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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

LISA E O DIABO (1973). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10


LISA E O DIABO é um filme belíssimo.

 

Uma história de horror, fantasia e mistério contada com a maestria do Maestro Mario Bava, e um de seus melhores filmes.

 

Eu já comentei sobre alguns filmes do Maestro aqui, e até agora, não encontrei nenhum que me decepcionasse.

 

Lisa e o Diabo faz parte do ciclo gótico do cineasta, ciclo esse que o tornou bastante conhecido, visto que ele foi um dos responsáveis por torna-lo popular na Itália, graças ao sucesso que O Vampiro da Noite (1957) fez no país.

 

Podemos também encarar o filme como uma espécie de homenagem que Bava faz a si mesmo, visto que existem cenas que lembram seus filmes anteriores, além do uso de suas técnicas bastante conhecidas.

 

Na trama, Lisa é uma turista que se perde em Toledo, na Espanha, e vaga pelas ruas da cidade, até se encontrar com um casal rico, e o carro deles quebra nas proximidades de uma antiga mansão, onde moram uma condessa e seu filho, além de um estranho mordomo que intriga Lisa, por se parecer com o Diabo.

 

Essa é a sinopse básica do filme, e pode até parecer simples, mas, na verdade, o roteiro envolve alguns outros elementos, como segredos de família e triângulos amorosos, que necessitam de um pouco de raciocínio do espectador para serem compreendidos.

 

Esse é um detalhe da trama que precisa ser analisado com muita calma, pois, não é explicado para nós logo de cara, ele acontece aos poucos. E a cada revisão, o mistério parece aumentar, o que pede ainda mais raciocínio de quem está assistindo.

 

Mas não se engane. Apesar dessa trama um pouco complicada, Lisa e o Diabo é um filme belíssimo, feito com as técnicas que somente o diretor Bava conhecia e sabia utilizar.

 

A começar pela direção. Bava era um mestre com a câmera, e sabia fazer coisas que nenhum outro cineasta soube. Aqui, mais uma vez, ele mostra sua competência e cria cenas memoráveis, com ângulos inspirados, além de uma movimentação suave, combinada a uma fotografia habilidosa.

 

Além da fotografia, o roteiro também merece menção, porque, conforme mencionei, é um grande quebra-cabeça, onde as peças vão se encaixando lentamente, com um mistério em torno dos três habitantes da mansão, que aos poucos vai mostrando sua face e seu motivo.

 

Os cenários também são maravilhosos, principalmente a mansão, que parece um gigantesco labirinto, com seus quartos vazios, um jardim enorme e aspecto de decadência, algo que Bava adorava utilizar em seus filmes. Como o filme se passa praticamente durante a noite, não é difícil nos sentirmos ameaçados dentro daquele ambiente, principalmente o quarto do mordomo Leandro, cheio de manequins.

 

Os personagens também são um ponto positivo, e os atores atuam maravilhosamente. É possível acreditar que aquelas pessoas são reais, que vivem naquela mansão decadente, presos em seu próprio mundo repleto de segredos macabros. Lisa é a mocinha indefesa, que não entende o que está acontecendo, nem como foi parar naquele mundo estranho, e acredita o tempo todo que tudo não se trata de um sonho. O casal rico também não faz feio, e passam a sensação de já estarem casados há muito tempo, e se cansaram um do outro, tanto que a mulher procura conforto nos braços do chofer.

 

Mas o melhor personagem é o mordomo Leandro, magistralmente interpretado por Telly Savalas. Ele é diabolicamente educado, misterioso e perigoso, e deixa transparecer essas sensações desde a primeira aparição, até o final do filme. Seu melhor momento é quando está em seu quarto recitando um monólogo sobre trabalho e tradição, enquanto come suspiros e bebe conhaque. Além disso, ele se mostra um grande fabricante de manequins, que desempenham um papel importante na história, pois representam os personagens principais.

 

O filme todo possui um aspecto de sonho e fantasia, e isso está presente desde a primeira cena, quando Lisa ouve a caixa de música ao longe e aparenta ser enfeitiçada por ela, visto que acaba se perdendo de seu grupo de excursão. E a sensação predomina até o final do filme, com eventos estranhos e misteriosos acontecendo, como o fato de Lisa se parecer com a amante do padrasto de Maximiliano, o que a deixa completamente confusa.

 

Esse é o grande segredo da trama. Lisa aparenta se dividir entre ela mesma, e Ellena, amante do padrasto de Maximiliano, que também se encanta por ela, e a mata. Como eu disse, é um mistério que vai se resolvendo aos poucos, o que obriga o espectador a pensar no que está acontecendo.

 

Acredito que tal sensação de estranheza se deve ao fato do produtor Alfredo Leone, após o sucesso do filme anterior de Bava, Os Horrores no Castelo de Nuremberg (1972), ter dado carta branca ao cineasta para fazer o filme que quisesse; então, chamou dois roteiristas que haviam trabalhado com ele anteriormente, e os dois desenvolveram a história a partir das ideias do diretor.

 

Tal mistério não impede o filme de ser uma verdadeira obra de arte, onde Bava aparentemente faz um resumo de sua vida, segundo dizem os biógrafos do cineasta. De fato, existem conexões com outros filmes anteriores do diretor, seja em takes e cenas, seja na própria história. Menções à A Maldição do Demônio (1960), O Ciclo do Pavor (1966) e Hércules no Centro da Terra (1961), por exemplo, estão presentes no longa.

 

Além disso, o filme também pode ser encarado como uma espécie de final de ciclo, visto que, naquela época, o gênero gótico dava sinais de declínio, e o que entrava em vigor eram os filmes mais pesados, os exploitation, por exemplo, algo que o cineasta explorou no Giallo Banho de Sangue (1971), que se tornou uma espécie de precursor do Slasher americano.

 

Por esse e outros motivos, Lisa e o Diabo é um filme que merece ser visto pelos fãs de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 2, que conta com um documentário nos extras.

 

Enfim Lisa e o Diabo é um filme excelente. Uma história de horror, mistério, romance e fantasia contada com maestria pelo Maestro Mario Bava, que faz uso de suas técnicas impares e únicas para contá-la. Um clima de mistério toma conta do filme desde a primeira cena e permanece até o final, com a protagonista presa em uma espécie de sonho macabro que encanta. Um dos melhores filmes de Mario Bava, e sua grande obra-prima.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 12 de outubro de 2024

GEMINI (1999). Dir.: Shinya Tsukamoto.

 

NOTA: 8.5


GEMINI é um dos melhores filmes de terror que eu já vi.

 

Não apenas isso; é um dos filmes mais perturbadores e sujos que já vi, graças à técnica de direção de Shinya Tsukamoto. Mais detalhes sobre isso logo depois.

 

Primeiro, deixe-me dizer que eu tinha um certo preconceito com o cinema de terror oriental, principalmente porque eu achava que não era o tipo de cinema que eu fosse gostar, mais por causa das diferenças em relação ao cinema ocidental.

 

Mas, hoje em dia, tais preconceitos não existem mais, e já me considero um fã de filmes de terror orientais, em especial, do cinema de terror japonês, principalmente dos kwaidan.

 

Mas, hoje não estou aqui para falar de um kwaidan, e sim, de um filme de terror japonês ambientado já no começo do século XX, no caso, o filme de Tsukamoto.

 

Gemini é o clássico filme sobre gêmeos, ou seja, no gênero do terror, estamos falando da história do gêmeo bom e do gêmeo mal. Mas, não se engane, este aqui é um grande exemplar do gênero.

 

Na trama, o Dr. Daitokuji Yukio é um bem-sucedido médico na Tokyo de 1910, que tem sua vida virada de cabeça para baixo quando seu irmão gêmeo mata sua família e se apodera de sua vida pessoal e de sua esposa.

 

No fundo, é uma clássica trama de gêmeos que trocam de lugar, mas no fundo, é muito mais do que isso, porque descobrimos que existe um plano de vingança por trás de tudo isso, viso que Sutekichi, o gêmeo malvado, foi abandonado ainda bebê e criado na favela, enquanto Yukio foi criado na riqueza.

 

Quando Sutekichi descobre que existe outro homem igual a ele, dá início ao seu plano de vingança, matando primeiro os pais de seu irmão, para depois se apossar de sua vida e de sua esposa, que, conforme descobrimos, também morava na favela e era esposa de Sutekichi.

 

É um filme com uma trama de vingança bem amarrada, e parece ficar melhor a cada revisão, principalmente porque existem segredos escondidos ao longo da projeção, que parecem surgir toda vez que vemos o filme de novo; pelo menos comigo foi assim, principalmente agora, depois dessa última conferida.

 

Aliada à essa trama de vingança, temos uma técnica muito boa, que mistura câmera de mão, montagem frenética e truques de filmagem, principalmente quando os gêmeos estão juntos, que, apesar de serem poucas cenas, são muito bem dirigidas e enquadradas.

 

O diretor Tsukamoto tem uma grande habilidade para dirigir cenas frenéticas, não sei se isso faz parte do seu estilo de contar histórias, mas aqui, funciona muito bem. As cenas causam um certo desconforto à primeira vista, e não é fácil imaginar como elas devem ter sido filmadas, principalmente as sequências na favela, que fazem um belo contraste com as cenas na casa de Yukio. A favela é filmada com cores quentes, enquanto que a casa de Yukio é filmada com cores frias.

 

Além da técnica exemplar, o elenco também não faz feio, principalmente o ator Masahiro Motoki, que interpreta os gêmeos. Logo na primeira conferida, fica fácil distinguir um do outro, principalmente por causa de suas vestes; Yukio se veste de maneira impecável, enquanto Sutekichi se veste em trapos; além disso, ele tem uma marca de nascença na perna, o que torna mais fácil distinguir os dois, principalmente após Sutekichi assumir a identidade do irmão.

 

A atriz e modelo Ryo também não faz feio, e sua Rin transmite tudo aquilo que o diretor deve ter pedido, a doçura na casa de Yukio, e a maldade na favela. A caracterização da atriz também é muito boa, e combina com as fases da personagem.

 

Além de ser uma trama de vingança, Gemini também é um filme que pode ser interpretado como uma regressão ao estado animalesco, visto que Yukio praticamente se transforma em um animal quando é deixado pelo irmão no poço da propriedade, sendo obrigado a comer comida do chão, além de ficar coberto de sujeira.

 

O que mais pode ser dito, é que Gemini também possui uma conclusão aberta à interpretação, visto que realmente nunca fica evidente qual dos gêmeos venceu no final.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror: Horror Japonês, com muitos extras.

 

Enfim, Gemini é um filme muito bom. Uma trama de horror e vingança contada de maneira brilhante por Shinya Tsukamoto, graças à sua câmera de mão frenética, montagem rápida e fotografia que contrasta bem os cenários. O elenco também merece destaque, porque estão todos atuando muito bem, principalmente os dois atores principais. Um dos melhores filmes de terror que já vi, e um dos melhores do cinema japonês.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

sábado, 20 de julho de 2024

NOSFERATU – O VAMPIRO DA NOITE (1979). Dir.: Werner Herzog.

 

NOTA: 10


NOSFERATU – O VAMPIRO DA NOITE é um filme maravilhoso.

 

É um daqueles casos de refilmagens que não ofendem a obra original, e merecem estar junto com ela numa sessão dupla.

 

Como já deu para perceber, o filme de Herzog é uma refilmagem do Clássico de Murnau, que é um marco do Expressionismo Alemão, além de ser a primeira adaptação para cinema do livro de Bram Stoker.

 

Aqui não é diferente, e o filme pode ser encarado dessas duas maneiras por qualquer um que adore a obra de Stoker. Até porque, o filme foi lançado em um ano que pode ser chamado de “Ano do Drácula no Cinema”, visto a quantidade de adaptações e filmes de vampiros que foram lançados.

 

A trama é basicamente a mesma do filme de Murnau, então, não vou descrevê-la aqui, e irei me concentrar apenas nos quesitos técnicos.

 

Conforme disse acima, o filme é maravilhoso, e isso se deve principalmente às habilidades de Herzog como diretor, e isso ele tem de sobra.

 

O cineasta é capaz de criar cenas lindas de várias formas, sem apelar para artifícios; tudo é feito de forma natural, e no tempo certo, e deixam o filme ainda melhor a cada revisão.

 

O principal fator que deixa o filme lindo são as locações. O filme foi rodado na Alemanha e na França, e o diretor soube aproveitar os cenários de maneira única, assim como Murnau fez em seu filme. As cenas diurnas são o grande destaque, com foco nas montanhas e vales, além de cachoeiras e grutas.

 

O castelo do conde não fica atrás. A locação é belíssima, e nas cenas diurnas, fica ainda melhor, com aspecto gótico e com decorações mórbidas, além de ser repleto de morcegos pendurados nas janelas.

 

A locação para a cidade de Wismar também é linda, e possui um aspecto de parada no tempo, além de contar com uma belíssima praça central, diante de uma torre de relógio.

 

Sempre que vejo as locações desse filme eu fico em paz, porque elas são simplesmente lindas, sem exceção.

 

Além das locações, preciso falar sobre o elenco também. Nosferatu marca mais uma parceria entre Herzog e o ator Klaus Kinski, aqui no papel do vampiro. Não é novidade para ninguém que o ator era problemático no set, e que ambos tiveram momentos difíceis em sua parceria ao longo dos anos.

 

Kinski está excelente como o vampiro, e sua caracterização se distancia completamente do filme de Murnau, e aqui, o conde é retratado como uma figura trágica, que não pode morrer, e que sofre por amar e não ser amado. E assim como no filme de Murnau, ele vai à Wismar para espalhar a peste, representada por um exército de ratos.

 

Além de Kinski, temos também as presenças de Isabelle Adjani e Bruno Ganz, como Lucy e Jonathan, respectivamente, e os dois também estão excelentes.

 

Isabelle interpreta uma Lucy fragilizada, que ama o marido e teme por sua vida quando ele vai viajar para a Transilvânia. Mas não é só isso. Sua Lucy também é uma mulher determinada, que está disposta a se sacrificar para salvar a vida do marido e também acabar com a peste. A caracterização da personagem também é excelente, com seu rosto pálido e cabelos negros; e fica ainda melhor quando ela está de camisola branca, que dá um belo contraste.

 

Ganz, por outro lado, interpreta Harker, e o personagem pode ser dividido em duas fases. No começo do filme, ele é um homem seguro, que não tem medo de viajar para uma terra distante, e não liga para as conversas supersticiosas dos locais. No entanto, após fugir do castelo, ele se transforma em outra pessoa, em um homem fragilizado, com aspecto doente, que não reconhece mais a esposa. E a coisa fica pior no final do filme.

 

Como eu disse anteriormente, Herzog sabe criar ótimas cenas, e ele faz isso com maestria. As cenas aqui acontecem aos poucos, de maneira lenta mesmo, mas não ficam entediantes. São várias cenas aqui, e fica difícil dizer qual é a melhor, mas eu destaco a sequência em o conde morde Lucy; é uma cena tensa, que deixa o espectador angustiado, porque, quando achamos que ela acabou, ela continua.

 

Além de criar cenas de ritmo lento, Herzog também faz uso de imagens de arquivo de morcegos voando em câmera lenta, para simular a chegada do vampiro, e também indicar sua presença em cena. Assim como as cenas mencionadas acima, esses takes de morcegos voando são maravilhosos, principalmente por causa dos animais que os protagonizam.

 

Assim como o filme de Murnau, o filme de Herzog é um filme sobre a peste, representada na forma de um exército de ratos. Quando eles chegam à Wismar, a bordo do navio abandonado, o caos está instalado, e as pessoas não tem outra alternativa, a não ser sucumbir e morrer. As cenas da presença da peste são tristes, e eu destaco uma em particular: a sequência em que Lucy está andando pela praça e se depara com várias pessoas adoecidas dançando alegremente e comendo ao ar livre. É a clássica representação da Dança da Morte, vista na época da Peste Negra, mas sem a presença do Ceifador. A sequência é acompanhada por uma trilha sonora lúgubre, que a deixa ainda mais melancólica.

 

E já que toquei nisso, deixe-me falar sobre a trilha sonora, antes de encerrar. Herzog utilizou música clássica, além de uma banda para compor a trilha sonora de seu filme, e a trilha não decepciona. Desde a primeira cena, nas catacumbas de múmias, a trilha fúnebre se faz presente, e passa uma sensação de tensão, que vai crescendo à medida que ela mesma vai crescendo. É uma trilha sonora perfeita para o clima lúgubre e melancólico do filme.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, primeiramente em versão individual, depois na caixa Nosferatu, que contém também o filme de Murnau. A versão disponível na caixa é restaurada e está no formato Widescreen Anamórfico, além de vir acompanhada de muitos extras.

 

Para uma ótima experiência, assista primeiro o filme de Murnau, e na sequência, embarque neste filme aqui.

 

Enfim, Nosferatu – O Vampiro da Noite é um filme excelente. Uma obra melancólica e fúnebre, que enche os olhos com suas locações maravilhosas, além de contar com as técnicas milenares de direção de Werner Herzog. O elenco principal também é o destaque, e os atores estão excelentes em suas performances, e a trilha sonora deixa o espectador ainda mais imerso no longa, com seu tema fúnebre e melancólico. Um exemplo de refilmagem que não ofende a obra original, e merece estar ao seu lado em uma sessão dupla. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 22 de junho de 2024

INVERNO DE SANGUE EM VENEZA (1973). Dir.: Nicolas Roeg.

 

EM MEMÓRIA DE DONALD SUTHERLAND.


NOTA: 9


INVERNO DE SANGUE EM VENEZA é um dos maiores filmes de terror de todos os tempos.

 

Lançado em 1973, com direção de Nicolas Roeg, baseado em um conto de Daphne du Marier, é considerado o maior filme britânico de todos os tempos, além de ser um dos filmes mais assustadores da história.

 

Motivos para isso não faltam, visto que o longa é mergulhado em uma atmosfera de suspense e terror que enche o espectador de tensão, auxiliado às maravilhosas locações em Veneza, na Itália.

 

Temos a direção segura e inspirada de Roeg, que contribui para deixar o filme ainda melhor e mais assustador a cada conferida.

 

Mas, antes de falar mais, deixo um aviso. À princípio, para quem vai conferir o longa pela primeira vez, o roteiro pode parecer um tanto confuso, visto que deixa algumas questões abertas à interpretação, mas, conforme assistimos mais vezes, as coisas começam a fazer sentido. Foi assim que aconteceu comigo.

 

Na trama, o casal John e Laura Baxter perde a filha de maneira trágica, e, traumatizados, eles viajam para Veneza, onde John trabalha como restaurador de uma igreja. Durante um almoço num restaurante, Laura conhece duas irmãs, e, uma delas, que é cega e médium, avisa que John corre perigo na cidade, que é aterrorizada por um maníaco.

 

Parece ser uma trama simples, não é? Até é, mas, como eu disse, existem algumas coisas no filme que podem ser abertas à interpretação, então, numa visão mais ampla, a trama é mais profunda do que isso. Envolve questões como mediunidade, e comunicação com o mundo dos espíritos, além de conter alguns elementos de Giallo.

 

Para os fãs de Giallo, Inverno de Sangue pode ser encarado como uma variação curiosa do gênero, visto que é ambientado na Itália, e a cidade de Veneza é aterrorizada por um maníaco. Existe, de fato, um maníaco na cidade, e há algumas cenas envolvendo a descoberta de corpos, então, é uma parte importante da narrativa.

 

A trama principal, ao meu ver, é sobre a relação entre John e Laura, que tentam se recuperar da morte da filha. A amizade de Laura com as duas irmãs também é fundamental, porque, Heather, a irmã cega, diz a ela que a filha está tentando alertar John sobre o perigo que ele está correndo na cidade, e essa pergunta é respondida apenas no final do filme.

 

Não vou entrar em detalhes para não dar spoilers, mas, digo que, apesar de sabermos o tempo todo que John corre perigo, quando acontece, é muito chocante.

Mas, vamos ao filme. Como eu disse, ele é muito bem feito, graças à direção de Roeg. O cineasta faz belo uso da locação em Veneza, focando os prédios e os canais da cidade com maestria impressionante, de fato, dignas de um filme Giallo. Durante toda a projeção, eu senti como se estivesse assistindo a um exemplar do gênero ambientado na cidade, como Quem a Viu Morrer? (1971), do diretor Aldo Lado, por exemplo.

 

As tomadas de Veneza são maravilhosas, principalmente naquela época do ano, o inverno. É um daqueles filmes que dá vontade de assistir em um dia de inverno chuvoso, visto a qualidade das tomadas com a câmera de Roeg, e a aparência do filme como um todo.

 

O elenco também é um grande destaque, principalmente os astros Donald Sutherland e Julie Christie, no papel do casal Baxter. Os dois atores se mostram muito eficazes em suas performances, e se mostram grandes veteranos do ofício, visto que nenhum deles atua de maneira exagerada. Sutherland e Christie passam de maneira ímpar a sensação de um casal que perdeu um filho, por exemplo, oscilando entre a tristeza e o amor.

 

As cenas de suspense e terror também merecem ser mencionadas. O diretor Roeg faz uso de várias tomadas noturnas, além de utilizar o som de passos noturnos em alguns momentos, o que aumenta a tensão e o medo no espectador. O filme não tem muitas cenas de mortes, mas, mesmo assim, as cenas assustadoras metem medo de fato, principalmente a sequência em que o casal se perde os becos e pontes noturnos da cidade.

 

A revelação do assassino também é um ponto positivo para o filme. Ela é aquele tipo de revelação que acontece aos poucos, assim como toda a trama, mas é bem preparada, principalmente no começo do filme, com a filha dos Baxter usando um casaco vermelho vibrante, que chama a atenção de John. Esse é um grande visual de assassino, e a cor do casaco é forte o suficiente para servir de chamariz da morte.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em versão restaurada, com muitos extras.

 

Enfim, Inverno de Sangue em Veneza é um filme excelente. Um filme de terror e suspense que prende o espectador desde o começo, e o convida a embarcar em sua trama repleta de mistérios. A direção de Nicolas Roeg é um dos destaques, com sua câmera acompanhando as locações em Veneza de maneira brilhante. Quem merece menção também é o elenco, principalmente Donald Sutherland e Julie Christie, que entregam grandes atuações. Um dos melhores filmes de terror de todos os tempos. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


terça-feira, 7 de maio de 2024

O BRAÇO DE MAR (Stephen King).

 

NOTA: 8.5


O BRAÇO DE MAR, presente na antologia Tripulação de Esqueletos, é um dos contos mais melancólicos e interessantes de Stephen King.

 

Aqui, o autor criou uma história de fantasmas dramática, sem apelar para o terror, seu gênero de costume, e mesmo assim, escreveu uma história muito boa.

 

A começar pela ambientação. A narrativa se passa em uma ilhota no Maine, e tem como protagonista, uma senhora idosa de 95 anos chamada Stella, que morou na ilha a vida inteira, e que nunca foi ao continente. No entanto, certo dia, durante o inverno mais rigoroso em 50 anos, ela decide ir ao continente, tendo como companhia o fantasma de seu marido.

 

No fundo, a história é basicamente assim, mas, na verdade, é um conto triste sobre uma mulher triste, que vive sozinha, visto que alguns de seus amigos e familiares já se foram. No entanto, ela ainda tem a companhia do filho e dos bisnetos, e passa o tempo contando histórias do passado da ilha para eles.

 

Mas logo, a solidão da protagonista é abalada pelas visões com seu marido falecido, que surge de vez em quando para ampará-la e para fazer companhia a ela, principalmente no final da história.

 

Ao contrário do que se pode imaginar, O Braço de Mar não é um conto de terror, e sim, um drama fantástico com elementos de suspense, visto que não há nenhum elemento de horror na narrativa.

 

Eu pessoalmente gostei muito desse conto, principalmente por causa da ambientação em uma ilhota do Maine. Durante a leitura, eu consegui imaginar como seria aquele lugar, principalmente aquela vila, onde a protagonista mora. Imagens de um filme canadense, baseado na história real de uma pintora folk, me vieram à mente, além de alguma ideia para um conto de minha autoria. Eu gosto muito dessa sensação quando estou lendo um livro, ou um conto, porque eu acabo, de certa forma, entrando na narrativa e na atmosfera.

 

As aparições do fantasma do marido de Stella também são um dos pontos altos da narrativa, porque, acontecem de maneira natural, com Stella primeiro interagindo com ele com medo, mas depois, acaba se acostumando com aquilo. O mesmo pode ser dito quando outros fantasmas surgem para acompanhá-la em sua jornada ao continente.

 

A sequência da jornada de Stella também merece menção porque é uma sequência tensa, que se passa no inverno mais rigoroso que a ilha está enfrentando, o que dificulta a jornada da protagonista, e a mesma acaba passando por alguns perrengues, antes de se encontrar com o marido e com os demais que já morreram no passado. A partir daí, vira uma sequência muito bonita, com os fantasmas dando apoio a ela em sua jornada.

 

E o final em si também é muito bonito e um pouco triste, com o destino de Stella sendo descrito pelo autor com sua técnica ímpar.

 

Esta, na verdade, é a minha segunda leitura do conto, mas, a primeira na edição da Suma; a primeira vez, foi na edição da Objetiva, mas eu não tive uma leitura agradável, porque a letra era bem pequena; com a edição da Suma, a leitura foi bem melhor e fluiu normalmente.

 

Enfim, O Braço de Mar é um conto muito bom. Uma história dramática com toques fantásticos, que prende o leitor e consegue encantá-lo ao mesmo tempo. Uma história triste e melancólica, cuja leitura é rápida, mas, envolvente. Uma narrativa de fantasmas contada com a maestria ímpar do Mestre Stephen King. Recomendado.


sábado, 9 de março de 2024

MORGIANA (1972). Dir.: Juraj Herz.

 

NOTA: 8.5


O diretor Juraj Herz foi um dos cineastas mais criativos de todos os tempos, e seus filmes possuíam um toque experimental e assustador.

 

MORGIANA é outro filme do cineasta, e um dos mais assustadores que já vi, e motivos para isso não faltam.

 

Desde a primeira vez em que o assisti, fui tomado por uma sensação de pavor, misturada com desconforto e fascínio, tudo isso graças, principalmente, à sequência dos créditos iniciais, que é banhada com uma trilha sonora arrepiante, combinada a imagens desconcertantes. Eu confesso que toda vez que penso em assistir ao filme, eu fico com receio por causa dessa sequência inicial, mas logo tal sensação passa, e sou capaz de apreciar o longa, ainda que tenha que enfrentar certos momentos arrepiantes.

 

Além de ser um dos mais assustadores que já vi, o filme é também um dos mais impressionantes, graças às técnicas de direção de Herz, que faz uso de métodos criativos e bizarros para contar sua história, como por exemplo, o uso de lentes grande-angulares e distorção de cores.

 

Mas não é apenas a técnica de direção que deixa o filme belo; a direção de arte e o figurino também contribuem para isso, e nos fazem entrar naquele mundo gótico europeu do século XIX. Sempre que assisto ao filme, eu presto atenção a esses detalhes, porque eles me deixam ainda mais imerso na experiência.

 

Agora que já mencionei a qualidade técnica, deixe-me falar sobre seu elenco, com destaque para a atriz Iva Janzurová, que interpreta as gêmeas Klara e Viktoria. A atriz está excelente em seus papéis, e confesso que é difícil não imaginar se são duas mulheres diferentes dando vida àquelas personagens, visto o grau de diferença de atuação. Iva se transforma nas personagens de modo impressionante, e nós sentimos simpatia pelas duas irmãs, apesar de sabermos que Viktoria é perversa.

 

Sobre as irmãs, digo o seguinte. O filme é a clássica história do gêmeo bom e do gêmeo mal, e fica fácil saber qual das irmãs é a boa, e qual é a má. Viktoria é a gêmea má, e isso fica evidente logo em sua primeira cena. A personagem é excelente, sempre vestida de preto, com sua maquiagem e rosto pálido como papel. Klara é a gêmea boa, sempre vestida com roupas coloridas, com ar de ingenuidade e bondade presentes em sua personalidade.

 

Ainda sobre Viktoria, ela é a encarnação da maldade, praticando atos ruins apenas porque é malvada, prejudicando a todos ao seu redor e se mostrando gananciosa e disposta a tomar a parte da herança que Klara recebeu do pai. Ela é uma das melhores vilãs que já vi em um filme.

 

Klara, por outro lado, é doce e sensível, e acredita na bondade das pessoas. Por isso, quando ela é envenenada, nós sentimos pena dela, pois sabemos o que aconteceu e o motivo pelo qual aconteceu; o mesmo acontece quando ela passa a sofrer os efeitos do veneno, sendo acometida por visões terríveis e disformes. O maior problema disso tudo, é que ela é obrigada a ficar sob os cuidados de uma freira assustadora e severa.

 

A trilha sonora também é um ponto positivo para o filme. É difícil classificá-la com precisão, mas digo que é uma verdadeira trilha sonora de filme de terror, que provoca arrepios no espectador; pelo menos para mim é assim sempre que assisto ao filme.

 

O filme também é cheio de momentos arrepiantes, escuros e desconcertantes, e é difícil dizer qual é o mais arrepiante. O que todos têm em comum, é que todos são protagonizados por Viktoria, o que aumentam seus graus de maldade.

 

Segundo o diretor Herz, o filme foi encarado por ele como um exercício para ele não perder suas habilidades de direção, visto que foi proibido de exercer a profissão por motivos políticos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 14, dedicado ao terror europeu, com um depoimento do cineasta como extra.

 

Enfim, Morgiana é um filme muito bom. Um filme de terror com imagens e cenas arrepiantes, que prendem a atenção do espectador, e podem causar pesadelos sem o menor esforço. A atriz Iva Janzurová é o grande destaque, com sua atuação magistral, no papel das gêmeas Klara e Viktoria. Um filme verdadeiramente assustador, e um dos melhores filmes de terror do cinema europeu.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O VÍCIO (1995). Dir.: Abel Ferrara.

 

NOTA: 8



Os filmes de vampiro estão presentes no cinema desde sempre, com uma enorme variedade de conteúdos, criados por vários cineastas ao longo dos anos.

 

O VÍCIO, lançado em 1995, dirigido por Abel Ferrara, é uma dessas variações, e uma das mais criativas, por motivos que serão descritos mais adiante.

 

Este é um dos melhores filmes de vampiro que já vi, principalmente por conta da criatividade do roteiro e da direção de Ferrara. O cineasta subverte o gênero com maestria e faz uma analogia interessante com o titulo do longa.

 

Acredito que o principal fator de criatividade seja o fato do filme ser rodado em preto e branco, o que o torna ainda mais sombrio e sinistro. Em momento nenhum as cores fazem falta, e deixam o filme ainda melhor.

 

Mesmo não tendo visto os demais filmes de Ferrara, eu imagino que o cineasta gosta de subverter os temas com os quais trabalha, e coloca as suas características nos mesmos, e aqui não deve ter sido diferente.

 

Além de ser um filme de vampiro, O Vício é também um filme sobre filosofia, e isto está presente desde o começo, visto que a protagonista é estudante de Filosofia e está prestes a concluir sua tese de doutorado. O roteiro de Nicholas St. John – colaborador frequente do cineasta – é recheado de frases que devem remeter à Filosofia, com citações e menções a filósofos conhecidos. Eu pessoalmente acho essa sacada muito interessante porque possui uma relação com os estudos da protagonista e também com a própria ideia de que vampiros podem ser filósofos.

 

O elenco também é um ponto positivo para o filme, principalmente a atriz Lili Taylor, que interpreta a protagonista Kathleen. No inicio do filme, ela se mostra uma pessoa doce e gentil, focada nos estudos, mas após ser atacada, ela se transforma em outra pessoa, que não se importa em ferir os outros, e não dá importância para os estudos. Além disso, logo após o ataque, é possível perceber que ela não entende o que está acontecendo consigo mesma, e passa a sofrer as consequências. Essa é uma característica que me chama muito a atenção em historias de vampiros, os vampiros que não entendem sua condição e sofrem por causa disso. Mas logo isso muda, e Kathleen se transforma em uma criatura sedenta de sangue.

 

O restante do elenco não faz feio, principalmente o ator Christopher Walken, que interpreta um vampiro filosófico que carrega consigo a sabedoria dos séculos. Apesar da pouca presença, o personagem rouba a cena.

 

Conforme mencionado acima, O Vício subverte o gênero de forma criativa, visto que a própria palavra “Vampiro” não é mencionada em momento nenhum ao longo do filme. Além disso, o roteiro faz uma analogia interessante com o vicio em drogas – daí o titulo – visto que, após adquirir o gosto pelo sangue, a protagonista passa a querer consumir o mesmo cada vez mais, até decair completamente, culminando na cena do massacre. E também devo dizer que o roteirista St. John cria suas próprias regras em relação às criaturas, o que é sempre bom de se ver: seus vampiros não possuem presas e podem andar à luz do dia; e os outros elementos não são apresentados aqui, mas sinceramente não fazem falta.

 

E além disso, o diretor Ferrara nos faz questão de mostrar Nova York como um lugar dominado pelas gangues e pela degradação, algo mostrado no cinema décadas antes.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Vampiros no Cinema 3, em versão restaurada, com um making of entre os extras.

 

Enfim, O Vício é um filme muito bom. Uma historia de vampiros ousada que subverte o gênero com criatividade impar e faz uma analogia interessante com o uso de drogas. A direção de Abel Ferrara é muito boa e o diretor consegue arrancar ótimas performances de seu elenco, que não está nem um pouco exagerado. A fotografia em preto e branco também é um destaque, e deixa o filme mais sombrio e sinistro. Um ótimo filme de vampiro e um exemplar criativo do gênero.



Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

O EXORCISTA (1973). Dir.: William Friedkin.

 

NOTA: 10



Existem filmes que são atemporais. Isso se refere a todos os filmes de todos os gêneros, inclusive aos filmes de terror.

 

O EXORCISTA, dirigido por William Friedkin, é um desses casos. Desde o seu lançamento, em Dezembro de 1973 – há 50 anos – ,o filme mantem o seu impacto até hoje como o maior filme de terror de todos os tempos.

 

Mas o que eu posso dizer a respeito desse filme, que não tenha sido dito anteriormente por outras pessoas ao longo dos anos?

 

Bom, acho que posso começar pelo obvio, não é? É um filme excelente. Mas por que é um filme excelente? Por vários motivos, principalmente no que diz respeito à técnica.

 

O filme foi dirigido por William Friedkin, um dos grandes nomes da Nova Hollywood, a partir de um roteiro de William Peter Blatty, baseado em seu livro.

 

Friedkin era um diretor milenar e soube empregar suas técnicas na direção do filme e faz isso muito bem. O cineasta fez uso de ângulos e movimentos de câmera criativos para criar as cenas, a partir de câmera na mão e mecanismos até então inéditos no cinema.

 

Além disso, ele soube criar cenas verdadeiramente tensas, aos poucos, até culminar na sequencia do exorcismo, que com certeza é a mais lembrada até hoje.

 

Minha historia com esse filme começou por causa da minha mãe, que assistiu a ele no cinema e se impressionou muito, tanto que ficou com muito medo, por anos. Acredito que a primeira vez que soube desse filme, foi no vídeo de comemoração de 75 anos da Warner Bros., onde foram exibidos diversos clipes de vários filmes do estúdio. Não me lembro o que aconteceu depois, mas eu descobri que a minha mãe havia assistido no cinema e tinha medo dele. Ao longo dos anos, a presença do filme foi proibida em casa, por vários motivos, até que em 2001, quando compramos nosso primeiro aparelho de DVD, a minha mãe alugou esse filme. Eu não consegui assistir a ele por completo, mas a sequencia do exorcismo me assustou muito. Ao longo dos anos, eu consegui assistir a ele por completo, e atualmente, faço isso todo ano, no mês de Outubro.

 

Mas antes de voltar a falar sobre o filme, devo dizer que essa resenha corresponde à chamada Versão que Você Nunca Viu, lançada no ano 2000, com cenas adicionais, que é a que estava disponível no mercado até recentemente.

 

Dado o recado, vamos continuar.

 

Conforme mencionei acima, o diretor William Friedkin constrói a tensão aos poucos, apostando mais no desenvolvimento dos personagens e das cenas, apresentando um pouco de terror, depois voltando a cenas dramáticas, e depois voltando para o terror, até chegar, como eu disse, na sequencia do exorcismo.

 

Ou seja, O Exorcista é contado na técnica slowburn, que é uma técnica que me chama muito a atenção, porque ajuda a criar a tensão com mais maestria e até naturalidade. Não que apresentar o terror nos primeiros cinco minutos não funcione, até funciona, mas depende do filme.

 

Outra coisa que chama a atenção é o elenco. Todos os atores estão muito bem, sem atuações exageradas ou caricatas. Quem merece destaque, com certeza, é a atriz Linda Blair, no papel mais famoso da sua carreira. A jovem atriz passa tudo aquilo que estava presente no roteiro, aliado à direção de Friedkin, e claro, os efeitos especiais de maquiagem. A jovem Regan é uma das personagens mais emblemáticas do cinema de horror de todos os tempos, sem duvida.

 

O roteiro de William Platty também é um ponto positivo. O roteiro possui umas três ou quatro histórias paralelas, que se entrelaçam com maestria, principalmente a trama do Padre Karras, que quase se torna a trama principal, porque, de acordo com o diretor Friedkin, o personagem de Jason Miller era o verdadeiro alvo do demônio; então, tudo que acontece na tela, é apenas um pretexto para atrair Karras e testar sua fé.

 

Os efeitos especiais também merecem destaque, criados pelo mestre Dick Smith. De acordo com o maquiador, ele fez vários testes até chegar ao resultado que vemos na tela, porque a maquiagem foi um desafio para ele. Até hoje, os resultados impressionam e assustam, e criaram uma das imagens mais icônicas do cinema de horror de todos os tempos.

 

Uma das questões mais pesadas do filme, é a historia do Padre Karras com sua mãe, sem duvida. É possível perceber que Karras não aguenta aquela situação, que se tornou um peso enorme para ele, principalmente porque a mãe está doente e mora sozinha. Toda vez que vejo essa historia no filme, com base em experiências pessoais, eu sinto que tudo aquilo é muito pesado para ele.

 

O Padre Merrin é outro personagem que merece ser mencionado, graças à interpretação afiada do ator Max von Sydow. A sequencia de apresentação do personagem, no Norte do Iraque, é muito boa, porque o que a gente precisa saber sobre ele, que ele é um padre mas também é um arqueólogo, e que está doente. Uma das melhores, é quando ele encontra a cabeça do demônio enterrada na terra e sua expressão facial muda na hora; e a cena final desse prologo, quando ele encontra a estátua do seu antigo inimigo, é muito boa e muito assustadora, principalmente por causa da imagem do demônio.

 

A atuação da atriz Ellen Burstyn também é muito boa, e a atriz passa toda a dor e angustia que estão presentes no roteiro, em conjunto com a direção de Friedkin. É possível perceber que aquela mãe está sofrendo com a situação da filha, e não sabe o que fazer. Primeiramente, ela leva Regan à vários médicos, mas eles não identificam nenhum problema, e enquanto isso, as manifestações demoníacas continuam; finalmente, após perceber que não há nada de errado fisicamente com Regan, ela decide procurar um padre para realizar um exorcismo, reapresentando assim, o Padre Merrin.

 

O Exorcista faz parte de uma leva de filmes que são considerados amaldiçoados, por causa de diversos fatores, acidentes e mortes que ocorreram no set de filmagem, como por exemplo, o incêndio que aconteceu um dia no set, onde apenas o quarto de Regan foi poupado, o que obrigou o diretor Friedkin a chamar um padre para abençoar os sets. Não vou entrar em mais detalhes porque acredito que não se deve mexer em um vespeiro como esse.

 

Para encerrar, vou mencionar a grande sequencia do exorcismo. Ela é, sem dúvida, a melhor sequencia do filme, onde tudo aquilo que foi apresentado aos poucos levou à ela. O que a torna assustadora é justamente a técnica de direção de Friedkin. O diretor optou por mantê-la dentro do quarto, com os padres fazendo o que podem para exorcizar o demônio de Regan, o que leva à tragédia que todos nós conhecemos. Mas é uma sequencia que impressiona e assusta é hoje, por causa de tudo que acabei de falar aqui. É uma das sequencias mais emblemáticas do cinema de horror de todos os tempos.

 

Foi lançado em Dezembro de 1973 e se tornou um campeão de bilheteria, tendo sido indicado a 10 Oscars®, mas no entanto, levou apenas dois, após um boicote armado pelos membros mais velhos da Academia. Além das indicações ao Oscar®, recebeu também indicações ao Globo de Ouro, tendo levado quatro, entre eles, o de Melhor Filme Drama. Até hoje, é considerado um dos maiores filmes de todos os tempos.

 

Está fora de catalogo há muitos anos, mas lá fora, foi recentemente lançado em Blu-ray 4k, numa celebração aos 100 anos dos estúdios Warner.

 

Enfim, O Exorcista é um filme excelente. Um filme muito bem feito, com a técnica milenar e criativa de William Friedkin, aliado a um roteiro afiado e um elenco inspirado. As atuações são excelentes, e nenhum dos atores está atuando de forma exagerada e caricata. Os efeitos especiais também são o grande destaque, principalmente os efeitos de maquiagem de Dick Smith, que criou uma das imagens mais icônicas do cinema de horror. Sem dúvida, o maior filme de terror de todos os tempos, e um verdadeiro clássico. 



AVISO.

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