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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

LISA E O DIABO (1973). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10


LISA E O DIABO é um filme belíssimo.

 

Uma história de horror, fantasia e mistério contada com a maestria do Maestro Mario Bava, e um de seus melhores filmes.

 

Eu já comentei sobre alguns filmes do Maestro aqui, e até agora, não encontrei nenhum que me decepcionasse.

 

Lisa e o Diabo faz parte do ciclo gótico do cineasta, ciclo esse que o tornou bastante conhecido, visto que ele foi um dos responsáveis por torna-lo popular na Itália, graças ao sucesso que O Vampiro da Noite (1957) fez no país.

 

Podemos também encarar o filme como uma espécie de homenagem que Bava faz a si mesmo, visto que existem cenas que lembram seus filmes anteriores, além do uso de suas técnicas bastante conhecidas.

 

Na trama, Lisa é uma turista que se perde em Toledo, na Espanha, e vaga pelas ruas da cidade, até se encontrar com um casal rico, e o carro deles quebra nas proximidades de uma antiga mansão, onde moram uma condessa e seu filho, além de um estranho mordomo que intriga Lisa, por se parecer com o Diabo.

 

Essa é a sinopse básica do filme, e pode até parecer simples, mas, na verdade, o roteiro envolve alguns outros elementos, como segredos de família e triângulos amorosos, que necessitam de um pouco de raciocínio do espectador para serem compreendidos.

 

Esse é um detalhe da trama que precisa ser analisado com muita calma, pois, não é explicado para nós logo de cara, ele acontece aos poucos. E a cada revisão, o mistério parece aumentar, o que pede ainda mais raciocínio de quem está assistindo.

 

Mas não se engane. Apesar dessa trama um pouco complicada, Lisa e o Diabo é um filme belíssimo, feito com as técnicas que somente o diretor Bava conhecia e sabia utilizar.

 

A começar pela direção. Bava era um mestre com a câmera, e sabia fazer coisas que nenhum outro cineasta soube. Aqui, mais uma vez, ele mostra sua competência e cria cenas memoráveis, com ângulos inspirados, além de uma movimentação suave, combinada a uma fotografia habilidosa.

 

Além da fotografia, o roteiro também merece menção, porque, conforme mencionei, é um grande quebra-cabeça, onde as peças vão se encaixando lentamente, com um mistério em torno dos três habitantes da mansão, que aos poucos vai mostrando sua face e seu motivo.

 

Os cenários também são maravilhosos, principalmente a mansão, que parece um gigantesco labirinto, com seus quartos vazios, um jardim enorme e aspecto de decadência, algo que Bava adorava utilizar em seus filmes. Como o filme se passa praticamente durante a noite, não é difícil nos sentirmos ameaçados dentro daquele ambiente, principalmente o quarto do mordomo Leandro, cheio de manequins.

 

Os personagens também são um ponto positivo, e os atores atuam maravilhosamente. É possível acreditar que aquelas pessoas são reais, que vivem naquela mansão decadente, presos em seu próprio mundo repleto de segredos macabros. Lisa é a mocinha indefesa, que não entende o que está acontecendo, nem como foi parar naquele mundo estranho, e acredita o tempo todo que tudo não se trata de um sonho. O casal rico também não faz feio, e passam a sensação de já estarem casados há muito tempo, e se cansaram um do outro, tanto que a mulher procura conforto nos braços do chofer.

 

Mas o melhor personagem é o mordomo Leandro, magistralmente interpretado por Telly Savalas. Ele é diabolicamente educado, misterioso e perigoso, e deixa transparecer essas sensações desde a primeira aparição, até o final do filme. Seu melhor momento é quando está em seu quarto recitando um monólogo sobre trabalho e tradição, enquanto come suspiros e bebe conhaque. Além disso, ele se mostra um grande fabricante de manequins, que desempenham um papel importante na história, pois representam os personagens principais.

 

O filme todo possui um aspecto de sonho e fantasia, e isso está presente desde a primeira cena, quando Lisa ouve a caixa de música ao longe e aparenta ser enfeitiçada por ela, visto que acaba se perdendo de seu grupo de excursão. E a sensação predomina até o final do filme, com eventos estranhos e misteriosos acontecendo, como o fato de Lisa se parecer com a amante do padrasto de Maximiliano, o que a deixa completamente confusa.

 

Esse é o grande segredo da trama. Lisa aparenta se dividir entre ela mesma, e Ellena, amante do padrasto de Maximiliano, que também se encanta por ela, e a mata. Como eu disse, é um mistério que vai se resolvendo aos poucos, o que obriga o espectador a pensar no que está acontecendo.

 

Acredito que tal sensação de estranheza se deve ao fato do produtor Alfredo Leone, após o sucesso do filme anterior de Bava, Os Horrores no Castelo de Nuremberg (1972), ter dado carta branca ao cineasta para fazer o filme que quisesse; então, chamou dois roteiristas que haviam trabalhado com ele anteriormente, e os dois desenvolveram a história a partir das ideias do diretor.

 

Tal mistério não impede o filme de ser uma verdadeira obra de arte, onde Bava aparentemente faz um resumo de sua vida, segundo dizem os biógrafos do cineasta. De fato, existem conexões com outros filmes anteriores do diretor, seja em takes e cenas, seja na própria história. Menções à A Maldição do Demônio (1960), O Ciclo do Pavor (1966) e Hércules no Centro da Terra (1961), por exemplo, estão presentes no longa.

 

Além disso, o filme também pode ser encarado como uma espécie de final de ciclo, visto que, naquela época, o gênero gótico dava sinais de declínio, e o que entrava em vigor eram os filmes mais pesados, os exploitation, por exemplo, algo que o cineasta explorou no Giallo Banho de Sangue (1971), que se tornou uma espécie de precursor do Slasher americano.

 

Por esse e outros motivos, Lisa e o Diabo é um filme que merece ser visto pelos fãs de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 2, que conta com um documentário nos extras.

 

Enfim Lisa e o Diabo é um filme excelente. Uma história de horror, mistério, romance e fantasia contada com maestria pelo Maestro Mario Bava, que faz uso de suas técnicas impares e únicas para contá-la. Um clima de mistério toma conta do filme desde a primeira cena e permanece até o final, com a protagonista presa em uma espécie de sonho macabro que encanta. Um dos melhores filmes de Mario Bava, e sua grande obra-prima.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 12 de fevereiro de 2022

A MANSÃO DO INFERNO (1980). Dir.: Dario Argento.

 

NOTA: 9.5



Dario Argento é um dos grandes nomes do cinema de horror italiano. Nos primeiros anos de carreira, lançou grandes clássicos do gênero, entre eles, a Trilogia dos Bichos (1970-1971), além de Suspiria (1977) e Prelúdio para Matar (1975), sua grande obra-prima, e o maior Giallo de todos os tempos. 

 

Em 1980, Argento se uniu ao mestre do terror italiano, o Maestro Mario Bava, e juntos, produziram A MANSÃO DO INFERNO, o filme do meio da Trilogia das Mães, iniciada com Suspiria (1977). O que posso dizer sobre esse filme? Bem, vou ser claro: é um dos meus filmes favoritos do diretor, e também um dos seus melhores.

 

Inferno é um filme belíssimo, um verdadeiro espetáculo visual, e motivos para isso não faltam. Mais uma vez, Argento se mostra um mestre na direção, e também se mostra um grande contador de histórias, uma vez que aqui entrega mais um grande filme, do jeito que ele sabia fazer na época.

 

O diretor faz um dos seus melhores filmes, uma rara excursão no terror, visto que na época ele era mais conhecido por seus exemplares do Giallo, gênero que o consagrou no cinema. E aqui, fica evidente a presença do gênero, até porque, acredito que era difícil para o diretor se distanciar do mesmo, e sinceramente, eu não vejo nenhum problema nisso; na verdade, é algo até natural.

 

Inferno é um verdadeiro espetáculo visual, e grande parte se deve à fotografia. O filme é muito colorido, com cores que pulsam na tela, principalmente o azul, o vermelho e o rosa, cores utilizadas por Bava no seu O Chicote e o Corpo (1963); e graças a isso, o filme mais parece um longa do Maestro do que um longa de Argento. Além da fotografia, Bava também trabalhou na equipe de produção do filme.


O Maestro foi responsável pelos efeitos especiais, e também foi diretor da segunda equipe, além de ter substituído Argento na direção quando o mesmo precisou se afastar por problemas de saúde. Algumas das cenas comandadas pelo Maestro são as cenas debaixo d’água e a sequência dos ratos. E há até uma foto de bastidores onde ambos dividem o set de filmagens.


Inferno foi o último filme que contou com a colaboração de Mario Bava; o Maestro faleceu em 27/abr/1980.

 

Com certeza, o fato de ter sido o filme onde ambos trabalharam juntos, faz deste um verdadeiro deslumbre, e também deve servir como atrativo para os fãs do terror italiano, porque, conforme mencionado acima, o diretor Argento estava em alta na época, e entrega grandes filmes; e quanto ao Maestro Bava, não há comentários.




Inferno marcou uma nova parceria do diretor com sua companheira, a saudosa Daria Nicolodi, aqui no papel de atriz. A atriz entrega uma ótima atuação, no papel de uma condessa decadente e de saúde frágil, que se alia ao protagonista em sua busca por sua irmã. Além dela, temos ótimos atores, entre eles, a atriz Alida Valli, que já trabalhou com o diretor em Suspiria, além de ter trabalhado com o Maestro em Lisa e o Diabo (1973); a atriz interpreta a misteriosa senhoria do prédio, e sua performance é digna de calafrios. Outros como Feodor Chaliapin Jr.; Ania Pieroni; Irene Miracle e Gabriele Lavia também entregam grandes atuações, em papéis secundários, mas muito importantes para a trama.



Conforme mencionado acima, Inferno é o filme do meio da Trilogia das Mães, iniciada com Suspiria (1977) e concluída com A Mãe das Lágrimas (2007), que infelizmente, marca a fase decadente do cineasta. Recentemente, surgiram boatos a respeito da jovem que segue o protagonista na sequência da aula de música, interpretada por Ania Pieroni. Dizem que a personagem é a Mãe das Lágrimas em sua juventude. Quanto a isso, não sei o que dizer; o que posso dizer é que a atriz tem presença forte, com seus grandes olhos verdes.



Outra coisa que me atrai nesse filme, além da fotografia colorida, é o som. Sério, os efeitos de som aqui são maravilhosos e enchem os ouvidos, principalmente o som dos passos.

 

Além do som, é notável a habilidade de Argento em dar destaque para coisas “sem importância”, como por exemplo, a chuva e cacos de vidro, assim como fizera em Suspiria. Sobre a sequência da biblioteca, o que chama a atenção é o modo como as gotas caem na roupa de uma personagem, além do modo como a água cai do céu. Maravilhoso.

 


Conforme mencionado, Bava dirigiu a famigerada sequência dos ratos, uma sequência repugnante, onde os animais surgem aos poucos de um cano de esgoto, até o cobrirem por completo. Eu pessoalmente tenho PAVOR DE RATOS, e se estivesse presente na cena, ficaria muito, mas muito nervoso. Mas voltando a sequência, posso dizer que a punição que o personagem ali presente merece, porque ele é cruel com alguns gatos que invadem seu estabelecimento. Não sou fã de gatos, mas admito que o que ele faz com eles é cruel. A cena do esfaqueamento é digna do trabalho de Argento, que lembra muito seus Gialli anteriores, apesar de parecer um pouco deslocada. Eu pessoalmente faço uma comparação com a cena do cachorro em Suspiria, onde o animal foi tomado por forças sobrenaturais; aqui, acredito que não é diferente.

 


Sobre a cena como um todo, ela digna de um filme do Maestro, com as cores pulsantes e a luz que se projeta por detrás da árvore. Além disso, é rodada em grandes planos gerais, onde fica impossível focar em uma única coisa em particular.

 


Bem, aqui temos também outra amostra do gosto que Argento tem por gatos, conforme mostrou logo na Trilogia dos Bichos. Aqui, os animais fazem um estrago com uma das personagens, com direito a closes extremos de suas patas e garras afiadas se projetando para fora; além disso, a cena também apresenta elementos de Giallo, conforme dito diversas vezes aqui. 

 


Para encerrar, quero destacar a trilha sonora, composta pelo falecido Keith Emerson, com destaque para Mater Tenebrarum, presente na cena em que Mark, o protagonista, se arrasta pelo interior do prédio, trilha essa que se repete nos créditos finais. Além da trilha de Emerson, temos também trechos com ópera, principalmente a ópera de Verdi – Va’ pensiero, de Nabucco. A mesma toca em momentos chaves da trama, e pessoalmente, eu acho muito bonito. 

 

E por fim, quero deixar aqui as minhas impressões a respeito da Mãe das Trevas, principalmente da sua forma final. A mesma é interpretada pela atriz Veronica Lazar, que também atuou em Terror nas Trevas (1981), de Lucio Fulci; mesmo com pouca presença, ela consegue passar um ar de mistério, principalmente quando está junto de um velho cadeirante. E sua forma final é muito bonita; o mesmo vale para a maquiagem dos seus servos, com suas mãos putrefatas com unhas compridas e afiadas.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em belíssima versão restaurada com áudio em italiano, na coleção Obras-Primas do Terror Vol.2, dedicada ao terror italiano.

 

Enfim, A Mansão do Inferno é um excelente filme do diretor Dario Argento. Um verdadeiro espetáculo visual, com cores que pulsam na tela e deixam o filme mais bonito, além de outros aspectos que contribuem para deixa-lo ainda melhor a cada revisão. A união de Dario Argento com o Maestro Mario Bava é o grande fator que chama a atenção para este filme, além da habilidade de Argento como diretor e roteirista. Um espetáculo de cores e som. 



Créditos: Versátil Home Vídeo



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quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10



Mario Bava era um mestre. Eu já disse isso algumas vezes aqui, mas, é sempre bom ressaltar. Desde que se aventurou na direção definitivamente, com o Clássico A Maldição do Demônio (1960), Bava nos presenteou com obras que até hoje são admiradas por cineastas e fãs de cinema. Mesmo tendo se aventurado em outros gêneros, como, por exemplo, o Western, o cinema épico, e até mesmo, o cinema de super-heróis, o diretor é mais conhecido pela sua presença no Terror, principalmente no Terror Gótico.  E AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963) é mais um exemplo.

 

Este é, sem duvida, um dos melhores trabalhos do diretor – dentre muitos outros – , e talvez a sua única aventura no gênero de antologias. E além disso, Bava contou com a presença de outro grande Mestre do terror: o astro Boris Karloff, que aqui faz o papel de anfitrião, além de estrelar o segundo – e melhor – segmento do filme, mais detalhes sobre isso adiante.

 

O filme é divido em três episódios, todos apresentados por Karloff.

 

O primeiro, O Telefone, é uma história de mistério com toques de Giallo. Após chegar em casa, uma prostituta que começa a receber ligações misteriosas. Ela então começa a suspeitar que o responsável é o seu ex-namorado, que estava preso, mas conseguiu fugir. Desesperada, ela liga para uma amiga para pedir ajuda, mas não imagina que o terror estava apenas começando.

 

O próximo segmento, O Vurdalak, é o melhor deles, sem a menor dúvida. Na história, um homem encontra um cadáver sem cabeça e o leva para a casa de uma família, e logo descobre que se trata de um assassino que vivia na região. No entanto, ele não sabe que a família está esperando o pai voltar para casa, mas ao mesmo tempo, todos estão com medo, pois acreditam que ele pode ter sido vítima de uma maldição vampiresca.

 

O último segmento, A Gota D’Água, é uma clássica história de fantasma. Uma enfermeira recebe um telefonema para ir à casa de uma médium que morreu durante uma sessão para ajudar a empregada a prepara-la para o funeral. No entanto, ela acaba roubando o anel da falecida, e passa a ser atormentada pelo seu fantasma.

 

Com o roteiro adaptado de obras escritas por F.G. Synder, Ivan Chekhov e Aleksey K. Tolstoy, As Três Máscaras do Terror é uma antologia clássica, apresentada em episódios de curta duração; ou seja, um exemplar clássico do gênero, correto? Sim, mas tem mais um detalhe: foi dirigido pelo Maestro Mario Bava, e posso dizer que isso é o que a diferencia das demais. Afinal, Bava era um maestro do cinema de horror, e aqui, dá mais uma prova do seu enorme talento.

 

O filme é um espetáculo de cores, principalmente os dois últimos segmentos, mas não é só isso. Mesmo apostando em recursos limitados, o diretor foi capaz de criar cenas e sequencias memoráveis, dignas de estudo para cinéfilos e fãs de cinema.



Logo na introdução, apresentada pelo astro Boris Karloff, somos brindados com um show de cores pulsantes na tela, que já enchem os olhos e dão uma dica do que vem por aí. Em seguida, no primeiro episódio, podemos ver o quanto o maestro sabia lidar com apenas um cenário e poucos atores, mesmo porque é exatamente isso que é mostrado na tela. Bava sabia exatamente o que fazer com o que tinha nas mãos e entregou um segmento tenso e arrepiante. No entanto, é certo dizer que ele guardou o melhor para os dois segmentos seguintes. Ambos são exemplares clássicos do terror gótico que o diretor que sabia fazer, com seus cenários exuberantes, dignos de foto, luzes coloridas pulsantes e cores vibrantes. Um verdadeiro espetáculo visual.


 

Além disso, temos aqui a representação de três grandes gêneros do terror, conforme mencionado acima. O Telefone é um suspense psicológico com toques de Giallo, subgênero que estava dando seus primeiros passos no cinema; temos o clima de tensão e também as ligações misteriosas, que se tornariam uma das marcas do gênero, além da presença das luvas pretas segurando uma faca brilhante. O Vurdalak é uma história de vampiros, nesse caso, do vampiro da tradição russa, que volta para se alimentar do sangue das pessoas que mais amou em vida – conforme dito na resenha de A Noite dos Demônios (1972), que também adaptou a novela de Tolstoy; e como toda história de vampiros, temos a presença das vítimas com os pescoços marcados pelos caninos afiados, além também do fato de que elas voltam para matar seus familiares. E por fim, A Gota D’Água é uma clássica história de fantasma com toques de terror psicológico, onde a personagem principal é levada à loucura. Temos a figura do fantasma que volta para assombrar a pessoa que o prejudicou, assim como vemos nos filmes de terror japonês, e leva-la a ter seu merecido fim, além, é claro, de termos também o tema do objeto maldito que vai passando de pessoa para pessoa, desencadeando um ciclo sem fim.

 

Ainda sobre o primeiro segmento, podemos também notar que a história toca em um dos grandes tabus da humanidade: a representação da homossexualidade na tela, ainda mais naquela época. Mesmo abordada de forma até sutil, é difícil não fazer essa associação; e além disso, temos também pequenos momentos de erotismo e sensualidade, novamente, algo inédito e ousado para a época.

 

Mesmo assim, é impossível assistir à As Três Máscaras do Terror e não se maravilhar, principalmente com a fotografia. Conforme mencionado acima, é um filme colorido, com as cores pulsando e vibrando na tela, enchendo os olhos do espectador. Bava era muito conhecido principalmente por seus filmes coloridos, e aqui podemos ver o motivo. O maestro soube muito bem onde colocar as cores, dado o seu conhecimento anterior como diretor de fotografia, e com isso, nos brindou com momentos dignos de obras de artes. Aliás, todo o trabalho do diretor é soberbo. Seu elenco atua muito bem, principalmente o astro Boris Karloff, com destaque para sua atuação no segundo episódio, onde ele interpretou o único vampiro de sua carreira, com sua capa negra com o capuz coberto de pelos. Os efeitos especiais também são maravilhosos, principalmente a cena da cavalgada na floresta noturna, homenageada por Tim Burton em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999); o fantasma da médium no último episódio também não fica atrás, com seu sorriso permanente e suas mãos em formato de garra. E claro, temos o som do vento soprando na noite. Conforme mencionei anteriormente, eu adoro quando tal efeito de som, pois dá uma sensação indescritível.

 

Sem dúvida, As Três Máscaras do Terror é um dos melhores filmes do Maestro Mario Bava, e um dos mais belos filmes de terror de todos os tempos. Quem disse que filme de terror não pode ser lindo e colorido, mas viu esse filme.

 

Foi lançado em 1963 na Itália, e no mesmo ano, a A.I.P. tratou de lançar uma versão alternativa nos Estados Unidos, que ganhou o título Black Sabbath, pelo qual também é conhecido. Os episódios foram trocados de ordem, além de contar com cenas alteradas – principalmente a introdução – e nova trilha sonora. No entanto, mesmo contando com a verdadeira voz do astro Boris Karloff, eu não gostei na versão internacional; eu prefiro muito mais a versão original italiana. Eu sei que algumas pessoas gostam das duas versões – ou até de uma delas – mas eu prefiro a versão oficial.

 

Chegou a ser lançado em DVD no Brasil pela distribuidora DarkSide – somente a versão italiana – , mas esteve fora de catálogo por anos, até ser lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, em belíssima versão restaurada, também com a versão internacional, até então, inédita no Brasil.

 

Enfim, As Três Máscaras do Terror é um filme belíssimo. Um verdadeiro espetáculo visual, com cores vibrantes que enchem os olhos do espectador, além de uma direção criativa do Maestro Bava, do jeito que somente ele sabia fazer. O astro Boris Karloff entrega uma atuação espetacular sob o comando do Maestro, interpretando o único vampiro de sua carreira. Uma trilogia de horror com toques de fantasia. Uma verdadeira obra de arte do cinema de horror. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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sexta-feira, 2 de julho de 2021

O CHICOTE E O CORPO (1963). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10



Não há duvidas que Mario Bava era um mestre do cinema de horror, conforme já mencionei em outras resenhas aqui.

 

Bem, hoje, irei falar sobre mais um de seus filmes: O CHICOTE E O CORPO (1963), um dos meus favoritos dele, e que conta com o astro Christopher Lee no elenco.

 

O que dizer sobre esse filme? Bom, devo dizer o óbvio: é um filme maravilhoso, e tudo isso se deve ao próprio Bava. O diretor sabia muito bem como queria contar uma historia e o que deveria usar para isso, e aqui, ele faz isso de sua melhor arma: a criatividade. Bava era extremamente criativo com o uso da câmera e da luz, e graças a isso, foi o responsável pelos mais belos filmes de terror de todos os tempos.

 

O Chicote e o Corpo é um deles, e como mencionei, um dos meus favoritos. É uma verdadeira história de terror gótico, de castelo assombrado, com tudo que tem direito, e que somente o gênero poderia trazer de melhor. E mais, é visualmente deslumbrante. Toda vez que eu assisto ao filme, eu me surpreendo com as imagens colocadas na tela. Eu não me canso de assistir a esse filme. E fica melhor a cada revisão.

 

É o tipo de filme de terror que os italianos sabiam fazer, com todos os toques góticos e sobrenaturais, misturados com uma pitada de suspense psicológico.

 

A fotografia é o principal destaque do filme. Assim como fizera em seus outros filmes, Bava criou uma obra colorida, onde todas as cores pulsam na tela em tons vivos. Sim, é um filme de terror colorido, do tipo de faz falta hoje em dia. Não se engane, eu gosto de filmes de terror em preto e branco, mas, com filmes de terror coloridos, parece que a coisa é mais diferente. E na versão lançada em DVD pela Versátil, a qualidade é muito melhor do que as outras versões disponíveis.

 

E claro, Bava também foi o responsável pela direção de fotografia e pelos efeitos especiais, e como sempre, mostrou-se muito habilidoso e fez um excelente trabalho, uma vez que ele começou sua carreira no cinema atuando nessas respectivas áreas.

 

Como todo filme de terror gótico, a história é ambientada num castelo, nesse caso, um castelo à beira-mar. Bava soube fazer uso do cenário, sempre destacando seu interior claustrofóbico e seu exterior clássico, com as torres que se destacam ao longe. A praia é também um ótimo cenário, com as ondas quebrando na areia, e completamente deserta.

 

O elenco também é um ponto positivo, com destaque para o grande Christopher Lee, em sua segunda colaboração com Bava. Mesmo com pouca presença em tela, o astro dá um show de atuação no papel de Kurt Menliff, o vilão do filme. O personagem é um verdadeiro sádico, que sente prazer perverso em torturar a esposa do irmão, que foi sua amante, com requintes de crueldade, agredindo-a com o chicote, a fim de despertar seu apetite sexual. Aliás, esse é um ponto que deve ser mencionado. O filme possui um forte tom de erotismo, apesar de não conter cenas de nudez, mas mesmo assim, é possível captar os toques de erotismo e sensualidade.

 

E claro, O Chicote e o Corpo é um excelente filme de fantasmas com toques de suspense. Os italianos sabiam fazer grandes filmes de fantasmas, misturados com outros gêneros, e nesse caso, temos uma mistura de história de fantasma com história de assassinato misterioso, uma vez que temos duas cenas de assassinatos e não sabemos quem é o culpado. Eu acho uma ótima combinação para esse filme, porque prende ainda mais a atenção do espectador.

 

E sendo um filme de fantasmas, temos também o espírito que ronda o castelo e assombra seus familiares, nesse caso, Nevenka, conduzindo-a a episódios de histeria e levando-a a loucura completa. E isso funciona muito bem.

 

Antes de encerrar, devo mencionar o som. Conforme mencionei na resenha de Seis Mulheres para o Assassino (1964), também de Bava, o som é um elemento a parte. E aqui, não é diferente. O áudio em italiano é maravilhoso, e parece ecoar para fora da tela, como se estivéssemos no assistindo no cinema; além disso, o vento é quase um personagem, soprando desde o começo do filme, deixando clara a sua presença. Eu gosto muito de filmes de terror onde o vento pode ser ouvido, para mim passa uma sensação agradável e fantasmagórica. E a trilha sonora de Carlo Rustichelli é maravilhosa, com um ar melancólico que casa muito bem com o filme.

 

Esses são os atrativos que fazem deste um excelente filme de terror italiano, do tipo que somente eles sabiam fazer.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror, em versão restaurada com áudio em italiano. 

 

Enfim, O Chicote e o Corpo é um filme excelente. Uma historia de fantasmas com elementos eróticos e psicológicos que prendem a atenção do espectador. A direção de Mario Bava é o melhor aspecto do filme, e, aliado a uma fotografia colorida, deixam-no ainda mais bonito, e melhor a cada revisão. O astro Christopher Lee entrega uma excelente atuação. Um verdadeiro espetáculo visual, do jeito que somente Bava sabia fazer. Altamente recomendado.



Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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sábado, 23 de novembro de 2019

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999). Dir.: Tim Burton.


NOTA: 10



A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA 
(1999)
A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA é um filme belíssimo! É um dos meus filmes favoritos do diretor Tim Burton – o primeiro é Marte Ataca! (1996) – e sem duvida, um dos seus melhores – aliás, nenhum filme do Tim Burton é ruim, e ponto! Não digo isso só porque sou fã, mas porque é verdade.

Eu tive o prazer de ver esse filme no cinema com a minha família duas vezes, a primeira na semana da estreia, e outra no ultimo dia, e adorei. Foi uma das melhores experiências da minha vida, porque a historia original de Washington Irving faz parte da minha vida desde sempre, principalmente por causa da maravilhosa animação da Disney. Aliás, por anos, foi a única versão que eu conhecia, e quando soube que iria acontecer, fiquei muito animado. Eu queria ver esse filme! E minha mãe compartilhava esse sentimento, porque, uns dias antes, ela me acordou de madrugada para assistir a um especial sobre ele na TV, e eu adorei, e a minha vontade de assistir aumentou. E quando fomos ao cinema, fomos pegos de surpresa pela primeira cena, com o cocheiro decapitado. Sem duvida, uma das melhores apresentações de um filme. E o resto da sessão correu muito bem, com as surpresas surgindo a cada momento. E quando fomos novamente para o cinema, a sensação não mudou. E continua assim até hoje.

É o tipo de filme que não fica chato quando assistimos; pelo contrario, fica melhor a cada vez. E isso se deve à genialidade de Tim Burton. Desde que o descobri com Marte Ataca!, lançado três anos antes, eu me apaixonei, e essa paixão dura até hoje. Tim Burton é o meu cineasta favorito, e é o diretor que me inspira a querer fazer filmes, da mesma forma que os filmes de terror que ele assistia na infância também o inspiraram. E aqui, ele presta diversas homenagens a esses filmes.

Burton cresceu assistindo aos filmes de Roger Corman com Vincent Price, seu ídolo maior, além das produções da Hammer com Christopher Lee, e outros. Na minha opinião, infância melhor não há. Nada melhor do que assistir aos filmes que você gosta, com os atores e diretores que você gosta, e acabar se inspirando neles no futuro. Afirmo, sem medo, que Tim Burton é a minha inspiração.

Nada em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é ruim. A fotografia em preto e branco é linda; a direção de arte, impecável; o figurino, belíssimo; a maquiagem, incrível... Tudo é lindo. E é possível ver o quanto Burton é um cineasta excepcional. Sua direção é madura e correta, com todos os detalhes em ordem, do jeito que deveriam estar, tudo feito da maneira que ele sabe fazer.

Com certeza a paixão do cineasta pelo material é um dos fatores a favor do filme. Burton conhecia a historia desde pequeno, através da animação da Disney, e para ele, havia algo de extraordinário na figura de um Cavaleiro Sem Cabeça, correndo a cavalo pela floresta com a espada e a abobora nas mãos. E dá para ver que ele levou isso para o filme. Em vários momentos, a animação da Disney está presente, principalmente nas cenas envolvendo o Cavaleiro. Sério. Parece que Burton pegou a animação e literalmente a transformou em um filme live-action, porque é tudo muito parecido! Não apenas as cenas envolvendo o Cavaleiro, mas a cena da ponte também. A própria ponte que divide o lugarejo de Sleepy Hollow em dois, é idêntica à ponte da animação; foi inclusive uma das coisas que me chamou atenção no cinema. E as homenagens não param por aí.

Além disso, o clima soturno da animação também está presente no filme, principalmente nas cenas noturnas. Um exemplo é a cena de exumação no cemitério. Parece a abertura da animação, com as lapides inclinadas diante da igreja. Muito bem feita. E claro, a sequencia da floresta também remete ao filme da Disney, até porque, a sequencia de perseguição entre Ichabod e o Cavaleiro já era soturna e assustadora; e aqui, Burton recria essa sensação.

Mas claro, além de prestar homenagens aos filmes de sua infância, Burton também homenageia a historia original de Irving, apesar das inúmeras diferenças. A mais evidente, para mim, é a Fazenda Van Tassel. Em vários momentos, Irving descreve a casa de Baltus Van Tassel como um enorme castelo, e aqui, isso foi reproduzido com fidelidade. A casa parece mesmo um castelo; na verdade, parece um castelo de historias de fantasmas; todo imponente, que pode ser visto do topo da colina... Uma construção arrepiante. O próprio lugarejo de Sleepy Hollow também passa essa impressão. Uma pequena comunidade no meio do campo, praticamente isolada do mundo, com animais como vacas, ovelhas e gansos correndo ao ar livre. Um lugar bonito, mas com uma atmosfera assustadora. E claro, o cavalo de Ichabod Crane, Pólvora. Mesmo com pouca presença na historia, ele não poderia faltar, até porque, é o companheiro do professor no clímax. E toda a descrição desajeitada de Ichabod como cavaleiro também aparece, porque, simplesmente, não poderia faltar. É uma das principais características da historia original. Alguns dos personagens também são reflexos da historia original. Ichabod é um covarde, cheio de frescuras; Katrina é doce, amável e sensível; Brom Bones é o valentão que tenta passar a perna em Ichabod; Baltus é o fazendeiro rico; e o próprio Cavaleiro é o espirito dominante da região, que mete medo nos habitantes do lugarejo. Enfim, tudo que aparecia na historia aparece aqui, de maneira excepcional e perfeita.

Com certeza, um dos pontos principais da historia original, é quem era o Cavaleiro Sem Cabeça e como ele perdeu sua cabeça. Aqui, isso é apresentado. O Cavaleiro é um soldado hessiano que lutava em uma batalha nos arredores de Sleepy Hollow. A única coisa que mudaram foi o modo como ele perdeu a cabeça: na historia de Irving, ele é decapitado por uma bola de canhão; aqui é diferente. A cena do flashback é uma das melhores, mostrando o Cavaleiro em toda sua fúria, decapitando e trucidando soldados. Muito bem feita, bem dirigida e atuada. Sangrenta e arrepiante.

Aliás, posso dizer que A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça marca uma espécie de nova fase para o diretor Tim Burton. No inicio de sua carreira, ele fazia filmes com um tom mais família, quase sem nenhum sangue ou violência. Aqui, ele já muda de figura. O filme é repleto de cenas sangrentas, com destaque para as decapitações. Dizem que os responsáveis pela censura acharam as cenas tão pesadas que classificaram o filme para maiores; aqui no Brasil, recebeu classificação “18 anos”, o que gerou problemas para quem foi assistir no cinema. Hoje em dia, talvez as cenas não sejam tão pesadas assim, mas na época, era compreensível. Não me lembro de ver um filme do diretor anterior a esse com essa pegada. O próprio Burton inclusive optou por não cortar as cenas de decapitação. E ao que parece, o diretor seguiu essa nova linha, porque Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) é carregado de cenas sangrentas, por causa do conteúdo original. E mesmo assim, não parece que foi dirigido por outro cineasta. Incrível.

O elenco é também um dos pontos altos. Em sua terceira colaboração com Burton, Johnny Depp está perfeito como Ichabod Crane. Também fã da animação da Disney, ele conseguiu representar o personagem de maneira crível e divertida. Suas cenas de desmaios são muito engraçadas e servem muito bem para quebrar a tensão após uma cena assustadora. Em uma entrevista, Depp declarou que chegou a cogitar a hipótese de usar próteses para ficar mais parecido com o Ichabod Crane da animação, o verdadeiro Ichabod Crane. Sinceramente, achei que foi muito bom que isso não aconteceu porque só existe um Ichabod Crane alto, extremamente magro, com uma cabeça pequena e chata em cima, e nariz comprido, que parece uma das pontas de um cata-vento preso ao seu fino pescoço. E esse Ichabod Crane é o Ichabod Crane da Disney. Ponto! No entanto, as melhores atuações são de Christina Ricci e Christopher Walken. A atriz interpreta Katrina Van Tassel com uma delicadeza e uma beleza impressionantes. Parece que ela assume a personagem, de tão perfeita que é sua atuação. Sem duvida, ela soube traduzir a personagem melhor do que ninguém. Belíssima. Já Christopher Walken está assustador no papel do Cavaleiro Sem Cabeça. Mesmo não aparecendo muito, sua presença é marcante, e dá um ar maligno ao personagem. O Cavaleiro também foi interpretado pelo dublê Ray Park no restante do filme, quando vemos o personagem sem sua cabeça. Outro dublê também deu vida ao Cavaleiro nas cenas de montaria. Mesmo assim, nenhum deles consegue superar Walken. O restante do elenco também está muito bem em suas performances, e não parecem caricatos em momento nenhum.

Como mencionado, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é repleto de homenagens aos filmes que Burton assistia na infância. A começar pelos clássicos da Hammer, estúdio de cinema britânico responsável pelos maiores filmes do gênero nos anos 50, 60 e 70. O filme tem todo um aspecto da Hammer, com suas cores escuras, sangue pulsante e ambientação gótica. Lembra muito os primeiros filmes coloridos do estúdio, como os filmes do Drácula, estrelados por Christopher Lee. Aliás, a presença do ator é uma das maiores homenagens ao estúdio. Christopher Lee era um dos ídolos de Burton, ao lado de Vincent Price, e sua presença é impactante. O ator aparece por poucos minutos, mas valem a pena. A presença dele é imponente, que inspira e exige respeito de quem está ali. Burton até menciona nos comentários que todos da equipe pararam para prestar a atenção no ator, dada a sua magnitude. Em outra cena, Burton cita suas inspirações também em Roger Corman e em Mario Bava. Novamente, a fotografia e a ambientação contribuem. Além de lembrar os filmes da Hammer, o filme também lembra os filmes do Ciclo Edgar Allan Poe, estrelados por Vincent Price, que Corman dirigiu nos anos 60. Eu já tive o prazer de assistir alguns dos filmes do Ciclo Edgar Allan Poe, e posso dizer que a semelhança é impressionante. A floresta assombrada parece muito com as florestas dos filmes de Corman. Aliás, um detalhe. A cena de investigação de Ichabod na floresta possui uma das melhores tomadas do cinema de horror. O investigador avista uma estranha figura branca andando por entre as arvores retorcidas e decide ver o que é; para mim, é uma bela cena de floresta mal-assombrada, e com certeza, vai servir de inspiração no futuro. Mas, voltando, parece mesmo que eu estava vendo um filme de Roger Corman, e parecia que Vincent Price iria aparecer a qualquer momento. A inspiração em Mario Bava também é evidente. A cena em que Ichabod é perseguido por um falso Cavaleiro Sem Cabeça lembra muito as cenas de A Máscara de Satã (1960) e As Três Máscaras do Terror (1963); além disso, existem também duas outras homenagens ao filme de estreia de Bava, todas muito bem feitas e respeitosas. Existe também uma homenagem ao Clássico Frankenstein (1931), estrelado por Boris Karloff: a cena do moinho. Burton já declarou que sua primeira lembrança de moinhos veio do filme de James Whale, e assim como as homenagens à Bava e Corman, ele a presta com todo o respeito que o filme merece. No entanto, além de homenagear seus filmes favoritos, o diretor também homenageia a si mesmo. Os espantalhos que aparecem no milharal no começo do filme lembram a fantasia de espantalho de Jack Skellington; o vestido que Katrina usa em determinada cena lembra a roupa de Beetlejuice; e as participações de seus ídolos, Christopher Lee e Michael Gough, remetem à presença de seu ídolo máximo em Vincent (1982) e em Edward Mãos-de-Tesoura (1990). 

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça foi lançado em novembro de 1999 e tornou-se um sucesso de bilheteria. O filme marca a terceira colaboração entre Tim Burton e Johnny Depp, iniciada em 1990 com o inigualável Edward Mãos-de-Tesoura. Os dois trabalharam juntos novamente em Ed Wood (1994), cinebiografia do “pior diretor de todos os tempos”; A Fantástica Fábrica de Chocolates (2004); A Noiva-Cadáver (2005); Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007); Alice no País das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012), baseado na série de TV “Dark Shadows”, de Dan Curtis.

Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um filme maravilhoso. Um dos meus filmes favoritos. Uma historia de amor com elementos de suspense. Um verdadeiro conto de fadas. Excelente.









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quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O CICLO DO PAVOR (1966). Dir.: Mario Bava.


NOTA: 10



O CICLO DO PAVOR (1966)
Conforme mencionei na resenha de Seis Mulheres para o Assassino (1964), o diretor Mario Bava era um Mestre do cinema de horror. Dentre suas obras, CICLO DO PAVOR (1966) é uma das minhas favoritas.

Marco do Terror Gótico Italiano, é um filme maravilhoso. Uma historia de fantasmas com toques de conto de fadas, com os truques que somente Bava conseguia dar a suas obras.

Não é novidade nenhuma que Bava era um especialista em fazer grandes coisas com orçamentos e tempos apertados, e aqui, não é diferente. A produção foi marcada por dificuldades, e em determinado momento, o orçamento acabou, mas, mesmo assim, a equipe e o elenco concordaram em trabalhar de graça; mas, nada disso impediu o filme de ser uma obra maravilhosa.

Bava faz uso de técnicas espetaculares, técnicas essas que diretor nenhum consegue – nem conseguirá – copiar. Isso aconteceu graças à sua experiência como operador de câmera e diretor de fotografia nos anos 50, o que lhe rendeu muitos elogios. E claro, quando resolveu se aventurar na direção, levou suas técnicas consigo.

Bava estreou oficialmente na direção em 1960, com o excelente A Maldição do Demônio, e desde então, tem se dedicado ao terror gótico praticamente com exclusividade – o que não o impediu de se aventurar em outros gêneros, claro. E em O Ciclo do Pavor, Bava está em sua melhor forma.

O roteiro é simples, mas, torna-se pretexto para o diretor aplicar tudo o que desenvolveu nos anos anteriores. Impossível dizer qual o melhor momento, porque são muitos; mas, sem duvida, uma das melhores cenas é a do balanço no cemitério – mais sobre ela adiante. 

A fotografia é uma melhores coisas do filme, sem duvida. Com tons de laranja, azul e preto, ela enche a tela e chega a hipnotizar e a ser atraente. Sério. Dá um aspecto de nostalgia e interior ao filme, o que o enchem ainda mais de charme. E a transição de cores acontece naturalmente; se no inicio, durante o dia, o filme é banhado nos tons laranja e amarelos, durante a noite, o preto e o azul-escuro tomam conta, e não mudam o tom nostálgico do filme. Sem duvida, mesmo não sendo responsável pela direção de fotografia, Bava soube administrar os tons, e, sinceramente, não chegam a transformar o filme num arco-íris, mas deixam-no lindo.

O design do filme também contribui para deixa-lo lindo. O vilarejo parece parado no tempo, completamente envolto em teias de aranha; as portas das casas estão sempre fechadas; as paredes são forradas de alho, cruzes e velas – uma amostra do quão supersticiosos seus habitantes são – ; e principalmente, a Vila da Baronesa Graps não fica para trás. A decadência está presente em todas as paredes da casa, cuja pintura está caindo aos pedaços; os cômodos e moveis estão envoltos em enormes teias de aranha, e o muro da cripta da família está prestes a desmoronar. Parece que a qualquer minuto, a Vila vai desabar.

A trilha sonora, composta por Carlo Rustichelli, que já havia trabalhado com Bava no passado, é maravilhosa. Ao invés de ser uma trilha alta, que pula na tela, é quase uma melodia de conto de fadas, que casa perfeitamente com a atmosfera do filme.

Como mencionado acima, o filme tem varias cenas impressionantes; uma das melhores, sem duvida é o balanço. É uma cena perfeita, com Bava dando seus toques de mestre; os primeiros segundos mostram a câmera indo para frente e para trás, de maneira aleatória, sobrenatural, até. Não me lembro de ter visto uma cena tão artesanal e linda como essa, e com a paleta de cores, fica perfeita. A cena da escada também é muito boa, digna de provocar arrepios. Mas, uma das minhas favoritas, é quando o Dr. Eswai chega ao vilarejo: assim que sua carruagem para, ele vê, ao longe, um grupo de homens carregando um caixão. É uma cena em plano geral, sob o céu alaranjado, com as silhuetas dos homens andando; quando vi essa cena pela primeira vez, eu me apaixonei pelo filme, e toda vez que eu o vejo, volto a cena para conferir de novo. As cenas entre o Comissário Kruger e o protagonista também são as minhas favoritas. Bava soube filmá-las muito bem, sem uso de trilha sonora, o que as deixa mais sinistras. Outro exemplo da genialidade do diretor.

Os personagens do filme também merecem atenção. O Dr. Paul Eswai é o típico homem da Ciência, o médico que não acredita no sobrenatural nem nas superstições dos moradores do vilarejo, e mostra-se disposto a enfrentar a tal maldição para provar suas teorias. Seria o tipo de personagem que a gente torce para ser eliminado, mas, sinceramente, não é possível. Monica, a antiga moradora do vilarejo também é uma ótima personagem, o tipo de pessoa que, mesmo morando naquele lugar durante boa parte da vida, sente-se uma estranha quando retorna. Ela tem uma personalidade doce, mas não daquele tipo que exagera, sempre chorando por aí, fazendo gestos e caras e bocas; pelo contrario, ela é verdadeira em sua fragilidade. E a relação entre os dois funciona muito bem, e francamente, não seria surpresa se ambos se apaixonassem um pelo outro. Não atrapalharia em nada o andamento da trama.

Os demais personagens também são atraentes. Cada um à sua maneira, é envolvido pelo mistério que ronda o vilarejo, e mostram-se verdadeiramente aterrorizados pelas forças sobrenaturais. O burgomestre já não tem poder nenhum sobre o lugar; os habitantes acreditam apenas em suas próprias leis. Enfim, os típicos personagens supersticiosos de historias como essa. Uma menção especial para: Ruth, a bruxa do vilarejo. Dotada de poderes de cura, é a ela a quem os moradores recorrem quando algo ruim acontece, e eles confiam fielmente em suas habilidades. A Baronesa Graps é a própria imagem da decadência. Morando em sua Vila caindo aos pedaços, ela própria também está decaindo, com as roupas sujas, o cabelo embaraçado, despreocupada com sua aparência, uma completa reclusa. E por fim, Melissa, a menina morta. Vitima de um acidente que lhe custou a vida, ela é um melhores fantasmas do cinema de horror. Vestida de branco, com o rosto branco como papel e os cabelos loiros, é uma imagem assustadora. Ela é a responsável pelas mortes misteriosas no vilarejo, e os residentes têm até medo de pronunciar seu nome.

Todos esses aspectos fazem de O Ciclo do Pavor um dos melhores filmes de terror do cinema italiano. Sem duvida, é um daqueles filmes que ficam melhores a cada vez que vemos, e às vezes parece que uma coisa nova vai aparecer. É um dos filmes que eu mais gosto de assistir, e faço isso com prazer, de verdade. Mesmo tendo-o visto várias vezes, não me canso dele.

Com mais esse filme, Mario Bava provou que era um Maestro do Cinema de Horror Italiano, e o Rei do Horror Italiano.

Foi lançado em DVD por aqui pela Versátil Home Vídeo, na excelente coleção Obras-Primas do Terror Vol.2, com áudio original italiano.

Recentemente, foi lançado em Blu-ray, em versão restaurada, que na minha opinião, não faz jus ao filme, além de ser dublada em inglês. Na minha opinião, é muito melhor assistir ao filme com áudio original em italiano; assisti-lo com dublagem em inglês é muito estranho, parece outro filme. A versão disponível aqui no Brasil é a melhor disponível.

Enfim, O Ciclo do Pavor é um filme excelente. Um filme belíssimo. Uma história de horror com toques de conto de fadas. Um dos meus filmes favoritos do Maestro Mario Bava.




Créditos: Versátil Home Vídeo



sexta-feira, 15 de março de 2019

SEIS MULHERES PARA O ASSASSINO (1964). Dir.: Mario Bava.


NOTA: 10


SEIS MULHERES PARA 
O ASSASSINO (1964)
Mario Bava era um mestre. Um dos maiores cineastas italianos de todos os tempos, Bava teve uma curta filmografia, mas, cheia de grandes obras, e Seis Mulheres para o Assassino é uma delas.

Lançado em 1964, o filme é considerado o primeiro Giallo oficial do cinema. 

Com maravilhosos tons de arco-íris, uma trama super bem contada, e um clima gótico moderno, este é meu Giallo favorito.

A trama gira em torno de uma série de assassinatos cometidos em um ateliê em Roma. Seis mulheres morrem de maneiras violentas, vítimas de um assassino misterioso, todo vestido de preto e com uma máscara no rosto.
As cenas de assassinato são as melhores do filme, e cada um consegue ser pior que o anterior.

O misterioso assassino também não fica atrás, principalmente por causa do seu visual, com destaque para as famosas luvas pretas, que se tornariam marca do gênero no futuro.

A trama consegue prender a atenção desde o início, bem como o mistério sobre os motivos e a identidade do assassino, que parece mudar a cada suspeito. 

Porém, mesmo com seu roteiro maravilhosamente escrito, os assassinatos criativos e diversos suspeitos, quem merece principal destaque é a fotografia. Ao contrário dos cineastas americanos, Bava transformou seu filme em um verdadeiro arco-íris! As cores são brilhantes e são capazes de roubar a atenção! Os efeitos de som também não ficam atrás, principalmente os sons de couro da roupa do assassino - principalmente na cena da bolsa.

Outra característica apresentada no filme é a atuação ineficiente dos detetives encarregados da solução dos crimes. O assassino está sempre um passo a frente deles, mesmo quando os suspeitos são apreendidos. Mesmo com sua ineficiência, os detetives são excelentes, a caracterização perfeita de policiais em filmes de suspense - melhor até que dos filmes americanos.

Um filme maravilhoso, colorido e muito bem feito. Meu Giallo Favorito!


AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.