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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

LISA E O DIABO (1973). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10


LISA E O DIABO é um filme belíssimo.

 

Uma história de horror, fantasia e mistério contada com a maestria do Maestro Mario Bava, e um de seus melhores filmes.

 

Eu já comentei sobre alguns filmes do Maestro aqui, e até agora, não encontrei nenhum que me decepcionasse.

 

Lisa e o Diabo faz parte do ciclo gótico do cineasta, ciclo esse que o tornou bastante conhecido, visto que ele foi um dos responsáveis por torna-lo popular na Itália, graças ao sucesso que O Vampiro da Noite (1957) fez no país.

 

Podemos também encarar o filme como uma espécie de homenagem que Bava faz a si mesmo, visto que existem cenas que lembram seus filmes anteriores, além do uso de suas técnicas bastante conhecidas.

 

Na trama, Lisa é uma turista que se perde em Toledo, na Espanha, e vaga pelas ruas da cidade, até se encontrar com um casal rico, e o carro deles quebra nas proximidades de uma antiga mansão, onde moram uma condessa e seu filho, além de um estranho mordomo que intriga Lisa, por se parecer com o Diabo.

 

Essa é a sinopse básica do filme, e pode até parecer simples, mas, na verdade, o roteiro envolve alguns outros elementos, como segredos de família e triângulos amorosos, que necessitam de um pouco de raciocínio do espectador para serem compreendidos.

 

Esse é um detalhe da trama que precisa ser analisado com muita calma, pois, não é explicado para nós logo de cara, ele acontece aos poucos. E a cada revisão, o mistério parece aumentar, o que pede ainda mais raciocínio de quem está assistindo.

 

Mas não se engane. Apesar dessa trama um pouco complicada, Lisa e o Diabo é um filme belíssimo, feito com as técnicas que somente o diretor Bava conhecia e sabia utilizar.

 

A começar pela direção. Bava era um mestre com a câmera, e sabia fazer coisas que nenhum outro cineasta soube. Aqui, mais uma vez, ele mostra sua competência e cria cenas memoráveis, com ângulos inspirados, além de uma movimentação suave, combinada a uma fotografia habilidosa.

 

Além da fotografia, o roteiro também merece menção, porque, conforme mencionei, é um grande quebra-cabeça, onde as peças vão se encaixando lentamente, com um mistério em torno dos três habitantes da mansão, que aos poucos vai mostrando sua face e seu motivo.

 

Os cenários também são maravilhosos, principalmente a mansão, que parece um gigantesco labirinto, com seus quartos vazios, um jardim enorme e aspecto de decadência, algo que Bava adorava utilizar em seus filmes. Como o filme se passa praticamente durante a noite, não é difícil nos sentirmos ameaçados dentro daquele ambiente, principalmente o quarto do mordomo Leandro, cheio de manequins.

 

Os personagens também são um ponto positivo, e os atores atuam maravilhosamente. É possível acreditar que aquelas pessoas são reais, que vivem naquela mansão decadente, presos em seu próprio mundo repleto de segredos macabros. Lisa é a mocinha indefesa, que não entende o que está acontecendo, nem como foi parar naquele mundo estranho, e acredita o tempo todo que tudo não se trata de um sonho. O casal rico também não faz feio, e passam a sensação de já estarem casados há muito tempo, e se cansaram um do outro, tanto que a mulher procura conforto nos braços do chofer.

 

Mas o melhor personagem é o mordomo Leandro, magistralmente interpretado por Telly Savalas. Ele é diabolicamente educado, misterioso e perigoso, e deixa transparecer essas sensações desde a primeira aparição, até o final do filme. Seu melhor momento é quando está em seu quarto recitando um monólogo sobre trabalho e tradição, enquanto come suspiros e bebe conhaque. Além disso, ele se mostra um grande fabricante de manequins, que desempenham um papel importante na história, pois representam os personagens principais.

 

O filme todo possui um aspecto de sonho e fantasia, e isso está presente desde a primeira cena, quando Lisa ouve a caixa de música ao longe e aparenta ser enfeitiçada por ela, visto que acaba se perdendo de seu grupo de excursão. E a sensação predomina até o final do filme, com eventos estranhos e misteriosos acontecendo, como o fato de Lisa se parecer com a amante do padrasto de Maximiliano, o que a deixa completamente confusa.

 

Esse é o grande segredo da trama. Lisa aparenta se dividir entre ela mesma, e Ellena, amante do padrasto de Maximiliano, que também se encanta por ela, e a mata. Como eu disse, é um mistério que vai se resolvendo aos poucos, o que obriga o espectador a pensar no que está acontecendo.

 

Acredito que tal sensação de estranheza se deve ao fato do produtor Alfredo Leone, após o sucesso do filme anterior de Bava, Os Horrores no Castelo de Nuremberg (1972), ter dado carta branca ao cineasta para fazer o filme que quisesse; então, chamou dois roteiristas que haviam trabalhado com ele anteriormente, e os dois desenvolveram a história a partir das ideias do diretor.

 

Tal mistério não impede o filme de ser uma verdadeira obra de arte, onde Bava aparentemente faz um resumo de sua vida, segundo dizem os biógrafos do cineasta. De fato, existem conexões com outros filmes anteriores do diretor, seja em takes e cenas, seja na própria história. Menções à A Maldição do Demônio (1960), O Ciclo do Pavor (1966) e Hércules no Centro da Terra (1961), por exemplo, estão presentes no longa.

 

Além disso, o filme também pode ser encarado como uma espécie de final de ciclo, visto que, naquela época, o gênero gótico dava sinais de declínio, e o que entrava em vigor eram os filmes mais pesados, os exploitation, por exemplo, algo que o cineasta explorou no Giallo Banho de Sangue (1971), que se tornou uma espécie de precursor do Slasher americano.

 

Por esse e outros motivos, Lisa e o Diabo é um filme que merece ser visto pelos fãs de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 2, que conta com um documentário nos extras.

 

Enfim Lisa e o Diabo é um filme excelente. Uma história de horror, mistério, romance e fantasia contada com maestria pelo Maestro Mario Bava, que faz uso de suas técnicas impares e únicas para contá-la. Um clima de mistério toma conta do filme desde a primeira cena e permanece até o final, com a protagonista presa em uma espécie de sonho macabro que encanta. Um dos melhores filmes de Mario Bava, e sua grande obra-prima.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 20 de julho de 2024

NOSFERATU – O VAMPIRO DA NOITE (1979). Dir.: Werner Herzog.

 

NOTA: 10


NOSFERATU – O VAMPIRO DA NOITE é um filme maravilhoso.

 

É um daqueles casos de refilmagens que não ofendem a obra original, e merecem estar junto com ela numa sessão dupla.

 

Como já deu para perceber, o filme de Herzog é uma refilmagem do Clássico de Murnau, que é um marco do Expressionismo Alemão, além de ser a primeira adaptação para cinema do livro de Bram Stoker.

 

Aqui não é diferente, e o filme pode ser encarado dessas duas maneiras por qualquer um que adore a obra de Stoker. Até porque, o filme foi lançado em um ano que pode ser chamado de “Ano do Drácula no Cinema”, visto a quantidade de adaptações e filmes de vampiros que foram lançados.

 

A trama é basicamente a mesma do filme de Murnau, então, não vou descrevê-la aqui, e irei me concentrar apenas nos quesitos técnicos.

 

Conforme disse acima, o filme é maravilhoso, e isso se deve principalmente às habilidades de Herzog como diretor, e isso ele tem de sobra.

 

O cineasta é capaz de criar cenas lindas de várias formas, sem apelar para artifícios; tudo é feito de forma natural, e no tempo certo, e deixam o filme ainda melhor a cada revisão.

 

O principal fator que deixa o filme lindo são as locações. O filme foi rodado na Alemanha e na França, e o diretor soube aproveitar os cenários de maneira única, assim como Murnau fez em seu filme. As cenas diurnas são o grande destaque, com foco nas montanhas e vales, além de cachoeiras e grutas.

 

O castelo do conde não fica atrás. A locação é belíssima, e nas cenas diurnas, fica ainda melhor, com aspecto gótico e com decorações mórbidas, além de ser repleto de morcegos pendurados nas janelas.

 

A locação para a cidade de Wismar também é linda, e possui um aspecto de parada no tempo, além de contar com uma belíssima praça central, diante de uma torre de relógio.

 

Sempre que vejo as locações desse filme eu fico em paz, porque elas são simplesmente lindas, sem exceção.

 

Além das locações, preciso falar sobre o elenco também. Nosferatu marca mais uma parceria entre Herzog e o ator Klaus Kinski, aqui no papel do vampiro. Não é novidade para ninguém que o ator era problemático no set, e que ambos tiveram momentos difíceis em sua parceria ao longo dos anos.

 

Kinski está excelente como o vampiro, e sua caracterização se distancia completamente do filme de Murnau, e aqui, o conde é retratado como uma figura trágica, que não pode morrer, e que sofre por amar e não ser amado. E assim como no filme de Murnau, ele vai à Wismar para espalhar a peste, representada por um exército de ratos.

 

Além de Kinski, temos também as presenças de Isabelle Adjani e Bruno Ganz, como Lucy e Jonathan, respectivamente, e os dois também estão excelentes.

 

Isabelle interpreta uma Lucy fragilizada, que ama o marido e teme por sua vida quando ele vai viajar para a Transilvânia. Mas não é só isso. Sua Lucy também é uma mulher determinada, que está disposta a se sacrificar para salvar a vida do marido e também acabar com a peste. A caracterização da personagem também é excelente, com seu rosto pálido e cabelos negros; e fica ainda melhor quando ela está de camisola branca, que dá um belo contraste.

 

Ganz, por outro lado, interpreta Harker, e o personagem pode ser dividido em duas fases. No começo do filme, ele é um homem seguro, que não tem medo de viajar para uma terra distante, e não liga para as conversas supersticiosas dos locais. No entanto, após fugir do castelo, ele se transforma em outra pessoa, em um homem fragilizado, com aspecto doente, que não reconhece mais a esposa. E a coisa fica pior no final do filme.

 

Como eu disse anteriormente, Herzog sabe criar ótimas cenas, e ele faz isso com maestria. As cenas aqui acontecem aos poucos, de maneira lenta mesmo, mas não ficam entediantes. São várias cenas aqui, e fica difícil dizer qual é a melhor, mas eu destaco a sequência em o conde morde Lucy; é uma cena tensa, que deixa o espectador angustiado, porque, quando achamos que ela acabou, ela continua.

 

Além de criar cenas de ritmo lento, Herzog também faz uso de imagens de arquivo de morcegos voando em câmera lenta, para simular a chegada do vampiro, e também indicar sua presença em cena. Assim como as cenas mencionadas acima, esses takes de morcegos voando são maravilhosos, principalmente por causa dos animais que os protagonizam.

 

Assim como o filme de Murnau, o filme de Herzog é um filme sobre a peste, representada na forma de um exército de ratos. Quando eles chegam à Wismar, a bordo do navio abandonado, o caos está instalado, e as pessoas não tem outra alternativa, a não ser sucumbir e morrer. As cenas da presença da peste são tristes, e eu destaco uma em particular: a sequência em que Lucy está andando pela praça e se depara com várias pessoas adoecidas dançando alegremente e comendo ao ar livre. É a clássica representação da Dança da Morte, vista na época da Peste Negra, mas sem a presença do Ceifador. A sequência é acompanhada por uma trilha sonora lúgubre, que a deixa ainda mais melancólica.

 

E já que toquei nisso, deixe-me falar sobre a trilha sonora, antes de encerrar. Herzog utilizou música clássica, além de uma banda para compor a trilha sonora de seu filme, e a trilha não decepciona. Desde a primeira cena, nas catacumbas de múmias, a trilha fúnebre se faz presente, e passa uma sensação de tensão, que vai crescendo à medida que ela mesma vai crescendo. É uma trilha sonora perfeita para o clima lúgubre e melancólico do filme.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, primeiramente em versão individual, depois na caixa Nosferatu, que contém também o filme de Murnau. A versão disponível na caixa é restaurada e está no formato Widescreen Anamórfico, além de vir acompanhada de muitos extras.

 

Para uma ótima experiência, assista primeiro o filme de Murnau, e na sequência, embarque neste filme aqui.

 

Enfim, Nosferatu – O Vampiro da Noite é um filme excelente. Uma obra melancólica e fúnebre, que enche os olhos com suas locações maravilhosas, além de contar com as técnicas milenares de direção de Werner Herzog. O elenco principal também é o destaque, e os atores estão excelentes em suas performances, e a trilha sonora deixa o espectador ainda mais imerso no longa, com seu tema fúnebre e melancólico. Um exemplo de refilmagem que não ofende a obra original, e merece estar ao seu lado em uma sessão dupla. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sexta-feira, 12 de julho de 2024

O SANGUE DE DRÁCULA (1970). Dir.: Peter Sasdy.

 

NOTA: 7.5


Entre 1958 e 1974, a Hammer Films produziu uma série de filmes protagonizados pelo Conde Drácula, criado pelo escritor Bram Stoker. Ao todo, foram nove filmes, sete deles estrelados pelo grande Christopher Lee, no papel que o consagrou como astro do horror. Somente dois filmes não contaram com o astro no elenco.

 

O SANGUE DE DRÁCULA, lançado em 1970, é o quinto filme da franquia, e o quarto a contar com o astro no elenco.

 

Com direção de Peter Sasdy, este é um filme que apresenta suas qualidades, e consegue ser arrepiante em alguns momentos, mas, ainda assim, começa a apresentar alguns problemas.

 

Mas, antes de falar sobre os problemas, deixe-me falar sobre as qualidades.

 

Como os demais filmes da franquia até então, este é um filme bem feito, que presa pelo aspecto gótico e também com uma atmosfera de terror sempre presente.

 

Na trama, um vendedor é atacado em sua carruagem e acaba se deparando com o Conde Drácula sendo destruído – com cenas do filme anterior – e coleta seu sangue, juntamente com sua capa. Após esse prólogo, três homens conhecem um lorde que compra os pertences do conde e o traz de volta à vida por meio de um ritual satânico.

 

Pois bem, aqui, temos mais uma vez o Conde Drácula percorrendo o interior em busca de vingança contra aqueles que o prejudicaram, neste caso, os três homens que mataram seu servo antes do ritual ser completado.

 

Essa formula da vingança do conde já havia sido usada no filme anterior – e voltaria a ser usada no filme seguinte –, então, não há muitas novidades aqui, para falar a verdade.

 

Mas, no entanto, temos a presença do astro Christopher Lee como o Conde Drácula, e, como sempre, é o que faz o filme valer a pena. Mesmo com a pouca presença, o ator consegue nos satisfazer com sua interpretação magistral do conde, passando todo o ar ameaçador e demoníaco que o personagem pede, além de ser uma presença muito elegante.

 

O resto do elenco também compensa, principalmente a atriz Linda Hayden, que faz a mocinha que se torna escrava do vilão.

 

Esse é a sacada do roteiro. Ao invés da mocinha totalmente indefesa, temos aqui uma mocinha que no começo, se mostra como indefesa e doce, mas, após se encontrar com o conde, transforma-se em sua escrava, e não poupa ninguém.

 

Deixe-me falar também sobre os outros personagens. O pai da mocinha, e seus dois amigos, são aqueles clássicos homens que se fingem de bons moços, mas, que na verdade, saem à noite para se divertir em clubes masculinos pela cidade. Os três amigos da mocinha também funcionam e convencem, e claro, um deles é o par romântico dela, uma coisa que também se tornou registrado nessa franquia – a presença do casal protagonista de mocinhos.

 

Quem merece menção também é o lorde satanista, interpretado por Ralph Bates, um ator bem conhecido na Hammer. Apesar da pouca presença, o personagem é bem interpretado, e passa aquela aura misteriosa que o roteiro pede. Funciona bem.

 

Eu, no entanto, tenho alguns problemas com a mistura de temática satanista com vampirismo, porque, eu acho que são dois temas que não tem muita relação entre si, e isso seria explorado no penúltimo filme da franquia. Pode ser que eu esteja errado, mas, acredito que as coisas devem ser separadas. No entanto, admito que é um bom recurso para trazer o conde de volta, apenas para dar uma variada.

 

Outro problema presente no roteiro, é a falta de utilização de alguns personagens secundários. Um deles é o policial que resolve investigar as mortes dos três homens, mas, ele acaba sendo mal aproveitado, e sua participação não é muito desenvolvida.

 

O mesmo pode ser dito do namorado da amiga da mocinha, que não faz nada o filme inteiro, é atacado por um vampiro, e desaparece sem nenhuma cerimônia. Ele poderia ao menos ter voltado como vampiro, assim, o mocinho poderia matá-lo.

 

O cenário que serve de esconderijo para o conde é muito bom, uma velha igreja abandonada, que rende momentos arrepiantes, além de proporcionar um bom combate final, que culmina na derrota do vilão.

 

Enfim, O Sangue de Drácula é um bom filme. Uma continuação decente da franquia, que segue exatamente onde o filme anterior parou, além de proporcionar momentos de suspense e terror na medida certa, e de arrepiar com eficiência. O grande destaque é o astro Christopher Lee, novamente entregando uma brilhante performance como Drácula. Um filme recomendado.




sábado, 4 de maio de 2024

ALUCARDA – A FILHA DAS TREVAS (1977). Dir.: Juan López Moctezuma.

 

NOTA: 10


O cinema de horror mexicano é um dos mais criativos de todos os tempos, com uma longa história.

 

ALUCARDA – A FILHA DAS TREVAS, lançado em 1977, com direção de Juan López Moctezuma, é um dos exemplares dessa leva, um dos melhores, e o meu favorito.

 

É um filme muito bonito, com uma técnica ímpar, aliado a uma direção inspirada e um elenco afiado. Além disso, é o exemplo de filme que fica melhor a cada revisão, e é uma das grandes qualidades do longa.

 

Junto a isso, temos também o carisma da protagonista Tina Romero, que interpreta a personagem-título. Mais detalhes sobre isso adiante.

 

Na essência, Alucarda é um filme sobre satanismo, além de se enquadrar no subgênero do nunsploitation, subgênero do cinema exploitation que se tornou muito popular nos anos 70, conhecido por apresentar tramas apelativas que envolvem freiras. Eu não conheço muitos filmes desse subgênero, mas digo que este é um dos melhores.

 

O roteiro apresenta uma trama aparentemente comum, com a jovem Justine se mudando para um convento no interior do México após a morte de seus pais. Uma vez estabelecida nas imediações da instituição, ela conhece a noviça Alucarda, que tem se torna amiga imediatamente. A partir desse ponto, a trama se encaminha para um enredo de horror, com toques de satanismo, e logo após a introdução de Alucarda, a mesma se torna protagonista do filme.

 

Além de ser um exemplar dos subgêneros satanismo e nunsploitation, Alucarda é um dos filmes mais profanos que já vi, visto a quantidade de cenas de adoração ao Diabo que estão presentes no longa, com destaque para a cena do Sabá, com vários personagens dançando nus, e com direito à presença de uma figura com cabeça de bode.

 

Eu já mencionei em outras resenhas que tenho um certo receio de assistir a filmes com temática satanista por causa das cenas de adoração, mas aqui é diferente. Eu gosto muito de assistir a esse filme e sempre que penso nele, eu não fico com medo. Eu assisto a esse filme com prazer.

 

O principal motivo para isso é a própria protagonista. Alucarda é a melhor personagem do cinema de horror que eu já vi. Ela é aquele tipo de personagem que sabe seduzir os demais, transitando entre a doçura e a ameaça com naturalidade, de maneira quase imperceptível. Além disso, a performance da atriz Tina Romero contribui para deixá-la ainda melhor e mais assustadora a cada revisão. Sua caracterização também é um ponto positivo. Ela sempre se veste de preto e deixa os cabelos soltos; uma das melhores caracterizações que já vi. Ela não tem medo de se mostrar como uma adoradora do Diabo, e seu grande momento, é a sequência da missa, onde ela e Justine proclamam em alto e bom som sua adoração à Satã. Sua origem é pouco explorada, e francamente, isso não me incomoda, e dá para pensar que sua mãe era uma satanista que se arrependeu e a levou para o convento após seu nascimento. E no final do filme, ela coloca suas garras para fora, expondo todo o seu poder.

 

A ambientação também é um ponto positivo. É um filme de terror gótico com todas as características. O convento é o melhor cenário, porque é um lugar sinistro, semelhante a uma caverna, com pouca iluminação, com imagens de cruzes espalhas pelas paredes e um candelabro sinistro no teto. É difícil de saber quando que a trama se passa durante o dia, visto a falta de luz que penetra no ambiente. É uma ótima ambientação.

 

Agora, deixe-me falar sobre o impacto e a influência que se esse filme tem sobre mim. Eu estou no processo de revisão do meu terceiro livro, que é uma história de vampiro ambientada num convento europeu no século XVIII. Desde o início, Alucarda foi a minha grande inspiração, em especial, a caracterização da protagonista, que me inspirou a criar a vampira do meu livro, uma menina de quinze anos chamada Rubya. Além da personagem-título, a cena dos ciganos também me influenciou muito, principalmente na hora de criar uma cena semelhante. Claro, outros exemplares do subgênero nunsploitation tiveram seu papel, mas, Alucarda foi a minha principal influência.

 

Antes de encerrar, devo dizer que o filme é uma grande obra de arte. A fotografia contribui para isso, deixando o longa com aspecto de pintura. A própria sequência do Sabá lembra uma pintura de Goya, por exemplo; e a primeira aparição de Alucarda é feita como se a personagem fosse um desenho na parede que ganha vida, tudo muito bem iluminado. O diretor Moctezuma e o diretor de fotografia também capricham nos ângulos de câmera, principalmente na sequência da missa, que é parcialmente rodada em planos holandeses.

 

Foi lançado no Brasil em DVD pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 10, dedicada ao horror satanista. Nos extras, há um depoimento do cineasta Guillermo Del Toro, grande fã da obra.

 

Enfim, Alucarda é um filme excelente. Um filme de horror satanista com toques de horror gótico e nunsploitation, contado com maestria ímpar. Os grandes destaques são a fotografia e a direção de arte, que transformam o convento em um ambiente sombrio e sinistro, envolto na escuridão. A personagem-título é a melhor coisa do filme, e sua caracterização é excelente, aliada à performance extraordinária da atriz Tina Romero. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos, e um dos meus favoritos.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


terça-feira, 30 de abril de 2024

GHOST STORY (Peter Straub).

 

NOTA: 7.5


Peter Straub foi um dos nomes mais conhecidos da literatura americana de suspense, e seus livros são reconhecidos como best-sellers principalmente nos Estados Unidos.

 

GHOST STORY é um de seus romances mais conhecidos, e um livro muito bom, devo dizer.

 

Eu não li outro livro do autor – tenho na minha coleção, O Talismã e A Casa Negra, escritos em parceria com Stephen King – mas ouvi dizer que ele não escrevia livros menores, apenas calhamaços, e este aqui é um deles.

 

O romance é escrito em uma riqueza de detalhes impressionante, e confesso que é preciso se concentrar bem para mergulhar na leitura, porque o autor não poupa o leitor de detalhes na narrativa, até de detalhes banais.

 

O romance conta a historia da Sociedade Chowder, composta por quatro velhos amigos, que se reúnem de tempos em tempos para contar historias de terror e fantasmas, sempre na calada da noite, vestidos em trajes a rigor, com bebidas e charutos.

 

Divido em três partes, além de contar com um prologo e um epilogo, o livro é bem assustador e tenso, com cenas dignas de provocar arrepios, principalmente as cenas de pesadelos dos membros da Sociedade.

 

Como é um livro bem grande, ficamos muito tempo imersos na leitura, acompanhando a narrativa extensa do autor e seu método de contar a narrativa, descrevendo detalhes importantes dos personagens durante a descrição da cena, e isso acontece em todos os momentos. Eu pessoalmente achei isso até interessante, porque dá uma visão diferente do método de escrita de um autor especifico.

 

Eu havia visto uma resenha de uma Book Tuber que não se sentiu presa à narrativa, talvez, principalmente por causa da riqueza de detalhes com que o autor compôs sua obra; não é o meu caso, conforme mencionei acima.

 

Um dos pontos que a Book Tuber destacou em sua resenha foi a sequencia da festa, que, segundo ela, é muito extensa. Eu gostei de ler essa sequencia, porque me senti dentro daquela festa, interagindo com aqueles personagens, e testemunhando a tragédia que aconteceu no final do evento.

 

Um ano após essa tragédia, os membros da Sociedade Chowder decidem chamar o sobrinho de um deles para ajuda-los a investigar o que aconteceu com o quinto componente do grupo.

 

A partir daí, o autor destaca alguns capítulos para descrever o ponto de vista desse novo personagem, por meio de seus diários, principalmente o seu encontro com uma mulher misteriosa. E conforme ele vai nos contando, descobrimos que a mulher não é nada do que pensava.

 

No capítulo seguinte, Straub faz um relato de como os demais personagens do livro estão vivendo, com destaque para um adolescente e seu amigo rebelde. Eu confesso que fiquei um pouco confuso com a leitura desse capítulo, porque não me lembrava dos personagens descritos ali, visto a quantidade de páginas do livro. No entanto, o trecho em que os dois rapazes invadem uma casa e são atacados por uma entidade é muito bom.

 

Em meio à essa descrição detalhada dos eventos, o autor apresenta uma outra mulher misteriosa, que pode ter ligação com os membros da Sociedade Chowder, e com os acontecimentos bizarros que estão tomando conta da cidade.

 

No início da terceira parte, o autor continua focando na vida dos personagens secundários, com destaque para uma sequência de invasão domiciliar, que termina de maneira aterrorizante, com a presença de um provável lobisomem. Esse é um detalhe curioso do livro. Aparentemente, Straub diz que seus fantasmas podem assumir diferentes formas, além de interagir com todos, como se estivessem vivos. Eu acho esse um detalhe muito curioso, porque dessa forma, os fantasmas do autor têm as suas próprias regras e precisam segui-las.

 

Toda essa sequência da cidade, com todos os personagens, é um pouco monótona, porque o autor aparentemente foge do foco principal da trama, que são os membros da Sociedade Chowder, e o sobrinho de um deles, que está investigando a morte do tio.

 

Mas, em determinado momento, Straub retorna aos membros da Sociedade, e eles contam para Don – e para nós também – quem é a mulher que está rondando os demais personagens, e criando situações assustadoras. Toda essa sequência é muito boa, pois prende de fato a atenção do leitor, porque queremos saber o que aconteceu com os homens idosos quando eram mais jovens. Foi um trecho que me prendeu, porque me fez lembrar da sequência de flashback do filme.

 

E para finalizar os momentos que merecem destaque, eu menciono a sequência em que os personagens entram em uma casa abandonada, a fim de procurar os fantasmas que estão causando os problemas na cidade. É uma sequência verdadeiramente tensa, que me deixou arrepiado.

 

A escrita de Straub até que é boa, mas, na minha opinião, o livro sofre de um mal que me deixou confuso; em vários momentos, o autor foca sua atenção nos demais personagens, e confesso que me senti um pouco perdido, porque não me lembrava deles. Vocês podem dizer que ‘Salem, de Stephen King, tem o mesmo problema, mas, a leitura do livro de King foi muito mais fluida e não me atrapalhou; o mesmo não pode ser dito sobre este livro.

 

Eu mencionei acima que o autor faz questão de mostrar que seus fantasmas não são fantasmas comuns, e de fato, não são. Aqui, eles podem assumir diversas formas diferentes, sendo descritos como transmorfos, e eu achei isso muito interessante, porque as criaturas seguem suas próprias regras.

 

A interação entre os quatro amigos da Sociedade Chowder também é bem explorada, e cada um tem suas próprias características e personalidades. Fica evidente que os membros mais importantes são Ricky e Sears, visto a quantidade de tempo que o autor dedica a eles. Os demais personagens também são bem explorados, principalmente nos capítulos referentes à cidade como um todo.

 

O conflito final dos personagens com a criatura principal também é bem escrito, com direito a cenas ambientadas em outras dimensões, mas o cenário principal é o apartamento da mulher que os membros da Sociedade mataram por acidente. E o epílogo amarra muito bem o que foi apresentado no prólogo, a relação entre Don e uma menina misteriosa.

 

Enfim, Ghost Story é um livro bom. Uma história de horror contada de maneira elaborada, com muitas cenas, muitos cenários, e muitos personagens, e em determinado momento, tudo se encaixa. A escrita de Peter Straub é decente, apesar de focar muito em personagens e cenas que aparentemente, não tem relação com a história principal. Um gigantesco quebra-cabeça que é montado aos poucos, revelando uma história arrepiante e intrigante.


sábado, 9 de março de 2024

MORGIANA (1972). Dir.: Juraj Herz.

 

NOTA: 8.5


O diretor Juraj Herz foi um dos cineastas mais criativos de todos os tempos, e seus filmes possuíam um toque experimental e assustador.

 

MORGIANA é outro filme do cineasta, e um dos mais assustadores que já vi, e motivos para isso não faltam.

 

Desde a primeira vez em que o assisti, fui tomado por uma sensação de pavor, misturada com desconforto e fascínio, tudo isso graças, principalmente, à sequência dos créditos iniciais, que é banhada com uma trilha sonora arrepiante, combinada a imagens desconcertantes. Eu confesso que toda vez que penso em assistir ao filme, eu fico com receio por causa dessa sequência inicial, mas logo tal sensação passa, e sou capaz de apreciar o longa, ainda que tenha que enfrentar certos momentos arrepiantes.

 

Além de ser um dos mais assustadores que já vi, o filme é também um dos mais impressionantes, graças às técnicas de direção de Herz, que faz uso de métodos criativos e bizarros para contar sua história, como por exemplo, o uso de lentes grande-angulares e distorção de cores.

 

Mas não é apenas a técnica de direção que deixa o filme belo; a direção de arte e o figurino também contribuem para isso, e nos fazem entrar naquele mundo gótico europeu do século XIX. Sempre que assisto ao filme, eu presto atenção a esses detalhes, porque eles me deixam ainda mais imerso na experiência.

 

Agora que já mencionei a qualidade técnica, deixe-me falar sobre seu elenco, com destaque para a atriz Iva Janzurová, que interpreta as gêmeas Klara e Viktoria. A atriz está excelente em seus papéis, e confesso que é difícil não imaginar se são duas mulheres diferentes dando vida àquelas personagens, visto o grau de diferença de atuação. Iva se transforma nas personagens de modo impressionante, e nós sentimos simpatia pelas duas irmãs, apesar de sabermos que Viktoria é perversa.

 

Sobre as irmãs, digo o seguinte. O filme é a clássica história do gêmeo bom e do gêmeo mal, e fica fácil saber qual das irmãs é a boa, e qual é a má. Viktoria é a gêmea má, e isso fica evidente logo em sua primeira cena. A personagem é excelente, sempre vestida de preto, com sua maquiagem e rosto pálido como papel. Klara é a gêmea boa, sempre vestida com roupas coloridas, com ar de ingenuidade e bondade presentes em sua personalidade.

 

Ainda sobre Viktoria, ela é a encarnação da maldade, praticando atos ruins apenas porque é malvada, prejudicando a todos ao seu redor e se mostrando gananciosa e disposta a tomar a parte da herança que Klara recebeu do pai. Ela é uma das melhores vilãs que já vi em um filme.

 

Klara, por outro lado, é doce e sensível, e acredita na bondade das pessoas. Por isso, quando ela é envenenada, nós sentimos pena dela, pois sabemos o que aconteceu e o motivo pelo qual aconteceu; o mesmo acontece quando ela passa a sofrer os efeitos do veneno, sendo acometida por visões terríveis e disformes. O maior problema disso tudo, é que ela é obrigada a ficar sob os cuidados de uma freira assustadora e severa.

 

A trilha sonora também é um ponto positivo para o filme. É difícil classificá-la com precisão, mas digo que é uma verdadeira trilha sonora de filme de terror, que provoca arrepios no espectador; pelo menos para mim é assim sempre que assisto ao filme.

 

O filme também é cheio de momentos arrepiantes, escuros e desconcertantes, e é difícil dizer qual é o mais arrepiante. O que todos têm em comum, é que todos são protagonizados por Viktoria, o que aumentam seus graus de maldade.

 

Segundo o diretor Herz, o filme foi encarado por ele como um exercício para ele não perder suas habilidades de direção, visto que foi proibido de exercer a profissão por motivos políticos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 14, dedicado ao terror europeu, com um depoimento do cineasta como extra.

 

Enfim, Morgiana é um filme muito bom. Um filme de terror com imagens e cenas arrepiantes, que prendem a atenção do espectador, e podem causar pesadelos sem o menor esforço. A atriz Iva Janzurová é o grande destaque, com sua atuação magistral, no papel das gêmeas Klara e Viktoria. Um filme verdadeiramente assustador, e um dos melhores filmes de terror do cinema europeu.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


terça-feira, 14 de novembro de 2023

FRANKENSTEIN (Mary Shelley).

 

NOTA: 9



Desde sua publicação, no século XIX, Frankenstein, de Mary Shelley, tornou-se um clássico da literatura e um dos maiores expoentes da literatura de horror e ficção cientifica. E como todo sucesso literário, ganhou diversas adaptações para diversas mídias, principalmente para o cinema.

 

Mas hoje não vou falar sobre as adaptações, e sim, sobre o livro que deu origem a todas elas: FRANKENSTEIN, também conhecido pelo subtítulo O Prometeu Moderno.

 

De inicio, vou logo avisando. Se você espera encontrar algo semelhante ao que a Universal fez em 1931, com o Clássico de James Whale, esqueça, porque aqui temos algo completamente diferente, no que se refere à criação do Monstro, mas vamos por partes.

 

Primeiro, devo dizer que este é um livro escrito em primeira pessoa, nesse caso, pelo próprio Victor Frankenstein, que decide contar sua história a um homem que conheceu em um navio.

 

Primeiramente, Frankenstein nos conta como foi sua vida em Genebra, desde seu nascimento até a entrada para a Universidade. Tanto a autora como o personagem contam tudo nos mínimos detalhes, não deixando escapar os pontos principais, entre eles, como Victor conheceu sua prima Elizabeth e seu amigo Henry.

 

Em seguida, somos apresentados à vida universitária do protagonista, quando ingressou na Universidade de Ingolstadt, uma das mais prestigiadas da Alemanha, onde conhece dois professores, e fica amigo de um deles, do Professor Waldman. E justamente nessa parte, temos o relato do narrador a respeito de suas pesquisas a respeito da vida e da morte, e o momento em que resolve dar vida à sua maior criação.

 

Esse trecho em particular é narrado em um único parágrafo, onde a autora nos conta como o personagem deu vida à sua criação, mesmo que seja de maneira realmente vaga. Como eu disse no início, não espere encontrar um laboratório com aparelhos movidos a raios e tempestades, porque o que a autora faz é um mistério, mesmo. Ela descreve como a criatura ganha vida, todo o processo até os primeiros movimentos da mesma, mas não diz em momento nenhum como ele fez isso.

 

Nos próximos capítulos, a autora nos conta como Frankenstein sobreviveu à criação de seu monstro, logo após abandoná-lo. Ela descreve as dificuldades e os problemas de saúde do protagonista, visto que ele passou anos envolvido em seu projeto. No entanto, as coisas melhoram – até certo ponto – quando Henry o visita com cartas de seus familiares, obrigando-o a voltar para casa. No entanto, as coisas não são nada animadoras, porque Frankenstein recebe uma noticia devastadora, que culmina em um julgamento e condenação de uma mulher inocente.

 

Mais adiante, Frankenstein chega a encontrar o Monstro, mas as consequências são devastadoras. Não entrarei em mais detalhes para não dar spoilers.

 

Deixe-me falar a respeito do livro.

 

A escrita da autora é muito boa, apelando para o texto em primeira pessoa, narrada pelo protagonista ao marinheiro Walton. Apesar de ter adotado essa técnica de escrita, eu às vezes gostaria que o livro fosse escrito em terceira pessoa, principalmente por causa de acontecimentos importantes da trama.

 

Muitas pessoas consideram Frankenstein um livro de horror, e não deixa de ser, mas eu também vejo como uma historia dramática, visto que os acontecimentos navegam mais para o drama do que para o terror, como foi mostrado nas adaptações. A história é dramática porque somos apresentados a fatos verdadeiramente dramáticos, principalmente quando envolvem o protagonista e também quando são narrados pela Criatura.

 

E como é narrado em primeira pessoa, o livro é focado totalmente no personagem principal; na verdade, o livro é focado em dois personagens, basicamente: o protagonista, e a Criatura, visto que eles são os principais narradores, e contam eventos importantes.

 

Acima de tudo, o livro é sobre arrependimento e angustia, simplesmente porque Frankenstein se arrepende amargamente de ter criado seu monstro, desde que o vê abrindo os olhos pela primeira vez; a partir daí a autora nos conta como o protagonista se sente em relação ao seu experimento, relatando principalmente o medo que ele tem dos atos da Criatura. Eu gostei dessa relação de angustia do personagem, mas ao mesmo tempo, achei alguns diálogos dramáticos demais, mas isso não me fez parar a leitura.

 

Provavelmente, uma questão de faz desse livro um produto de seu tempo, sejam os diálogos, que são muito grandes e até filosóficos. Existem trechos de diálogos que tomam até uma pagina inteira – ou meia pagina, dependendo da edição – e, às vezes atrapalham um pouco a leitura, mas deve ser uma técnica de escrita comum para livros dessa época, principalmente se são narrados em primeira pessoa.

 

Mas como eu disse, nada disso me atrapalhou a leitura, e aconselho você que ainda não leu, que dê uma chance à historia.

 

Deixe-me falar também sobre a criação do Monstro. Ao contrario do que foi mostrado no cinema, aqui temos um certo mistério em volta da criação, porque a autora nunca deixa claro para nós como aconteceu; a única pista são os olhos da Criatura se abrindo e é isso. A descrição também é muito diferente; aqui, o Monstro é apresentado como um ser humano com pedaços de pele faltando em diversas partes do corpo, com a pele amarelada.

 

E também temos aqui um Monstro falante, que exige a criação de uma companheira. Então, mais uma vez, ao contrario do que foi mostrado no cinema – com exceções – o Monstro é muito inteligente e articulado com o protagonista, mas não deixa de ser um assassino.

 

Enfim, Frankenstein é um livro excelente. Uma história dramática com toques de horror e ficção cientifica, contada de forma inteligente, que não atrapalha a leitura, e às vezes, a deixa mais fluída. Os dois personagens principais são o grande destaque da trama, cada um com suas características e drama peculiares. Um verdadeiro clássico da Literatura de horror e um dos maiores livros de todos os tempos.


MARY SHELLEY.

 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O LOBISOMEM (1941). Dir.: George Waggner.

 

NOTA: 9


O Ciclo dos Monstros Clássicos da Universal foi um dos mais importantes de todos os tempos, não apenas para o cinema de horror, mas para o próprio estúdio também, pois, foi graças aos clássicos Drácula (1931) e Frankenstein (1931), que os lucros aumentaram durante a famigerada época da Grande Depressão.

 

Nos anos 40, o estúdio estava passando por mudanças em sua administração, resultantes da perda dos Laemmle, no final da década anterior. Mas isso não impediu o estúdio de produzir novos filmes, principalmente filmes de terror, e O LOBISOMEM, lançado em 1941, com direção de George Waggner, é um deles.

 

Mesmo não tendo sido o primeiro longa a abordar o tema, esse foi o que apresentou as normas que seriam aproveitadas por cineastas posteriores.

 

Tais características foram introduzidas pelo roteirista Curt Siodmak, que reutilizou a ideia de um roteiro escrito por Robert Florey, para um projeto destinado ao ator Boris Karloff, que estava em voga na época, graças ao sucesso de Frankenstein. No entanto, devido às ideias de Florey, o roteiro foi descartado.

 

No roteiro de Siodmak, Larry Talbot, um mecânico americano, retorna à casa de sua família na Inglaterra para instalar um telescópio, e se torna vitima da maldição do lobisomem. Parece simples, não? Pois na verdade, o roteiro é um pouco mais enxuto do que isso, pois também aposta no drama e até no romance, além de focar no tema dos lobisomens de uma forma até então diferente.

 

De acordo com historiadores de cinema, Siodmak utilizou ideias originais, além de estudar um pouco do folclore do lobisomem para dar vida à sua criatura, e com isso, apresentou conceitos que até hoje são utilizados, como o uso da prata e da mata-lobos para derrotar a criatura.

 

Além disso, o filme também apresentou um visual diferente para a criatura, criado pelo mestre Jack Pierce, que não chegou a transformar o ator Lon Chaney Jr. em um monstro propriamente dito, mas em alguém com rosto peludo e dentes afiados, que se tornaria quase que uma tradição em filmes posteriores, até isso ser quebrado nos anos 80.

 

E o trabalho de Pierce é excelente porque ele criou algo que até hoje é reverenciado por profissionais de cinema, principalmente profissionais de maquiagem, como Rick Baker, um admirador declarado do trabalho de Pierce. O conceito é até bem simples, mas consegue assustar e impressionar até hoje.

 

O restante do filme também merece menção, porque, assim como o restante dos longas produzidos pelo estúdio naquela época, faz um excelente trabalho de ambientação, misturando cenários e costumes contemporâneos com cenários e costumes de épocas passadas, dando a impressão que o mundo onde o filme se passa não é real; é algo que é de fato convidativo, que fica melhor a cada vez que assistimos aos filmes.

 

O Lobisomem foi dirigido por George Waggner, e o diretor fez um grande trabalho aqui, seja em termos técnicos, seja com seu elenco. O grande destaque, com certeza, é Lon Chaney Jr., filho do grande astro do cinema mudo de horror. Chaney passa toda a sensação de agonia que o roteiro pede, e com isso, deixa evidente, que, no cinema, o lobisomem é sempre uma vítima de uma maldição, apesar de tal característica ter sido apresentada em O Homem-Lobo (1935), o primeiro longa a tratar do tema, também produzido pela Universal.

 

O restante do elenco também não faz feio, e não temos atuações forçadas, e o roteiro de Siodmak ajuda a passar credibilidade dos mesmos.

 

Assim como os seus antecessores, O Lobisomem aposta no clima gótico para contar sua história, e temos provas disso principalmente nas cenas noturnas, quando os cenários são cobertos por neblina. O aspecto também está presente no Castelo Talbot, em especial nas cenas externas.

 

Em 2010, recebeu um remake dirigido por Joe Johnston, e estrelado por Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving, que não ofende a este aqui em momento nenhum, e merece ser visto, principalmente pelo respeito e homenagens que presta a este aqui.

 

Enfim, O Lobisomem é um filme excelente. Um longa assustador, que prende o espectador até hoje. O roteiro de Curt Siodmak é afiado, e o roteirista aproveitou apenas o titulo do projeto anterior, e fez uso de coisas novas para contar sua história, que são utilizadas por cineastas posteriores até hoje. Lon Chaney Jr. é o grande destaque, e passa todas as emoções que estão presentes no roteiro, além de ter dado vida a um dos maiores monstros do cinema de todos os tempos. Um verdadeiro clássico.  



AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.