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sexta-feira, 7 de junho de 2019

CHRISTINE, O CARRO ASSASSINO (1983). Dir.: John Carpenter.


NOTA: 9.5


CHRISTINE, O CARRO ASSASSINO (1983)
O encontro entre Stephen King e John Carpenter. Assim pode ser definido CHRISTINE, O CARRO ASSASSINO (1983), oitavo filme dirigido por Carpenter, baseado no livro de King, lançado naquele mesmo ano.

Posso dizer, com toda certeza, que é uma das melhores adaptações de Stephen King, e, também, um dos melhores filmes de John Carpenter. Tudo começou quando o próprio Stephen King enviou para Richard Kobritz – que havia produzido Os Vampiros de Salem (1979), baseado no livro Salem, do mesmo autor – o manuscrito de Christine, provavelmente com a intenção de transformá-lo em filme. Kobritz adorou o texto e entrou em contato com a Polar Film, e informou que tinha intenção de adaptá-lo, com John Carpenter na direção. O resultado foi um filme excelente.

Desde o primeiro momento, Christine mostra-se um filme de suspense bem construído, e essa atmosfera não vai mudando conforme a fita avança. Carpenter deu um ar nostálgico ao filme, o que, na minha opinião, faz dele ainda mais atraente. A cena no colégio é uma das melhores, e toda vez que assisto, tenho uma sensação de nostalgia, como se já estivesse naquele lugar antes – sensação essa que gosto muito, e que não existe nos filmes de hoje.

O momento seguinte, quando Arnie encontra Christine na casa de George LeBay – no livro, é seu irmão, Roland, quem vende o carro para o garoto – também é muito bom, principalmente por causa da fotografia, em tons laranja, que passam a impressão de sujeira e fim de tarde; as atuações também merecem destaque, em especial, Keith Gordon e Roberts Blossom, nos papéis de Arnie e LeBay, respectivamente. Gordon literalmente transformou-se em Arnie, com o ar de aluno nerd e perdedor presente no livro; já Blossom passa um ar ameaçador com seu personagem, o que contribui para o clima de mistério e suspense.

O restante da narrativa transcorre com o clima de suspense enchendo a tela, principalmente nas cenas envolvendo a personagem-título, já completamente restaurada por Arnie. Christine brilha no filme todo, com sua tintura vermelha, que pulsa na tela e enche os olhos, chegando a ofuscar o elenco.

Aliás, assim como no livro, aqui, Christine passa a sensação de ser realmente um objeto inanimado que possui vida própria: é uma garota ciumenta, possessiva e vingativa, que não mede esforços, nem consequências, para ter o amor de Arnie e afastá-lo de sua família, seu melhor amigo, Dennis, e seus desafetos. As cenas em que ela se vinga dos valentões do colégio – e outros desafetos – são as melhores e mais assustadores, principalmente a primeira, quando o personagem Moochie Welch é perseguido por ela pelas ruas escuras da cidade até encontrar seu destino – mostrado de forma diferente no livro. O mesmo refere-se à sequencia em que Buddy Repperton e seus amigos são mortos por ela. Carpenter faz tudo de uma maneira sutil, aos poucos, até chegar à tão esperada conclusão. Aliás, a cena no posto de gasolina é pura de um filme de Carpenter: após Christine sair atrás de Buddy, envolta em chamas, o local explode diversas vezes, com as chamas e a fumaça subindo aos céus em bolas gigantescas.

E falando nos efeitos especiais, eles também não ficam atrás. Para as cenas em que Christine persegue os desafetos de Arnie pelas ruas, Carpenter utilizou um modelo com os vidros escuros, para dar a impressão de que ela está de fato, viva. Afirmo, com toda certeza, que esse truque funciona, e muito bem, e foi muito melhor do que se eles mostrassem um carro andando sozinho, controlado por controle remoto ou algo assim – ou talvez, porque não havia outro jeito de realizar tais cenas; o que importa é que não parece falso de jeito nenhum.

Como em todos os seus filmes, Carpenter foi o responsável também pela trilha sonora, aqui em parceria com Alan Howarth, seu colega desde Halloween II (1981). Contando basicamente com um piano, os dois criaram uma das melhores trilhas sonoras de um filme do diretor, que casou perfeitamente com o clima do filme. Anos depois, Howarth ficaria responsável pelas composições das continuações de Halloween. Recentemente, Carpenter apresentou a trilha do filme para seu especial Carpenter Anthology, que, como o nome revela, é uma coleção dos temas dos filmes do diretor, compostas por ele mesmo. A trilha sonora de Christine é uma das melhores dos filmes de Carpenter, ao lado do tema de O Enigma do Outro Mundo (1982), composta por Ennio Morricone, e o tema de Halloween (1978) e À Beira da Loucura (1994).

Sinceramente, não consigo ver ninguém melhor para dirigir o filme do que John Carpenter. O filme tem a cara do diretor, seja pela atmosfera ou pelos outros aspectos já comentados. Carpenter recebeu a proposta para dirigi-lo após o fracasso de O Enigma de Outro Mundo, lançado no ano anterior. Segundo o próprio, a Universal Pictures fez um acordo com ele: além desse, o diretor também ficaria responsável pela adaptação de A Incendiária, outro livro de Stephen King. Infelizmente, com o fracasso de O Enigma, a Universal retirou a proposta, o que entristeceu o cineasta e o deixou sem trabalhar por um bom tempo. Felizmente, o roteiro de Christine “caiu do céu”, como ele mesmo diz, e Carpenter aceitou dirigir o filme. O livro A Incendiária foi adaptado para os cinemas em 1984, com Drew Barrymore como protagonista e Mark Lester na direção. Os fãs de Stephen King dizem que não é um dos melhores filmes baseados na obra do autor, que concorda com a opinião deles. Talvez, se Carpenter tivesse dirigido, o resultado seria diferente... Nunca saberemos.

Como todas as adaptações literárias, o filme apresenta diferenças em relação ao livro, mas, devo dizer que não importa. Uma delas é o fato de a historia do filme se passar na Califórnia, quando no livro, a trama acontece na Pensilvânia. No livro, o fantasma de Roland LeBay é uma presença constante, e talvez, o principal motivo pelo qual Christine é má. Aqui, a maldade vem “de nascença”, em um prólogo ambientado em uma fábrica de carros. Segundo a biografia de King, lançada pela DarkSide, quando os produtores perguntaram ao autor sobre a origem do Mal em Christine, ele mesmo não soube responder, e deu a eles carta branca. Quando viu o filme, em dezembro de 1983, King ficou satisfeito com o resultado.

Ainda sobre a trilha sonora, o filme é repleto de canções dos anos 50, cada uma, conforme descobri assistindo ao filme várias vezes, tocada conforme a situação especifica. Por exemplo, quando Arnie e Christine estão sozinhos na oficina de Darnell, o rádio toca Pledging My Love, de Johnny Ace; ou então, após uma discussão com Leigh, Christine provoca uma distração, obrigando seu dono a sair, deixando a namorada sozinha. Nesse momento, o radio toca We Belong Together, de Robert e Johnny, enquanto Leigh sufoca com um hambúrguer, uma clara alusão de que Christine deixa bem claro que ela e Arnie pertencem um ao outro, e assim por diante. No entanto, a trilha de Carpenter e Howarth também possui um significado, em especial na cena em que Repperton e seus capangas destroem Christine na oficina de Darnell. O tema dessa cena chama-se The Rape, e, sinceramente, passa essa impressão mesmo, não apenas pela musica, mas pela construção de cena: parece que, de fato, Christine está sendo estuprada.

A produção do filme levou cerca de três semanas, e os realizadores contaram com cerca de 25 modelos de Plymouth Fury 1958, cada um com uma determinada função. Eles também utilizaram outros modelos de Plymouth, como o Plymouth Belvedere e o próprio Fury, que possui uma estrutura parecida. Atualmente, os modelos já não existem mais. O diretor Carpenter possui um modelo Belvedere vermelho e branco, que ele usa para fazer turnês pelos Estados Unidos. O diretor também fez um vídeo musical em homenagem ao filme, um vídeo bem legal, devo dizer.

Enfim, Christine, O Carro Assassino é um excelente filme de suspense, com clima de nostalgia. Um dos melhores filmes de John Carpenter, e uma das melhores adaptações de Stephen King.

Altamente recomendado.  

quarta-feira, 29 de maio de 2019

O HOMEM DE PALHA (1973). Dir.: Robin Hardy.


NOTA: 9


O HOMEM DE PALHA (1973)
Lançado em 1973, O HOMEM DE PALHA é um filme maravilhoso. Uma obra de horror com toques musicais, eróticos e de fantasia. Erroneamente considerado um filme da produtora Hammer, contou com dois astros do estúdio em seu elenco: Christopher Lee e Ingrid Pitt. Em diversas entrevistas, o astro considerava este o seu melhor filme. E não é pra menos.

Porém, antes de ser considerado um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos, e o “Cidadão Kane dos filmes de horror”, esse filme teve uma historia conturbada, durante e após sua produção.

Tudo começou quando o roteirista Anthony Shaffer tinha interesse em contar uma historia envolvendo uma seita pagã, em especial os antigos druidas. Seu roteiro foi enviado à produtora British Lion, que demonstrou interesse em realiza-lo. No entanto, após o inicio das filmagens, os problemas começaram, na locação na Escócia. O filme foi rodado no inverno, então o elenco teve que se esforçar para se adaptar ao clima, principalmente quando envolvia cenas de nudez. O ator Edward Woodward enfrentou problemas na sequencia em que seu personagem é trancafiado no interior do Homem de Palha do título, sendo o maior deles ter sido “banhado” em urina de uma cabra que estava acima de sua cabeça. O baixo orçamento também foi um problema, tanto que o astro Christopher Lee não recebeu nenhum salario, fato esse que comentou sem pudores. E por fim, na distribuição, os problemas aumentaram, uma vez que a British Lion não demonstrou interesse em distribui-lo, após uma recepção negativa nas exibições-teste. O medo dos produtores foi tanto, que chegaram a pedir ao produtor Roger Corman para distribuir o filme nos Estados Unidos, o que também causou problemas, uma vez que não houve publicidade. E por fim, anos mais tarde, quando houve interesse por parte de Christopher Lee em recuperar as inúmeras cenas que foram cortadas, os negativos foram despachados e sumiram misteriosamente, o que deixou os envolvidos muito abalados.

Mas, apesar de seus inúmeros problemas, O Homem de Palha é um filme maravilhoso, com um clima de horror quase inexistente, fotografia inspirada e direção de arte também inspirada. Como já comentei antes, o filme é construído em slowburn, uma técnica que aprecio muito, e que faz falta hoje em dia.

O fato é que o filme consegue assustar sem fazer esforço, seja pela ambientação interiorana, a fotografia ou a direção de arte ou até mesmo pelas atuações, muitas delas a cargo de figurantes reais. São muitos os momentos que causam arrepios, sendo que os principais ficam no ultimo ato, quando ocorre o ritual de sacrifícios humanos que faz parte da religião dos habitantes da ilha.

Esse também é um ponto que merece destaque, porque, se por um lado, temos o oficial Howie, um religioso fervoroso, que procura sempre seguir os ensinamentos cristãos, do outro, temos os residentes daquela comunidade, com seus métodos nada ortodoxos, como por exemplo, a pratica de amor ao ar livre, ou ensinamentos sobre sexo para crianças ou então, o ritual das jovens de dançarem nuas ao ar livre. Tudo isso é visto com desaprovação pelo Sargento, que não tem pudores de expor suas crenças para aquelas pessoas, mesmo quando sua vida está em perigo. Esse é um dos pontos altos do filme, a religião cristã contra a religião pagã, e, conforme assisti ao filme, ficou claro qual lado iria vencer.

Olhando por esse lado, pode-se dizer que o Sargento Howie é o típico mocinho idealista, que enfrenta até a autoridade máxima para provar seu ponto de vista. Sinceramente, acho esse tipo de personagem desinteressante, por causa da forma como são desenvolvidos; mas aqui, não foi difícil torcer pelo Sargento, porque ele se mostrou determinado a cumprir suas duas missões.

Como mencionado acima, o filme possui de fato, momentos que assustam, sendo um deles, a sequencia em que o Sargento percorre a ilha de ponta a ponta para encontrar a menina desaparecida, em especial uma cena em que uma criança sai de dentro de um armário, e outra, ocorrida logo depois, quando ele encontra uma peça de ritual em sua cama. Cenas de causar calafrios. Além desses toques assustadores, o filme também é repleto de erotismo, como na já mencionada cena que um grupo de garotas dança em volta de uma fogueira – todas aparecem nuas – , ou então, quando Willow, a filha do dono da pousada onde Howie se hospeda, dança nua pelo quarto, numa tentativa de seduzir o policial. Willow foi interpretada pela atriz Britt Ekland, talvez mais conhecida por ter sido casada com o ator Peter Sellers – na época, eles já estavam divorciados. No ano seguinte, a atriz participou de The Man With the Golden Gun, no papel de Bond Girl, que também contou com a presença de Christopher Lee, no papel do vilão.

E além de seus momentos de horror, o filme também tem contornos musicais, seja numa rápida cena quando o sargento vai até a escola, descobrir se a menina desaparecida estudava lá, seja no ultimo ato, o do sacrifício, quando todos os habitantes da ilha dançam e cantam fantasiados, conforme a tradição. Essa é talvez, a sequencia mais bonita do filme, seja pela canção, seja pelo trabalho dos atores.

E claro, não poderia deixar de mencionar o astro Christopher Lee, aqui, conforme ele mesmo declarava, em seu melhor filme. Seu personagem, Lorde Summerisle, é o grande líder da comunidade. Todos ali seguem suas ordens com obediência quase cega, sem questionar suas decisões e autoridade. Não sei se o personagem pode ser considerado um vilão, coisa que o ator sabia interpretar muito bem, principalmente o Conde Drácula nos filmes da Hammer. Summerisle mostra-se prestativo na investigação do policial, um homem elegante, gentil e educado. E quando está junto dos residentes da ilha, nada disso desaparece, o que talvez, torne-o mais ameaçador. Este é sem, duvida, um dos melhores personagens do saudoso ator, que deixou sua marca no cinema de horror para sempre.

Enfim, O Homem de Palha é um filme maravilhoso. Uma produção envolta em mistério, fantasia, erotismo e terror. Um dos melhores filmes de horror de todos os tempos.



AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.