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sexta-feira, 20 de outubro de 2023

O LOBISOMEM (1941). Dir.: George Waggner.

 

NOTA: 9


O Ciclo dos Monstros Clássicos da Universal foi um dos mais importantes de todos os tempos, não apenas para o cinema de horror, mas para o próprio estúdio também, pois, foi graças aos clássicos Drácula (1931) e Frankenstein (1931), que os lucros aumentaram durante a famigerada época da Grande Depressão.

 

Nos anos 40, o estúdio estava passando por mudanças em sua administração, resultantes da perda dos Laemmle, no final da década anterior. Mas isso não impediu o estúdio de produzir novos filmes, principalmente filmes de terror, e O LOBISOMEM, lançado em 1941, com direção de George Waggner, é um deles.

 

Mesmo não tendo sido o primeiro longa a abordar o tema, esse foi o que apresentou as normas que seriam aproveitadas por cineastas posteriores.

 

Tais características foram introduzidas pelo roteirista Curt Siodmak, que reutilizou a ideia de um roteiro escrito por Robert Florey, para um projeto destinado ao ator Boris Karloff, que estava em voga na época, graças ao sucesso de Frankenstein. No entanto, devido às ideias de Florey, o roteiro foi descartado.

 

No roteiro de Siodmak, Larry Talbot, um mecânico americano, retorna à casa de sua família na Inglaterra para instalar um telescópio, e se torna vitima da maldição do lobisomem. Parece simples, não? Pois na verdade, o roteiro é um pouco mais enxuto do que isso, pois também aposta no drama e até no romance, além de focar no tema dos lobisomens de uma forma até então diferente.

 

De acordo com historiadores de cinema, Siodmak utilizou ideias originais, além de estudar um pouco do folclore do lobisomem para dar vida à sua criatura, e com isso, apresentou conceitos que até hoje são utilizados, como o uso da prata e da mata-lobos para derrotar a criatura.

 

Além disso, o filme também apresentou um visual diferente para a criatura, criado pelo mestre Jack Pierce, que não chegou a transformar o ator Lon Chaney Jr. em um monstro propriamente dito, mas em alguém com rosto peludo e dentes afiados, que se tornaria quase que uma tradição em filmes posteriores, até isso ser quebrado nos anos 80.

 

E o trabalho de Pierce é excelente porque ele criou algo que até hoje é reverenciado por profissionais de cinema, principalmente profissionais de maquiagem, como Rick Baker, um admirador declarado do trabalho de Pierce. O conceito é até bem simples, mas consegue assustar e impressionar até hoje.

 

O restante do filme também merece menção, porque, assim como o restante dos longas produzidos pelo estúdio naquela época, faz um excelente trabalho de ambientação, misturando cenários e costumes contemporâneos com cenários e costumes de épocas passadas, dando a impressão que o mundo onde o filme se passa não é real; é algo que é de fato convidativo, que fica melhor a cada vez que assistimos aos filmes.

 

O Lobisomem foi dirigido por George Waggner, e o diretor fez um grande trabalho aqui, seja em termos técnicos, seja com seu elenco. O grande destaque, com certeza, é Lon Chaney Jr., filho do grande astro do cinema mudo de horror. Chaney passa toda a sensação de agonia que o roteiro pede, e com isso, deixa evidente, que, no cinema, o lobisomem é sempre uma vítima de uma maldição, apesar de tal característica ter sido apresentada em O Homem-Lobo (1935), o primeiro longa a tratar do tema, também produzido pela Universal.

 

O restante do elenco também não faz feio, e não temos atuações forçadas, e o roteiro de Siodmak ajuda a passar credibilidade dos mesmos.

 

Assim como os seus antecessores, O Lobisomem aposta no clima gótico para contar sua história, e temos provas disso principalmente nas cenas noturnas, quando os cenários são cobertos por neblina. O aspecto também está presente no Castelo Talbot, em especial nas cenas externas.

 

Em 2010, recebeu um remake dirigido por Joe Johnston, e estrelado por Benicio Del Toro, Anthony Hopkins, Emily Blunt e Hugo Weaving, que não ofende a este aqui em momento nenhum, e merece ser visto, principalmente pelo respeito e homenagens que presta a este aqui.

 

Enfim, O Lobisomem é um filme excelente. Um longa assustador, que prende o espectador até hoje. O roteiro de Curt Siodmak é afiado, e o roteirista aproveitou apenas o titulo do projeto anterior, e fez uso de coisas novas para contar sua história, que são utilizadas por cineastas posteriores até hoje. Lon Chaney Jr. é o grande destaque, e passa todas as emoções que estão presentes no roteiro, além de ter dado vida a um dos maiores monstros do cinema de todos os tempos. Um verdadeiro clássico.  



quarta-feira, 26 de maio de 2021

AS PROFECIAS DO DR. TERROR (1965). Dir.: Freddie Francis.

 

NOTA: 8.5 



Desde sua fundação, em 1962, a Amicus tornou-se um dos maiores estúdios de cinema britânicos de todos os tempos, rivalizando com a Hammer Films. Porém, ao contrário da Hammer, o estúdio tornou-se especialista em produzir antologias de horror, apesar de lançar outros filmes, a maioria voltados para o horror. Ao total, foram sete antologias, todas maravilhosas.

 

AS PROFECIAS DO DR. TERROR foi a primeira delas. Lançado em 1965, foi dirigido por Freddie Francis, e estrelado por Peter Cushing, Christopher Lee e Donald Sutherland. O estúdio se inspirou no Clássico Na Solidão da Noite (1945), a primeira antologia lançada nos cinemas. Dr. Terror é uma das melhores antologias da Amicus e uma das minhas favoritas, e como todo exemplar do gênero, é composto por pequenas histórias, aqui, contadas pelo personagem título, interpretado por Cushing.

 

A primeira, Werewolf, fala sobre um arquiteto que retorna para a antiga casa de sua família, a fim de realizar reformas para o novo proprietário. Durante a reforma, ele descobre o tumulo de um antigo lobisomem, que acreditava estar desaparecido. Quando o lobisomem retorna, o arquiteto precisa correr para enfrenta-lo, antes que ele mate novamente. No entanto, o que ele não imagina é que outro lobisomem está mais próximo do que ele pensa.

 

Na segunda história, Creeping Vine, uma família retorna para sua casa após um período de férias. Rapidamente, o marido descobre que uma trepadeira está agindo de forma estranha, atacando a todos ao seu redor. Ele então recorre aos cientistas para descobrir o que está acontecendo. Quando um deles é morto pela trepadeira, a família se vê presa em sua própria casa, talvez sem a possibilidade de fuga.

 

Em Voodoo, um músico viaja com sua banda até as Antilhas, a fim de fazer um show num clube local. Após o show, o trompetista descobre a respeito de um deus local, e movido pela curiosidade, decide assistir a uma cerimônia, e acaba fascinado pela música tribal, e decide se apropriar dela, apesar dos avisos dos sacerdotes. Durante uma apresentação em Londres, coisas estranhas acontecem no clube, mas o músico não se intimida. No entanto, ele acaba descobrindo as consequências de seu ato.

 

Na história seguinte, Disembodied Hand, um severo crítico de artes é humilhado por um artista durante uma exposição. Tomado pelo ódio, ele o atropela, causando a perda de sua mão, levando-o a depressão e ao suicídio. Porém, o crítico passa a ser perseguido pela mão decepada do artista, o que traz consequências desastrosas.

 

A última história, Vampire, é sobre um médico recém-casado que retorna a Nova Inglaterra com sua esposa. No início, as coisas ocorrem bem, mas, logo um garotinho surge no consultório com estranhas marcas no pescoço, chamando a atenção de outro médico. Nas noites seguintes, novas coisas estranhas acontecem, levando o segundo médico a chegar a uma conclusão: o rapaz se casou com uma vampira. Hesitante, ele decide matá-la, mas não imagina as consequências terríveis de seu ato.

 

Uma antologia básica, não é mesmo? Com histórias curtas, com poucos personagens e que vão direto ao ponto, certo? Isso mesmo. Mas, o que faz desse um filme muito bom é a sua execução. Dr. Terror é um filme muito bem feito, com ótimos atores, um roteiro direto, e momentos verdadeiramente arrepiantes. É aquele tipo de filme que, mesmo sendo simples, consegue alcançar seu objetivo, e o faz muito bem.

 

Eu gosto muito desse tipo de filme, que faz uso de coisas e cenas simples para assustar o espectador, e a Amicus faz isso muito bem. Além disso, mesmo sendo dirigido por um único diretor, cada história apresenta um aspecto diferente, o que deixa o filme ainda mais atraente, e melhor a cada revisão. O diretor Freddie Francis conseguiu criar um filme digno de nota, colorido, divertido e assustador. O diretor é um antigo colaborador da casa, tendo sido responsável pela direção de A Maldição da Caveira (1965), As Torturas do Dr. Diabolo (1967), Contos do Além (1972), As Bonecas da Morte (1966), entre outros filmes do estúdio, além de ser o responsável por Drácula – O Perfil do Diabo (1968) e O Monstro de Frankenstein (1964), da Hammer. Um especialista no gênero.

 

Eu sou um admirador de antologias, justamente por conta da simplicidade. São filmes de longa-metragem, mas que contam com histórias curtas, com poucos personagens, e que conseguem contar muito mais do que um filme próprio. E tudo era feito da forma mais simples, mas real possível, capaz de prender a atenção do espectador, e assustá-lo sem fazer muito esforço. E o mais interessante, é que cada história parece transitar em gêneros diversos, apesar do filme como um todo ser um filme de terror, o que também é muito comum nas antologias, principalmente nas antologias que eu já vi.

 

E claro, contavam com um grande elenco. Aqui, nós temos a dupla de cavalheiros do terror, Christopher Lee e Peter Cushing, além de Michael Gough, e Donald Sutherland, e cada um tem seu próprio mérito, principalmente Cushing, que entrega uma performance arrepiante como o Dr. Terror, o vidente que prevê o futuro dos quatro homens dentro da cabine, futuros terríveis, diga-se de passagem. Dos quatro personagens, o melhor é o Sr. Marsh, o crítico de arte interpretado por Lee, arrogante e cético até o ultimo fio de cabelo, até mesmo quando tem seu futuro revelado pelo doutor. Os outros personagens também são muito bons, cada um com sua peculiaridade.

 

E as histórias? As histórias também são muito boas, cada uma a sua maneira. Como é de praxe nas antologias, temos histórias assustadoras e quase sempre uma história absurda, e aqui não é diferente. As minhas favoritas são a primeira e a última, que falam sobre lobisomens e vampiros, respectivamente. E como acabei de dizer, tudo feito de maneira simples e rápida, mas eficiente.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Obras-Primas do Cinema, na coleção Amicus Productions – Vol.2, em versão remasterizada.

 

Enfim, As Profecias do Dr. Terror é um filme muito bom, que consegue assustar o espectador sem esforço. Uma das melhores antologias de terror, produzidas de maneira simples, mas eficiente, que conta uma ótima direção e um elenco de estrelas. Um clássico da Amicus Productions e um de seus melhores filmes. Altamente recomendado. 


Créditos: Obras-Primas do Cinema


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sábado, 8 de fevereiro de 2020

A COMPANHIA DOS LOBOS (1984). Dir.: Neil Jordan.


NOTA: 10



A COMPANHIA DOS LOBOS (1984)
A COMPANHIA DOS LOBOS é um filme lindo! Lançado em 1984, é a segunda aventura de Neil Jordan na direção; dois anos antes, ele estreou no cinema com Angel, O Anjo da Vingança, onde também iniciou sua parceria com o ator Stephen Rea, que se tornaria seu colaborador recorrente.

À primeira vista, o filme parece uma versão adulta da historia da Chapeuzinho Vermelho, devido às semelhanças da narrativa com o conto original. Na verdade, o filme é uma adaptação de uma historia da escritora Angela Carter, que trabalhou no roteiro ao lado do diretor. Apesar de fazer parte do gênero terror, eu pessoalmente, classifico o filme como uma obra de fantasia. E assistindo, fica claro o motivo dessa classificação.

É um filme belíssimo, cheio de cores, sombras e luzes, mas, principalmente, sombras. Além disso, é um verdadeiro filme de terror gótico, com tudo que tem direito. Claro, não chega aos pés de um filme do Maestro Mario Bava, mas, possui alguns dos elementos presentes no gênero. Sem duvida, o mais evidente é a floresta envolta em névoas, presente em algumas cenas; outros elementos também aparecem, como o próprio visual da pequena igreja da vila e o cemitério com as lapides inclinadas.

Não só isso. É um filme de fantasia na melhor concepção da palavra. Jordan deu a ele um aspecto de sonho mesmo, o que o deixa ainda mais bonito de se ver. E a cada revisão, ele fica melhor. Eu já sabia que o filme era maravilhoso, e após a ultima revisão, minha opinião não mudou. É o tipo de filme que prende a atenção do espectador, seja pela narrativa, pela fotografia, pelo design de produção... Enfim, tudo nele contribui para sua beleza.

Esse aspecto de sonho se deve muito ao orçamento limitado. Segundo o próprio diretor, ele encontrou dificuldades em trabalhar com o orçamento de que dispunha para criar o visual do filme; mesmo assim, o resultado ficou excelente, e deu ao longa um aspecto tanto fantasioso quanto claustrofóbico. Em vários momentos, os cenários são tão pequenos que parece os personagens vão ser esmagados por eles, ou então, dá a impressão de que eles estão, de fato, presos em um mundo de fantasia criado pela menina em seus sonhos. Não é o tipo de sensação que encontramos em muitos filmes de terror hoje em dia.

Então, A Companhia dos Lobos pode ser considerado somente como um filme de fantasia, e não como um filme de terror? Ao contrário. É um verdadeiro filme de terror. Apesar de classifica-lo mais como um filme de fantasia, eu admito que é, sim, um filme de terror. O terror está em dois pontos. O primeiro é a atmosfera. Conforme já mencionado, é um filme de terror gótico, e isso já o faz ser assustador. Existem cenas que provocam arrepios na espinha. Uma delas acontece no inicio do filme, quando a irmã da protagonista é atacada e morta por um bando de lobos. Além de contar com aspecto de pesadelo, a cena conta com efeitos especiais convincentes, que deixam-na mais arrepiante; um deles é o bonequinho que ganha vida e corre atrás da garota, antes de ser derrubado por ela. A fotografia também é um elemento-chave. As cenas noturnas são verdadeiramente arrepiantes e sombrias, e passam a sensação de insegurança. Realmente, eu não queria me aventurar naquela floresta depois do escurecer. As árvores estão mortas, sem folhas, com galhos secos e retorcidos, semelhantes a garras, e parece que vão nos agarrar e nos engolir. É tudo muito bem feito.

Outro ponto são os efeitos especiais. Mesmo para a época, são muito bons e convencem sem esforço. A primeira grande cena é justamente a primeira cena de transformação. É uma cena assumidamente sangrenta, com efeitos práticos muito bem executados. Desde a primeira vez que a vi, fiquei impressionado porque é realmente uma cena bem feita. Parece que de fato, o ator Stephen Rea está se transformando em lobo – uma transformação visceral, diga-se de passagem – arrancando sua pele, expondo seus músculos cobertos de sangue, enquanto seu rosto e seu corpo se modificam, até atingirem a forma completa de um lobo. A última cena de transformação também é excelente – inclusive, é a melhor cena do filme. Ao contrario da primeira, ela não possui litros de sangue, mas consegue ser mais violenta, devido à performance do ator Micha Bergese. Para os mais exigentes, talvez essas cenas pareçam falsas, mas, para mim, é exatamente o contrario. São muito melhores do que qualquer efeito digital de hoje.

O elenco é também um ponto a favor. Todos, sem exceção, entregam atuações muito boas e convincentes. Parece mesmo que aquelas pessoas são reais e vivem naquela época. Inclusive, alguns até entregam atuações que beiram ao cômico, como por exemplo, o ator que interpreta o garoto apaixonado por Rosaleen. Logo na sua primeira cena, no funeral, ele mostra a língua para a menina e leva um peteleco da mãe. É muito engraçada. O garoto é um completo palhaço, sempre tentando conquistar Rosaleen, seja por meio de presentes ou usando um passeio na floresta depois da missa. Mas suas investidas mostram-se fracassadas. Difícil assistir e não rir. Mas a melhor cena acontece quando ele chega correndo na vila, avisando que há um lobo nas redondezas. O pai da menina, assustado por não vê-la, dá-lhe uma surra, que se transforma em uma briga coletiva, com direito a socos, empurrões e banhos de água. Hilário. Difícil assistir e não dar risada.

Mas, apesar das atuações convincentes, quem rouba a cena são os veteranos Angela Landsbury e David Warner, que interpretam a avó e o pai de Rosaleen. Dona de uma respeitável carreira no cinema e o teatro, ela dá um show interpretando a Vovó, oscilando entre o cômico e o sério. De verdade. É a típica avó que cuida da netinha e lhe passa lições de vida, além de contar suas historias de feras que vivem na floresta. A melhor cena é quando ela o padre discutem no pátio da igreja após o mesmo atingi-la na cabeça com um galho que acabou de podar. Uma discussão muito engraçada, que fica melhor toda vez que revejo o filme. David Warner também não decepciona. Assim como Landsbury, ele também parece um pai verdadeiro, disposto a proteger e cuidar da família. E o melhor é que o ator convence muito como um típico pai de vilarejo do século XVIII. Na verdade, a atriz que interpreta a mãe de Rosaleen também convence.

No entanto, quem dá coração ao filme é a atriz Sarah Patterson, fazendo sua estreia no cinema. Ela entrega uma atuação espetacular. Sua Rosaleen é a própria imagem da inocência juvenil: ingênua, mas inteligente, ela vive em um mundo de fantasia, e não tem medo dos possíveis perigos que vivem na floresta, nem mesmo quando encontra o Caçador. Além disso, ela ficou perfeita na caracterização da Chapeuzinho Vermelho, fugindo da imagem clássica da personagem – loira de olhos azuis. Difícil dizer qual a melhor cena. Ao que parece, ela era muito mais jovem do que as outras atrizes que o diretor de elenco procurava, além do fato de que ela não poderia compreender os temas adultos presentes na narrativa. Mas o importante é que ela conseguiu entregar uma excelente atuação, e criou uma das melhores personagens do horror dos anos 80.

Além de ser um filme de lobisomens, A Companhia dos Lobos é também uma antologia. Mas não é típica antologia, que começa com a primeira historia e vai passando para as outras. Aqui, a antologia se desenrola por meio das historias que a Vovó conta para Rosaleen. E não são uma seguida da outra. Ocorre um período de tempo entre uma historia e outra, o que deixa o filme mais interessante, e às vezes, faz com que esqueçamos que estamos diante de uma antologia. E não é apenas a Vovó conta historias. Rosaleen também suas próprias historias para contar, e são tão assustadoras quanto as da Vovó. Difícil dizer qual a melhor, mas a minha favorita é a ultima, que acontece no final do filme.

E além de ser um filme de lobisomens e uma antologia, o filme também é uma historia de amadurecimento e despertar sexual, representados pela própria Rosaleen. É possível perceber o quanto ela amadurece durante o filme, seja por meio das historias de sua avó, seja por conta própria. É impressionante a transformação da personagem, de uma garotinha a uma adolescente prestes a descobrir o sexo. Um desses momentos acontece quando ela ouve os pais fazendo sexo à noite, e no dia seguinte questiona a mãe o que aconteceu entre eles. Não sei vocês, mas para mim, isso mostra o quão crescida a menina está. Mas sem duvida, o verdadeiro despertar acontece quando ela encontra o Caçador na casa da Vovó. Mesmo não contendo nada explicito – até porque não poderia – a sequencia é carregada de conteúdo erótico, representado pela figura sedutora do Caçador. Além disso, dá ênfase à historia original da Chapeuzinho, que diziam, era repleta de conteúdo adulto, envolvendo até pedofilia, canibalismo e zoofilia.

Mas nada disso impede A Companhia dos Lobos de ser um conto de fadas. Como já mencionado, o filme possui um aspecto de sonho e fantasia, que e chega até ser meio infantil. Um dos motivos é o fato de que foi todo filmado em estúdio, provavelmente pelo orçamento limitado. Mas nada disso é um defeito. Os cenários parecem verdadeiros e são muito bem feitos. Outra limitação orçamentaria é o fato de o diretor utilizar pastores-belga para simular os lobos, uma vez que o roteiro pedia a presença de mais lobos. Mas isso também não é um empecilho. Eu consigo imaginar aqueles cachorros como se fossem lobos, sem o menor problema, principalmente por causa da sua aparência. Lobos de verdade só aparecem algumas vezes no filme, e por poucos minutos. Mas como já disse, não faz a menor diferença; o importante é que convence muito bem e sem esforço.

E qual a minha cena favorita? Bom, não posso dizer, porque acontece no final do filme, então seria um spoiler. Só digo que é belíssima, e que servirá de inspiração para mim no futuro.

A Companhia dos Lobos foi lançado em Setembro de 1984, e foi recebido com criticas positivas, apesar de não ter tido uma boa bilheteria. Além de receber criticas positivas, o filme recebeu vários prêmios ao redor do mundo. No Brasil, foi lançado em Julho de 1987. Não sei se chegou a ser lançado em VHS por aqui, mas foi lançado em DVD, numa edição de banca. Atualmente, está fora de catálogo. Lá fora, já foi lançado em Blu-ray, em belíssima versão restaurada. 

Sobre o lançamento nos cinemas americanos, uma curiosidade: o filme foi distribuído pela Cannon Group, que o divulgou como um filme de terror, contraria à intenção do diretor Neil Jordan, que acreditava que tal intenção seria enganosa.

Conforme mencionei na resenha de Grito de Horror, A Companhia dos Lobos faz parte de uma “trilogia” de filmes de lobisomens lançados nos anos 80. Na verdade, outros exemplares do gênero também foram lançados nessa época, mas sem duvida, os mais memoráveis são: Grito de Horror, Um Lobisomem Americano em Londres e A Companhia dos Lobos, que em minha opinião, é o melhor deles.

Enfim, A Companhia dos Lobos é um filme belíssimo. Um filme de terror gótico com elementos de fantasia. Um dos melhores filmes de lobisomens de todos os tempos.

Maravilhoso.

Altamente recomendado.



"Little girls, this seems to say
Never stop upon your way
Never trust a stranger friend
No one knows how it will end
As you're pretty, so be wise
Wolves may lurk in every guise
Now as then, 'tis simple truth
Sweetest tongue has sharpest tooth."









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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

GRITO DE HORROR (1981). Dir.: Joe Dante.


NOTA: 9.5



GRITO DE HORROR (1981)
Como boa parte dos filmes de terror, meu contato com GRITO DE HORROR (1981) se deu na locadora, por meio da capa do VHS de uma continuação. Nesse caso, a continuação foi Um Lobisomem na California, sétimo filme da franquia. Na época, eu não sabia que o filme era uma continuação desse aqui, talvez porque não prestei atenção no título original – Howling: New Moon Rising – então, achei que era um filme aleatório. Eu fui descobrir que o filme era uma continuação porque vi no site Boca do Inferno, a capa do filme, ilustrando a resenha do mesmo. 

Mas, esse não foi meu único contato com a franquia. Anos depois, eu assisti um filme em que mostrava um sujeito derretendo até os ossos e depois, outro rasgando o próprio rosto e exibindo dentes afiados, banhados em sangue. Conforme o título anunciava, era um filme chamado Grito de Horror. Confesso que fiquei assustado com o que vi, porque, era de fato, muito bem feito. Na época, eu não sabia, mas tratava-se de Grito de Horror IV: Um Arrepio na Noite, considerado uma espécie de refilmagem do primeiro filme. E por fim – talvez tivesse acontecido antes – , eu estava vendo TV à noite, quando apareceu um céu estrelado com o saudoso Christopher Lee lendo um livro. Era a introdução de Grito de Horror 2, anunciado como Grito de Terror.

Esse foi meu primeiro contato com o filme, mesmo que tenha ocorrido com as continuações. Meu contato direto com o primeiro filme deu-se quando a extinta revista SET publicou na edição de Dezembro de 2003 a crítica desse filme aqui, que estava para ser lançado em DVD por aqui. No inicio, não demonstrei interesse, porque achei que se tratava de um filme ruim, mesmo com a nota dada pela revista. Porém, pouco depois, demonstrei vontade de conhece-lo, mas, não encontrava na locadora da qual era freguês. Acabei encontrando o DVD em outra locadora, e aluguei. O resultado? Adorei o filme.

Grito de Horror é um dos melhores filmes de lobisomem de todos os tempos, sem dúvida. Pode-se dizer que ele é o primeiro filme da “Trilogia dos Lobisomens dos Anos 80”, completada pelos também maravilhosos Um Lobisomem Americano em Londres (1981), de John Landis, lançado logo depois, e A Companhia dos Lobos (1984), dirigido por Neil Jordan.

Baseado no livro de Gary Brandner, o filme esteve em produção pelo Avco Embassy, após o produtor Daniel Blatt demonstrar interesse em adaptá-lo. Como resultado, ele e o produtor Mike Finnell foram atrás de uns roteiristas para adaptar o livro. Um deles, Jack Conrad, que também entrou como produtor, acabou fazendo uma adaptação bem fiel ao livro, o que não agradou os outros produtores, o que resultou na contratação de John Sayles e Terrence Winkles. A proposta apresentada a ambos foi a de que eles poderiam utilizar apenas o argumento inicial: lobisomens que se transformam durante o dia, e excluir o restante do livro. Nesse meio tempo, Joe Dante acabou sendo contratado como diretor, após ser dispensado de outro projeto. Dante e Sayles já haviam trabalhado anteriormente em Piranha (1978), e naquele ano, ele também estava envolvido com o roteiro de Alligator (1980). Dante aceitou o desafio e completou o filme em 28 dias.

O que o torna um dos melhores filmes de lobisomem de todos os tempos? Bom, eu diria que primeiramente a temática nova para o gênero. Até então, sabíamos que lobisomens só poderiam surgir na Lua Cheia, mas aqui, isso foi jogado de lado. Aqui, temos lobisomens o tempo todo, até mesmo durante o dia; além disso, eles são indestrutíveis e podem se regenerar. O único aspecto clássico que ficou foi a bala de prata, mas, ao invés de morrer  com um tiro no coração, eles podem morrer com tiros em qualquer parte do corpo, além de poder morrer com fogo. Acho que nunca mais vi um filme com uma roupagem nova ao subgênero como esse.

Mas não é apenas essa nova abordagem que faz de Grito de Horror um filme sensacional. A direção de Joe Dante é muito correta, e, já em seu quarto filme, ele mostrou que é um diretor competente. Dante faz maravilhas com o baixo orçamento que tinha, uma prova de que não é preciso ter rios de dinheiro para fazer um bom filme. O longa possui momentos de tensão, e, até pelo menos a metade, não dá pistas sobre qual é o tema.

Segundo o diretor, de certa forma, a intenção era mesmo essa, principalmente no trailer, divulga-lo como se fosse um slasher, que estava em alta na época. E de fato, parece um filme de serial killer, porque, o foco no inicio é justamente esse: a protagonista é perseguida por um assassino que está atuando em Los Angeles; então, a policia arma um esquema para prendê-lo em flagrante, o que acaba dando errado. Ou seja, quando parece que se trata de um thriller, de repente, muda para um suspense psicológico, onde a “heroína” é atormentada por sonhos com o matador. O verdadeiro tema, os lobisomens, é abordado mais adiante, e quando acontece, é aos poucos, de maneira sutil. Não sei se estava no roteiro ou se foi uma saída que a equipe encontrou porque não podiam encher a tela com lobisomens, mas o fato é que funciona. Como já mencionei varias vezes, é o tipo de filme de terror que eu gosto muito, porque mostra que não é preciso mostrar a ameaça logo de cara; é possível falar sobre o tema aos poucos, sim. E aqui, acontece na ótima cena da loja de livros, onde o saudoso Dick Miller reinterpreta Walter Paisley, aqui vendedor de livros e especialista em lobisomens. A partir daí, os monstros surgem em toda sua gloria. A melhor cena, sem duvida, acontece no consultório do Dr. Waggner, quando um deles ataca uma das personagens. E o monstro é lindo. Enorme, com orelhas grandes, garras afiadas e dentes afiados. Completamente diferente de tudo que havia sido abordado até então.

As cenas de transformação também são um destaque. A primeira acontece depois de 40 minutos e é muito boa. Mas o verdadeiro trunfo acontece quando o personagem Eddie decide se transformar diante da protagonista. Assim como John Landis faria em seguida, Dante mostrou a transformação em todos os detalhes, diante da câmera. E que transformação. O corpo do personagem se transforma em um punhado de inchaços, com direito a unhas crescendo, focinho esticando, orelhas crescendo... Tudo, combinado com sons de ossos quebrando. Uma cena de transformação excelente, tão boa quanto a do filme de Landis. Inclusive, um dos melhores momentos é quando a criatura exibe uma espécie de sorriso enquanto seu rosto se alarga. Para mim, é uma imagem perfeita. As outras cenas de transformação, mesmo limitadas, não ficam atrás. Os efeitos especiais foram criados por Rob Bottin, que já havia trabalhado com Dante em Piranha. Curiosamente, Bottin foi contratado após Rick Baker aceitar trabalhar com John Landis em seu próprio filme de lobisomem, e o indicou para o trabalho. Baker foi creditado apenas como consultor. No final, a maquiagem e os lobisomens de Bottin tornaram-se uma das atrações do filme, e o artista entrou para o hall dos maquiadores do cinema de horror. No ano seguinte, ele foi o responsável pelos efeitos especiais do excelente O Enigma do Outro Mundo (1982), de John Carpenter.

A fotografia também contribui para o filme. Mesmo sendo um filme de terror, existem momentos coloridos no filme, principalmente no final. Os tons de azul e vermelho são fortes e chegam a pulsar na tela. Parece até um filme do Maestro Mario Bava. As cenas durante o dia também são bonitas, principalmente envolvendo a Colônia. A locação é belíssima, e foge daquele aspecto soturno que seria esperado em um filme de terror. Mas mesmo assim, não tiram a tensão presente no filme.

Outra coisa bem legal sobre o filme é o fato de ter várias surpresas escondidas. O próprio Dr. George Waggner é uma delas. Seu nome veio do diretor do clássico O Lobisomem (1941), da Universal Pictures, com Lon Chaney Jr. no papel principal. Chaney Jr. aparece no filme duas vezes. A primeira, quando o clássico da Universal está passando na TV, e outra quando uma foto sua é vista no consultório de Waggner. Mas não é só isso. Outros personagens do filme receberam nomes de cineastas que fizeram filmes de lobisomens, entre eles, Jack Molina, pseudônimo americano de Jacinto Molina, nome verdadeiro de Paul Naschy, que interpretou o lobisomem Waldemar Daninsky na série do “Hombre Lobo”. O filme também contou com John Carradine no elenco, que interpretou Drácula em dois filmes da Universal. Tem também uma ponta do editor da revista Monsters, além de Roger Corman e Mick Garris. Um prato cheio de surpresas para os fãs do gênero.

Grito de Horror gerou diversas continuações, a maioria, inferiores. Na minha opinião, os únicos que valem a pena são Grito de Horror 3, A Nova Raça, lançado em 1987 e Grito de Horror 4, Um Arrepio na Noite, lançado em 1988. Ambos são duas produções trash muito divertidas. O resto, é totalmente dispensável.

Chegou a ser lançado em VHS e DVD por aqui, mas atualmente, está fora de catálogo.

Enfim, Grito de Horror é um grande filme de terror. Assustador, tenso, sangrento, com monstros fantásticos e grandes cenas de transformação. Um dos melhores filmes de lobisomens de todos os tempos. Um clássico do terror.

Altamente recomendado.









Confira também a resenha em:
https://livrosfilmesdehorror.home.blog/2019/09/27/grito-de-horror-1981-dir-joe-dante/


Acesse também:
https://livrosfilmesdehorror.home.blog/



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

IT, A COISA (Stephen King).


NOTA: 10




IT, A COISA
IT, A COISA é um clássico absoluto de Stephen King, o Mestre do Terror.

Um livro perfeito, escrito de maneira brilhante, rico em detalhes, digno de apavorar qualquer um, sem fazer esforço, repleto de cenas memoráveis.

Escrito pelo autor durante os anos 80, o livro tornou-se um de seus maiores sucessos e continua assim até hoje. Mas o que o torna um livro tão perfeito?

A começar pela narrativa. Não há duvidas de que Stephen King é um mestre na arte de escrever, e até agora, não encontrei nenhum livro – ou conto – que me decepcionasse. E It é um deles. Durante a leitura, King mostrou que estava em sua melhor forma, ao contar uma historia tão detalhada e assustadora.

Como já devo ter mencionado, existem casos em que um livro pequeno, de poucas paginas, como A Metamorfose, por exemplo, contém muito mais historia do que um calhamaço de quase 2.000 páginas. Mas, existem exceções, e It é uma delas. Sinceramente, não consigo imaginar esse livro com menos de 600 paginas, porque não faria sentido nenhum. King precisou, sim, estender a narrativa até o total de 1.100 páginas, porque ele tinha muita, mas muita historia para contar.

Conforme ele mesmo revela em um dos extras do primeiro capítulo da nova adaptação, sua fonte de inspiração para criar a pequena cidade de Derry foi o próprio estado do Maine, seu lar. Ele contou que buscou inspiração nas historias que leu sobre a cidade de Bangor, os relatos de brigas de gangues, por exemplo, que acabaram entrando no livro. Ele também pesquisou sobre seu próprio passado, como quando ele e seu irmão brincavam no rio que havia na cidade, e como isso também influenciou na criação do Barrens, e claro, inventou suas próprias historias, juntou tudo e criou e cenário da historia.

E ele faz tudo com perfeição. Seu relato sobre Derry é fantástico, bem como suas descrições da cidade. Em inúmeros momentos, eu consegui visualizar aquela cidade, como seriam os prédios, as casas, as praças, a estatua do lenhador, o cinema, enfim, tudo. É o tipo de coisa que costumo fazer quando estou lendo um livro e me envolvo com a historia, independente do autor e do gênero, e aqui, não foi diferente. E quando acontece uma coisa assim, é porque eu adoro o que estou lendo. Inclusive, pessoalmente, eu acho muito mais fácil criar uma cidade, seja ela de que tamanho for, do que utilizar um cenário real. O autor tem mais liberdade para imaginar a estrutura do lugar, onde cada prédio ficaria, como seria a rotina dos habitantes, enfim, tudo, sem se ater a costumes antigos. Eu pessoalmente, gosto de imaginar assim; claro, não tenho nada contra usar um cenário real numa historia, cada um é cada um.

E claro, It é um livro de horror, e como tal, não faltam cenas de horror. Mas, qual a melhor delas? Olhe, difícil dizer. Na primeira leitura, já tive impressão; agora, com a releitura, a impressão continuou. Difícil escolher a melhor, porque são muitas. E com certeza, essas cenas de horror já se tornaram antológicas.

O Clube dos Otários é sem duvida, uma das melhores coisas do livro. É possível perceber, durante a leitura, que o livro é sobre eles. King descreve cada um deles maravilhosamente, expondo suas vidas, seus medos, tristezas, alegrias, dificuldades, enfim, tudo sobre eles. Difícil dizer qual é o melhor deles, porque são todos adoráveis. Cada um tem a sua característica, o seu modo de pensar, de agir, de ver o mundo, e principalmente, cada um tem o seu próprio mundo. Eles têm problemas, sim, como todos nós; passam por dificuldades tanto na juventude quanto na fase adulta; em algum ponto da vida, eles fracassaram em seus objetivos, enfim, são seres humanos completos. E de verdade, é impossível não vê-los juntos e não se apaixonar. De fato parece que a dinâmica entre eles é bem real, com cada um agindo do seu jeito, mas sempre pensando naquela temática do “Um por todos e todos por um”. Eles nunca estão sempre sozinhos, quase sempre estão juntos os sete; eles têm o seu ponto de encontro no Barrens, uma sede do clube embaixo da terra... O tipo de coisa que todos nós gostaríamos de ter em algum momento da vida, pelo menos eu. E claro, eles passam por perrengues, seja em casa, seja na escola. Ou seja, repetindo, são pessoas de verdade. Na leitura, é possível perceber uma certa troca de papéis. Se na infância, o grupo era liderado por Bill, na fase adulta, Mike, o único que ficou em Derry, assume esse posto de liderança, mesmo que temporária. Interessante essa troca.

Como os sete são os personagens principais, não é muito fácil distinguir quem, de fato, é o protagonista da historia, porque é daquele tipo onde todos os personagens conduzem, cada um do seu jeito. Não tem essa de “um tem mais espaço que o outro”; todos eles têm o seu momento, e brilham nesse momento, seja na juventude, seja na vida adulta.

Os outros personagens também são maravilhosos. Assim como os sete membros do Clube, cada um ali descrito tem sua própria vida, cheia de fracassos, alegrias, tristezas, enfim... Porém, é possível perceber que King dá mais espaço para o valentão da escola, o adolescente Henry Bowers, e seu grupo. King os descreve com a mesma paixão que descreve o Clube dos Otários, principalmente Henry. Ele, sem duvida, o típico adolescente que mete medo em todo mundo. O típico valentão da escola, que adora provocar os mais fracos e meter medo neles. No entanto, existe algo a mais. Henry é sádico. Sempre armado com seu canivete gigante, é evidente que ele não quer apenas machucar os Otários; ele odeia a todos. Os outros membros do grupo de Henry também são valentões, mas, nem todos são perversos; a única exceção é Patrick Hockstetter, que consegue ser tão sádico, ou até, pior do que Henry. Eu acho que ele é pior. King dedica um capitulo só para ele, e o que está escrito não é brincadeira. Patrick é terrível, cruel, sem escrúpulos ou remorso. Esse foi um dos capítulos mais arrepiantes do livro. E o destino dele também não fica atrás.

No entanto, na opinião de muitos, o que faz de It um livro assustador, não é o vilão, ou as cenas de horror. O que assusta de verdade, são os assuntos que King aborda. Falo de racismo, violência domestica, violência psicológica, abuso sexual, assedio, enfim, essas coisas que existem na nossa sociedade e nos assustam todos os dias. Infelizmente, é possível perceber que, mesmo tendo sido lançado há mais de 30 anos, o livro continua atual nesse aspecto, porque a nossa sociedade não mudou nada em relação a esses assuntos; pelo contrario, às vezes, nem sempre, são varridos para debaixo do tapete. Não é sempre que isso acontece, mas acaba acontecendo. Eu, pessoalmente, não gosto de noticias envolvendo esses assuntos, na verdade, nem gosto de discutir nem de saber sobre eles porque são muito tristes.

Outra coisa que King faz com maestria, é mostrar que, apesar da ameaça da Coisa, a cidade de Derry também é envolta em sangue. Muito sangue. Nos trechos batizados de “Interlúdios”, Mike conta em seu diário como foi a historia da cidade, na tentativa de descobrir o motivo pelo qual a Coisa retorna a cada 27 anos. E olha, que historia. Derry tem o sangue nas veias. Ao longo dos séculos, a cidade testemunhou o pior de seus habitantes, com direito a massacres em bares, crianças mortas em explosões, pais espancando filhos... Acho que um dos mais violentos episódios foi o incêndio no clube Black Spot, um clube para negros, ocorrido nos anos 30. Durante a leitura, eu consegui visualizar aquela noite horrível, onde muitos homens perderam a vida. King não faz cerimonia, e descreve a destruição nos mínimos detalhes. Sem duvida, um episodio trágico, mesmo sendo fictício. O mesmo vale para outros episódios trágicos descritos nos Interlúdios, mas, na minha opinião, o mais triste foi esse.

E como mencionado acima, seria impossível descartar esse lado negro da cidade, porque deixa a descrição mais rica, e também ajuda a entender por que a Coisa se sente atraída pela cidade e seus habitantes.

E o que dizer a respeito de Pennywise, o Palhaço Dançarino? Pennywise. É sem dúvida, o melhor personagem do livro. Com certeza, foi o responsável – ou um dos responsáveis – por causar coulrophobia em muitas pessoas. Coulrophobia é o termo dado para quem tem medo de palhaços. Não é difícil entender o motivo. Apesar da fama de serem engraçados, palhaços são, em primeiro lugar, assustadores. Quem consegue achar graça num ser humano com a cara branca, sorriso enorme e um enorme nariz vermelho, com sapatos gigantes? Eu não. Na verdade, eu não sofro de coulrophobia, mas não gosto de palhaços, nunca gostei. Mas, Pennywise... Meu Deus. Ele consegue meter medo em todo mundo, sem esforço nenhum. Desde que surge, no começo do livro, ele mostra que não é um palhaço bonzinho, e isso segue até o final da historia. Na verdade, ao longo do livro, King revela que o palhaço Pennywise é apenas uma das formas que a Coisa assume para atrair as crianças, conforme explica em um trecho do livro. O monstro assume inúmeras formas para assustar suas vitimas, incorporando seus piores medos, mas é o Palhaço Pennywise que fica na nossa memória, tanto que é impossível não associar o livro à figura do palhaço. Além de ser um dos maiores vilões do universo de Stephen King, é também o mais complexo. A Coisa é uma entidade mais antiga que o Universo, que veio à Terra para se alimentar de crianças, a fim de obter força. E King descreve sua criatura de forma impressionante, tão impressionante, que requer esforço da parte do leitor para entender como ela funciona. Sério. Acho que nem as criaturas de H.P. Lovecraft são tão complexas. Mas, pessoalmente, eu não encontrei dificuldade em assimilar e entender a historia da Coisa. Na primeira leitura, eu consegui entender como ela funciona e como ela assume e forma física na Terra e também como faz uso de várias formas para assustar suas vitimas e atraí-las. No fundo, é possível resumir a Coisa da seguinte maneira: é uma entidade cósmica que se alimenta de crianças e assume várias formas com o intuito de assustá-las; a forma do palhaço Pennywise é a forma que ela usa para atrair as crianças. Não deve ser tão difícil, não é? E o método que King encontrou para torna-la uma predadora perfeita é brilhante: somente as crianças conseguem vê-la, os adultos, não. E por quê? Porque quando nós crescemos, deixamos de acreditar em certas coisas, como fantasmas, monstros, fadas, essas coisas. Portanto, fica mais fácil para a Coisa caçar e matar as crianças de Derry, porque elas são muito mais vulneráveis.

Agora, sobre a minha sequencia favorita, vou dizer qual é. É um capitulo que é narrado principalmente como se fossem noticiais de um jornal. Claro que o que está sendo documentado não é bonito, mas, o que me atrai nesse capitulo é o modo como é escrito. As noticiais ali descritas parecem reais, e posso apostar que o jornal onde elas estão veiculadas, pode ser encontrado com facilidade nas bancas.

Meu outro momento favorito é quando King traz uma convidada de seu universo para a história, quando Henry já é adulto, e decide ir atrás dos Otários. A cena é fantástica, assustadora e bem feita. Eu adorei na primeira vez que li, e na releitura, adorei mais ainda. E o modo como ela entra na historia faz tanto sentido, que, francamente, não poderia ser de outro jeito.

Mas não é apenas um membro de seu universo que o autor traz nesse livro. Outro personagem, de um de seus livros mais famosos, também aparece em determinado momento da historia, no trágico episodio do incêndio do Black Spot. Tem gente que acha que é uma forma que o autor encontrou pra dizer que suas historias estão conectadas. Eu pessoalmente, não vejo assim; eu acho que é apenas uma brincadeira.

O livro é alucinante, não há duvida quanto a isso. Em certos momentos, a leitura é frenética, como se fosse um filme de ação; acho que é porque tem muitas cenas de ação. Mas são cenas muito bem escritas, e parece que conseguimos visualizá-las conforme lemos o livro; pelo menos pra mim foi assim. E esse ritmo frenético contribui para o andamento da historia, e não a deixa chata em momento nenhum, pelo contrário, ela fica ainda mais emocionante. Mas com certeza, os momentos mais frenéticos ficam para o final, quando os Otários vão enfrentar a Coisa novamente.

Esse é o momento em que a história dá uma guinada de cair o queixo. Porque, acredito que até aquele momento, a impressão que se tem a respeito do palhaço Pennywise, é que talvez ele seja um tipo de fantasma ou demônio do inferno, não sei. Mas, quando King finalmente conta quem e o que ele é de fato, a coisa muda de figura. Como já mencionei, eu acho, sem duvida, essa ideia de fazer do palhaço uma entidade cósmica, genial. Fora as criaturas de H.P. Lovecraft, não me lembro de ler nenhum outro livro de terror sobre entidades cósmicas. No entanto, apesar do brilhantismo de King, Lovecraft ainda carrega a coroa de rei do terror cósmico. Eu acredito que King transformou seu monstro em entidade cósmica, como uma homenagem à Lovecraft, de quem é admirador confesso. E, se parar pra pensar, existem alguns elementos lovecraftianos na concepção de Pennywise e da Tartaruga, sua rival cósmica.

Claro, como toda historia de monstro, não poderia deixar de existir o lado do Bem, e a Tartaruga é esse lado. Apesar de aparecer pouco, ela tem uma presença forte na historia, e é bem legal o modo como King a desenvolveu. Não fica difícil imaginar uma tartaruga velhinha, toda enrugada, de bengala até, falando com Bill no vácuo, quando eles vão enfrentar a Coisa pela primeira vez. Parece mesmo que a Tartaruga está velha, com o peso do universo sobre o casco. Bem legal.

Os confrontos dos Otários com a Coisa são de cair o queixo. Assim como as cenas de ação, também são momentos frenéticos, mas nem por isso, menos brilhantes. São cenas assustadoras, onde a Coisa mostra todo o seu poder, assumindo diversas formas, arrastando os Otários para o vácuo, com o objetivo de enfraquece-los, e não poupando nenhum deles. Mas o melhor fica para o final do livro, quando eles enfrentam a Coisa pela última vez. Ali, King mostra quem de fato é a Coisa e qual a forma que ela assuma na Terra. São momentos delirantes. King descreve tudo com maestria, e novamente, não fica difícil visualizar tudo aquilo, principalmente a Coisa em sua forma final.

Talvez um dos aspectos mais conhecidos do livro, é o fato de que, quando estava escrevendo, King estava sob efeito de cocaína, infelizmente. Infelizmente, porque, nessa época, o autor era viciado em drogas e em álcool, o que tornou-se um dos piores momentos de sua vida. Com certeza, esse fato gerou a cena mais comentada do livro, a famosa “cena da orgia” entre os Otários no esgoto. Muita gente, mas muita gente, não entendeu o motivo dessa cena estar no livro, nem a sua relevância para a historia, mas, do meu ponto de vista, existe uma explicação. Momentos antes da tal cena, as crianças estão presas no esgoto, que assim como a cidade, estava sofrendo os efeitos de uma tempestade. Estavam desesperados, achando que nunca mais iriam sair de lá, o que levou Beverly a sugerir que os meninos fizessem sexo com ela; como ela mesma explica no diálogo, foi uma forma deles se unirem para sempre, pois acharam que nunca sairiam do esgoto com vida. Viram como é fácil? Só olhar nas entrelinhas.

Eu poderia falar mais sobre o livro, mas, não quero entregar spoilers.

O fato é que It, A Coisa é um Clássico de Stephen King.

Como a maioria de suas obras, acabou sendo adaptado. No caso, foi adaptado duas vezes. A primeira foi a clássica e inesquecível – e ainda insuperável – minissérie de 1990, dirigida por Tommy Lee Wallace, com Tim Curry no papel de Pennywise, em atuação insuperável. A segunda é a maravilhosa adaptação em duas partes dirigida por Andy Muschietti, cujo primeiro capitulo foi lançado em 2017. O segundo capítulo está em exibição nos cinemas, e com certeza, vou assistir.

Enfim, It, A Coisa é um livro excelente. Uma historia rica em detalhes, contada com maestria, cheia de momentos assustadores e inesquecíveis. Uma trama redonda, com toques de fantasia, drama e terror cósmico. Um livro brilhante. Maravilhoso. Um Clássico de Stephen King.

Altamente recomendado.


AVISO.

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