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sexta-feira, 19 de julho de 2024

A CASA DO ESPANTO (1986). Dir.: Steve Miner.

 

NOTA: 8.5


A CASA DO ESPANTO é um dos filmes da minha coleção que eu gosto muito.

 

Desde a primeira vez que o assisti, há mais de 20 anos, eu gostei muito dele, e me diverti muito com tudo aquilo que vi na tela, e essa sensação segue até os dias de hoje.

 

Além disso, este é um daqueles filmes dos anos 80 que misturam terror e humor de maneira muito boa e realista. Se o filme fosse apenas um filme de terror de casa assombrada, tudo bem, mas o modo como as coisas são feitas aqui, contribui para deixá-lo único.

 

Na trama, o escritor Roger Cobb se muda para a casa da tia após a morte dela, com o objetivo de escrever um livro sobre suas experiências no Vietnã. Mas ao mesmo tempo, ele decide investigar mais a fundo, o desaparecimento do filho, que supostamente foi raptado dentro da casa.

 

A trama básica é essa, mas, conforme o filme vai andando, as coisas bizarras vão acontecendo uma atrás da outra, e o longa se revela como um filme de casa assombrada, mas não no sentido literal.

 

Aqui, não temos apenas fantasmas; nós temos criaturas de outra dimensão, monstros e zumbis, que têm como único objetivo, infernizar a vida do protagonista, e impedir que ele resolva o mistério por trás do desaparecimento do filho.

 

O roteiro é muito bom em misturar terror e humor, e na verdade, eu mesmo não considero este um filme de terror; na minha opinião, ele é uma comédia de humor negro, visto a quantidade de situações absurdas que o protagonista enfrenta ao longo da narrativa.

 

Além das criaturas bizarras, nós temos também personagens excêntricos, como o vizinho enxerido do protagonista; a ex-esposa dele – talvez a mais normal entre os personagens –; a vizinha bonitona; e os fãs do escritor, os tipos mais variados de figuras. O vizinho é um personagem bem legal, pois está sempre aparecendo nos momentos mais inoportunos, mas se mostra um amigo para o protagonista. As cenas de interação entre os dois são muito boas e engraçadas também, principalmente quando Roger o convida para capturar uma das criaturas.

 

Outro personagem que merece menção, é o parceiro de guerra de Roger, o fortão Big Ben, que aparece nas cenas de flashback da guerra. Big Ben é o típico personagem casca-grossa, mas não deixa de ser engraçado quando o roteiro pede. As cenas entre ele e Roger também são muito bem escritas e dão um contraste bacana entre eles, expondo suas diferenças em combate.

 

Agora que já falei os personagens, vou falar das criaturas. Há várias delas aqui, que vão desde monstros saindo do armário, até zumbis que voltam do túmulo, passando por seres tentaculares e voadores de outra dimensão. A melhor delas é mulher de vestido roxo e unhas vermelhas, que é uma personagem muito engraçada desde a primeira vez em que aparece, e ela apanha muito durante o filme.

 

No entanto, o principal monstro do filme é a versão zumbi de Ben, que se mostra o verdadeiro vilão do filme, e tem um motivo pessoal para ir atrás de Roger.

 

A direção de Steve Miner também merece ser mencionada aqui, porque o diretor faz uso de técnicas criativas para contar sua história, sendo a mais engenhosa delas o plano sequência que acontece durante os créditos iniciais, que começa na parte de trás da casa e termina na fachada da mesma, uma sequência inteira sem cortes, que não deve ter sido fácil de ser feita na época.

 

A trilha sonora de Harry Manfredini também é muito boa, principalmente o tema principal, que remete a um filme de terror de fato. Em certos momentos, a trilha lembra muito a da franquia Sexta-Feira 13, que é do mesmo compositor, e isso não é um defeito.

 

As cenas de humor e terror são muito boas também, e não apelam para muitos clichês. Os momentos de verdadeiro terror acontecem quando Roger atravessa os portais para outra dimensão, ou então, quando é perseguido pelo zumbi; já as cenas de humor acontecem graças às criaturas, que são muito engraçadas de fato, principalmente a mulher de vestido roxo.

 

E para finalizar, a própria casa em si é um personagem, principalmente a sua fachada em estilo colonial, que é bem memorável e assustadora.

 

Enfim, A Casa do Espanto é um filme muito bom. Um filme de terror de casa assombrada, com toques de humor espertos, aliados a uma direção competente, e um roteiro criativo. Os efeitos especiais merecem menção também, principalmente as criaturas, que são bem convincentes. A fotografia faz um ótimo trabalho, principalmente quando destaca a fachada da casa, que é bem memorável. Uma ótima mistura de terror e humor.




terça-feira, 30 de abril de 2024

GHOST STORY (Peter Straub).

 

NOTA: 7.5


Peter Straub foi um dos nomes mais conhecidos da literatura americana de suspense, e seus livros são reconhecidos como best-sellers principalmente nos Estados Unidos.

 

GHOST STORY é um de seus romances mais conhecidos, e um livro muito bom, devo dizer.

 

Eu não li outro livro do autor – tenho na minha coleção, O Talismã e A Casa Negra, escritos em parceria com Stephen King – mas ouvi dizer que ele não escrevia livros menores, apenas calhamaços, e este aqui é um deles.

 

O romance é escrito em uma riqueza de detalhes impressionante, e confesso que é preciso se concentrar bem para mergulhar na leitura, porque o autor não poupa o leitor de detalhes na narrativa, até de detalhes banais.

 

O romance conta a historia da Sociedade Chowder, composta por quatro velhos amigos, que se reúnem de tempos em tempos para contar historias de terror e fantasmas, sempre na calada da noite, vestidos em trajes a rigor, com bebidas e charutos.

 

Divido em três partes, além de contar com um prologo e um epilogo, o livro é bem assustador e tenso, com cenas dignas de provocar arrepios, principalmente as cenas de pesadelos dos membros da Sociedade.

 

Como é um livro bem grande, ficamos muito tempo imersos na leitura, acompanhando a narrativa extensa do autor e seu método de contar a narrativa, descrevendo detalhes importantes dos personagens durante a descrição da cena, e isso acontece em todos os momentos. Eu pessoalmente achei isso até interessante, porque dá uma visão diferente do método de escrita de um autor especifico.

 

Eu havia visto uma resenha de uma Book Tuber que não se sentiu presa à narrativa, talvez, principalmente por causa da riqueza de detalhes com que o autor compôs sua obra; não é o meu caso, conforme mencionei acima.

 

Um dos pontos que a Book Tuber destacou em sua resenha foi a sequencia da festa, que, segundo ela, é muito extensa. Eu gostei de ler essa sequencia, porque me senti dentro daquela festa, interagindo com aqueles personagens, e testemunhando a tragédia que aconteceu no final do evento.

 

Um ano após essa tragédia, os membros da Sociedade Chowder decidem chamar o sobrinho de um deles para ajuda-los a investigar o que aconteceu com o quinto componente do grupo.

 

A partir daí, o autor destaca alguns capítulos para descrever o ponto de vista desse novo personagem, por meio de seus diários, principalmente o seu encontro com uma mulher misteriosa. E conforme ele vai nos contando, descobrimos que a mulher não é nada do que pensava.

 

No capítulo seguinte, Straub faz um relato de como os demais personagens do livro estão vivendo, com destaque para um adolescente e seu amigo rebelde. Eu confesso que fiquei um pouco confuso com a leitura desse capítulo, porque não me lembrava dos personagens descritos ali, visto a quantidade de páginas do livro. No entanto, o trecho em que os dois rapazes invadem uma casa e são atacados por uma entidade é muito bom.

 

Em meio à essa descrição detalhada dos eventos, o autor apresenta uma outra mulher misteriosa, que pode ter ligação com os membros da Sociedade Chowder, e com os acontecimentos bizarros que estão tomando conta da cidade.

 

No início da terceira parte, o autor continua focando na vida dos personagens secundários, com destaque para uma sequência de invasão domiciliar, que termina de maneira aterrorizante, com a presença de um provável lobisomem. Esse é um detalhe curioso do livro. Aparentemente, Straub diz que seus fantasmas podem assumir diferentes formas, além de interagir com todos, como se estivessem vivos. Eu acho esse um detalhe muito curioso, porque dessa forma, os fantasmas do autor têm as suas próprias regras e precisam segui-las.

 

Toda essa sequência da cidade, com todos os personagens, é um pouco monótona, porque o autor aparentemente foge do foco principal da trama, que são os membros da Sociedade Chowder, e o sobrinho de um deles, que está investigando a morte do tio.

 

Mas, em determinado momento, Straub retorna aos membros da Sociedade, e eles contam para Don – e para nós também – quem é a mulher que está rondando os demais personagens, e criando situações assustadoras. Toda essa sequência é muito boa, pois prende de fato a atenção do leitor, porque queremos saber o que aconteceu com os homens idosos quando eram mais jovens. Foi um trecho que me prendeu, porque me fez lembrar da sequência de flashback do filme.

 

E para finalizar os momentos que merecem destaque, eu menciono a sequência em que os personagens entram em uma casa abandonada, a fim de procurar os fantasmas que estão causando os problemas na cidade. É uma sequência verdadeiramente tensa, que me deixou arrepiado.

 

A escrita de Straub até que é boa, mas, na minha opinião, o livro sofre de um mal que me deixou confuso; em vários momentos, o autor foca sua atenção nos demais personagens, e confesso que me senti um pouco perdido, porque não me lembrava deles. Vocês podem dizer que ‘Salem, de Stephen King, tem o mesmo problema, mas, a leitura do livro de King foi muito mais fluida e não me atrapalhou; o mesmo não pode ser dito sobre este livro.

 

Eu mencionei acima que o autor faz questão de mostrar que seus fantasmas não são fantasmas comuns, e de fato, não são. Aqui, eles podem assumir diversas formas diferentes, sendo descritos como transmorfos, e eu achei isso muito interessante, porque as criaturas seguem suas próprias regras.

 

A interação entre os quatro amigos da Sociedade Chowder também é bem explorada, e cada um tem suas próprias características e personalidades. Fica evidente que os membros mais importantes são Ricky e Sears, visto a quantidade de tempo que o autor dedica a eles. Os demais personagens também são bem explorados, principalmente nos capítulos referentes à cidade como um todo.

 

O conflito final dos personagens com a criatura principal também é bem escrito, com direito a cenas ambientadas em outras dimensões, mas o cenário principal é o apartamento da mulher que os membros da Sociedade mataram por acidente. E o epílogo amarra muito bem o que foi apresentado no prólogo, a relação entre Don e uma menina misteriosa.

 

Enfim, Ghost Story é um livro bom. Uma história de horror contada de maneira elaborada, com muitas cenas, muitos cenários, e muitos personagens, e em determinado momento, tudo se encaixa. A escrita de Peter Straub é decente, apesar de focar muito em personagens e cenas que aparentemente, não tem relação com a história principal. Um gigantesco quebra-cabeça que é montado aos poucos, revelando uma história arrepiante e intrigante.


segunda-feira, 22 de agosto de 2022

O PERVERSO CLÉRIGO (H.P. Lovecraft).

 

NOTA: 8.5



Assim como já elogiei Stephen King várias vezes aqui, também faço meus elogios a H.P. Lovecraft, o autor que o inspirou.

 

Mesmo não tendo seguido o caminho de novelista, Lovecraft era um mestre na arte de contar pequenas historias, sejam elas bem pequenas ou grandes, até.

 

O PERVERSO CLÉRIGO é mais um exemplo de uma historia pequena, mas que consegue prender o leitor.

 

Em poucas paginas, Lovecraft cria uma trama de mistério que rapidamente se transforma em algo inusitado, e leva, tanto o leitor, quanto o seu protagonista, para um caminho sem volta.

 

Pois bem, é isso que acontece com o protagonista – cujo nome nunca é revelado, como de praxe nas tramas do autor – que vai narrando a sua chegada ao sótão, até seu encontro com entidades de outra dimensão, pelo menos, é a minha interpretação; mas isso também não impede de ser uma historia de fantasma.

 

Mas o fato é que o básico da trama é esse. O protagonista entra no sótão, encontra um pequeno objeto e por fim, após tocá-lo, depara-se com o horror.

 

O melhor fica para o final, com plot-twist de cair o queixo ou provocar arrepios.

 

Mas o mais interessante é o mistério presente aqui. Ao meu ver, temos aqui outro caso de um objeto ou lugar maldito, que traz azar para quem estiver com ele. Essa foi a sensação que o conto me passou, visto que o personagem do velho sabia a respeito daquelas entidades, principalmente da entidade que dá nome ao conto. Um mistério assustador, devo dizer.

 

Mas, enfim, O Perverso Clérigo é um ótimo conto de terror, com uma atmosfera de mistério que vai aumentando à medida que a historia avança. A escrita de Lovecraft é o grande atrativo, e o autor prova que mais uma vez consegue contar uma grande historia, mesmo com poucas paginas. 



H.P. LOVECRAFT

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terça-feira, 9 de agosto de 2022

O BICHO-PAPÃO (Stephen King).

 

NOTA: 8.5



Eu já disse várias vezes que Stephen King é um mestre na arte de contar histórias, seja através de livros ou contos.

 

O BICHO PAPÃO, presente na antologia Sombras da Noite, é mais um exemplo da sua genialidade. E que conto.

 

Em poucas páginas, ao autor foi capaz de escrever uma historia verdadeiramente arrepiante, capaz de nos provocar pesadelos.

 

Tudo começa na base da sugestão, narrada pelo protagonista, um homem atormentado pela morte de seus três filhos. Deitado no divã de um psiquiatra, ele vai contando tudo sobre sua vida, desde de seu casamento prematuro, passando pelo nascimento dos filhos e concluindo com suas mortes trágicas; e bem trágicas.

 

A princípio, parece que vamos ler uma historia sobre alguém que assassinou os filhos, conforme ele mesmo diz no começo, mas, conforme a leitura vai avançando, vamos descobrindo que se trata de muito mais. O homem é atormentado por uma criatura que seus filhos chamam de “Bicho-Papão”. E segundo ele, foi o monstro o responsável pela morte dos filhos. E o autor também faz questão de mostrar o quão desagradável é o protagonista, graças a suas opiniões controversas sobre certos assuntos; o que também não nos faz ser tão solidários com ele.

 

E a medida que vamos lendo, vamos mergulhando ainda mais nessa historia de horror, com o personagem contanto em detalhes como os filhos morreram e como ele os encontrou. Eu pessoalmente fiquei arrepiado, visto que o autor não nos poupa de cenas tensas.

 

E de fato temos cenas bem tensas aqui, principalmente que o protagonista descreve os elementos associados ao monstro: um som estranho, um odor peculiar... Tudo descrito com a maestria do Mestre Stephen King. E o melhor ele deixa para o final, mas não vou entrar em detalhes para não entregar spoilers.

 

Enfim, O Bicho-Papão é um conto muito bom. Uma pequena historia de horror com cenas dignas de pesadelos, tudo contado com a maestria que somente Stephen King possui. Uma historia rápida, mas arrepiante, que prende o leitor desde as primeiras linhas e o deixa largar até o final. Um ótimo conto de horror. Altamente recomendado.


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sábado, 20 de março de 2021

PUMPKINHEAD - A VINGANÇA DO DIABO (1988). Dir.: Stan Winston.

 

NOTA: 9



Stan Winston foi um dos grandes mestres dos efeitos especiais do cinema. Desde os anos 80, ele foi o responsável pelas maiores criaturas do cinema de fantasia. Seus trabalhos incluem o androide do Exterminador do Futuro (1984), os dinossauros de Jurassic Park (1993), o Pinguim de Batman, o Retorno (1992) e Edward Mãos-de-Tesoura (1990), entre outros. Todas essas criaturas foram criadas dentro de seu estúdio, com o auxilio de grandes profissionais.

 

Além de ser o responsável por essas e outras criaturas fantásticas, Winston também foi o diretor de um dos melhores filmes de terror dos anos 80, mas que infelizmente, não é tão conhecido assim: PUMPKINHEAD - A VINGANÇA DO DIABO, lançado em 1988.

 

Devo dizer o seguinte sobre esse filme: é, sem duvida, um dos melhores filmes do gênero, que contou com uma direção segura do mestre e claro, efeitos especiais de ponta, que deram vida a um monstro espetacular e assustador.

 

O filme é excelente. Ao contrario dos demais exemplares que surgiram na mesma década, esse é um filme de terror sério, sem nenhum espaço para alivio cômico, e com uma atmosfera de tragédia, pesadelo e conto de fadas. Sim, conto de fadas. Por quê? Porque o tempo todo parece que estamos assistindo a uma fábula, com uma criatura assustadora e uma moral no final, além do clima sombrio e assustador dos contos de fadas de antigamente, como eram contados realmente.

 

Além disso, outra coisa que torna o filme digno de nota é a sua concepção. O roteiro foi inspirado num poema de Ed Justin e numa lenda do folclore americano – que se é real ou não, não sei – e o tempo todo essa questão dessa criatura mitológica é mostrada na tela, principalmente levando em conta a ambientação interiorana americana, com as pessoas pobres, sujas, que moram em casas simples. Tudo é mostrado de forma convincente, o que aumenta ainda mais o grau de realismo. E a lenda do Cabeça de Abóbora aumenta ainda mais essa sensação, uma vez que o filme mostra que a criatura é vista como maldita pela região, e seus habitantes não querem nem ajudar quem está a sua mercê. Ou seja, é o tipo de lenda que circula com força pela região e assusta as pessoas há gerações.

 

Outro ponto positivo é a direção. Anteriormente, Winston vinha de direção de segunda equipe em O Exterminador do Futuro, mas aqui, ele estreou de fato no comando de um longa com o pé direito. Winston faz um excelente trabalho, e sua direção é segura e até madura, e ele se mostra um grande diretor de atores, uma vez que o elenco entrega atuações convincentes, fazendo a gente acreditar que aquelas pessoas são reais. E a caracterização deles também é muito boa, com destaque para o personagem Ed Harley, interpretado por Lance Henriksen, com seu ar de ingenuidade de homem do campo. Um trabalho de gênio. Além disso, a direção de fotografia também é um ponto positivo. Basicamente, o filme possui três cores, o laranja, o vermelho e o azul. O laranja é usado para as sequencias diurnas; o vermelho para as cenas a luz de velas e na casa da bruxa; e o azul para a noite. E as cores pulsam na tela de forma brilhante, principalmente o vermelho e o azul. É quase um filme do Maestro Mario Bava, quase porque ninguém é capaz de refazer o que ele fazia, que fique claro.


A direção de arte e o design também não ficam para trás. Como é um filme ambientado no interior dos Estados Unidos, a gente talvez espera encontrar pequenas comunidades, de casas simples, com animais perambulando. Pois é exatamente isso que é mostrado aqui, sem pudor. Toda a simplicidade, a falta de recursos e a sujeira são mostrados com detalhes impressionantes que beiram ao realismo. A paisagem é abandonada, com aspecto gótico e assombrado; o tipo de paisagem que mete medo em qualquer um. Um dos destaques vai para a casa da bruxa; toda decorada com animais mortos, ossos e crânios e uma lareira que lança labaredas amarelas. Ou seja, a casa de bruxa clássica dos contos de fadas. O cemitério de aboboras também merece menção. Um lugar cheio de nevoa, com arvores podres e aboboras velhas. Um lugar assustador. E tem também uma pequena igreja gótica em ruínas, muito bem feita também.



E por fim, não posso deixar de mencionar os efeitos especiais, criados pelo estúdio de Winston. O Cabeça de Abobora é uma das melhores e mais assustadoras criaturas do cinema de horror: alto, esquelético, de pernas e braços longos, garras afiadas e uma cabeça em formato de abobora. Uma criatura digna de pesadelos. O monstro foi interpretado por Tom Woodruff Jr., que passou o filme inteiro dentro de uma fantasia de borracha. Pois bem, aí que está a magia. Os efeitos são tão bons que a gente esquece que aquilo é um homem numa fantasia; parece de fato um monstro de verdade. Tudo criado com efeitos práticos, que não ficam datados e fazem muita falta hoje em dia. O filme também tem boas cenas de gore, com destaque para a cena da janela; um banho de sangue. Mas quem ganha destaque mesmo é o monstro, e suas cenas são arrepiantes. O filme faz questão de escondê-lo até o ultimo instante, mostrando apenas detalhes de suas mãos e garras. E quando ele finalmente aparece, a espera é compensada. 

 

Uma ultima coisa que vale comentar é a relação entre Harley e seu filho Billy. Desde que eles aparecem, fica claro que os dois são sozinhos e mundo e dependem um do outro para sobreviver. Harley é um pai amoroso, que cuida do filho com carinho e demonstra seu amor o tempo todo. As cenas em que ambos aparecem juntos são dignas de lagrimas nos olhos, de tão bonitas. E quando a tragédia acontece, nós ficamos com pena do pai. E a cena da tragédia é toda construída de maneira brilhante, com cortes para o pai e o filho e para os jovens na motocicleta. Qualquer um que assiste é capaz de adivinhar o que vai acontecer, sem esforço.

 

Pumpkinhead foi lançado primeiramente em 1988 de maneira limitada. O que aconteceu foi que a produtora, a De Laurentiis Entertainment Group, enfrentou problemas financeiros e acabou indo à falência. Em seguida, foi lançado novamente em Janeiro de 1989 pela MGM, mas não obteve bons resultados de bilheteria. No entanto, com o passar dos anos, acabou adquirindo status de cult entre os fãs do gênero. Recebeu quatro continuações, uma direto para o vídeo, e duas para a TV, uma delas com Doug Bradley no elenco. Dessas continuações, somente a primeira, Pumpkinhead II - O Retorno (1994), vale a pena.


Stan Winston faleceu em 15/jun/2008. Até hoje, é reconhecido como um dos maiores criadores de efeitos especiais, e suas criações são reverenciadas por vários cinéfilos e cineastas. 


Foi lançado em VHS no Brasil com o título de A Vingança do Diabo, mas também é conhecido por aqui como Sangue Demoníaco. Após anos fora de catalogo, foi lançado aqui em DVD pela 1Films Entretenimento, em edição especial em DVD duplo, com um disco cheio de extras.

 

Enfim, Pumpkinhead, A Vingança do Diabo é um filme excelente. Uma historia de horror com elementos de fantasia e conto de fadas, que consegue assustar sem o menor esforço. A direção segura e madura de Stan Winston, combinados com uma fotografia colorida e efeitos especiais de ponta, fazem deste um dos melhores filmes de terror dos anos 80. O Cabeça de Abóbora é uma das melhores e mais assustadoras criaturas do cinema de horror. Um filme assustador. Altamente recomendado.



Créditos: 1Films Entretenimento.



EXTRA:

O poema de Ed Justin, que serviu que serviu inspiração para o filme:

“Keep away from Pumpkinhead,
Unless you’re tired of living,
His enemies are mostly dead,
He’s mean and unforgiving,
Laugh at him and you’re undone,
But in some dreadful fashion,
Vengeance, he considers fun,
And plans it with a passion,
Time will not erase or blot,
A plot that he has brewing,
It’s when you think that he’s forgot,
He’ll conjure your undoing,
Bolted doors and windows barred,
Guard dogs prowling in the yard,
Won’t protect you in your bed,
Nothing will, from Pumpkinhead!”

Agradecimentos: https://www.horrorgeeklife.com/2017/03/02/pumpkinhead-poem/

 

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sábado, 19 de outubro de 2019

ALIEN, O 8º PASSAGEIRO (1979). Dir.: Ridley Scott.


NOTA: 10



ALIEN, O 8° PASSAGEIRO (1979)
ALIEN, O 8º PASSAGEIRO é um Clássico. Sem duvida, 40 anos depois de seu lançamento, ainda é um dos maiores filmes de horror e ficção científica de todos os tempos, que juntou os dois gêneros com maestria. 

Mas, o que o torna um filme tão grande? Bom, a começar pela própria história. Sem duvida, é um dos filmes mais tensos e claustrofóbicos já feitos, e a própria ambientação contribui para isso. E não só isso; Alien é também um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, por esses mesmos motivos e também por contar um roteiro tão bem amarrado, sem nenhuma ponta solta.

Devo dizer que Alien foi um filme que me assustou muito quando era pequeno. Minha mãe tinha alugado o VHS, e estava assistindo e me chamou e ao meu irmão para assistir uma cena; era a famosa cena da “última ceia”, talvez a cena mais famosa do filme, que pega toda a tripulação – e o elenco – de surpresa. Só essa cena já foi suficiente para me assustar; tanto que saí correndo e voltei para o meu quarto. Anos depois, tive vontade de ver o filme pela primeira vez, e não deu outra. É um filme excelente.

Alien é perfeito, não há duvida, seja pelo que já foi mencionado, seja pela direção segura de Ridley Scott, seja pelo elenco, seja pelo monstro, enfim, não importa. O fato é que é um desses filmes que devem ser vistos pelos fãs de cinema, independente do gênero.

Não é só isso. O filme é também um marco nos gêneros de ficção cientifica e terror, justamente porque conseguiu combinar esses gêneros muito bem, tudo na medida certa. É possível ver claramente que até os primeiros 20, 30 minutos, trata-se de um filme de ficção-cientifica, justamente por causa da ambientação, a nave Nostromo, mas é apenas isso. Mesmo com poucas pistas – ou nenhuma – fica claro que o filme se passa no futuro, um futuro muito distante, inclusive. Porém, ao invés de possuir um aspecto limpinho, com a nave toda em ordem, a coisa é diferente. O interior da nave é sujo, com peças defeituosas; não é uma nave “0 km”, é uma nave que já possui anos de estrada.

Esse é um dos grandes destaques. O interior da nave é muito bem feito, com suas maquinas modernas para a época, luzes piscando, equipamentos de comunicação avançados... parece mesmo que aquela nave existe e que aquele futuro existe. Mas não é apenas o interior da nave que merece nota. As cenas no espaço também são muito boas, com a nave surgindo em toda sua grandiosidade, com a câmera focando nos menores detalhes. Tudo belíssimo.

O elenco também contribui para o excelente desempenho do filme. Formado principalmente por veteranos, com exceção de Sigourney Weaver e Veronica Cartwright, é composto por personagens absolutamente realistas. É possível acreditar que todos ali são pessoas reais, que entendem e sabem o que estão fazendo ali dentro daquela nave. Nenhum dos atores está caricato, todos atuam de maneira brilhante.

O roteiro, escrito por Dan O’Bannon, a partir de uma historia que escreveu em parceria com Ronald Shussett, é um dos mais perfeitos do gênero. Como já mencionado, durante os primeiros minutos, temos a impressão de que é um filme de ficção-cientifica; porém, quando o tripulante Kane, interpretado pelo saudoso John Hurt, é atacado, a coisa muda de figura, e o filme se transforma em um filme de terror. Boa parte disso deve-se ao fato de esconderem o Alien durante o filme inteiro. Sério. Assistindo ao filme, eu estimulei que, das duas horas de duração, ele aparece umas seis vezes, mais ou menos. Claro, ele não é apresentado logo no início, isso só acontece mais adiante. Não sei se essa técnica de escondê-lo fazia parte do roteiro ou se era uma saída encontrada pela equipe, mas, o fato é que funciona. Muito bem.

Alien é um filme claustrofóbico, não há duvidas. A própria ambientação da nave faz dele um filme claustrofóbico, porque os personagens não têm para onde correr, depois que o monstro é solto dentro da nave! Segundo a crítica da TV Guide, Maitland McDonagh, o filme soluciona o maior problema das historias de casa mal-assombrada: os personagens não têm para onde fugir! E a própria fotografia também contribui. Toda a atmosfera e a paleta de cores escuras, deixam o filme ainda mais claustrofóbico, e a experiência de assisti-lo, mais assustadora. De verdade. Mesmo tendo assistido algumas vezes, não deixo de me sentir desconfortável ao assisti-lo.

A ideia para Alien surgiu após Dan O’Bannon realizar Dark Star (1974), filme de estreia do amigo John Carpenter. O’Bannon tinha a intenção de fazer outro filme sobre alienígenas dentro de uma nave, mas desta vez, queria que fosse uma criatura real. Ronald Shussett entrou em contato com ele após assistir ao filme de Carpenter. No entanto, eles seguiram caminhos diferentes. O’Bannon foi trabalhar na adaptação do livro Duna, que viria a ser dirigida por Alejandro Jodorowsky – mas que nunca aconteceu, como sabemos; Shussett, por outro lado, estava envolvido na futura adaptação de O Vingador do Futuro, que acabou roteirizada por O’Bannon. Durante a produção de Jodorowsky, O’Bannon conheceu o artista sueco H.R. Giger, e o convenceu a se juntar ao projeto, após ver uma de suas obras. O’Bannon e Shussett ofereceram o projeto a vários estúdios, mesmo não tendo finalizado o roteiro. Quem demonstrou interesse em produzi-lo foi Roger Corman, mas o produtor Walter Hill aceitou o desafio e levou a historia para a 20th Century-Fox. Os executivos, por outro lado, mostraram-se relutantes, pois temiam que poderia ser mais um filme de monstro espacial de baixo orçamento. O que motivou a produção do filme, foi o sucesso de Star Wars, lançado pelo estúdio em 1977. O’Bannon demonstrou interesse em dirigir, mas foi afastado, dando lugar a Ridley Scott, que chamou a atenção do estúdio após seu trabalho em Os Duelistas. A Fox cedeu um orçamento de 8 milhões de dólares. As filmagens aconteceram na Inglaterra, num período de três meses. Quando foi lançado, o filme tornou-se um sucesso de critica de bilheteria.

Uma das questões mais comentadas sobre o filme, é o fato de que talvez fosse o filme que deu a primeira heroína de ação para o cinema, no caso, a Tenente Ripley, que fez de Sigourney Weaver uma estrela. Durante todo o filme, fica claro que Ripley é a única que tem calibre para combater o Alien, além de ser uma personagem forte, que não baixa a cabeça para nada e para ninguém. Ripley é determinada, passa por cima das ordens do Capitão Dallas quando ele lhe ordena que Kane seja levado a bordo após ser atacado; mas ela se recusa e acaba comprando briga com os tripulantes. Ela também não se deixa enganar pelos mecânicos Parker e Brett, e, após Dallas ser eliminado, ela assume o comando da nave e sugere explodi-la com o monstro a bordo. Ou seja, é uma personagem casca-grossa. Agora, se Alien é de fato, um filme “feminista”, não sei dizer com certeza, mesmo vendo o quão forte e determinada Ripley é. O debate permanece.

Agora, sobre a Criatura. Como mencionei acima, eu acredito que ela aparece umas seis vezes no filme inteiro, mas essas 6 vezes são belíssimas. O Monstro é um ser assustador. Alto, magro, com uma cabeça grande, sangue acido, uma boca cheia de dentes afiados, um apetite insaciável, é uma das maiores criaturas do cinema de todos os tempos. Um monstro implacável, que ninguém, absolutamente ninguém consegue impedir. Desenhado por H.R. Giger, o monstro passou por varias etapas até atingir sua forma final. Uma das alterações sugeridas por Giger foi a ausência de olhos; segundo ele, se a criatura não tivesse olhos, ela seria muito mais perigosa. E funcionou. É muito difícil, na verdade, impossível, imaginá-lo com olhos hoje em dia. Quem também ajudou em sua confecção, foi o italiano Carlo Rambaldi, mestre dos efeitos especiais. Rambaldi ficou responsável pela cabeça do alienígena, que contava com cerca 900 partes moveis, entre elas, a icônica boca em miniatura que se projeta para frente. Quem o interpretou foi um estudante de design chamado Bolaji Badejo, que foi descoberto em um bar de Londres. Em momento nenhum, dá para dizer que o monstro é um homem dentro de uma roupa, pelo contrário, parece mesmo uma criatura de verdade. E todo o seu design contribui para deixa-lo ainda mais misterioso, porque ele consegue se esconder no interior da nave, imitando pedaços da estrutura, ou entrando em buracos e fendas onde não caberia um ser humano. Ou seja, não se sabe onde ele está. Um dos maiores monstros do cinema, sem duvida.

Alien tornou-se um sucesso de bilheteria e agradou críticos do mundo inteiro. Em 1980, Giger, Rambaldi, Brian Johnson, Nick Allder e Denys Ayling foram premiados com um Oscar® de Melhores Efeitos Visuais pelo seu trabalho. O filme também foi indicado na categoria de Melhor Direção de Arte, além de levar o Saturn Awards de Melhor Filme de Ficção Científica, Melhor Direção e Melhor Atriz Coadjuvante. Em 2002, foi escolhido pelo National Film Regisrty para preservação. O Alien possui a 14º posição na Lista dos 50 Maiores Vilões do Cinema do American Film Institute, e Ripley ocupa a 8º posição na Lista dos 50 Maiores Heróis do Cinema, pela sequencia Aliens, O Resgate.

O sucesso do filme motivou a Fox a produzir três continuações: Aliens, O Resgate (1986), dirigido por James Cameron; Alien³ (1992), de David Fincher; e Alien, A Ressurreição (1997), de Jean-Pierre Jeunet. Em 2012, Ridley Scott retornou a franquia com o ótimo Prometheus, prequel estrelada por Noomi Rapace, Michael Fassbender, Charlize Theron e Guy Pierce. Apesar de ser um divisor de criticas, eu gostei muito do filme. Scott retomou a franquia também em Alien: Convenant, considerado por muitos como inferior à saga. Tanto Prometheus como Alien: Convenant serviram como prequels, e tinham como objetivo, contar a historia da franquia anos antes do primeiro filme, e encerrá-la com outra sequencia, que antecederá diretamente o primeiro. No entanto, o fracasso de Convenent parece ter abortado os planos de Ridley Scott para continuar a saga. Veremos. Uma observação: eu gosto muito de Alien³; na minha opinião, é um filme injustiçado, que foi prejudicado por problemas de bastidores.

O filme também gerou uma serie de livros, quadrinhos e jogos de videogame, que expandem seu universo e contam novas historias, além de contar historias antes de algumas das sequencias. Ou seja, Alien é uma franquia lucrativa.

Em 1980, foi lançado um filme italiano chamado Alien 2: Sulla Terra, dirigido por Ciro Ippolitto. O filme não possui nenhuma relação com o filme de Ridley Scott, mas é muito divertido. Dizem que o filme de Cameron foi batizado de “Aliens” por causa dessa “sequencia” não oficial.

Enfim, Alien, O 8º Passageiro é um clássico. Um dos maiores filmes de todos os tempos. Uma historia claustrofóbica de horror que não deixa o espectador respirar. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos. Um filme inesquecível. Excelente.

Altamente recomendado.










Confira também a resenha em:
https://livrosfilmesdehorror.home.blog/2019/10/19/alien-o-8o-passageiro-1979-dir-ridley-scott/

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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

IT, A COISA (Stephen King).


NOTA: 10




IT, A COISA
IT, A COISA é um clássico absoluto de Stephen King, o Mestre do Terror.

Um livro perfeito, escrito de maneira brilhante, rico em detalhes, digno de apavorar qualquer um, sem fazer esforço, repleto de cenas memoráveis.

Escrito pelo autor durante os anos 80, o livro tornou-se um de seus maiores sucessos e continua assim até hoje. Mas o que o torna um livro tão perfeito?

A começar pela narrativa. Não há duvidas de que Stephen King é um mestre na arte de escrever, e até agora, não encontrei nenhum livro – ou conto – que me decepcionasse. E It é um deles. Durante a leitura, King mostrou que estava em sua melhor forma, ao contar uma historia tão detalhada e assustadora.

Como já devo ter mencionado, existem casos em que um livro pequeno, de poucas paginas, como A Metamorfose, por exemplo, contém muito mais historia do que um calhamaço de quase 2.000 páginas. Mas, existem exceções, e It é uma delas. Sinceramente, não consigo imaginar esse livro com menos de 600 paginas, porque não faria sentido nenhum. King precisou, sim, estender a narrativa até o total de 1.100 páginas, porque ele tinha muita, mas muita historia para contar.

Conforme ele mesmo revela em um dos extras do primeiro capítulo da nova adaptação, sua fonte de inspiração para criar a pequena cidade de Derry foi o próprio estado do Maine, seu lar. Ele contou que buscou inspiração nas historias que leu sobre a cidade de Bangor, os relatos de brigas de gangues, por exemplo, que acabaram entrando no livro. Ele também pesquisou sobre seu próprio passado, como quando ele e seu irmão brincavam no rio que havia na cidade, e como isso também influenciou na criação do Barrens, e claro, inventou suas próprias historias, juntou tudo e criou e cenário da historia.

E ele faz tudo com perfeição. Seu relato sobre Derry é fantástico, bem como suas descrições da cidade. Em inúmeros momentos, eu consegui visualizar aquela cidade, como seriam os prédios, as casas, as praças, a estatua do lenhador, o cinema, enfim, tudo. É o tipo de coisa que costumo fazer quando estou lendo um livro e me envolvo com a historia, independente do autor e do gênero, e aqui, não foi diferente. E quando acontece uma coisa assim, é porque eu adoro o que estou lendo. Inclusive, pessoalmente, eu acho muito mais fácil criar uma cidade, seja ela de que tamanho for, do que utilizar um cenário real. O autor tem mais liberdade para imaginar a estrutura do lugar, onde cada prédio ficaria, como seria a rotina dos habitantes, enfim, tudo, sem se ater a costumes antigos. Eu pessoalmente, gosto de imaginar assim; claro, não tenho nada contra usar um cenário real numa historia, cada um é cada um.

E claro, It é um livro de horror, e como tal, não faltam cenas de horror. Mas, qual a melhor delas? Olhe, difícil dizer. Na primeira leitura, já tive impressão; agora, com a releitura, a impressão continuou. Difícil escolher a melhor, porque são muitas. E com certeza, essas cenas de horror já se tornaram antológicas.

O Clube dos Otários é sem duvida, uma das melhores coisas do livro. É possível perceber, durante a leitura, que o livro é sobre eles. King descreve cada um deles maravilhosamente, expondo suas vidas, seus medos, tristezas, alegrias, dificuldades, enfim, tudo sobre eles. Difícil dizer qual é o melhor deles, porque são todos adoráveis. Cada um tem a sua característica, o seu modo de pensar, de agir, de ver o mundo, e principalmente, cada um tem o seu próprio mundo. Eles têm problemas, sim, como todos nós; passam por dificuldades tanto na juventude quanto na fase adulta; em algum ponto da vida, eles fracassaram em seus objetivos, enfim, são seres humanos completos. E de verdade, é impossível não vê-los juntos e não se apaixonar. De fato parece que a dinâmica entre eles é bem real, com cada um agindo do seu jeito, mas sempre pensando naquela temática do “Um por todos e todos por um”. Eles nunca estão sempre sozinhos, quase sempre estão juntos os sete; eles têm o seu ponto de encontro no Barrens, uma sede do clube embaixo da terra... O tipo de coisa que todos nós gostaríamos de ter em algum momento da vida, pelo menos eu. E claro, eles passam por perrengues, seja em casa, seja na escola. Ou seja, repetindo, são pessoas de verdade. Na leitura, é possível perceber uma certa troca de papéis. Se na infância, o grupo era liderado por Bill, na fase adulta, Mike, o único que ficou em Derry, assume esse posto de liderança, mesmo que temporária. Interessante essa troca.

Como os sete são os personagens principais, não é muito fácil distinguir quem, de fato, é o protagonista da historia, porque é daquele tipo onde todos os personagens conduzem, cada um do seu jeito. Não tem essa de “um tem mais espaço que o outro”; todos eles têm o seu momento, e brilham nesse momento, seja na juventude, seja na vida adulta.

Os outros personagens também são maravilhosos. Assim como os sete membros do Clube, cada um ali descrito tem sua própria vida, cheia de fracassos, alegrias, tristezas, enfim... Porém, é possível perceber que King dá mais espaço para o valentão da escola, o adolescente Henry Bowers, e seu grupo. King os descreve com a mesma paixão que descreve o Clube dos Otários, principalmente Henry. Ele, sem duvida, o típico adolescente que mete medo em todo mundo. O típico valentão da escola, que adora provocar os mais fracos e meter medo neles. No entanto, existe algo a mais. Henry é sádico. Sempre armado com seu canivete gigante, é evidente que ele não quer apenas machucar os Otários; ele odeia a todos. Os outros membros do grupo de Henry também são valentões, mas, nem todos são perversos; a única exceção é Patrick Hockstetter, que consegue ser tão sádico, ou até, pior do que Henry. Eu acho que ele é pior. King dedica um capitulo só para ele, e o que está escrito não é brincadeira. Patrick é terrível, cruel, sem escrúpulos ou remorso. Esse foi um dos capítulos mais arrepiantes do livro. E o destino dele também não fica atrás.

No entanto, na opinião de muitos, o que faz de It um livro assustador, não é o vilão, ou as cenas de horror. O que assusta de verdade, são os assuntos que King aborda. Falo de racismo, violência domestica, violência psicológica, abuso sexual, assedio, enfim, essas coisas que existem na nossa sociedade e nos assustam todos os dias. Infelizmente, é possível perceber que, mesmo tendo sido lançado há mais de 30 anos, o livro continua atual nesse aspecto, porque a nossa sociedade não mudou nada em relação a esses assuntos; pelo contrario, às vezes, nem sempre, são varridos para debaixo do tapete. Não é sempre que isso acontece, mas acaba acontecendo. Eu, pessoalmente, não gosto de noticias envolvendo esses assuntos, na verdade, nem gosto de discutir nem de saber sobre eles porque são muito tristes.

Outra coisa que King faz com maestria, é mostrar que, apesar da ameaça da Coisa, a cidade de Derry também é envolta em sangue. Muito sangue. Nos trechos batizados de “Interlúdios”, Mike conta em seu diário como foi a historia da cidade, na tentativa de descobrir o motivo pelo qual a Coisa retorna a cada 27 anos. E olha, que historia. Derry tem o sangue nas veias. Ao longo dos séculos, a cidade testemunhou o pior de seus habitantes, com direito a massacres em bares, crianças mortas em explosões, pais espancando filhos... Acho que um dos mais violentos episódios foi o incêndio no clube Black Spot, um clube para negros, ocorrido nos anos 30. Durante a leitura, eu consegui visualizar aquela noite horrível, onde muitos homens perderam a vida. King não faz cerimonia, e descreve a destruição nos mínimos detalhes. Sem duvida, um episodio trágico, mesmo sendo fictício. O mesmo vale para outros episódios trágicos descritos nos Interlúdios, mas, na minha opinião, o mais triste foi esse.

E como mencionado acima, seria impossível descartar esse lado negro da cidade, porque deixa a descrição mais rica, e também ajuda a entender por que a Coisa se sente atraída pela cidade e seus habitantes.

E o que dizer a respeito de Pennywise, o Palhaço Dançarino? Pennywise. É sem dúvida, o melhor personagem do livro. Com certeza, foi o responsável – ou um dos responsáveis – por causar coulrophobia em muitas pessoas. Coulrophobia é o termo dado para quem tem medo de palhaços. Não é difícil entender o motivo. Apesar da fama de serem engraçados, palhaços são, em primeiro lugar, assustadores. Quem consegue achar graça num ser humano com a cara branca, sorriso enorme e um enorme nariz vermelho, com sapatos gigantes? Eu não. Na verdade, eu não sofro de coulrophobia, mas não gosto de palhaços, nunca gostei. Mas, Pennywise... Meu Deus. Ele consegue meter medo em todo mundo, sem esforço nenhum. Desde que surge, no começo do livro, ele mostra que não é um palhaço bonzinho, e isso segue até o final da historia. Na verdade, ao longo do livro, King revela que o palhaço Pennywise é apenas uma das formas que a Coisa assume para atrair as crianças, conforme explica em um trecho do livro. O monstro assume inúmeras formas para assustar suas vitimas, incorporando seus piores medos, mas é o Palhaço Pennywise que fica na nossa memória, tanto que é impossível não associar o livro à figura do palhaço. Além de ser um dos maiores vilões do universo de Stephen King, é também o mais complexo. A Coisa é uma entidade mais antiga que o Universo, que veio à Terra para se alimentar de crianças, a fim de obter força. E King descreve sua criatura de forma impressionante, tão impressionante, que requer esforço da parte do leitor para entender como ela funciona. Sério. Acho que nem as criaturas de H.P. Lovecraft são tão complexas. Mas, pessoalmente, eu não encontrei dificuldade em assimilar e entender a historia da Coisa. Na primeira leitura, eu consegui entender como ela funciona e como ela assume e forma física na Terra e também como faz uso de várias formas para assustar suas vitimas e atraí-las. No fundo, é possível resumir a Coisa da seguinte maneira: é uma entidade cósmica que se alimenta de crianças e assume várias formas com o intuito de assustá-las; a forma do palhaço Pennywise é a forma que ela usa para atrair as crianças. Não deve ser tão difícil, não é? E o método que King encontrou para torna-la uma predadora perfeita é brilhante: somente as crianças conseguem vê-la, os adultos, não. E por quê? Porque quando nós crescemos, deixamos de acreditar em certas coisas, como fantasmas, monstros, fadas, essas coisas. Portanto, fica mais fácil para a Coisa caçar e matar as crianças de Derry, porque elas são muito mais vulneráveis.

Agora, sobre a minha sequencia favorita, vou dizer qual é. É um capitulo que é narrado principalmente como se fossem noticiais de um jornal. Claro que o que está sendo documentado não é bonito, mas, o que me atrai nesse capitulo é o modo como é escrito. As noticiais ali descritas parecem reais, e posso apostar que o jornal onde elas estão veiculadas, pode ser encontrado com facilidade nas bancas.

Meu outro momento favorito é quando King traz uma convidada de seu universo para a história, quando Henry já é adulto, e decide ir atrás dos Otários. A cena é fantástica, assustadora e bem feita. Eu adorei na primeira vez que li, e na releitura, adorei mais ainda. E o modo como ela entra na historia faz tanto sentido, que, francamente, não poderia ser de outro jeito.

Mas não é apenas um membro de seu universo que o autor traz nesse livro. Outro personagem, de um de seus livros mais famosos, também aparece em determinado momento da historia, no trágico episodio do incêndio do Black Spot. Tem gente que acha que é uma forma que o autor encontrou pra dizer que suas historias estão conectadas. Eu pessoalmente, não vejo assim; eu acho que é apenas uma brincadeira.

O livro é alucinante, não há duvida quanto a isso. Em certos momentos, a leitura é frenética, como se fosse um filme de ação; acho que é porque tem muitas cenas de ação. Mas são cenas muito bem escritas, e parece que conseguimos visualizá-las conforme lemos o livro; pelo menos pra mim foi assim. E esse ritmo frenético contribui para o andamento da historia, e não a deixa chata em momento nenhum, pelo contrário, ela fica ainda mais emocionante. Mas com certeza, os momentos mais frenéticos ficam para o final, quando os Otários vão enfrentar a Coisa novamente.

Esse é o momento em que a história dá uma guinada de cair o queixo. Porque, acredito que até aquele momento, a impressão que se tem a respeito do palhaço Pennywise, é que talvez ele seja um tipo de fantasma ou demônio do inferno, não sei. Mas, quando King finalmente conta quem e o que ele é de fato, a coisa muda de figura. Como já mencionei, eu acho, sem duvida, essa ideia de fazer do palhaço uma entidade cósmica, genial. Fora as criaturas de H.P. Lovecraft, não me lembro de ler nenhum outro livro de terror sobre entidades cósmicas. No entanto, apesar do brilhantismo de King, Lovecraft ainda carrega a coroa de rei do terror cósmico. Eu acredito que King transformou seu monstro em entidade cósmica, como uma homenagem à Lovecraft, de quem é admirador confesso. E, se parar pra pensar, existem alguns elementos lovecraftianos na concepção de Pennywise e da Tartaruga, sua rival cósmica.

Claro, como toda historia de monstro, não poderia deixar de existir o lado do Bem, e a Tartaruga é esse lado. Apesar de aparecer pouco, ela tem uma presença forte na historia, e é bem legal o modo como King a desenvolveu. Não fica difícil imaginar uma tartaruga velhinha, toda enrugada, de bengala até, falando com Bill no vácuo, quando eles vão enfrentar a Coisa pela primeira vez. Parece mesmo que a Tartaruga está velha, com o peso do universo sobre o casco. Bem legal.

Os confrontos dos Otários com a Coisa são de cair o queixo. Assim como as cenas de ação, também são momentos frenéticos, mas nem por isso, menos brilhantes. São cenas assustadoras, onde a Coisa mostra todo o seu poder, assumindo diversas formas, arrastando os Otários para o vácuo, com o objetivo de enfraquece-los, e não poupando nenhum deles. Mas o melhor fica para o final do livro, quando eles enfrentam a Coisa pela última vez. Ali, King mostra quem de fato é a Coisa e qual a forma que ela assuma na Terra. São momentos delirantes. King descreve tudo com maestria, e novamente, não fica difícil visualizar tudo aquilo, principalmente a Coisa em sua forma final.

Talvez um dos aspectos mais conhecidos do livro, é o fato de que, quando estava escrevendo, King estava sob efeito de cocaína, infelizmente. Infelizmente, porque, nessa época, o autor era viciado em drogas e em álcool, o que tornou-se um dos piores momentos de sua vida. Com certeza, esse fato gerou a cena mais comentada do livro, a famosa “cena da orgia” entre os Otários no esgoto. Muita gente, mas muita gente, não entendeu o motivo dessa cena estar no livro, nem a sua relevância para a historia, mas, do meu ponto de vista, existe uma explicação. Momentos antes da tal cena, as crianças estão presas no esgoto, que assim como a cidade, estava sofrendo os efeitos de uma tempestade. Estavam desesperados, achando que nunca mais iriam sair de lá, o que levou Beverly a sugerir que os meninos fizessem sexo com ela; como ela mesma explica no diálogo, foi uma forma deles se unirem para sempre, pois acharam que nunca sairiam do esgoto com vida. Viram como é fácil? Só olhar nas entrelinhas.

Eu poderia falar mais sobre o livro, mas, não quero entregar spoilers.

O fato é que It, A Coisa é um Clássico de Stephen King.

Como a maioria de suas obras, acabou sendo adaptado. No caso, foi adaptado duas vezes. A primeira foi a clássica e inesquecível – e ainda insuperável – minissérie de 1990, dirigida por Tommy Lee Wallace, com Tim Curry no papel de Pennywise, em atuação insuperável. A segunda é a maravilhosa adaptação em duas partes dirigida por Andy Muschietti, cujo primeiro capitulo foi lançado em 2017. O segundo capítulo está em exibição nos cinemas, e com certeza, vou assistir.

Enfim, It, A Coisa é um livro excelente. Uma historia rica em detalhes, contada com maestria, cheia de momentos assustadores e inesquecíveis. Uma trama redonda, com toques de fantasia, drama e terror cósmico. Um livro brilhante. Maravilhoso. Um Clássico de Stephen King.

Altamente recomendado.


AVISO.

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