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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

CONTOS DO ALÉM (1972). Dir.: Freddie Francis.

 

NOTA: 8



Desde sua fundação, em 1962, a Amicus tornou-se um dos maiores estúdios de cinema britânicos de todos os tempos, rivalizando com a Hammer Films. Porém, ao contrário da Hammer, o estúdio tornou-se especialista em produzir antologias de horror, apesar de lançar outros filmes, a maioria voltados para o horror. Ao total, foram sete antologias, todas maravilhosas.

 

Em 1972, o diretor Freddie Francis lançou CONTOS DO ALÉM, adaptação das histórias de horror publicadas pela EC Comics nos anos 50. Pois bem, conforme mencionado acima, esta é mais uma das antologias da Amicus, e mais uma vez, o estúdio conseguiu entregar um ótimo resultado.

 

Como todos os filmes do gênero, o longa é divido em segmentos, aqui apresentados por um monge misterioso dentro de uma cripta, mais ou menos como seria feito na antológica série de TV da HBO.

 

O primeiro deles, ...And All Through the House fala sobre uma mulher que mata seu marido na véspera de Natal a fim de receber o dinheiro de seu seguro de vida. Porém, ela não sabe que um maníaco vestido de Papai Noel está a solta e está rondando a casa.

 

No próximo segmento, Reflection of Death, um homem abandona a família para fugir com sua amante; no entanto, eles sofrem um acidente, e o homem consegue escapar e descobre que sua esposa está casada com outro homem. As coisas tornaram-se ainda mais sinistras quando ele reencontra sua amante, que também sobreviveu ao acidente.

 

Em Poetic Justice, o mais triste de todos, um jovem rico tenta se livrar de seu vizinho idoso, a fim de expandir sua propriedade. Para isso, ele passa a atormentá-lo das maneiras mais cruéis, culminando em um desfecho trágico para o vizinho. Mas, ele não sabe que o mesmo voltará para fazer justiça.

 

No penúltimo, Wish You Were Here, um casal descobre que está a ponto de declarar falência, então a esposa faz três pedidos a uma estátua de Hong Kong, mal sabendo das terríveis consequências.

 

O segmento final, Blind Alleys é sobre um oficial do Exército que consegue emprego como diretor de uma clínica para cegos. No início, ele promete realizar mudanças na instituição, mas os poucos, vai mostrando seu verdadeiro lado ganancioso, o que poderá lhe custar muito caro.

 

Como podem ver, aqui temos uma antologia bem simples, com histórias curtas, com poucos personagens e que vão direto ao ponto; ou seja, uma estrutura típica do gênero.

 

Pois bem, cada uma das histórias tem seu próprio mérito, e conseguem provocar calafrios sem o menor esforço. Na primeira, temos como trilha sonora as musicas clássicas da época do Natal, enquanto a protagonista realiza seus atos maliciosos; na segunda, temos o mistério do homem que nunca mostra o rosto, então somos brindados com cenas em PDV; na terceira, não temos a trilha sonora; na penúltima, a própria figura da estátua é um espetáculo sinistro; e por fim, na última, os próprios personagens contribuem para nos dar calafrios. E o resultado funciona.

 

Eu já mencionei que a Amicus produziu ótimas antologias, e esta aqui é uma delas, no entanto, devo salientar que nem todas as histórias me agradam. Uma delas é a terceira, Poetic Justice, onde o personagem do grande Peter Cushing sofre horrores nas mãos de seu vizinho rico. Tudo que acontece com ele ao longo da história é muito triste, que chega a cortar o coração, e as maldades do rapaz vão aumentando até que o velhinho não aguenta mais... E na última, o cão do personagem também sofre nas mãos dos cegos, assim como eles; mas, pessoalmente, eu fico mais triste com o que acontece com o cachorro. Essas duas histórias não me agradam nem um pouco, e tiram um pouco do prestigio do filme para mim. Em compensação, as outras são muito boas que tiram um pouco do gosto amargo da experiência.

 

Aliás, esse é um dos pontos que servem para diferenciar as antologias do estúdio entre si; basta apenas pensar em uma ou mais de uma historias chaves, e fica fácil não se perder.

 

Bom, o filme foi dirigido por Freddie Francis, um dos grandes nomes do terror britânico, tendo trabalhado tanto na Amicus quanto na Hammer, e aqui ele faz um ótimo trabalho. As atuações também são muito boas, principalmente do grande Peter Cushing, que passa a aura de bom velhinho bom facilidade, e do ator Ralph Richardson, como o Guardião da Cripta; o restante do elenco também está muito bem, mas o meu credito vai para esses dois atores.

 

Contos do Além também apresenta uma boa sacada no penúltimo segmento, que nada mais é do que uma variação do conto A Pata do Macaco, de W.W. Jacobs, visto que o item em questão concede três desejos aos personagens, desejos que também trazem consequências terríveis. O próprio conto é mencionado no segmento, o que contribui para deixa-lo ainda mais legal. Eu já pensei em escrever uma história com essa temática, visto que o conto de Jacobs inspirou tantas variações além desta.

 

Além da citação ao conto de Jacobs, aqui temos também uma das histórias mais conhecidas do universo de Contos da Cripta: a historia do Papel Noel perverso, que acabou fazendo parte da primeira temporada da antológica série de TV da HBO.

 

Pois bem, conforme mencionado aqui, Contos do Além é uma das melhores antologias da Amicus, do tipo que o estúdio sabia fazer.

 

Foi lançado no Brasil em DVD pela Obras-Primas do Cinema na coleção Amicus Productions em versão remasterizada.

 

Enfim, Contos do Além é um ótimo filme. Uma antologia clássica, com seus pequenos segmentos arrepiantes, que também fazem o espectador refletir. Ótimas atuações, aliadas a uma direção afiada, fazem deste um dos melhores exemplares do gênero. Altamente recomendado.


Créditos: Obras-Primas do Cinema



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sexta-feira, 26 de março de 2021

EVANGELHO DE SANGUE (Clive Barker).

 

NOTA: 8



Não há duvidas que o universo de Hellraiser, criado pelo escritor Clive Barker, é um dos mais ricos do terror. Em Hellraiser, o autor deu uma pequena amostra de como esse universo funciona, apresentando aquele que seria o personagem principal desse universo: o Cenobita Pinhead. Além disso, Barker mostrou que não estava para brincadeira, e criou uma historia banhada em sangue e sexo.

 

EVANGELHO DE SANGUE é mais uma historia do autor ambientada nesse universo, e também serve como uma espécie de prequel dos eventos narrados em Hellraiser. Aqui, o autor apresenta os dois principais elementos do universo de Hellraiser: a caixa de Lemarchand e o próprio Pinhead, descrevendo ambos nos mínimos detalhes, ao contrario do que fizera no livro anterior. Mas não é só isso.

 

Em Evangelho de Sangue, Barker mostra mais uma vez que é um escritor afiado, com uma escrita que penetra na mente do leitor com uma força impressionante. As descrições que ele faz dos cenários é muito bem feita, e não fica difícil para o leitor imaginá-los em sua mente; o mesmo vale para as cenas ambientadas no Inferno, quando Harry e seus amigos vão resgatar Norma. Não sei como foi para os outros leitores, mas eu consegui visualizar aquele Inferno como um lugar de fantasia, com um tom branco ou cinza, ou invés do tradicional vermelho. Barker o descreve quase como uma espécie de jardim morto, com tudo que tem direito. O mesmo vale para os demônios. Eles são descritos como criaturas humanoides, mas sem os chifres e asas de morcego. Sem duvida, uma visão diferente e original.

 

E da mesma forma que fizera no livro anterior, Barker começa a historia com os dois pés no peito, apresentando cenas grotescas de violência e sexo já no prologo. E o restante da historia vai pelo mesmo caminho. Durante toda a leitura, o leitor não é poupado de cenas dignas de pesadelos, com toques grotescos de violência, e principalmente, sexo. Isso mesmo. Barker mistura sangue e sexo em todos os momentos, de uma forma assustadoramente natural, e cada vez que isso acontece, é chocante, e o autor não mostra pudor nenhum, principalmente quando descreve o que as criaturas estão fazendo com seus “membros” – para usar um termo “leve”. É praticamente um terror pornográfico.

 

E falando em terror, novamente, esqueça os torture porn da vida: as cenas de horror descritas por Barker são dignas de pesadelo, com o sangue escorrendo aos montes; claro, não chegam aos pés do livro anterior, mas conseguem ser quase tão grotescas quanto – não há outra palavra para descrever. Com certeza, não é tipo de leitura recomendada para leitores de coração fraco.

 

Os personagens humanos são muito bons e quase parecem pessoas reais, com a diferença que todos têm ligação com o sobrenatural, principalmente o protagonista, o detetive Harry D’Amour. Desde que ele surgiu na historia, eu o visualizei como um detetive particular de filme noir, com o casaco e o chapéu. Aliás, as cenas de investigação do personagem quase parecem com cenas de um filme noir, daqueles clássicos, estrelados por Humphery Bogart. Os outros personagens também são bem descritos, cada um com sua característica própria.

 

No entanto, apesar de contar uma historia muito boa, Barker cometeu alguns erros. O primeiro deles acontece no prologo, quando ele apresenta um demônio-fêmea que nasceu em uma cena grotesca. Eu achei que aquela personagem seria relevante para a historia, mas ela simplesmente desaparece. Eu pelo menos não consegui reencontrá-la. Outro ponto negativo acontece no Inferno, quando Pinhead comete um ato de violência contra Norma, ato esse que não faz parte de seu repertorio. E eu também achei a historia de Lúcifer incompleta.

 

Aliás, esse é outro ponto. Barker criou um universo tão original para os Cenobitas, com um deus próprio, o Leviatã e também o Engenheiro, e aqui, ele apresenta justamente Lúcifer como líder do Inferno. Apesar de descrever uma batalha épica entre ele e Pinhead, eu achei que o autor poderia ter utilizado outra criatura para comandar o Inferno, até porque, como eu disse, a descrição do Inferno não combina com a imagem clássica que temos dele.

 

No entanto, devo dizer que o autor criou, sem duvida, uma batalha épica. Ele mostra que Pinhead está disposto a tudo para tomar o poder e não tem medo de derrubar Lúcifer, mesmo que para isso, tenha que derrubar o próprio Inferno. Toda essa sequencia da luta entre eles é espetacular, com direito a armadura e sangue, muito sangue. E quando Lúcifer ressurge, a atmosfera épica continua. E no final, temos quase um Pinhead arrependido do que fez. Muito bom.

 

E aqui também temos a Caixa de Lemarchand, que abre o portal para o Inferno dos Cenobitas. Como mencionado acima, quando Barker a introduz, faz questão de descrevê-la nos mínimos detalhes, descrevendo até a musiquinha que ela produz ao ser aberta. Por um momento, eu até havia me esquecido dela, mas quando ela retorna, é uma surpresa. E ainda falando do universo de Hellraiser, aqui temos também as clássicas correntes com ganchos; e elas fazem um estrago. Sério.

 

Bem, seja como for, o fato é que Evangelho de Sangue é um livro muito bom; não chega aos pés de Hellraiser, mas, se me perguntassem se merecia uma adaptação para o cinema, eu diria que sim, dependendo de quem assumisse as rédeas.

 

Enfim, Evangelho de Sangue é um livro muito bom. Uma historia épica de terror com toques grotescos de sangue e sexo. A escrita de Clive Barker prende o leitor com suas cenas dignas de pesadelo. Uma viagem literal ao Inferno, onde poucos saem com vida. O reencontro com Pinhead, o principal personagem do universo de Hellraiser. Um livro sangrento e arrepiante. Recomendado.



 

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quarta-feira, 1 de julho de 2020

CARRIE, A ESTRANHA (Stephen King).


NOTA: 10



CARRIE, A ESTRANHA
CARRIE, A ESTRANHA é um Clássico de Stephen King. Seu romance de estreia, até hoje, é uma de suas melhores obras, e um livro relevante e atual.

Primeiro, é importante dizer que, muito mais que um livro de terror, Carrie é um livro sobre bullying. É um assunto muito presente na narrativa, e que sempre é alvo de discussões, principalmente quando acontece alguma tragédia em nossa sociedade. Sempre que vemos alguma noticia sobre um massacre escolar, acabamos descobrindo que o responsável cometeu o crime motivado por uma coisa: raiva acumulada por anos de bullying no ambiente escolar; raiva que explodiu de forma implacável. E é por isso que a questão do bullying deve ser trazida a tona, para talvez evitar que tais tragédias aconteçam. Então, no fundo, é justo dizer que Stephen King escreveu um livro sobre bullying nas escolas, e as consequências que ele traz. Acredito que seja a melhor maneira de definir o livro.

Pois bem, mudando o foco para a escrita do livro, digo o seguinte: já em seu livro de estreia, Stephen King soube criar uma historia excelente, perturbadora e apavorante. Seu texto é brilhante, escrito de uma forma simples, mas que prende o leitor até o final. Já comentei em outras resenhas que esse é o brilhantismo do autor, sua capacidade de criar enredos e personagens cativantes, que pegam o leitor pela mão e atiçam sua imaginação. Não é difícil imaginar como são aqueles personagens e aqueles cenários, porque eles são, realmente, criveis. É o tipo de coisa que somente grandes contadores de historias conseguem fazer, e sempre irei tratar disso quando fizer resenha de algum livro de Stephen King.

Outra coisa que torna a narrativa interessante é a forma como o autor a compôs. Ao invés de optar por algo linear, o autor resolveu conta-la em tempos diferentes, oscilando entre o passado e o presente, utilizando trechos de documentos sobre o fenômeno da telecinesia – a capacidade de mover objetos com a força do pensamento – e entrevistas sobre a tal Noite do Baile, evento que abalou a cidade onde a história se passa. Esses trechos de documentos científicos e entrevistas são muito interessantes e bem realistas; em certos momentos, eu imaginava se tudo aquilo existia mesmo. Um trabalho magistral.

Carrie é também uma historia brutal. As cenas da menina com sua mãe são arrepiantes, e a tortura psicológica ao qual a protagonista é submetida é muito pesada, e chega a ser triste ler essas passagens; é quase como se estivéssemos lá, vendo tudo aquilo, mas incapazes de agir. Eu já tive essa impressão na primeira vez que li o livro, e nessa releitura, a coisa não foi diferente. São cenas dignas de pesadelos.

Conforme mencionado acima, o principal evento da historia é a Noite do Baile, um evento muito comentado na narrativa, seja pelos alunos, seja pelos cientistas que estudaram o caso de Carrie depois. Muito bem, quando o autor finalmente o apresenta, a gente já tem uma vaga ideia do que vai acontecer, porque é citado nos trechos de estudos científicos e entrevistas, e o que aconteceu não foi nada bom; e quando é revelado o ocorrido, é o momento em que a historia se transforma numa verdadeira historia de horror, graças à Carrie e seus poderes. Ela é terrivelmente humilhada por uma das alunas, e decide se vingar. E sua vingança é terrível, atingindo seus colegas na Noite do Baile, metade da cidade, e sua mãe. Ela não poupa ninguém, e destrói tudo em seu caminho. Também não foi difícil imaginar toda a destruição, muito menos nos efeitos que isso causou na população. Para resumir, as pessoas nunca mais foram as mesmas depois disso tudo. Impressionante.

Outra coisa que podemos dizer sobre Carrie, é que é uma historia sobre o sangue. Ele está presente na narrativa do começo ao fim, e King não economiza, principalmente na sequencia da vingança de Carrie. O autor literalmente dá a ela um banho de sangue, e não a poupa disso. É sério, é arrepiante o que o autor faz com ela, com direito a facada, partes do corpo em carne viva, e sangue de porco. Um verdadeiro banho de sangue.

Com certeza o maior impacto da narrativa é a cena do vestiário, quando Carrie tem sua primeira menstruação. É uma cena que já surge com os dois pés na porta, uma cena forte e muito pesada, com a protagonista sofrendo humilhações das colegas, porque não sabia o que estava acontecendo com seu corpo, porque a mãe nunca lhe contou sobre isso. Tal selvageria foi muito bem retratada na excelente adaptação dirigida por Brian de Palma.

Devido ao seu conteúdo referente ao bullying, Carrie é, sim, um livro atual e relevante para discussões.

Em 1976, dois anos após sua publicação, recebeu uma excelente adaptação para o cinema dirigida por Brian de Palma, e estrelada por Sissy Spacek e Piper Laurie, nos papeis de Carrie e sua mãe, respectivamente.

Para finalizar, talvez não seja novidade que o livro quase não viu a luz do dia, porque Stephen King não se empolgou com o que estava escrevendo, e jogou as primeiras paginas no lixo. Felizmente, sua esposa recolheu as mesmas, deu uma lida e o incentivou a continuar, porque havia gostado. O resto é historia.

Enfim, Carrie, a Estranha é um clássico absoluto de Stephen King. Uma historia brutal de violência, tortura e sangue, contada com maestria. O autor consegue prender a atenção do leitor desde a primeira pagina, e não o poupa de situações pesadas e chocantes. Um livro construído de forma brilhante, cuja simplicidade é sua maior característica, e que cona com cenas verdadeiramente assustadoras e dignas de pesadelos. Uma historia de tirar o folego. Um livro excelente, e um dos maiores de Stephen King. Brilhante. Assustador. Maravilhoso. Altamente recomendado.



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segunda-feira, 1 de junho de 2020

A MANSÃO DA MEIA-NOITE (1983). Dir.: Pete Walker.


NOTA: 9



A MANSÃO DA MEIA-NOITE (1983)
A MANSÃO DA MEIA-NOITE é um dos melhores filmes de casa mal assombrada que já tive o prazer de conferir.

Lançado em 1983, foi produzido pela extinta Cannon Group, Inc., na época já sob a tutela da dupla Menahem Golan e Yoran Globus, que assumiram as rédeas em 1979. Mas, além de ser um dos melhores filmes de casa mal assombrada, é também o filme que marca a reunião dos quatro astros da segunda fase do horror clássico: Christopher Lee, Peter Cushing, Vincent Price e John Carradine. Se fosse só por isso, o filme já merecia destaque. Mas não é só por isso.

Do meu ponto de vista, o filme pode ser também um dos últimos – senão o último – representantes do Cinema de Terror Gótico, visto que a ambientação contribui para isso.

Outra coisa que também torna este um filme digno de nota é sua narrativa, que foge completamente da narrativa de casa mal assombrada – justamente por não conter nenhum fantasma – e brinca também com narrativa de mistério e assassinato. E todos esses elementos combinados, aliados ao roteiro sagaz, contribuem, e muito, para o excelente desempenho do filme.

Como em todo filme de casa mal assombrada, a ambientação é muito importante, e aqui, todas as características estão presentes. A Mansão é um lugar velho, abandonado, onde as teias de aranha tomaram conta, cobrindo as paredes, as janelas e as escadas; os moveis são cobertos por panos e lençóis, e a poeira parece saltar deles sem a menor dificuldade; e ratos andam pelos cômodos a esmo. Ou seja, o clássico cenário para um filme do gênero, do jeito que acontecia nos filmes de terror de antigamente. Perfeito.

E como representante do Terror Gótico, o clima é cheio de mistério, até mesmo antes do protagonista, o escritor Kenneth Magee, chegar à Mansão para escrever seu livro. A cena da estação de trem é digna de provocar arrepios, principalmente quando uma velha surge e desaparece logo depois. E o mistério perdura a medida que o filme avança, justamente por causa dos personagens que vão entrando na casa, personagens esses, interpretados pelos clássicos Mestres do Terror. O maior mistério da narrativa é a face de um descendente da antiga família que morou na Mansão, cujos atuais representantes, interpretados pelos astros, estão reunindo para um jantar. Tudo o que se sabe é que ele está escondido em algum lugar e está eliminando um por um. É também uma historia de mistério com as mortes acontecendo das maneiras mais assustadoras e inesperadas.

Ainda sobre a ambientação, outra sensação que o filme passa é a claustrofobia, também muito comum no gênero. Mesmo não contando com muitos corredores apertados e quartos selados, a sensação é transmitida, uma vez que os personagens estão presos e não podem sair. É também o tipo de cenário que faz parte do gênero.

E também sobre o roteiro. Além de entregar cenas verdadeiramente assustadoras, existem também algumas cenas que beiram ao cômico, principalmente quando os quatro astros estão juntos em cena; e para finalizar, entrega dois plot-twists eficientes.

Mas nada disso se compara a ver os quatro astros do Terror juntos. De verdade. É muito lindo vê-los juntos no mesmo filme, interagindo como grandes amigos que eram. É impossível separar o melhor, porque todos estão perfeitos em seus papeis, e quando eles surgem, a emoção é ainda maior. Com toda certeza não poderia haver elenco melhor. Os outros atores, principalmente Desi Arnaz Jr. – que, aliás, está idêntico ao pai –, também estão muito bem e entregam performances convincentes. Mas, novamente, os quatro veteranos do terror carregam, e maravilhosamente, o filme nas costas.

O curioso é que a dupla de produtores queria fazer um filme de terror com Bela Lugosi e Boris Karloff, mas não sabiam que ambos já haviam falecido.

No entanto, apesar de ser belíssimo ver os veteranos do horror juntos, é também muito triste, porque, infelizmente, todos já se foram, e levaram consigo, o legado do cinema de horror clássico. John Carradine faleceu em 27/nov/1988; Peter Cushing, em 11/ago/1994; Vincent Price, em 25/out/1993; e Christopher Lee em 7/jun/2015. Eu apenas acompanhei a noticia do falecimento de Christopher Lee, e foi um grande choque, receber a noticia.

É inquestionável a importância de todos eles para o Terror, e cada um, a sua maneira, deixou sua contribuição para o gênero e deixou seu nome gravado para sempre.

Foi lançado em DVD por aqui na coleção Obras-Primas do Terror Vol.7, da Versátil Home Vídeo, em versão restaurada.

Enfim, A Mansão da Meia-Noite é um filme excelente. Um dos melhores filmes de casa mal assombrada, e um dos últimos representantes do Terror Gótico. Uma historia cheia de mistério e pavor, contada de maneira eficiente. Um filme que contou com os quatro veteranos do terror em seu elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Vincent Price e John Carradine. A reunião dos astros é um chamariz para todos os fãs do terror. Assustador. Arrepiante. Divertido. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo



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sexta-feira, 1 de maio de 2020

A GUERRA DOS MUNDOS (1953). Dir.: Byron Haskin.


NOTA: 9.5



A GUERRA DOS MUNDOS (1953)
A GUERRA DOS MUNDOS é um dos maiores clássicos do cinema, e a segunda melhor adaptação de H.G. Wells. 

Lançado em 1953, até hoje, é reconhecido como um dos melhores exemplares do gênero de ficção científica, tendo influenciado diversos filmes posteriores. E mesmo hoje em dia, mais de sessenta anos após seu lançamento, ainda é um filme espetacular, principalmente por causa dos efeitos especiais – mais detalhes adiante.

Para mim, o faz deste um filme tão especial, é a nostalgia; não nostalgia por ter vivido naquela época (porque eu não vivi naquela época), mas sim por ver como o cinema era antigamente, sem efeitos digitais mirabolantes. Mesmo hoje em dia, é um filme que, do meu ponto de vista, não envelheceu mal e continua muito bem feito. Mas não é só isso. É interessante assistir aos filmes do passado e prestar atenção nos métodos de realização dos mesmos. Comparando com hoje, tudo parece muito mais simples e sem preocupação, chegando até ser divertido, principalmente nos filmes de gênero. Mas acima de tudo, eles passavam credibilidade. Conforme mencionei na resenha de O Monstro do Mar Revolto, era possível acreditar que aqueles personagens eram reais, e aqui acontece a mesma coisa, principalmente com cientistas e militares. E boa parte disso se deve ao roteiro: não existem muitos diálogos expositivos, ou explicações e teorias que se repetem ao longo da narrativa, pelo contrário; os diálogos são de fácil compreensão e não se repetem, o que os torna mais criveis. Você acredita que são cientistas de verdade e militares de verdade, justamente porque não precisam de um roteiro explicativo; é bem realista. É o tipo de coisa que faz falta no cinema atual.

Apesar do livro de Wells se passar na Inglaterra Vitoriana – época em que o autor viveu – o roteiro é ambientado na Califórnia dos anos 50, possivelmente por questões orçamentais; mas isso não é um problema. O filme faz parte de uma espécie de “realidade alternativa”, onde o material-base para a adaptação não existe, o que é bem interessante e bizarro, até. Além disso, o cinema de ficção cientifica da época sempre contou com filmes contemporâneos, então, uma adaptação fiel da obra, ambientada era Inglaterra Vitoriana provavelmente seria estranho; então a historia foi alterada para a realidade da época. É um dos melhores exemplos de adaptação que funcionam, porque capturam o espirito do material-base e não exatamente a época em que o mesmo foi escrito. Sem contar que o filme possui aquele aspecto do cinema sci-fi dos anos 50, o que contribui para a nostalgia.

Com certeza, um dos fatores que tornam A Guerra dos Mundos um filme espetacular, são os efeitos especiais, principalmente o design das naves dos Marcianos. Segundo o colecionador e historiador de cinema Bob Burns, o diretor de arte Al Nozaki tinha a ideia de criar um design diferente, porque todas as naves vistas até então, tinham quase sempre o mesmo design. Então, Nozaki apresentou um design semelhante à uma arraia-jamanta, cuja a arma de raios era acoplada em cima da nave e tinha aparência de cobra. O resultado foi um dos melhores e mais originais designs de discos voadores da história do Cinema. E de fato, as naves – ou maquinas de guerra, como são chamadas – são a melhor coisa do filme, e roubam a cena quando estão em tela. É impossível não se fascinar por elas, com sua cor escura e luzes verdes, principalmente quando aparecem voando e destruindo a cidade com seus raios de calor. O design dos marcianos é também um ponto a favor. Ao invés de cria-los a partir da concepção original de Wells, os cineastas apresentaram os extraterrestres como seres bípedes, com dois longos braços e três olhos. Também um design original e memorável. Graças aos efeitos especiais, o filme foi premiado com um Oscar® em 1954.


Este filme é dividido em três partes: o primeiro ataque dos Marcianos; o contra-ataque dos militares, e a evacuação e destruição de Los Angeles, cada uma com cenas memoráveis. Não direi muito sobre elas para não dar spoiler. Vou apenas falar da terceira parte. As melhores cenas da terceira parte são a evacuação e a destruição de Los Angeles. A cena da evacuação é uma das melhores que já vi, porque é muito bem filmada, inclusive, pode até ser utilizada como referencia para esses tempos que estamos vivendo, onde a humanidade está mais preocupada em salvar a própria pele do que ajudar o próximo. Realmente uma sequencia impressionante. A destruição de Los Angeles não fica para trás, com as naves voando por entre os prédios e destruindo os mesmos com seus raios de calor; em meio a isso, o protagonista correndo pelas ruas desertas, procurando a mocinha. Um perfeito cenário de apocalipse.

Uma curiosidade sobre as naves dos Marcianos. O diretor Byron Haskin reaproveitou as mesmas em seu filme Robson Crusoé em Marte, lançado em 1964.

A Guerra dos Mundos foi produzido por George Pal, considerado um dos mais importantes cineastas de ficção cientifica, tendo produzido também, a adaptação de “A Máquina do Tempo”, lançada em 1960 e estrelada por Rod Taylor, também considerada um marco do cinema de ficção cientifica. Foi lançado em Agosto de 1953, e tornou-se um sucesso de critica e de bilheteria. Até hoje, é considerado um dos maiores filmes de ficção cientifica de todos os tempos. Em 2011, foi selecionado para preservação no National Film Regisrty pela Biblioteca do Congresso dos EUA. Os Marcianos ocuparam a 27ª na lista dos 50 Maiores Vilões do Cinema do AFI (American Film Institute).

Em 2005, o diretor Steven Spielberg dirigiu uma nova adaptação do livro de Wells, estrelada por Tom Cruise.

Em 2020, a Criterion Collection anunciou o lançamento do filme em Blu-ray, em versão restaurada em 4k. Vamos aguardar. Infelizmente, é certo que essa versão nunca será lançada aqui no Brasil. O filme chegou a ser lançado em DVD no Brasil, mas atualmente está fora de catalogo.

A Guerra dos Mundos é, sem duvida, um dos maiores filmes de ficção cientifica de todos os tempos. Uma historia muito bem contada, em todos os sentidos. Um filme que até hoje, é motivo de referencia para cinéfilos e cineastas. Um épico da ficção cientifica e um clássico do gênero, e uma das maiores adaptações de H.G. Wells. Excelente.

Altamente recomendado.










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sexta-feira, 10 de abril de 2020

HELLRAISER (Clive Barker).


NOTA: 10



HELLRAISER
HELLRAISER é um livro assustador, visceral, sangrento e excelente.

Escrito por Clive Barker nos anos 80, é um dos melhores livros de terror que já tive o prazer de ler. Eu havia comprado a minha edição – lançada pela DarkSide Books – em uma Bienal do Livro, há alguns anos, mas não tive a oportunidade de ler. Bem, já corrigi esse erro.

O livro é excelente. Uma obra assustadora e violenta, repleta de sangue e sexo, tudo combinado de maneira brilhante. Mas, na verdade, a historia não é nova para mim.

Eu já havia visto o filme algumas vezes, e realmente, é um clássico do terror. Porem, eu não sabia que o longa era baseado em um livro, achei que era um roteiro original de Barker – mesmo porque isso não é mencionado nos créditos. Só fui descobrir que Pinhead e sua turma surgiram na literatura quando a DarkSide lançou o livro aqui no Brasil, mais detalhes adiante. E não tive duvidas. Eu tinha que adquirir esse livro. Bom, dito e feito.

Conforme mencionei em outras resenhas, existem autores que não precisam escrever um calhamaço de mil páginas para contar uma boa historia; claro, existem aqueles que o fazem, mas ao meu ver, não contam nada – salvo exceções. Hellraiser é um exemplo de livro curto que tem muita historia para contar. E que historia.

Como foi meu primeiro contato com a obra literária de Clive Barker, não sei ao certo como ele aborda seus temas, ou qual a linguagem que ele utiliza para tal, mas, posso dizer o seguinte: Barker é um gênio. Esta é uma das historias de horror mais originais já criadas nos últimos tempos – tanto o livro quanto o filme – e uma das melhores também. Logo no primeiro capitulo, Barker foi ao ponto: apresentou o vilão da historia, contou sobre o que ele gosta e sobre quem ele é, e também apresentou os Cenobitas, os seres que habitam outra dimensão, e podem ser invocados pela Caixa de Lemarchand, um pequeno quebra-cabeça que possui um papel importante na historia. E também Barker não faz cerimonia, e mostra que a historia é visceral e repleta de conotações sexuais, isso já no inicio. A primeira vez que Frank usa a caixa e surge um dos Cenobitas, é apavorante; muito disso vale pela descrição. Barker descreve muito bem as ações e os cenários, e faz a gente que acreditar que tudo aquilo é real, além de tornar fácil a visualização de tudo.

O texto é visceral. Barker escreve as cenas de horror com grande maestria, e não fica difícil para o leitor fazer caretas enquanto lê o livro; caretas de nojo, mesmo. Eu cheguei a fazer algumas durante a leitura. E existe motivo. Não me lembro de ter lido algum livro com cenas de morte e tortura tão pesadas e violentas, muito mais do que os torture-porn da vida; corpos mutilados, ganchos, desmembramentos... Um prato cheio para os fãs do horror. Isso sem falar do conteúdo sexual. Esqueça 50 Tons de Cinza! Assim como o terror é visceral, o sexo, também. As cenas de sexo fazem qualquer livro adulto de hoje parecer historia de criança. Sério. Muito bem escrito.

Quem é fã de Hellraiser sabe que os filmes se resumem a um grupo de personagens: os Cenobitas, liderados pelo inesquecível Pinhead. Pois bem, quem já viu os filmes, sabe que eles foram apresentados no primeiro filme, lançado em 1987. E em toda sua gloria. Aqui, no livro, não tão diferente assim. Como mencionado acima, Barker apresenta um deles logo no primeiro capitulo da historia, mas só reserva espaço para eles brilharem novamente, mais adiante. Mas não tem importância. Mesmo sendo identificados pelo nome, é fácil saber quais Cenobitas estão presentes no livro. Eu acredito que sejam o Pinhead e a Fêmea, com base nos diálogos, muito parecidos com os diálogos do filme.

Os outros personagens também são muito bons, principalmente a Kirsty, que se tornou a “final-girl” do primeiro filme. Bem, assim como no filme, aqui ela está ótima, e poderia ser a protagonista da historia sem esforço, mas, eu acredito que quem protagoniza a historia de fato sejam o Frank e a Julia. Apesar de não aparecer muito, Frank é um personagem perturbador, tanto na forma humana, e quando retornada dimensão dos Cenobitas. Inclusive, eu acredito que ele volta muito pior da dimensão dos Cenobitas. O mesmo não pode ser dito de Rory, seu irmão, que, infelizmente, não é tão interessante, e é quase um personagem apagado. E, ao contrario do filme, aqui, Julia está ótima. Desde que surge pela primeira vez, ela não esconde sua personalidade: amargurada, arrependida de ter se casado com Rory, e completamente devota e submissa a Frank.

Sobre a edição lançada por aqui pela DarkSide, o seguinte. Como sempre, a editora caprichou no lançamento, e fez um trabalho excelente. O acabamento é maravilhoso, com todos os detalhes que remetem ao filme; a tradução está excelente, e a formatação também, e não atrapalha a leitura. Sem duvida, a DarkSide Books é uma editora que respeita e ama seus fãs, e traz sempre produtos de qualidade.

Como todos sabem, Clive Barker acabou adaptando seu livro para o cinema em 1987, um ano depois da publicação original. O filme é, sem dúvida, um Clássico do Terror, que deu origem a um dos personagens mais queridos do gênero: Pinhead.

Enfim, Hellraiser é, sem duvida, um excelente livro de horror. Uma historia visceral de sangue e sexo, combinados de maneira brilhante. Uma historia perturbadora e violenta, mas escrita com maestria. Uma das historias de horror mais originais que já li. Maravilhoso.

Altamente recomendado.





sexta-feira, 3 de abril de 2020

A HORA DO ESPANTO (1985). Dir.: Tom Holland.


NOTA: 9.5



A HORA DO ESPANTO (1985)
A HORA DO ESPANTO (1985) é, sem duvida, o filme de vampiro definitivo dos anos 80. Acredito que seja um jeito interessante de analisa-lo, uma vez que a década nos deu uma galeria de filmes definitivos de monstros clássicos. E este aqui é o representante máximo dos vampiros, ao lado de Vamp, A Noite dos Vampiros (1986) e Os Garotos Perdidos (1987).

Mas o que torna este um filme tão especial? Bom, devo dizer que o primeiro ponto é a nostalgia. Quem foi criança nos anos 90, com certeza já deve ter visto esse filme inúmeras vezes na televisão à noite; esse infelizmente, não é o meu caso, mas, guardo esse filme com muita nostalgia, porque tive a chance de assisti-lo numa época muito boa da minha vida. E foi uma das mais divertidas e assustadoras experiências que já tive. É incrível como ainda hoje, esse filme consegue ser divertido e assustador, cortesia da própria década de 80, que nos presenteou com inúmeras produções de horror trash, além de nos dar também o chamado “terrir”, produções que combinavam terror e comédia de maneira brilhante.

Não se engane. A Hora do Espanto não é uma produção trash; pelo contrario, é uma das mais bem-feitas produções de terror dos anos 80. Absolutamente nada parece falso ou mal feito. Tudo o que aparece na tela, foi criado com o orçamento disponível, e funciona muito bem. A maquiagem dos vampiros é muito boa, os animatrônicos também, assim como os efeitos visuais; tudo feito com aquele charme dos anos 80, que consegue ser muito melhor do que os efeitos especiais de hoje, e não envelhecem.

Mas, muito mais do que um filme de efeitos especiais, A Hora do Espanto é um filme que deu nova vida ao subgênero dos vampiros. O filme foi lançado no meio da década de 80, na febre dos filmes Slasher, que haviam recebido um novo personagem em sua galeria, o vilão Freddy Krueger, que estreou no cinema no anterior. Pois bem, da mesma forma que Freddy serviu como um sopro de originalidade ao Slasher, este aqui deu sopro de vida aos vampiros, que estavam muito ligados ao terror gótico dos anos 50, 60 e 70. O diretor Holland deu nova roupagem aos vampiros, transportando-os para os subúrbios americanos, onde, aparentemente, nada de horrível acontecia. E não foi só isso. Em seu roteiro, Holland fez uso dos utensílios clássicos usados para matar vampiros, como cruzes, alho e estacas no coração; porém aqui, a cruz tem um detalhe extra: ela só funciona se a pessoa tiver fé, caso contrario, é inútil. Muito bom. E há também a presença do lacaio humano.

Além disso, a maquiagem dos vampiros também sofreu mudanças: ao invés da pele pálida, das unhas longas, e caninos afiados, aqui, eles se transformam em verdadeiros monstros, passando por diferentes estágios até atingirem a forma final.  A primeira vez que eu vi o vampiro Jerry Dandrige na sua forma final, eu fiquei muito assustado porque é muito bem feita. O mesmo vale para os outros vampiros. O melhor deles é o amigo de Charley, que possui um visual muito legal.  

Os efeitos especiais e visuais também não ficam atrás. Como todo filme de terror dos anos 80, este aqui contou com efeitos práticos para criar as proezas que o roteiro pedia, e todas são muito bem feitas. Talvez para os mais exigentes, os efeitos pareçam ultrapassados, mas não para mim. Eu sou um grande admirador de efeitos práticos e é sempre um prazer vê-los na tela. O diretor tinha um belo time de profissionais a sua disposição e o trabalho é excelente. Lobos e morcegos animatrônicos, maquiagem e próteses, tudo muito bom e convincente.

Outro fator que o torna um filme excelente é a trilha sonora. Desde o tema musical, às canções que rolam durante a cena da discoteca, tudo é contagiante e deixa com vontade de dançar, principalmente a cena da discoteca. Toda iluminada com luz neon carregada, é o cenário perfeito de um filme dos anos 80. Todos ali se vestem de modo extravagante e brega, e dançam de forma exagerada. Com certeza, quem viveu essa época, sente a nostalgia batendo quando assiste.

Os personagens também são um trunfo. Charley, sua namorada Amy e seu amigo Evil Ed, são os típicos adolescentes americanos, que andam sempre juntos, e, apesar de ocasionais discussões, pode-se ver que serão sempre amigos. Mas os melhores são o vilão Jerry Dandrige, e o “Great Vampire Killer!”, Peter Vincent.  Dandrige é bonito, charmoso e sedutor, do tipo que atrai a atenção de todos. Interpretado de maneira brilhante pelo ator Chris Sarandon, ele é, com toda certeza, um dos melhores vampiros do cinema. Já Peter Vincent... Conhecido como “The Great Vampire Killer!”, o personagem é  uma grande piada. Ao invés de ser valente como aparenta no seu programa de TV, ele é um medroso sem tamanho, que foge ao primeiro sinal de ameaça. Mas mesmo assim, ele também se mostra um grande amigo para Charley, ajudando-o a caçar e exterminar os vampiros. Muito do carisma do personagem vem da atuação do ator Roddy McDowall, que nos anos 60, estrelou o Clássico O Planeta dos Macacos.

A Hora do Espanto foi lançado em Agosto de 1985, e tornou-se um sucesso de bilheteria, além de receber criticas e avaliações positivas. Atualmente, é considerado um clássico dos anos 80 e um dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos. Três anos depois, uma continuação foi lançada, desta vez, dirigida por Tommy Lee Wallace, novamente com Roddy McDowall e William Ragsdale no elenco.

Em 2016, um documentário sobre a produção do filme – e da sequencia – foi lançado em plataforma digital, com entrevistas com membros do elenco e equipe.

Enfim, A Hora do Espanto é um dos melhores filmes de terror dos anos 80. Contem tudo aquilo que o gênero pôde oferecer no período, torna-se melhor a cada revisão. É divertido, assustador, sangrento, sexy e apaixonante. Um dos Filmes Mais Assustadores de todos os tempos. Um dos maiores filmes de vampiro. Maravilhoso. 

Altamente recomendado.








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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

HALLOWEEN (2018). Dir.: David Gordon Green.


NOTA: 9.5



HALLOWEEN (2018)
Michael Myers está de volta. 40 anos depois de sua primeira aparição no cinema, e 20 anos desde a última – porque eu desconsidero completamente tudo que veio depois de Halloween H2O: Vinte Anos Depois, de 1998 – , ele está de volta.

E que retorno! HALLOWEEN é maravilhoso! É muito melhor do que esperava que fosse; é tudo aquilo que os fãs da franquia esperavam, e muito mais. Já na minha primeira conferida, pude ver que o filme cumpriu tudo que prometeu. É assustador, é sangrento, é tenso... Tudo que o filme original era. É um filme feito para os fãs da franquia; e feito com amor.

Tudo nesse filme funciona de maneira brilhante, desde o roteiro, passando pela direção, até as atuações, os efeitos especiais; tudo se encaixa perfeitamente, numa historia magistral, sem nenhum defeito e nenhuma ponta solta.

Devo confessar que, quando soube que um novo filme seria feito, fiquei empolgado, porque, como mencionei acima, desde 1998, Michael Myers e cia. não tiveram o tratamento que mereciam nas telas; pelo contrario, o personagem foi detonado e humilhado por cineastas que nada sabiam de sua mitologia. E isso é tudo que vou dizer a respeito das experiências lamentáveis pelo qual ele passou; não só ele, toda sua turma.

Mas, felizmente, isso foi consertado. O novo filme dá uma repaginada no personagem, mas sem tirar sua essência e sem alterar sua mitologia. Aqui, Michael continua o mesmo, a pura encarnação do Mal, sanguinário, selvagem, implacável. Não apenas o vilão que foi repaginado. Laurie Strode, a sobrevivente do primeiro filme, também foi reescrita. Agora, ao invés da adolescente inocente, virgem, do primeiro filme, aqui, ela se transformou em uma eremita, que vive sozinha em sua casa, afastada da cidade, cercada por armas e armadilhas, que ela mesma construiu, pois sabia que Michael retornaria um dia. Dito e feito. Michael escapou mais uma vez, e está pronto para recomeçar seu reinado de terror.

E da mesma forma que no Original, aqui ele executa sua arte com maestria. Desde o primeiro assassinato, Michael mostra que não está “enferrujado” pelo tempo; pelo contrario, continua uma maquina de matar, sem medo ou remorso. E como sempre, ele se mostra especialista na arte de matar, executando suas vitimas com selvageria e requintes de crueldade, tudo sem o menor remorso. Porém, aqui existe uma diferença. Se, no Clássico de John Carpenter não havia sangue, aqui a coisa é diferente. O sangue corre solto, mas não no estilo “torture-porn”, que infelizmente, tomou o gênero de terror. Pelo contrario, o sangue corre do jeito certo, sem exageros, sem muita sujeira, sem artifícios. E os métodos de Michael? Mais sobre isso adiante.

Esse é aquele tipo de filme que dá gosto de assistir, porque foi feito para os fãs. Não sei os outros, mas eu adoro o Michael Myers de antigamente, uma força da Natureza, o Mal encarnado, o assassino sanguinário; e aqui ele é tudo isso. Mas não é apenas isso que faz desse um filme feito com carinho. Todo o suspense e a tensão, presentes no primeiro filme, também aparecem aqui, desde o começo. Quando eu vi aquela cena de abertura, antes dos créditos iniciais, eu fiquei arrepiado porque é muito bem feita; gostei tanto que voltei umas duas vezes. Não se fazem cenas assim hoje em dia; e quando alguém consegue, é porque tem habilidade, e o diretor David Gordon Green tem.

Mesmo sem nenhuma experiência no gênero, ele se mostrou um excelente diretor de horror, e executou tudo com brilhantismo. Ele não apelou para câmeras tremidas, movimentos rápidos e bruscos; foi tudo feito com a câmera nas posições certas, com os movimentos certos, nos ângulos certos. A fotografia também fez bonito, principalmente nas cenas noturnas. As paletas de cores são ótimas, e combinam com as cenas, e o melhor, dão uma impressão de veracidade. E as cenas noturnas são belíssimas; ao invés da horrível paleta “verde musgo”, muito usada pelo diretor David Fincher, aqui nós temos paletas escuras, pretas, mas que fazem um belo contraste com as luzes das casas e das aboboras nas ruas.

Sobre os créditos iniciais, eu acho que são os melhores da franquia desde o quinto filme. Não apenas pela forma como eles surgem, mas também o que eles representam. Representam o ressurgimento da franquia. Eu vi em algum lugar que a regeneração da abobora na abertura, representa a regeneração da franquia. E é verdade, tanto que a tipologia é a mesma – que não é utilizada desde H2O – e o modo de apresentação do elenco também é o mesmo, além da abobora ser a mesma do primeiro filme e se modificar do mesmo jeito. Se isso também não é uma homenagem, eu não sei o que é.

Aliás, o filme presta várias homenagens, não apenas ao primeiro filme, mas também à própria franquia. Por exemplo, a cena dos assassinatos no banheiro, lembra muito a cena do banheiro em H2O; um personagem diz um nome que remete ao segundo filme; a cena da sala de aula é idêntica à cena da sala de aula do primeiro filme; a própria menção do termo “boogey-man”, etc., mas talvez, um dos maiores easter eggs tenha aparecido já no trailer, um easter egg de Halloween III (1983), que não apresenta os personagens do universo criado por Carpenter e Debra Hill. Novamente, é uma prova do quão importante a Franquia Halloween se tornou.

Além de contar com momentos – muitos momentos – de terror, Halloween também tem momentos divertidos. Ou melhor, um momento divertido. Acontece na cena em que uma das amigas da neta de Laurie está cuidando de um garoto enquanto seus pais estão fora. O menino é muito engraçado. Eu dei algumas risadas nessa sequencia, porque é muito boa mesmo. Talvez, tenha servido para quebrar a tensão, porque momentos antes, tivemos algumas cenas de assassinatos.

Agora, sobre Laurie Strode. Conforme mencionado acima, aqui, ela deixou de ser a adolescente tímida do filme original, e se transformou numa eremita. Ela vive isolada em sua casa afastada da cidade, lugar que ela transformou em uma fortaleza, com armas e armadilhas por todos os lados. Não apenas isso; ela também se tornou uma espécie de pária, sendo rejeitada pela filha, de quem perdeu a guarda no passado, teve dois casamentos fracassados, e tornou-se alcóolatra. Além disso, algumas pessoas também a consideram uma louca por acreditar que Michael Myers pode retornar um dia, o que contribuiu para a destruição de sua família. A única pessoa que tenta se aproximar dela é sua neta, a quem ela também tenta proteger. Mas todo esse declínio ajuda na reconstrução da personagem. Não acho que a coisa tivesse o mesmo impacto se Laurie tivesse se tornado uma pessoa que apagou tudo de sua memoria, e vive uma vida normal. Esse declínio é o tipo de coisa que tem que acontecer com alguém como ela. Excelente reconstrução.

Além dos protagonistas, o filme também apresenta um personagem chamado Dr. Sartain, que se torna uma espécie de Dr. Loomis, uma vez que, após o falecimento do medico, ele tomou o caso de Michael para si, pois está determinado a descobrir por que ele se tornou um assassino. Mas, ao contrario de Loomis, Sartain não se mostra tão bonzinho assim, e está disposto a cometer loucuras para provar seu caso. Além dele, temos também um casal de jornalistas que tem quase o mesmo objetivo. Primeiro, eles visitam Michael em Smith’s Grove e tentam motivá-lo, mostrando-lhe sua mascara. Mas, com o fracasso da expedição, eles vão à casa de Laurie, com o objetivo de desvendar o mistério por trás daquela noite de Halloween, há 40 anos. Mas, eles também falham.

O filme tem muitos efeitos práticos, e eles funcionam muito bem. Eu falo de sangue, muito sangue. Michael é implacável nas cenas de assassinato, utilizando o que estiver ao seu alcance para matar, e o faz com requintes de crueldade e selvageria. Pescoços quebrados, queixos deslocados, rostos contra portas, gargantas perfuradas... Tudo que tem direito; e muito bem feito.

E novamente, Michael está perfeito. Um monstro implacável, movido por puro instinto assassino, sem medo ou remorso. Uma maquina de matar indestrutível, com desejo por sangue e carnificina. Seu figurino é praticamente o mesmo do filme original, com detalhe para sua icônica máscara; toda cheia de marcas do tempo, mas intacta, livre de furos ou rasgos. E quando eles finalmente se reencontram, é o melhor momento do filme, sem dúvida! Michael Myers ressurge em toda sua gloria, pronto para retornar a Haddonfield, e reiniciar seu reinado de terror.

Com certeza, Halloween é o retorno digno da franquia aos cinemas, após anos. É uma pena que Michael tenha passado por três experiências lastimáveis, antes de retornar do jeito que deveria. Mas tudo bem, o que importa é que ele está de volta, maior, melhor e mais assustador do que nunca. Recentemente, começaram a sair noticiais sobre duas continuações para o filme, que prometem encerrar definitivamente a historia de Laurie Strode e Michael Myers. A primeira, Halloween Kills, título esse que eu não consigo engolir, será lançada em 2020; a última parte, Halloween Ends, tem lançamento agendado para 2021. Vamos aguardar.

Enfim, Halloween é um filme excelente, que presta varias homenagens ao Clássico de John Carpenter, e à franquia. Maravilhoso. Assustador, sangrento, tenso. Um filme excelente.

Altamente recomendado.









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