalmente perversos. 

 

Antes de encerrar, devo dar um parecer sobre os efeitos especiais, criados pelo mestre Carlo Rambaldi. Quem está familiarizado com seu trabalho, sabe que ele não brincava em serviço, e foi responsável pelas mais extraordinárias criações do cinema fantástico. Aqui, mais uma vez, ele mostra seu talento ao criar cenas arrepiantes, com direito a corações arrancados, peitos perfurados e rostos derretendo. Um trabalho de mestre que não fica datado.

 

A Noite dos Demônios foi dirigido por Giorgio Ferroni, em sua segunda excursão no gênero. Doze anos antes, ele foi responsável pelo também excelente O Moinho das Mulheres de Pedra, um clássico do terror gótico italiano. Infelizmente, apesar sua considerável filmografia, o diretor só se aventurou no gênero com esses dois filmes, e A Noite dos Demônios foi seu ultimo trabalho na direção.

 

The Family of the Vourdalak foi adaptada para o cinema anteriormente em 1963, no também excelente As Três Máscaras do Terror, antologia dirigida pelo Maestro Mario Bava, no segundo segmento, estrelado por Boris Karloff, interpretando o único vampiro de sua carreira.

 

Foi lançado em DVD no Brasil na excelente coleção Vampiros no Cinema, da Versátil Home Vídeo, em versão original em italiano.

 

Enfim, A Noite dos Demônios é um belíssimo filme de terror. Uma historia de horror com toques interioranos e com forte aspecto gótico, mesmo sendo contemporâneo. Um filme arrepiante que prende a atenção do espectador com suas imagens poéticas e assustadoras. Um dos melhores filmes de vampiro de todos os tempos, e um clássico do terror gótico italiano. Maravilhoso. Excelente. Altamente recomendado. 



Créditos: Versátil Home Vídeo


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