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sexta-feira, 26 de março de 2021

EVANGELHO DE SANGUE (Clive Barker).

 

NOTA: 8



Não há duvidas que o universo de Hellraiser, criado pelo escritor Clive Barker, é um dos mais ricos do terror. Em Hellraiser, o autor deu uma pequena amostra de como esse universo funciona, apresentando aquele que seria o personagem principal desse universo: o Cenobita Pinhead. Além disso, Barker mostrou que não estava para brincadeira, e criou uma historia banhada em sangue e sexo.

 

EVANGELHO DE SANGUE é mais uma historia do autor ambientada nesse universo, e também serve como uma espécie de prequel dos eventos narrados em Hellraiser. Aqui, o autor apresenta os dois principais elementos do universo de Hellraiser: a caixa de Lemarchand e o próprio Pinhead, descrevendo ambos nos mínimos detalhes, ao contrario do que fizera no livro anterior. Mas não é só isso.

 

Em Evangelho de Sangue, Barker mostra mais uma vez que é um escritor afiado, com uma escrita que penetra na mente do leitor com uma força impressionante. As descrições que ele faz dos cenários é muito bem feita, e não fica difícil para o leitor imaginá-los em sua mente; o mesmo vale para as cenas ambientadas no Inferno, quando Harry e seus amigos vão resgatar Norma. Não sei como foi para os outros leitores, mas eu consegui visualizar aquele Inferno como um lugar de fantasia, com um tom branco ou cinza, ou invés do tradicional vermelho. Barker o descreve quase como uma espécie de jardim morto, com tudo que tem direito. O mesmo vale para os demônios. Eles são descritos como criaturas humanoides, mas sem os chifres e asas de morcego. Sem duvida, uma visão diferente e original.

 

E da mesma forma que fizera no livro anterior, Barker começa a historia com os dois pés no peito, apresentando cenas grotescas de violência e sexo já no prologo. E o restante da historia vai pelo mesmo caminho. Durante toda a leitura, o leitor não é poupado de cenas dignas de pesadelos, com toques grotescos de violência, e principalmente, sexo. Isso mesmo. Barker mistura sangue e sexo em todos os momentos, de uma forma assustadoramente natural, e cada vez que isso acontece, é chocante, e o autor não mostra pudor nenhum, principalmente quando descreve o que as criaturas estão fazendo com seus “membros” – para usar um termo “leve”. É praticamente um terror pornográfico.

 

E falando em terror, novamente, esqueça os torture porn da vida: as cenas de horror descritas por Barker são dignas de pesadelo, com o sangue escorrendo aos montes; claro, não chegam aos pés do livro anterior, mas conseguem ser quase tão grotescas quanto – não há outra palavra para descrever. Com certeza, não é tipo de leitura recomendada para leitores de coração fraco.

 

Os personagens humanos são muito bons e quase parecem pessoas reais, com a diferença que todos têm ligação com o sobrenatural, principalmente o protagonista, o detetive Harry D’Amour. Desde que ele surgiu na historia, eu o visualizei como um detetive particular de filme noir, com o casaco e o chapéu. Aliás, as cenas de investigação do personagem quase parecem com cenas de um filme noir, daqueles clássicos, estrelados por Humphery Bogart. Os outros personagens também são bem descritos, cada um com sua característica própria.

 

No entanto, apesar de contar uma historia muito boa, Barker cometeu alguns erros. O primeiro deles acontece no prologo, quando ele apresenta um demônio-fêmea que nasceu em uma cena grotesca. Eu achei que aquela personagem seria relevante para a historia, mas ela simplesmente desaparece. Eu pelo menos não consegui reencontrá-la. Outro ponto negativo acontece no Inferno, quando Pinhead comete um ato de violência contra Norma, ato esse que não faz parte de seu repertorio. E eu também achei a historia de Lúcifer incompleta.

 

Aliás, esse é outro ponto. Barker criou um universo tão original para os Cenobitas, com um deus próprio, o Leviatã e também o Engenheiro, e aqui, ele apresenta justamente Lúcifer como líder do Inferno. Apesar de descrever uma batalha épica entre ele e Pinhead, eu achei que o autor poderia ter utilizado outra criatura para comandar o Inferno, até porque, como eu disse, a descrição do Inferno não combina com a imagem clássica que temos dele.

 

No entanto, devo dizer que o autor criou, sem duvida, uma batalha épica. Ele mostra que Pinhead está disposto a tudo para tomar o poder e não tem medo de derrubar Lúcifer, mesmo que para isso, tenha que derrubar o próprio Inferno. Toda essa sequencia da luta entre eles é espetacular, com direito a armadura e sangue, muito sangue. E quando Lúcifer ressurge, a atmosfera épica continua. E no final, temos quase um Pinhead arrependido do que fez. Muito bom.

 

E aqui também temos a Caixa de Lemarchand, que abre o portal para o Inferno dos Cenobitas. Como mencionado acima, quando Barker a introduz, faz questão de descrevê-la nos mínimos detalhes, descrevendo até a musiquinha que ela produz ao ser aberta. Por um momento, eu até havia me esquecido dela, mas quando ela retorna, é uma surpresa. E ainda falando do universo de Hellraiser, aqui temos também as clássicas correntes com ganchos; e elas fazem um estrago. Sério.

 

Bem, seja como for, o fato é que Evangelho de Sangue é um livro muito bom; não chega aos pés de Hellraiser, mas, se me perguntassem se merecia uma adaptação para o cinema, eu diria que sim, dependendo de quem assumisse as rédeas.

 

Enfim, Evangelho de Sangue é um livro muito bom. Uma historia épica de terror com toques grotescos de sangue e sexo. A escrita de Clive Barker prende o leitor com suas cenas dignas de pesadelo. Uma viagem literal ao Inferno, onde poucos saem com vida. O reencontro com Pinhead, o principal personagem do universo de Hellraiser. Um livro sangrento e arrepiante. Recomendado.



 

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sábado, 6 de março de 2021

FITZCARRALDO (1982). Dir.: Werner Herzog.

 

NOTA: 10



Primeiramente, vou deixar uma coisa clara: resenhas de filmes de outros gêneros são bem-vindas neste site, apesar de seu nome. E hoje, vou dar um exemplo disso.

 

Não é novidade que grandes diretores gostam de firmar parcerias com grandes atores, justamente pela afinidade que ambos desenvolveram nas produções em que trabalharam juntos. Existem muitos casos no cinema, e a relação entre o diretor Werner Herzog e o ator Klaus Kinski é uma delas. Dessa parceria, surgiram cinco filmes, todos considerados grandes obras por críticos e cinéfilos do mundo todo. FITZCARRALDO (1982) é um desses filmes, e sem duvida, o melhor filme que ambos fizeram juntos, ao lado de Nosferatu, o Vampiro da Noite (1979), reimaginação do Clássico de F.W. Murnau.

 

Bom, dois motivos me levaram a querer ver esse filme: o primeiro foi a informação presente na contracapa do livreto lançado pela Versátil em parceria com a Folha de São Paulo, que diz que foi uma das produções mais conturbadas de todos os tempos, e que a cena do barco foi realizada sem nenhum efeito especial; o outro foi um daqueles anúncios que aparecem no YouTube, no caso o de uma faculdade, ou curso, de cinema, onde aparecem cenas de grandes filmes; e um deles em questão mostrava o ator Klaus Kinski num barco com um gramofone diante de uma floresta. Eu já havia visto esse anuncio varias vezes, e sempre me encantava com ele. Bom, por fim, resolvi colocar o filme para rodar.

 

E que experiência. Fitzcarraldo é um dos melhores filmes que já vi na minha vida, mesmo tendo visto somente uma vez. Um filme belíssimo, maravilhosamente rodado, com cenários deslumbrantes, fotografia inspirada e um elenco afiado.

 

Mesmo tendo visto somente um – até então – filme do diretor Herzog, no caso, Nosferatu, eu já tinha certo conhecimento de sua reputação como cineasta, principalmente por conta de seu desejo de realizar filmes grandiosos, onde ele tornou-se conhecido por levar seu elenco às últimas consequências; e, bom, aqui temos um exemplo. Mais detalhes sobre isso mais adiante.

 

Mesmo sendo uma produção alemã, o filme com certeza foi todo rodado na América do Sul, provavelmente no Peru, e o diretor fez um excelente trabalho com o que dispunha. As tomadas que o diretor faz da selva amazônica são de tirar o folego. A câmera de Herzog passeia pelas árvores com naturalidade impressionante, criando tomadas panorâmicas impressionantes, dignas de tirar foto e emoldurar, e também, dignas de estudo. Herzog faz uso de muita câmera alta, para mostrar a imensidão da floresta amazônica, além de mostrar a cidade peruana com os mesmos toques de mestre. Nessas sequências, o diretor faz uso da câmera normal, com os planos mais simples, mas não menos grandiosos. O verdadeiro esplendor fica para as sequências que se passam de fato na floresta. E existem muitas delas, mesmo antes do grande ato. Herzog leva seu elenco para o interior da floresta, e mostra tudo sem o menor pudor.

 

As sequencias na cidade peruana também são impressionantes. Como eu disse, Herzog não faz tanto uso de câmeras altas, mas o que ele mostra, enche os olhos. É possível ver sua habilidade em capturar imagens belíssimas, do tipo que dá vontade de fotografar e emoldurar na parede. Não sei exatamente onde Herzog filmou as sequências na cidade peruana, mas o que ele mostra é digno de nota e traz uma sensação agradável, de nostalgia, mesmo para quem não viveu naquela época.

 

No entanto, o verdadeiro espetáculo fica para as cenas no interior da selva e dentro do navio. Conforme mencionado, Herzog não poupava seu elenco e equipe de passar por perrengues, e aqui não fica longe. Ele levou todos para o interior da selva, o que deve ter obrigado a todos a enfrentar as dificuldades de se filmar em um local como aquele. Esse foi um dos inúmeros problemas que a produção enfrentou, sendo talvez o maior deles, trabalhar com três modelos em escala real do navio. A famosa sequência em que ele é arrastado para o outro lado do rio foi rodada sem nenhum efeito especial, e, assistindo ao filme, é possível perceber isso. Realmente é uma sequência de tirar o folego, onde todos os envolvidos devem ter sofrido muito para chegar ao resultado que Herzog queria. Além da famosa sequencia, as cenas dentro do barco também não ficam atrás. As tomadas que Herzog exibe são lindas, e seus ângulos de câmera também são dignos de nota. Tudo isso acompanhado pela voz de Enrico Caruso.

 

Como mencionado, o filme enfrentou sérios problemas de produção. O primeiro ocorreu quando o diretor teve que remover todos da locação em razão de uma guerra. Depois, o antigo ator principal enfrentou problemas de saúde e teve de abandonar as filmagens; o musico Mick Jagger, que tinha um papel no filme, também abandonou o projeto, em razão de uma turnê de sua banda – os Rolling Stones – o que obrigou Herzog a cortar seu personagem do filme; além disso, o diretor foi acusado de exploração dos figurantes indígenas, que sofreram ferimentos e também morreram durante as filmagens; e também ocorreram duas pequenas quedas de avião, o que resultou em ferimentos e uma causa de paralisia, e por fim, um membro da equipe foi picado por uma cobra venenosa, o que o levou a decepar o próprio pé a fim de salvar sua vida. E claro, ocorreram diversas discussões entre Herzog e Kinski durante as filmagens, o que tornou-se comum entre eles durante sua parceria.

 

Outra coisa que merece menção, é o fato de Herzog não ter pudor em mostrar a realidade da selva, principalmente dos indígenas. Estou falando de índios sem dentes, velhos, falando seu idioma natural... Tudo no mais profundo realismo. Além disso, o elenco também não foi poupado. Durante toda a sequencia do barco, os atores se sujaram de barro e lama, principalmente Kinski, o que deve ter tornado a experiência ainda mais real e mais conturbada.

 

O filme teve locações em Manaus, no Brasil, e no Peru, principalmente em Pongo de Mainique, o istmo entre os rios Urubamba e Camisea, 36 milhas à oeste de um lugar real, o istmo de Fitzcarrald.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo em edição individual e também na coleção Cine Europeu, parceria da distribuidora com a Folha de São Paulo. Atualmente, deve estar fora de catalogo.

 

Enfim, Fitzcarraldo é um filme excelente. Uma historia épica de aventura, filmada de maneira brilhante, com tomadas e ângulos de câmera de tirar o fôlego. Um filme que mostra até onde o ser humano pode ir para realizar seus sonhos, mesmo que signifique ultrapassar os próprios limites. A parceira entre o ator Klaus Kinski e o diretor Werner Herzog rende grandes momentos e cenas memoráveis, principalmente a sequência do barco. Um dos grandes filmes do cinema europeu. Maravilhoso. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

IT, A COISA (Stephen King).


NOTA: 10




IT, A COISA
IT, A COISA é um clássico absoluto de Stephen King, o Mestre do Terror.

Um livro perfeito, escrito de maneira brilhante, rico em detalhes, digno de apavorar qualquer um, sem fazer esforço, repleto de cenas memoráveis.

Escrito pelo autor durante os anos 80, o livro tornou-se um de seus maiores sucessos e continua assim até hoje. Mas o que o torna um livro tão perfeito?

A começar pela narrativa. Não há duvidas de que Stephen King é um mestre na arte de escrever, e até agora, não encontrei nenhum livro – ou conto – que me decepcionasse. E It é um deles. Durante a leitura, King mostrou que estava em sua melhor forma, ao contar uma historia tão detalhada e assustadora.

Como já devo ter mencionado, existem casos em que um livro pequeno, de poucas paginas, como A Metamorfose, por exemplo, contém muito mais historia do que um calhamaço de quase 2.000 páginas. Mas, existem exceções, e It é uma delas. Sinceramente, não consigo imaginar esse livro com menos de 600 paginas, porque não faria sentido nenhum. King precisou, sim, estender a narrativa até o total de 1.100 páginas, porque ele tinha muita, mas muita historia para contar.

Conforme ele mesmo revela em um dos extras do primeiro capítulo da nova adaptação, sua fonte de inspiração para criar a pequena cidade de Derry foi o próprio estado do Maine, seu lar. Ele contou que buscou inspiração nas historias que leu sobre a cidade de Bangor, os relatos de brigas de gangues, por exemplo, que acabaram entrando no livro. Ele também pesquisou sobre seu próprio passado, como quando ele e seu irmão brincavam no rio que havia na cidade, e como isso também influenciou na criação do Barrens, e claro, inventou suas próprias historias, juntou tudo e criou e cenário da historia.

E ele faz tudo com perfeição. Seu relato sobre Derry é fantástico, bem como suas descrições da cidade. Em inúmeros momentos, eu consegui visualizar aquela cidade, como seriam os prédios, as casas, as praças, a estatua do lenhador, o cinema, enfim, tudo. É o tipo de coisa que costumo fazer quando estou lendo um livro e me envolvo com a historia, independente do autor e do gênero, e aqui, não foi diferente. E quando acontece uma coisa assim, é porque eu adoro o que estou lendo. Inclusive, pessoalmente, eu acho muito mais fácil criar uma cidade, seja ela de que tamanho for, do que utilizar um cenário real. O autor tem mais liberdade para imaginar a estrutura do lugar, onde cada prédio ficaria, como seria a rotina dos habitantes, enfim, tudo, sem se ater a costumes antigos. Eu pessoalmente, gosto de imaginar assim; claro, não tenho nada contra usar um cenário real numa historia, cada um é cada um.

E claro, It é um livro de horror, e como tal, não faltam cenas de horror. Mas, qual a melhor delas? Olhe, difícil dizer. Na primeira leitura, já tive impressão; agora, com a releitura, a impressão continuou. Difícil escolher a melhor, porque são muitas. E com certeza, essas cenas de horror já se tornaram antológicas.

O Clube dos Otários é sem duvida, uma das melhores coisas do livro. É possível perceber, durante a leitura, que o livro é sobre eles. King descreve cada um deles maravilhosamente, expondo suas vidas, seus medos, tristezas, alegrias, dificuldades, enfim, tudo sobre eles. Difícil dizer qual é o melhor deles, porque são todos adoráveis. Cada um tem a sua característica, o seu modo de pensar, de agir, de ver o mundo, e principalmente, cada um tem o seu próprio mundo. Eles têm problemas, sim, como todos nós; passam por dificuldades tanto na juventude quanto na fase adulta; em algum ponto da vida, eles fracassaram em seus objetivos, enfim, são seres humanos completos. E de verdade, é impossível não vê-los juntos e não se apaixonar. De fato parece que a dinâmica entre eles é bem real, com cada um agindo do seu jeito, mas sempre pensando naquela temática do “Um por todos e todos por um”. Eles nunca estão sempre sozinhos, quase sempre estão juntos os sete; eles têm o seu ponto de encontro no Barrens, uma sede do clube embaixo da terra... O tipo de coisa que todos nós gostaríamos de ter em algum momento da vida, pelo menos eu. E claro, eles passam por perrengues, seja em casa, seja na escola. Ou seja, repetindo, são pessoas de verdade. Na leitura, é possível perceber uma certa troca de papéis. Se na infância, o grupo era liderado por Bill, na fase adulta, Mike, o único que ficou em Derry, assume esse posto de liderança, mesmo que temporária. Interessante essa troca.

Como os sete são os personagens principais, não é muito fácil distinguir quem, de fato, é o protagonista da historia, porque é daquele tipo onde todos os personagens conduzem, cada um do seu jeito. Não tem essa de “um tem mais espaço que o outro”; todos eles têm o seu momento, e brilham nesse momento, seja na juventude, seja na vida adulta.

Os outros personagens também são maravilhosos. Assim como os sete membros do Clube, cada um ali descrito tem sua própria vida, cheia de fracassos, alegrias, tristezas, enfim... Porém, é possível perceber que King dá mais espaço para o valentão da escola, o adolescente Henry Bowers, e seu grupo. King os descreve com a mesma paixão que descreve o Clube dos Otários, principalmente Henry. Ele, sem duvida, o típico adolescente que mete medo em todo mundo. O típico valentão da escola, que adora provocar os mais fracos e meter medo neles. No entanto, existe algo a mais. Henry é sádico. Sempre armado com seu canivete gigante, é evidente que ele não quer apenas machucar os Otários; ele odeia a todos. Os outros membros do grupo de Henry também são valentões, mas, nem todos são perversos; a única exceção é Patrick Hockstetter, que consegue ser tão sádico, ou até, pior do que Henry. Eu acho que ele é pior. King dedica um capitulo só para ele, e o que está escrito não é brincadeira. Patrick é terrível, cruel, sem escrúpulos ou remorso. Esse foi um dos capítulos mais arrepiantes do livro. E o destino dele também não fica atrás.

No entanto, na opinião de muitos, o que faz de It um livro assustador, não é o vilão, ou as cenas de horror. O que assusta de verdade, são os assuntos que King aborda. Falo de racismo, violência domestica, violência psicológica, abuso sexual, assedio, enfim, essas coisas que existem na nossa sociedade e nos assustam todos os dias. Infelizmente, é possível perceber que, mesmo tendo sido lançado há mais de 30 anos, o livro continua atual nesse aspecto, porque a nossa sociedade não mudou nada em relação a esses assuntos; pelo contrario, às vezes, nem sempre, são varridos para debaixo do tapete. Não é sempre que isso acontece, mas acaba acontecendo. Eu, pessoalmente, não gosto de noticias envolvendo esses assuntos, na verdade, nem gosto de discutir nem de saber sobre eles porque são muito tristes.

Outra coisa que King faz com maestria, é mostrar que, apesar da ameaça da Coisa, a cidade de Derry também é envolta em sangue. Muito sangue. Nos trechos batizados de “Interlúdios”, Mike conta em seu diário como foi a historia da cidade, na tentativa de descobrir o motivo pelo qual a Coisa retorna a cada 27 anos. E olha, que historia. Derry tem o sangue nas veias. Ao longo dos séculos, a cidade testemunhou o pior de seus habitantes, com direito a massacres em bares, crianças mortas em explosões, pais espancando filhos... Acho que um dos mais violentos episódios foi o incêndio no clube Black Spot, um clube para negros, ocorrido nos anos 30. Durante a leitura, eu consegui visualizar aquela noite horrível, onde muitos homens perderam a vida. King não faz cerimonia, e descreve a destruição nos mínimos detalhes. Sem duvida, um episodio trágico, mesmo sendo fictício. O mesmo vale para outros episódios trágicos descritos nos Interlúdios, mas, na minha opinião, o mais triste foi esse.

E como mencionado acima, seria impossível descartar esse lado negro da cidade, porque deixa a descrição mais rica, e também ajuda a entender por que a Coisa se sente atraída pela cidade e seus habitantes.

E o que dizer a respeito de Pennywise, o Palhaço Dançarino? Pennywise. É sem dúvida, o melhor personagem do livro. Com certeza, foi o responsável – ou um dos responsáveis – por causar coulrophobia em muitas pessoas. Coulrophobia é o termo dado para quem tem medo de palhaços. Não é difícil entender o motivo. Apesar da fama de serem engraçados, palhaços são, em primeiro lugar, assustadores. Quem consegue achar graça num ser humano com a cara branca, sorriso enorme e um enorme nariz vermelho, com sapatos gigantes? Eu não. Na verdade, eu não sofro de coulrophobia, mas não gosto de palhaços, nunca gostei. Mas, Pennywise... Meu Deus. Ele consegue meter medo em todo mundo, sem esforço nenhum. Desde que surge, no começo do livro, ele mostra que não é um palhaço bonzinho, e isso segue até o final da historia. Na verdade, ao longo do livro, King revela que o palhaço Pennywise é apenas uma das formas que a Coisa assume para atrair as crianças, conforme explica em um trecho do livro. O monstro assume inúmeras formas para assustar suas vitimas, incorporando seus piores medos, mas é o Palhaço Pennywise que fica na nossa memória, tanto que é impossível não associar o livro à figura do palhaço. Além de ser um dos maiores vilões do universo de Stephen King, é também o mais complexo. A Coisa é uma entidade mais antiga que o Universo, que veio à Terra para se alimentar de crianças, a fim de obter força. E King descreve sua criatura de forma impressionante, tão impressionante, que requer esforço da parte do leitor para entender como ela funciona. Sério. Acho que nem as criaturas de H.P. Lovecraft são tão complexas. Mas, pessoalmente, eu não encontrei dificuldade em assimilar e entender a historia da Coisa. Na primeira leitura, eu consegui entender como ela funciona e como ela assume e forma física na Terra e também como faz uso de várias formas para assustar suas vitimas e atraí-las. No fundo, é possível resumir a Coisa da seguinte maneira: é uma entidade cósmica que se alimenta de crianças e assume várias formas com o intuito de assustá-las; a forma do palhaço Pennywise é a forma que ela usa para atrair as crianças. Não deve ser tão difícil, não é? E o método que King encontrou para torna-la uma predadora perfeita é brilhante: somente as crianças conseguem vê-la, os adultos, não. E por quê? Porque quando nós crescemos, deixamos de acreditar em certas coisas, como fantasmas, monstros, fadas, essas coisas. Portanto, fica mais fácil para a Coisa caçar e matar as crianças de Derry, porque elas são muito mais vulneráveis.

Agora, sobre a minha sequencia favorita, vou dizer qual é. É um capitulo que é narrado principalmente como se fossem noticiais de um jornal. Claro que o que está sendo documentado não é bonito, mas, o que me atrai nesse capitulo é o modo como é escrito. As noticiais ali descritas parecem reais, e posso apostar que o jornal onde elas estão veiculadas, pode ser encontrado com facilidade nas bancas.

Meu outro momento favorito é quando King traz uma convidada de seu universo para a história, quando Henry já é adulto, e decide ir atrás dos Otários. A cena é fantástica, assustadora e bem feita. Eu adorei na primeira vez que li, e na releitura, adorei mais ainda. E o modo como ela entra na historia faz tanto sentido, que, francamente, não poderia ser de outro jeito.

Mas não é apenas um membro de seu universo que o autor traz nesse livro. Outro personagem, de um de seus livros mais famosos, também aparece em determinado momento da historia, no trágico episodio do incêndio do Black Spot. Tem gente que acha que é uma forma que o autor encontrou pra dizer que suas historias estão conectadas. Eu pessoalmente, não vejo assim; eu acho que é apenas uma brincadeira.

O livro é alucinante, não há duvida quanto a isso. Em certos momentos, a leitura é frenética, como se fosse um filme de ação; acho que é porque tem muitas cenas de ação. Mas são cenas muito bem escritas, e parece que conseguimos visualizá-las conforme lemos o livro; pelo menos pra mim foi assim. E esse ritmo frenético contribui para o andamento da historia, e não a deixa chata em momento nenhum, pelo contrário, ela fica ainda mais emocionante. Mas com certeza, os momentos mais frenéticos ficam para o final, quando os Otários vão enfrentar a Coisa novamente.

Esse é o momento em que a história dá uma guinada de cair o queixo. Porque, acredito que até aquele momento, a impressão que se tem a respeito do palhaço Pennywise, é que talvez ele seja um tipo de fantasma ou demônio do inferno, não sei. Mas, quando King finalmente conta quem e o que ele é de fato, a coisa muda de figura. Como já mencionei, eu acho, sem duvida, essa ideia de fazer do palhaço uma entidade cósmica, genial. Fora as criaturas de H.P. Lovecraft, não me lembro de ler nenhum outro livro de terror sobre entidades cósmicas. No entanto, apesar do brilhantismo de King, Lovecraft ainda carrega a coroa de rei do terror cósmico. Eu acredito que King transformou seu monstro em entidade cósmica, como uma homenagem à Lovecraft, de quem é admirador confesso. E, se parar pra pensar, existem alguns elementos lovecraftianos na concepção de Pennywise e da Tartaruga, sua rival cósmica.

Claro, como toda historia de monstro, não poderia deixar de existir o lado do Bem, e a Tartaruga é esse lado. Apesar de aparecer pouco, ela tem uma presença forte na historia, e é bem legal o modo como King a desenvolveu. Não fica difícil imaginar uma tartaruga velhinha, toda enrugada, de bengala até, falando com Bill no vácuo, quando eles vão enfrentar a Coisa pela primeira vez. Parece mesmo que a Tartaruga está velha, com o peso do universo sobre o casco. Bem legal.

Os confrontos dos Otários com a Coisa são de cair o queixo. Assim como as cenas de ação, também são momentos frenéticos, mas nem por isso, menos brilhantes. São cenas assustadoras, onde a Coisa mostra todo o seu poder, assumindo diversas formas, arrastando os Otários para o vácuo, com o objetivo de enfraquece-los, e não poupando nenhum deles. Mas o melhor fica para o final do livro, quando eles enfrentam a Coisa pela última vez. Ali, King mostra quem de fato é a Coisa e qual a forma que ela assuma na Terra. São momentos delirantes. King descreve tudo com maestria, e novamente, não fica difícil visualizar tudo aquilo, principalmente a Coisa em sua forma final.

Talvez um dos aspectos mais conhecidos do livro, é o fato de que, quando estava escrevendo, King estava sob efeito de cocaína, infelizmente. Infelizmente, porque, nessa época, o autor era viciado em drogas e em álcool, o que tornou-se um dos piores momentos de sua vida. Com certeza, esse fato gerou a cena mais comentada do livro, a famosa “cena da orgia” entre os Otários no esgoto. Muita gente, mas muita gente, não entendeu o motivo dessa cena estar no livro, nem a sua relevância para a historia, mas, do meu ponto de vista, existe uma explicação. Momentos antes da tal cena, as crianças estão presas no esgoto, que assim como a cidade, estava sofrendo os efeitos de uma tempestade. Estavam desesperados, achando que nunca mais iriam sair de lá, o que levou Beverly a sugerir que os meninos fizessem sexo com ela; como ela mesma explica no diálogo, foi uma forma deles se unirem para sempre, pois acharam que nunca sairiam do esgoto com vida. Viram como é fácil? Só olhar nas entrelinhas.

Eu poderia falar mais sobre o livro, mas, não quero entregar spoilers.

O fato é que It, A Coisa é um Clássico de Stephen King.

Como a maioria de suas obras, acabou sendo adaptado. No caso, foi adaptado duas vezes. A primeira foi a clássica e inesquecível – e ainda insuperável – minissérie de 1990, dirigida por Tommy Lee Wallace, com Tim Curry no papel de Pennywise, em atuação insuperável. A segunda é a maravilhosa adaptação em duas partes dirigida por Andy Muschietti, cujo primeiro capitulo foi lançado em 2017. O segundo capítulo está em exibição nos cinemas, e com certeza, vou assistir.

Enfim, It, A Coisa é um livro excelente. Uma historia rica em detalhes, contada com maestria, cheia de momentos assustadores e inesquecíveis. Uma trama redonda, com toques de fantasia, drama e terror cósmico. Um livro brilhante. Maravilhoso. Um Clássico de Stephen King.

Altamente recomendado.


domingo, 17 de março de 2019

MOBY DICK (Herman Melville).


NOTA: 9


MOBY DICK
Uma batalha. Assim pode ser definida a leitura de MOBY DICK, obra máxima do autor Herman Melville. Após quase dois anos preso a ele, finalmente consegui concluir a leitura.

A leitura de Moby Dick não é fácil, uma vez que é uma obra complexa, composta por diversas camadas, e que, até hoje, recebe inúmeras intepretações.

Em seu texto, Melville conta basicamente uma historia de aventura, onde um grupo de marinheiros embarca num navio para caçar baleias. Parece simples, não? Bem, não é bem assim. A narrativa é lenta, densa e muito detalhada, principalmente quando o autor decide falar sobre a Cetologia, o estudo dos cetáceos. Pode até ser que o leitor desavisado queira pular essa parte do livro e ir direto para a narrativa em si (contada em primeira pessoa pelo protagonista Ismael), mas, infelizmente, não é possível, uma vez que Melville intercala trechos científicos com sua narrativa de ficção, então, é praticamente impossível separar essa parte da historia.

Como mencionado acima, Moby Dick possui diversas interpretações, sendo as mais conhecidas de que trata-se da eterna luta do Bem contra o Mal. E lendo o livro, isso ficou claro para mim em alguns pontos, principalmente no final. Não sei como aqueles que o leram interpretaram, mas, eu concluí que existe, sim, uma luta do Bem contra o Mal, mas, nesse caso, o Bem é a Baleia-Branca Moby Dick, e o Mal, o Capitão Ahab. Pelo menos essa foi a minha visão, uma vez que, desde sua primeira aparição na historia, Ahab deixa claro qual o seu objetivo: vingar-se de Moby Dick por ter-lhe arrancado a perna, e tê-lo colocado sobre um “tronco morto”. Essa também é outra visão sobre a obra: uma historia de obsessão, obsessão de vingança de Ahab, que está disposto a tudo para ter sua vingança, mesmo que custe sua vida e a vida de sua tripulação.

Um detalhe interessante: o próprio Melville fez parte de um navio baleeiro durante parte de sua vida, então, de certa forma, esse pode ser também um relato autobiográfico, uma vez que a jornada dos personagens é descrita com detalhes impressionantes; em certos momentos, cheguei a visualizar as cenas descritas pelo autor, até mesmo a própria Baleia-Branca.

E falando em Moby Dick, ele é, sem duvida, o personagem mais impactante da historia, talvez mais até que os próprios marinheiros. Melville o descreve com paixão, em toda sua gloria, quase como se ele fosse um personagem mítico, bíblico, até – também uma interpretação da obra, se não estou enganado.

O que também torna o texto incrível, é que, durante boa parte da historia, o autor quase não apresenta seu personagem-título, apenas mostra que ele está presente nos diálogos entre Ahab e sua tripulação. Depois disso, ficamos um longo tempo sem ver o nome de Moby Dick; porém, quando ele surge finalmente na historia, é um momento espetacular. Aliás, esse é outro ponto interessante – a ausência da Baleia-Branca. Em diversos momentos, parece que Ahab está vivendo uma fantasia, que aquela baleia existe apenas em sua cabeça, ou então, parece que a baleia está morta. Mas para ele, isso não importa – ele mostra-se decidido a cumprir seu destino, e o destino de Moby Dick, que ele acredita, será morrer por seu arpão.

Sobre a parte da Cetologia, digo o seguinte: é preciso muita paciência para ler, porque o autor descreve com detalhes a anatomia de uma baleia, além de explicar seu nome e também descrever – da forma mais gráfica possível – como os arpoadores içam seu corpo para o navio e o que fazem depois. E como já disse, é impossível separar-se dessa parte da historia.

Enfim, Moby Dick é um livro extraordinário, cansativo às vezes, é verdade, mas, extraordinário. Uma historia de aventura, ação, drama, suspense e emoção, tudo maravilhosamente escrito e executado.


Um livro fascinante. Um Clássico da Literatura Universal.


HERMAN MELVILLE


AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.