Mostrando postagens com marcador LOBOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador LOBOS. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (1990). Dir.: William Friedkin.

 

EM MEMÓRIA DE WILLIAM FRIEDKIN


NOTA: 8


William Friedkin foi um dos grandes nomes do cinema, responsável por alguns dos maiores clássicos da Nova Hollywood, entre eles, o absoluto O Exorcista (1973), o maior filme de terror de todos os tempos.

 

Mas hoje, não irei falar sobre o clássico absoluto do gênero, e sim, sobre A ÁRVORE DA MALDIÇÃO (1990), segunda incursão do cineasta no gênero.

 

Mesmo sendo considerado um filme menor de sua carreira, este é um ótimo filme de terror, com uma atmosfera de conto de fadas macabro, misturado com altas dozes de gore.

 

Esse filme para mim representa uma certa doze de nostalgia, não porque eu assisti muito na infância, mas por causa do VHS da saudosa CIC Vídeo, com aquela imagem negra contra a luz azul; tal imagem me impactava sempre que eu ia a locadora, e me deparava com ela, na seção de filmes de terror.

 

Não sei qual a opinião de muitas pessoas, mas eu gostei muito do filme na primeira vez que vi, e gostei um pouco mais na segunda vez, principalmente das cenas envolvendo os lobos – mais detalhes adiante.

 

Mesmo tendo fincado seu lugar no hall dos grandes diretores de todos os tempos, não dá para negar que aqui temos de fato um filme menor do cineasta, que meio que se perde em sua filmografia, talvez porque, por ser um filme de terror, talvez as pessoas esperassem algo no mesmo nível de O Exorcista, mas não é esse o caso, porque temos aqui um filme diferente, com atmosfera e ambientações diferentes; e talvez seja por isso que muitas pessoas não gostam dele.

 

Eu não sou uma dessas pessoas, e considero este um dos filmes de terror mais notáveis dos anos 90, década em que o gênero estava fadado ao esquecimento, visto a quantidade de produções questionáveis – salvo exceções – que eram lançadas naquele período – especialistas podem contextualizar com mais clareza do que eu.

 

Bom, mas do que se trata o filme? A Árvore da Maldição se trata, em sua essência, de uma criatura que sacrifica bebês para uma arvore amaldiçoada. Já nos créditos de abertura, temos um breve texto sobre sacerdotes da religião druida, que idolatravam as arvores, e às vezes, sacrificavam pessoas para elas. E é isso que temos aqui; uma história sobre uma criatura mitológica que realiza sacrifícios humanos. Simples, não? Pois bem, além disso, temos também uma típica história de uma babá perversa, algo, na minha opinião, que torna o terror desse filme ainda maior.

 

Maior porque, se tirarmos a questão da criatura mitológica, podemos encaixar esse filme na categoria do suspense, porque, em certo momento, ficamos sabendo de um incidente assustador envolvendo a babá e a criança que estava sob seus cuidados. Dois anos depois, o tema de babá psicótica seria aproveitado no filme A Mão que Balança o Berço, com Rebecca de Mornay.

 

Mas voltando ao filme de Friedkin, eu gosto da ideia de uma criatura mitológica se infiltrando na casa de uma família para realizar um sacrifício humano. Temos uma subversão do tema da babá psicótica, além de termos também uma espécie de conto de fadas de horror, visto a presença do clássico João e Maria no longa.

 

Bom, deixe-me falar da técnica. Não é novidade para ninguém que Friedkin era um grande diretor, e aqui ele não faz feio. Seu elenco está muito bem, principalmente a atriz Jenny Seagrove, no papel da ninfa Camilla. A fotografia também é muito boa, principalmente nas cenas noturnas envolvendo a ninfa e a árvore; e os efeitos especiais também merecem menção, principalmente na sequência em que três bandidos são trucidados pela arvore maldita. Os bebês e os rostos encravados na árvore também merecem destaque, principalmente os bebês, que chegam a ser chocantes.  

 

Apesar do casal protagonista ter mais destaque, na minha opinião quem rouba a cena é Jenny Seagrove. Sua Camilla é uma grande personagem, passando tanto a doçura quanto a maldade que o roteiro e a direção pedem; além disso, ela se mostra também muito sedutora, visto que vez ou outra, invade os sonhos de Phil.

 

Como mencionado acima, A Árvore da Maldição é um filme carregado de gore, e podemos ver isso na sequência em que três bandidos são massacrados pela árvore. Friedkin não poupa o espectador de cenas grotescas, com membros decepados e pessoas sendo empaladas e literalmente devoradas. Mais para frente, temos outro exemplo, quando Phil utiliza uma motosserra na árvore, e literalmente decepa seus membros, num verdadeiro banho de sangue.

 

Também conforme mencionado, o filme possui outras grandes sequencias, desta vez envolvendo lobos negros. Eu adoro lobos, e é sempre um prazer vê-los no cinema, e aqui, Friedkin não decepciona. Os lobos, possivelmente guardiães da árvore maldita, dão um show quando entram em cena, principalmente quando atacam os personagens, tanto um secundário em sua casa – outra cena carregada no gore – quanto o casal protagonista, numa sequência que me lembrou o final de Lobos (1981), por sinal.

 

No entanto, apesar de ser um filme muito bom, A Árvore da Maldição foi uma produção conturbada. Segundo informações da internet, o diretor Sam Raimi estava inicialmente cogitado, mas desistiu para comandar Darkman – Vingança Sem Rosto, então, Friedkin foi chamado. Mas os problemas continuaram, porque todos ficaram entusiasmados por ser o segundo filme de terror do cineasta, então, com certeza, estavam esperando algo na mesma linha de O Exorcista. Mas não foi isso que aconteceu.

 

Após sua contratação, Friedkin fez alterações no roteiro, que, segundo ele, seria focado em uma babá que sequestra crianças, mas o estúdio queria algo voltado para o sobrenatural. Então, Friedkin e mais um roteirista fizeram novas alterações, mas mesmo assim, os problemas não acabaram, porque o roteiro passaria a ser escrito enquanto o filme estava sendo rodado. No final, o filme não obteve grandes resultados de bilheteria, mas hoje em dia possui um status de cult. A coisa piorou com uma versão lançada para a TV a cabo, que desagradou Friedkin, que pediu para ter seu nome desvinculado do projeto. O próprio Friedkin aparentava ter sentimentos conflitantes sobre o filme, dando apenas uma entrevista sobre o longa, onde relatou sobre o que o inspirou a fazê-lo, no caso, um incidente envolvendo sua família e uma babá.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror – Volume 13, após anos fora de catálogo.

 

William Friedkin nos deixou em Agosto deste ano, mas seu nome está sempre gravado no hall dos grandes cineastas de todos os tempos. Seu legado será eterno.

 

Enfim, A Árvore da Maldição é um filme muito bom. Uma historia sombria e assustadora, com toques de conto de fadas, misturado à técnica milenar do diretor William Friedkin. O elenco também merece menção, principalmente Jenny Seagrove, em uma interpretação arrepiante como a babá perversa; e os efeitos especiais também, caprichados no gore. Um filme que merece ser redescoberto. Recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

sexta-feira, 2 de julho de 2021

CANINOS BRANCOS (Jack London).

 

NOTA: 9.5



Eu adoro lobos-cinzentos. São algumas das minhas criaturas favoritas, principalmente por causa de sua beleza. E eu já comentei sobre eles. A primeira vez foi sobre o meu primeiro livro, O Vale dos Lobos, publicado em 2014, pelo Grupo Editorial Scortecci; e a segunda vez foi sobre o filme Lobos (1981), filme de terror que me inspirou a escrever o livro.

 

E aqui estou, mais uma vez, para falar sobre lobos. Mas desta vez, não será uma história de horror. Pelo contrário, é uma história linda: CANINOS BRANCOS, do autor Jack London.

 

Na verdade, este texto é sobre uma releitura, uma vez que eu já havia lido o livro antes, numa edição da Editora Martin Claret. No entanto, aquela não foi uma leitura muito prazerosa, porque eu resolvi ler cada uma das partes do livro num dia diferente – o livro é dividido em cinco partes. E nessa leitura, eu não me agarrei com firmeza na história.

 

Bom, agora com essa releitura, a coisa foi diferente. Eu pude me prender à leitura no tempo certo, lendo um pouco de cada vez, principalmente porque o livro é composto basicamente por texto, e não contem muitos diálogos.

 

Aliás, preciso dizer que esse é um detalhe que torna a leitura desse livro complicada, uma vez que London faz uso de muito texto para descrever as aventuras de seu personagem-título. Mas ao mesmo tempo que é uma leitura complicada, é também prazerosa e impressionante porque eu quase não leio livros com poucos diálogos e poucos personagens humanos.

 

Isso mesmo, quase não temos personagens humanos nessa história, e faz sentido, porque não é uma história sobre pessoas, mas sim, sobre um lobo.

 

London faz deste livro quase uma biografia do personagem, contando para nós como e onde ele nasceu, passando por sua juventude, até chegar a vida adulta. Se isso não é uma biografia, não sei o que deve ser. E o autor não poupa Caninos Brancos de perrengues, e que perrengues. Existem passagens violentas no livro, que cortam o coração do leitor, e é difícil escolher a pior. Eu confesso que enquanto estava lendo, eu senti um aperto no coração.

 

E as coisas pioram quando ele se torna propriedade de um homem branco que o compra de um cacique. Não vou dizer o que acontece, para não dar spoilers, mas é tão terrível quanto os perrengues que ele enfrenta na floresta e na aldeia dos índios.

 

Mas apesar disso, Caninos Brancos é um grande livro. London se mostrou um excelente autor, e soube contar sua história com total maestria. E o livro contém grandes cenas, todas protagonizadas pelo personagem-título; as melhores, na minha opinião, acontecem no final da história.

 

Antes de encerrar, devo dizer que o motivo que me levou a ler – ou nesse caso, reler – o livro foi a adaptação lançada em 1993 e produzida pela Disney. É um filme excelente, e durante a leitura, eu pude visualizar o ator animal que interpretou o lobo, o cão Jed.

 

Essas são as qualidades que fazem de Caninos Brancos um livro excelente e um grande romance do escritor Jack London.

 

Enfim, esse é um excelente livro. Uma linda história de aventura, ação, drama e amor contada com uma maestria ímpar. O autor Jack London se mostrou um grande contador de histórias e criou um dos maiores romances dos Estados Unidos. Um livro maravilhoso. Altamente recomendado.



JACK LONDON


Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


sexta-feira, 3 de abril de 2020

A HORA DO ESPANTO (1985). Dir.: Tom Holland.


NOTA: 9.5



A HORA DO ESPANTO (1985)
A HORA DO ESPANTO (1985) é, sem duvida, o filme de vampiro definitivo dos anos 80. Acredito que seja um jeito interessante de analisa-lo, uma vez que a década nos deu uma galeria de filmes definitivos de monstros clássicos. E este aqui é o representante máximo dos vampiros, ao lado de Vamp, A Noite dos Vampiros (1986) e Os Garotos Perdidos (1987).

Mas o que torna este um filme tão especial? Bom, devo dizer que o primeiro ponto é a nostalgia. Quem foi criança nos anos 90, com certeza já deve ter visto esse filme inúmeras vezes na televisão à noite; esse infelizmente, não é o meu caso, mas, guardo esse filme com muita nostalgia, porque tive a chance de assisti-lo numa época muito boa da minha vida. E foi uma das mais divertidas e assustadoras experiências que já tive. É incrível como ainda hoje, esse filme consegue ser divertido e assustador, cortesia da própria década de 80, que nos presenteou com inúmeras produções de horror trash, além de nos dar também o chamado “terrir”, produções que combinavam terror e comédia de maneira brilhante.

Não se engane. A Hora do Espanto não é uma produção trash; pelo contrario, é uma das mais bem-feitas produções de terror dos anos 80. Absolutamente nada parece falso ou mal feito. Tudo o que aparece na tela, foi criado com o orçamento disponível, e funciona muito bem. A maquiagem dos vampiros é muito boa, os animatrônicos também, assim como os efeitos visuais; tudo feito com aquele charme dos anos 80, que consegue ser muito melhor do que os efeitos especiais de hoje, e não envelhecem.

Mas, muito mais do que um filme de efeitos especiais, A Hora do Espanto é um filme que deu nova vida ao subgênero dos vampiros. O filme foi lançado no meio da década de 80, na febre dos filmes Slasher, que haviam recebido um novo personagem em sua galeria, o vilão Freddy Krueger, que estreou no cinema no anterior. Pois bem, da mesma forma que Freddy serviu como um sopro de originalidade ao Slasher, este aqui deu sopro de vida aos vampiros, que estavam muito ligados ao terror gótico dos anos 50, 60 e 70. O diretor Holland deu nova roupagem aos vampiros, transportando-os para os subúrbios americanos, onde, aparentemente, nada de horrível acontecia. E não foi só isso. Em seu roteiro, Holland fez uso dos utensílios clássicos usados para matar vampiros, como cruzes, alho e estacas no coração; porém aqui, a cruz tem um detalhe extra: ela só funciona se a pessoa tiver fé, caso contrario, é inútil. Muito bom. E há também a presença do lacaio humano.

Além disso, a maquiagem dos vampiros também sofreu mudanças: ao invés da pele pálida, das unhas longas, e caninos afiados, aqui, eles se transformam em verdadeiros monstros, passando por diferentes estágios até atingirem a forma final.  A primeira vez que eu vi o vampiro Jerry Dandrige na sua forma final, eu fiquei muito assustado porque é muito bem feita. O mesmo vale para os outros vampiros. O melhor deles é o amigo de Charley, que possui um visual muito legal.  

Os efeitos especiais e visuais também não ficam atrás. Como todo filme de terror dos anos 80, este aqui contou com efeitos práticos para criar as proezas que o roteiro pedia, e todas são muito bem feitas. Talvez para os mais exigentes, os efeitos pareçam ultrapassados, mas não para mim. Eu sou um grande admirador de efeitos práticos e é sempre um prazer vê-los na tela. O diretor tinha um belo time de profissionais a sua disposição e o trabalho é excelente. Lobos e morcegos animatrônicos, maquiagem e próteses, tudo muito bom e convincente.

Outro fator que o torna um filme excelente é a trilha sonora. Desde o tema musical, às canções que rolam durante a cena da discoteca, tudo é contagiante e deixa com vontade de dançar, principalmente a cena da discoteca. Toda iluminada com luz neon carregada, é o cenário perfeito de um filme dos anos 80. Todos ali se vestem de modo extravagante e brega, e dançam de forma exagerada. Com certeza, quem viveu essa época, sente a nostalgia batendo quando assiste.

Os personagens também são um trunfo. Charley, sua namorada Amy e seu amigo Evil Ed, são os típicos adolescentes americanos, que andam sempre juntos, e, apesar de ocasionais discussões, pode-se ver que serão sempre amigos. Mas os melhores são o vilão Jerry Dandrige, e o “Great Vampire Killer!”, Peter Vincent.  Dandrige é bonito, charmoso e sedutor, do tipo que atrai a atenção de todos. Interpretado de maneira brilhante pelo ator Chris Sarandon, ele é, com toda certeza, um dos melhores vampiros do cinema. Já Peter Vincent... Conhecido como “The Great Vampire Killer!”, o personagem é  uma grande piada. Ao invés de ser valente como aparenta no seu programa de TV, ele é um medroso sem tamanho, que foge ao primeiro sinal de ameaça. Mas mesmo assim, ele também se mostra um grande amigo para Charley, ajudando-o a caçar e exterminar os vampiros. Muito do carisma do personagem vem da atuação do ator Roddy McDowall, que nos anos 60, estrelou o Clássico O Planeta dos Macacos.

A Hora do Espanto foi lançado em Agosto de 1985, e tornou-se um sucesso de bilheteria, além de receber criticas e avaliações positivas. Atualmente, é considerado um clássico dos anos 80 e um dos melhores filmes de vampiros de todos os tempos. Três anos depois, uma continuação foi lançada, desta vez, dirigida por Tommy Lee Wallace, novamente com Roddy McDowall e William Ragsdale no elenco.

Em 2016, um documentário sobre a produção do filme – e da sequencia – foi lançado em plataforma digital, com entrevistas com membros do elenco e equipe.

Enfim, A Hora do Espanto é um dos melhores filmes de terror dos anos 80. Contem tudo aquilo que o gênero pôde oferecer no período, torna-se melhor a cada revisão. É divertido, assustador, sangrento, sexy e apaixonante. Um dos Filmes Mais Assustadores de todos os tempos. Um dos maiores filmes de vampiro. Maravilhoso. 

Altamente recomendado.








Acesse também:



sábado, 8 de fevereiro de 2020

A COMPANHIA DOS LOBOS (1984). Dir.: Neil Jordan.


NOTA: 10



A COMPANHIA DOS LOBOS (1984)
A COMPANHIA DOS LOBOS é um filme lindo! Lançado em 1984, é a segunda aventura de Neil Jordan na direção; dois anos antes, ele estreou no cinema com Angel, O Anjo da Vingança, onde também iniciou sua parceria com o ator Stephen Rea, que se tornaria seu colaborador recorrente.

À primeira vista, o filme parece uma versão adulta da historia da Chapeuzinho Vermelho, devido às semelhanças da narrativa com o conto original. Na verdade, o filme é uma adaptação de uma historia da escritora Angela Carter, que trabalhou no roteiro ao lado do diretor. Apesar de fazer parte do gênero terror, eu pessoalmente, classifico o filme como uma obra de fantasia. E assistindo, fica claro o motivo dessa classificação.

É um filme belíssimo, cheio de cores, sombras e luzes, mas, principalmente, sombras. Além disso, é um verdadeiro filme de terror gótico, com tudo que tem direito. Claro, não chega aos pés de um filme do Maestro Mario Bava, mas, possui alguns dos elementos presentes no gênero. Sem duvida, o mais evidente é a floresta envolta em névoas, presente em algumas cenas; outros elementos também aparecem, como o próprio visual da pequena igreja da vila e o cemitério com as lapides inclinadas.

Não só isso. É um filme de fantasia na melhor concepção da palavra. Jordan deu a ele um aspecto de sonho mesmo, o que o deixa ainda mais bonito de se ver. E a cada revisão, ele fica melhor. Eu já sabia que o filme era maravilhoso, e após a ultima revisão, minha opinião não mudou. É o tipo de filme que prende a atenção do espectador, seja pela narrativa, pela fotografia, pelo design de produção... Enfim, tudo nele contribui para sua beleza.

Esse aspecto de sonho se deve muito ao orçamento limitado. Segundo o próprio diretor, ele encontrou dificuldades em trabalhar com o orçamento de que dispunha para criar o visual do filme; mesmo assim, o resultado ficou excelente, e deu ao longa um aspecto tanto fantasioso quanto claustrofóbico. Em vários momentos, os cenários são tão pequenos que parece os personagens vão ser esmagados por eles, ou então, dá a impressão de que eles estão, de fato, presos em um mundo de fantasia criado pela menina em seus sonhos. Não é o tipo de sensação que encontramos em muitos filmes de terror hoje em dia.

Então, A Companhia dos Lobos pode ser considerado somente como um filme de fantasia, e não como um filme de terror? Ao contrário. É um verdadeiro filme de terror. Apesar de classifica-lo mais como um filme de fantasia, eu admito que é, sim, um filme de terror. O terror está em dois pontos. O primeiro é a atmosfera. Conforme já mencionado, é um filme de terror gótico, e isso já o faz ser assustador. Existem cenas que provocam arrepios na espinha. Uma delas acontece no inicio do filme, quando a irmã da protagonista é atacada e morta por um bando de lobos. Além de contar com aspecto de pesadelo, a cena conta com efeitos especiais convincentes, que deixam-na mais arrepiante; um deles é o bonequinho que ganha vida e corre atrás da garota, antes de ser derrubado por ela. A fotografia também é um elemento-chave. As cenas noturnas são verdadeiramente arrepiantes e sombrias, e passam a sensação de insegurança. Realmente, eu não queria me aventurar naquela floresta depois do escurecer. As árvores estão mortas, sem folhas, com galhos secos e retorcidos, semelhantes a garras, e parece que vão nos agarrar e nos engolir. É tudo muito bem feito.

Outro ponto são os efeitos especiais. Mesmo para a época, são muito bons e convencem sem esforço. A primeira grande cena é justamente a primeira cena de transformação. É uma cena assumidamente sangrenta, com efeitos práticos muito bem executados. Desde a primeira vez que a vi, fiquei impressionado porque é realmente uma cena bem feita. Parece que de fato, o ator Stephen Rea está se transformando em lobo – uma transformação visceral, diga-se de passagem – arrancando sua pele, expondo seus músculos cobertos de sangue, enquanto seu rosto e seu corpo se modificam, até atingirem a forma completa de um lobo. A última cena de transformação também é excelente – inclusive, é a melhor cena do filme. Ao contrario da primeira, ela não possui litros de sangue, mas consegue ser mais violenta, devido à performance do ator Micha Bergese. Para os mais exigentes, talvez essas cenas pareçam falsas, mas, para mim, é exatamente o contrario. São muito melhores do que qualquer efeito digital de hoje.

O elenco é também um ponto a favor. Todos, sem exceção, entregam atuações muito boas e convincentes. Parece mesmo que aquelas pessoas são reais e vivem naquela época. Inclusive, alguns até entregam atuações que beiram ao cômico, como por exemplo, o ator que interpreta o garoto apaixonado por Rosaleen. Logo na sua primeira cena, no funeral, ele mostra a língua para a menina e leva um peteleco da mãe. É muito engraçada. O garoto é um completo palhaço, sempre tentando conquistar Rosaleen, seja por meio de presentes ou usando um passeio na floresta depois da missa. Mas suas investidas mostram-se fracassadas. Difícil assistir e não rir. Mas a melhor cena acontece quando ele chega correndo na vila, avisando que há um lobo nas redondezas. O pai da menina, assustado por não vê-la, dá-lhe uma surra, que se transforma em uma briga coletiva, com direito a socos, empurrões e banhos de água. Hilário. Difícil assistir e não dar risada.

Mas, apesar das atuações convincentes, quem rouba a cena são os veteranos Angela Landsbury e David Warner, que interpretam a avó e o pai de Rosaleen. Dona de uma respeitável carreira no cinema e o teatro, ela dá um show interpretando a Vovó, oscilando entre o cômico e o sério. De verdade. É a típica avó que cuida da netinha e lhe passa lições de vida, além de contar suas historias de feras que vivem na floresta. A melhor cena é quando ela o padre discutem no pátio da igreja após o mesmo atingi-la na cabeça com um galho que acabou de podar. Uma discussão muito engraçada, que fica melhor toda vez que revejo o filme. David Warner também não decepciona. Assim como Landsbury, ele também parece um pai verdadeiro, disposto a proteger e cuidar da família. E o melhor é que o ator convence muito como um típico pai de vilarejo do século XVIII. Na verdade, a atriz que interpreta a mãe de Rosaleen também convence.

No entanto, quem dá coração ao filme é a atriz Sarah Patterson, fazendo sua estreia no cinema. Ela entrega uma atuação espetacular. Sua Rosaleen é a própria imagem da inocência juvenil: ingênua, mas inteligente, ela vive em um mundo de fantasia, e não tem medo dos possíveis perigos que vivem na floresta, nem mesmo quando encontra o Caçador. Além disso, ela ficou perfeita na caracterização da Chapeuzinho Vermelho, fugindo da imagem clássica da personagem – loira de olhos azuis. Difícil dizer qual a melhor cena. Ao que parece, ela era muito mais jovem do que as outras atrizes que o diretor de elenco procurava, além do fato de que ela não poderia compreender os temas adultos presentes na narrativa. Mas o importante é que ela conseguiu entregar uma excelente atuação, e criou uma das melhores personagens do horror dos anos 80.

Além de ser um filme de lobisomens, A Companhia dos Lobos é também uma antologia. Mas não é típica antologia, que começa com a primeira historia e vai passando para as outras. Aqui, a antologia se desenrola por meio das historias que a Vovó conta para Rosaleen. E não são uma seguida da outra. Ocorre um período de tempo entre uma historia e outra, o que deixa o filme mais interessante, e às vezes, faz com que esqueçamos que estamos diante de uma antologia. E não é apenas a Vovó conta historias. Rosaleen também suas próprias historias para contar, e são tão assustadoras quanto as da Vovó. Difícil dizer qual a melhor, mas a minha favorita é a ultima, que acontece no final do filme.

E além de ser um filme de lobisomens e uma antologia, o filme também é uma historia de amadurecimento e despertar sexual, representados pela própria Rosaleen. É possível perceber o quanto ela amadurece durante o filme, seja por meio das historias de sua avó, seja por conta própria. É impressionante a transformação da personagem, de uma garotinha a uma adolescente prestes a descobrir o sexo. Um desses momentos acontece quando ela ouve os pais fazendo sexo à noite, e no dia seguinte questiona a mãe o que aconteceu entre eles. Não sei vocês, mas para mim, isso mostra o quão crescida a menina está. Mas sem duvida, o verdadeiro despertar acontece quando ela encontra o Caçador na casa da Vovó. Mesmo não contendo nada explicito – até porque não poderia – a sequencia é carregada de conteúdo erótico, representado pela figura sedutora do Caçador. Além disso, dá ênfase à historia original da Chapeuzinho, que diziam, era repleta de conteúdo adulto, envolvendo até pedofilia, canibalismo e zoofilia.

Mas nada disso impede A Companhia dos Lobos de ser um conto de fadas. Como já mencionado, o filme possui um aspecto de sonho e fantasia, que e chega até ser meio infantil. Um dos motivos é o fato de que foi todo filmado em estúdio, provavelmente pelo orçamento limitado. Mas nada disso é um defeito. Os cenários parecem verdadeiros e são muito bem feitos. Outra limitação orçamentaria é o fato de o diretor utilizar pastores-belga para simular os lobos, uma vez que o roteiro pedia a presença de mais lobos. Mas isso também não é um empecilho. Eu consigo imaginar aqueles cachorros como se fossem lobos, sem o menor problema, principalmente por causa da sua aparência. Lobos de verdade só aparecem algumas vezes no filme, e por poucos minutos. Mas como já disse, não faz a menor diferença; o importante é que convence muito bem e sem esforço.

E qual a minha cena favorita? Bom, não posso dizer, porque acontece no final do filme, então seria um spoiler. Só digo que é belíssima, e que servirá de inspiração para mim no futuro.

A Companhia dos Lobos foi lançado em Setembro de 1984, e foi recebido com criticas positivas, apesar de não ter tido uma boa bilheteria. Além de receber criticas positivas, o filme recebeu vários prêmios ao redor do mundo. No Brasil, foi lançado em Julho de 1987. Não sei se chegou a ser lançado em VHS por aqui, mas foi lançado em DVD, numa edição de banca. Atualmente, está fora de catálogo. Lá fora, já foi lançado em Blu-ray, em belíssima versão restaurada. 

Sobre o lançamento nos cinemas americanos, uma curiosidade: o filme foi distribuído pela Cannon Group, que o divulgou como um filme de terror, contraria à intenção do diretor Neil Jordan, que acreditava que tal intenção seria enganosa.

Conforme mencionei na resenha de Grito de Horror, A Companhia dos Lobos faz parte de uma “trilogia” de filmes de lobisomens lançados nos anos 80. Na verdade, outros exemplares do gênero também foram lançados nessa época, mas sem duvida, os mais memoráveis são: Grito de Horror, Um Lobisomem Americano em Londres e A Companhia dos Lobos, que em minha opinião, é o melhor deles.

Enfim, A Companhia dos Lobos é um filme belíssimo. Um filme de terror gótico com elementos de fantasia. Um dos melhores filmes de lobisomens de todos os tempos.

Maravilhoso.

Altamente recomendado.



"Little girls, this seems to say
Never stop upon your way
Never trust a stranger friend
No one knows how it will end
As you're pretty, so be wise
Wolves may lurk in every guise
Now as then, 'tis simple truth
Sweetest tongue has sharpest tooth."









Acesse também:


domingo, 17 de março de 2019

LOBOS (1981). Dir.: Michael Wadleigh.



Resenha publicada em homenagem ao ator Albert Finney, que faleceu em Fevereiro.

NOTA: 10


LOBOS (1981)
LOBOS é um filme excelente. Um dos melhores filmes sobre animais assassinos já produzidos.

Dirigido por Michael Wadleigh, o filme é baseado no livro de estreia do escritor Whitley Strieber, autor de Fome de Viver e do polêmico Comunhão.

O que o torna um filme brilhante é a sua execução. Toda a trama desenvolve-se lentamente, deixando o terror nas sombras, revelando-o apenas nos momentos finais. Durante boa parte do filme, somos apresentados a uma historia policial clássica, com todos os elementos.

Mas não apenas a trama policial merece destaque, como também a trama de suspense, construída aos poucos, na base da sugestão. Não sei se o diretor optou por fazê-lo por razões orçamentárias ou de proposito; o caso é que a coisa funciona brilhantemente. Assim como Spielberg fez em Tubarão, Wadleigh faz uso da câmera subjetiva para simular a presença dos lobos na cidade de Nova York; porém, ele o faz com o uso de câmeras especiais, com efeitos infravermelhos, que visualizam o calor das vítimas, por exemplo.

Outra coisa bem realizada são os truques que o diretor usa para indicar que os animais estão sempre presentes, seja com o personagem especialista, interpretado por Tom Noonan, seja com os personagens indígenas, que constituem um elemento chave da historia. Todos os elementos funcionam e aumentam ainda mais o suspense e a vontade de ver os lobos. E quando eles surgem, – próximo ao final do filme – é possível ver que todos os truques valeram a pena, da mesma forma que no Clássico de Spielberg.

Como mencionado acima, a trama é construída aos poucos, em slowburn, e isso, para alguns, pode ser um ponto fraco. Mas, pessoalmente, eu gostei da maneira como tudo foi orquestrado; até porque, não sei se o resultado ficaria tão bom se os lobos surgissem logo no começo do filme.

Não sei como as coisas funcionam em outros filmes de animais assassinos, principalmente cães, mas aqui, a matança causada pelos lobos tem um motivo: a sobrevivência. Como explica o personagem de Eddie Holt, interpretado por Edward James Olmos, ao personagem principal, interpretado por Albert Finney, tudo está acontecendo por causa da destruição causada pelos homens no passado, o que deixou os animais sem lugar para morar, e a beira da extinção, uma pista deixada brevemente pelo personagem de Noonan, anteriormente. Ou seja, os papeis se inverteram.

Porém, a policia não vê as coisas dessa forma, e, até verem de fato os lobos, acreditam que os crimes são trabalho de um grupo terrorista que está agindo nos Estados Unidos. As sequencias de investigações são muito bem construídas e convincentes. É possível ver que aqueles personagens estão querendo apenas fazer o seu trabalho e garantir a segurança do publico.

Os aspectos técnicos também contribuem para a eficiência do filme. Não conheço o trabalho de Wadleigh, então, não posso afirmar se os seus outros filmes seguem a mesma linha técnica, mas aqui, tudo funciona. A fotografia de Gerry Fisher está perfeita, captando nos tons sujos e decadentes de Nova York com maestria; as câmeras steadicam também fazem bonito, principalmente nas cenas envolvendo a ponte do Brooklyn, onde os índios se escondem durante a noite e trabalham durante o dia. A trilha sonora é magistral, e garante arrepios na espinha.

Além de ser um filme de terror policial, LOBOS também é um filme de terror sobrenatural, e isso é mostrado nas sequencias em que Holt passa por uma transformação na praia, e também na sequencia final. O tema da troca de formas na cultura indígena é muito bem explorado no filme, e, como já mencionado, possui um papel chave na trama, uma vez que fica no ar a duvida se os lobos são de fato lobos, ou índios em metamorfose. O aspecto sobrenatural também é sugerido na sequencia do primeiro assassinato, uma vez que a policia imagina que membros de um culto Vodu estão envolvidos no caso, mas isso é logo descartado. Seja como for, o resultado é arrepiante.

Os animais do título são o verdadeiro destaque. Mesmo com pouca presença, eles enchem a tela com seu ar ameaçador e sua beleza. Eles surgem apenas no final do filme, e o fazem de maneira brilhante. Todos os lobos presentes na historia são negros e a fotografia noturna contribui para o clima de mistério da sequencia em que eles surgem. Eles passam o filme inteiro escondidos em uma igreja em ruinas na parte velha da cidade, e, sinceramente, o ambiente possui um clima gótico que contribui para o ar de mistério e suspense do filme.


Enfim, LOBOS é um filme de primeira. Um filme de terror com elementos de trama policial e mistério e terror sobrenatural, tudo muito bem amarrado em uma trama redonda e bem construída.




sexta-feira, 15 de março de 2019

SINOPSE "O VALE DOS LOBOS".


O VALE DOS LOBOS
Sparrow, Alaska, 2002.
Vinte e seis anos depois da invasão de uma alcateia de lobos, a pequena cidade parece finalmente ter encontrado a paz; até que, um dia, novos lobos são vistos e o pânico se alastra novamente. O prefeito Jonathan Campbell convoca uma reunião, onde promete cuidar do problema. Mas, apesar de suas promessas, alguém não acredita nele: Paul Rydell, xerife da cidade. Rydell conhece muito bem Campbell, e sabe que ele dificilmente cumpre o que diz.
Em meio à essa rivalidade, algo acontece: a antiga secretária de Campbell é encontrada morta, com o corpo mutilado. Rydell e seus homens começam a investigar, mas não chegam a um resultado imediato. Durante a investigação, Paul relata a seus homens que no passado, a cidade foi invadida por uma alcateia, onde um policial foi morto. Rapidamente, eles suspeitam que os animais tenham algo a ver com a morte da mulher.
Alguns meses depois, uma freira é atacada e morta, nas mesmas circunstâncias que a secretária de Campbell. Desta vez, Rydell não tem dúvidas sobre o que aconteceu: ela foi morta pelos lobos. Agora, ele e seus homens precisam correr contra o tempo e impedir que novas mortes ocorram na cidade.
Ao mesmo tempo, precisam lutar contra Campbell, que está disposto a destruir a região montanhosa ao redor da cidade, conhecida como “Vale dos Lobos”, nome dado pelos índios que viviam ali no passado. Mas Rydell não medirá esforços para impedi-lo, pois acredita que o lugar está relacionado às mortes, principalmente por causa de um misterioso totem construído pelos índios, que segundo eles, possui poderes sobrenaturais.

SOBRE "O VALE DOS LOBOS".



O VALE DOS LOBOS
Meu primeiro livro, O VALE DOS LOBOS é minha interpretação da famosa relação entre homens e lobos. 
Neste livro, eu conto o que aconteceria se os lobos decidissem se vingar dos homens pelo que fizeram a eles durante séculos.
A inspiração para a história foi um filme de terror chamado Lobos (1981), sobre dois policiais que tentam descobrir quem está matando pessoas em Nova York. Porém, no filme, a razão para as mortes é a sobrevivência – no meu livro, é a vingança. 
O cenário escolhido foi o Estado do Alaska (EUA), principalmente uma pequena cidade chamada Unalaska, que serviu de modelo para minha Sparrow. Mas, apesar de Sparrow ser fictícia, eu menciono muitos lugares que realmente existem no Alaska. 
O motivo pelo qual decidi ambientar meu material nos Estados Unidos é porque me senti mais à vontade; pude imaginar mais, criar mais coisas fantásticas.
Além da revolta dos lobos, lido também com a questão do HIV, já que um dos personagens descobre ser HIV positivo, mas, lido com o assunto de forma natural, uma vez que a história se passa no início dos anos 2000, e, as pessoas portadoras do vírus podiam viver mais um pouco, ao contrário do que aconteceu no final dos anos 80, quando ele surgiu.
A trama possui elementos de história policial, mas, também apresenta elementos de terror e suspense.
O Vale dos Lobos é uma obra de ficção. Nunca houve um relato de um lobo ou alcateia de lobos atacarem o homem nos EUA. 
Lançado pela Scortecci Editora, o livro já disponível no site da Editora para venda.
Boa leitura!

Acesse:
ou

AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.