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segunda-feira, 11 de novembro de 2024

LISA E O DIABO (1973). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10


LISA E O DIABO é um filme belíssimo.

 

Uma história de horror, fantasia e mistério contada com a maestria do Maestro Mario Bava, e um de seus melhores filmes.

 

Eu já comentei sobre alguns filmes do Maestro aqui, e até agora, não encontrei nenhum que me decepcionasse.

 

Lisa e o Diabo faz parte do ciclo gótico do cineasta, ciclo esse que o tornou bastante conhecido, visto que ele foi um dos responsáveis por torna-lo popular na Itália, graças ao sucesso que O Vampiro da Noite (1957) fez no país.

 

Podemos também encarar o filme como uma espécie de homenagem que Bava faz a si mesmo, visto que existem cenas que lembram seus filmes anteriores, além do uso de suas técnicas bastante conhecidas.

 

Na trama, Lisa é uma turista que se perde em Toledo, na Espanha, e vaga pelas ruas da cidade, até se encontrar com um casal rico, e o carro deles quebra nas proximidades de uma antiga mansão, onde moram uma condessa e seu filho, além de um estranho mordomo que intriga Lisa, por se parecer com o Diabo.

 

Essa é a sinopse básica do filme, e pode até parecer simples, mas, na verdade, o roteiro envolve alguns outros elementos, como segredos de família e triângulos amorosos, que necessitam de um pouco de raciocínio do espectador para serem compreendidos.

 

Esse é um detalhe da trama que precisa ser analisado com muita calma, pois, não é explicado para nós logo de cara, ele acontece aos poucos. E a cada revisão, o mistério parece aumentar, o que pede ainda mais raciocínio de quem está assistindo.

 

Mas não se engane. Apesar dessa trama um pouco complicada, Lisa e o Diabo é um filme belíssimo, feito com as técnicas que somente o diretor Bava conhecia e sabia utilizar.

 

A começar pela direção. Bava era um mestre com a câmera, e sabia fazer coisas que nenhum outro cineasta soube. Aqui, mais uma vez, ele mostra sua competência e cria cenas memoráveis, com ângulos inspirados, além de uma movimentação suave, combinada a uma fotografia habilidosa.

 

Além da fotografia, o roteiro também merece menção, porque, conforme mencionei, é um grande quebra-cabeça, onde as peças vão se encaixando lentamente, com um mistério em torno dos três habitantes da mansão, que aos poucos vai mostrando sua face e seu motivo.

 

Os cenários também são maravilhosos, principalmente a mansão, que parece um gigantesco labirinto, com seus quartos vazios, um jardim enorme e aspecto de decadência, algo que Bava adorava utilizar em seus filmes. Como o filme se passa praticamente durante a noite, não é difícil nos sentirmos ameaçados dentro daquele ambiente, principalmente o quarto do mordomo Leandro, cheio de manequins.

 

Os personagens também são um ponto positivo, e os atores atuam maravilhosamente. É possível acreditar que aquelas pessoas são reais, que vivem naquela mansão decadente, presos em seu próprio mundo repleto de segredos macabros. Lisa é a mocinha indefesa, que não entende o que está acontecendo, nem como foi parar naquele mundo estranho, e acredita o tempo todo que tudo não se trata de um sonho. O casal rico também não faz feio, e passam a sensação de já estarem casados há muito tempo, e se cansaram um do outro, tanto que a mulher procura conforto nos braços do chofer.

 

Mas o melhor personagem é o mordomo Leandro, magistralmente interpretado por Telly Savalas. Ele é diabolicamente educado, misterioso e perigoso, e deixa transparecer essas sensações desde a primeira aparição, até o final do filme. Seu melhor momento é quando está em seu quarto recitando um monólogo sobre trabalho e tradição, enquanto come suspiros e bebe conhaque. Além disso, ele se mostra um grande fabricante de manequins, que desempenham um papel importante na história, pois representam os personagens principais.

 

O filme todo possui um aspecto de sonho e fantasia, e isso está presente desde a primeira cena, quando Lisa ouve a caixa de música ao longe e aparenta ser enfeitiçada por ela, visto que acaba se perdendo de seu grupo de excursão. E a sensação predomina até o final do filme, com eventos estranhos e misteriosos acontecendo, como o fato de Lisa se parecer com a amante do padrasto de Maximiliano, o que a deixa completamente confusa.

 

Esse é o grande segredo da trama. Lisa aparenta se dividir entre ela mesma, e Ellena, amante do padrasto de Maximiliano, que também se encanta por ela, e a mata. Como eu disse, é um mistério que vai se resolvendo aos poucos, o que obriga o espectador a pensar no que está acontecendo.

 

Acredito que tal sensação de estranheza se deve ao fato do produtor Alfredo Leone, após o sucesso do filme anterior de Bava, Os Horrores no Castelo de Nuremberg (1972), ter dado carta branca ao cineasta para fazer o filme que quisesse; então, chamou dois roteiristas que haviam trabalhado com ele anteriormente, e os dois desenvolveram a história a partir das ideias do diretor.

 

Tal mistério não impede o filme de ser uma verdadeira obra de arte, onde Bava aparentemente faz um resumo de sua vida, segundo dizem os biógrafos do cineasta. De fato, existem conexões com outros filmes anteriores do diretor, seja em takes e cenas, seja na própria história. Menções à A Maldição do Demônio (1960), O Ciclo do Pavor (1966) e Hércules no Centro da Terra (1961), por exemplo, estão presentes no longa.

 

Além disso, o filme também pode ser encarado como uma espécie de final de ciclo, visto que, naquela época, o gênero gótico dava sinais de declínio, e o que entrava em vigor eram os filmes mais pesados, os exploitation, por exemplo, algo que o cineasta explorou no Giallo Banho de Sangue (1971), que se tornou uma espécie de precursor do Slasher americano.

 

Por esse e outros motivos, Lisa e o Diabo é um filme que merece ser visto pelos fãs de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror 2, que conta com um documentário nos extras.

 

Enfim Lisa e o Diabo é um filme excelente. Uma história de horror, mistério, romance e fantasia contada com maestria pelo Maestro Mario Bava, que faz uso de suas técnicas impares e únicas para contá-la. Um clima de mistério toma conta do filme desde a primeira cena e permanece até o final, com a protagonista presa em uma espécie de sonho macabro que encanta. Um dos melhores filmes de Mario Bava, e sua grande obra-prima.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 8 de abril de 2024

O GALEÃO FANTASMA (1974). Dir.: Amando de Ossorio.

 

NOTA: 8.5


Entre 1972 e 1975, o diretor espanhol Amando de Ossorio lançou a sua quadrilogia dos mortos-vivos cegos, que se tornaram cults graças à originalidade do cineasta ao criar os seus zumbis.

 

Hoje, vou falar sobre O GALEÃO FANTASMA, terceiro filme da quadrilogia, lançado em 1974, e considerado o mais trash e tosco de todos, graças aos efeitos especiais simplórios.

 

Ao contrário dos filmes anteriores, aqui temos outra explicação para os zumbis cegos templários, visto que agora os mesmos estão ligados ao mar, habitando um navio fantasma, uma alegoria muito comum nas histórias de terror.

 

Mais uma vez, Ossorio se mostra um cineasta competente, e faz um belo trabalho, tudo graças às suas técnicas próprias, com o uso de câmeras e lentes especiais, além da clássica trilha sonora, e o visual dos zumbis.

 

Assim como nos anteriores, os zumbis são apresentados com o visual clássico, os esqueletos com capas e bigodes que andam lentamente, e escutam suas vítimas pelo batimento cardíaco. O cineasta sabe fazer uso dos monstros sempre que possível, apresentando-os aos poucos, e quando eles surgem, tomam conta da tela.

 

O roteiro do cineasta faz uma espécie de crítica à indústria de modelos, visto que os personagens trabalham em uma agência de modelos de renome, e uma das mulheres se preocupa com a amiga, e decide procurar por ela, após descobrir que a mesma está em um barco à deriva com outra mulher, como parte de uma campanha publicitária. Após essa apresentação, o roteiro nos leva ao mundo dos zumbis templários, e ficamos sabendo que se trata de um filme da série dos zumbis cegos.

 

Deixe-me destacar também a ambientação do navio fantasma. Ao contrário das ambientações terrestres dos dois filmes anteriores, temos aqui uma ambientação marítima, com um clima fortemente gótico e claustrofóbico, com o navio envolto em nevoa e escuridão.

 

Mesmo sendo levados para outro ambiente, a claustrofobia ainda é muito forte, visto que a câmera de Ossorio foca em determinados pontos escuros e sombrios do navio, e passam a sensação de um lugar fechado, ao mesmo tempo que passa uma sensação de falta de segurança e medo.

 

No entanto, apesar da ótima mudança de ambiente, o diretor novamente faz questão de banalizar o corpo da mulher, apresentando-a como um objeto para os homens tarados que as rondam. Tal característica fica evidente logo na primeira cena, com três modelos de biquíni posando para uma campanha. Mais adiante, a modelo Noemi é tratada como pedaço de carne por um personagem masculino que tenta assediá-la; além disso, o dono da agencia também a trata com desrespeito. Em tempos do politicamente correto, cultura do cancelamento, e outros, fica evidente que a quadrilogia jamais seria realizada nos dias atuais.

 

Antes de encerrar, deixe-me falar um pouco a respeito dos efeitos especiais, que são, na opinião dos especialistas, o grande defeito do filme. Eu já mencionei que os zumbis cegos são a melhor coisa do filme, então, não irei me repetir; o foco aqui são os efeitos do navio. Ossorio faz muito uso de miniaturas na hora de mostrar seu galeão por inteiro, e talvez para os mais exigentes, soe muito falso. Para mim, não há muito problema; eu gosto da ideia de que o cineasta dispunha apenas de miniaturas, visto que construir um navio em tamanho real, seria problemático, e com certeza geraria problemas de orçamento.

 

Não vou dizer o que acontece no final, mas digo que o melhor momento do filme, e envolve os zumbis cegos numa praia.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Os Mortos-Vivos Cegos, que conta com os quatro filmes da franquia, além de um depoimento do diretor como extra.

 

Enfim, O Galeão Fantasma é um filme muito bom. O filme que marca a mudança de ambiente na franquia de Amando de Ossorio, mas que ainda mantém a atmosfera gótica e claustrofóbica presente desde o primeiro filme. Os zumbis cegos são o grande destaque, com seu visual clássico e amedrontador, que provocam calafrios no espectador. Um ótimo filme de zumbis e um dos melhores dos anos 70.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O SANGUE DE SATÃ (1978). Dir.: Carlos Puerto e Juan Piquer Simon.

 

NOTA: 6


Eu confesso que tenho uma relação estranha com filmes de temática satanista; mesmo sabendo da existência de alguns clássicos do gênero, eu sempre assisto a eles com um certo receio, principalmente por causa das imagens de adoração.

 

O SANGUE DE SATÃ, lançado em 1978, com direção de Carlos Puerto e Juan Piquer Simon, é um desses exemplos.

 

Desde a primeira vez que assisti a esse filme, eu fui tomado por uma sensação de estranheza, mistura com certo desconforto, principalmente por causa de suas cenas especificas – mais detalhes adiante.

 

Mas antes de falar sobre esses dois problemas, vou falar sobre o filme.

 

É possível ver que os diretores se esforçam para criar uma atmosfera de horror e satanismo, além de contar com um elenco que convence em suas atuações.

 

Sendo um filme espanhol, o longa teve cenas rodadas em Madrid, principalmente no começo, quando casal protagonista está andando pelas ruas da cidade; as demais cenas foram rodadas em um casarão possivelmente localizado no interior da Espanha, e tais cenas são muito boas, e passam uma sensação de desconforto e medo.

 

O elenco, composto por quatro atores, convence muito bem em suas performances, principalmente o casal de mocinhos, com destaque pessoal para a mocinha. A interação entre eles é boa e ambos passam a sensação de que são um casal de verdade, em especial nas cenas de amor.

 

O outro casal também passa a sensação de medo que provavelmente estava escrito no roteiro, sendo amigáveis no começo, e depois, revelando-se como adoradores de Satã, apesar de falharem um pouco nesse aspecto.

 

As cenas de horror são bem dirigidas, principalmente a cena do tabuleiro Ouija, que é filmada em plano zenital em pelo menos dois takes. Ela acontece aos poucos, com a tensão sendo construída aos poucos, dando foco às performances do elenco, principalmente das atrizes.

 

Como todo exemplar do exploitation, temos aqui cenas apelativas, no caso, apostando em conteúdo altamente erótico. E vamos aqui falar do maior problema do filme, que é a cena de orgia que rola durante um ritual. É uma cena que demora muito para acontecer, que se alterna em vários takes dos casais juntos, e a trilha sonora também não ajuda. Desde a primeira vez que vi, eu senti um desconforto, e esse desconforto vem toda vez que a cena começa.

 

O Sangue de Satã, conforme o titulo nacional entrega, foi produzido no hype dos filmes de conteúdo satanista, que surgiram no final dos anos 60. Conforme mencionei no inicio, eu tenho relação estranha com filmes que focam nesse tópico, principalmente por causa das cenas que envolvem rituais e adoração, por conta das imagens. É o tipo de conteúdo que me assusta, dependendo do filme, porque é impressionante a maneira como são abordadas em determinados longas. Aqui, temos um conteúdo altamente apelativo, que mostra as imagens que se espera, mas que no fundo, mostra os satanistas como eles realmente são, pessoas entediadas que fazem uso do satanismo como desculpa para realizar suas fantasias sexuais.

 

Além do problema da cena da orgia, temos também um problema no roteiro em si, a começar pelo prologo, que mostra um ritual comandado por um velho, mas que não acrescenta em nada à trama, além de ser muito apelativo e também demorado. Além disso, durante o filme, um homem misterioso é visto andando pela casa, mas não mostra quem ele é, nem sua relação com o casal de vilões; ao que parece, seu único propósito é protagonizar uma cena de quase estupro, onde ele ataca a mocinha.

 

Junto com esses problemas, temos também a questão do culto de satanismo em si, porque o roteiro não faz questão de explicar o mistério dos satanistas, visto que aparentemente, eles estavam mortos desde o inicio do filme, ou não... Nessa ultima revisão, eu fiquei perdido. O final também não responde a algumas questões.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror Vol.14, áudio original em espanhol.

 

Enfim, O Sangue de Satã é um filme bom. Um filme que aborda a questão do satanismo com víeis apelativo e erótico, além de contar com cenas de tensão, mas que causam desconforto no espectador. O elenco é um ponto positivo, e os atores arrancam ótimas performances, principalmente o casal de mocinhos. A direção também consegue convencer, e os diretores criam algumas cenas verdadeiramente tensas. Um cult exploitation que deve agradar aos fãs do gênero.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

INTERNATO DERRADEIRO (1969). Dir.: Narciso Ibañez Serrador.

 

NOTA: 9


Em 1975, o diretor espanhol Narciso Ibañez Serrador lançou Os Meninos, um dos filmes mais perturbadores e assustadores que eu já vi, que foi resenhado aqui.

 

Porém, anos antes, Serrador já havia se aventurado no terror com INTERNATO DERRADEIRO, que é o alvo dessa resenha.

 

Bom, eu vou ser sincero aqui, e dizer que este é um dos melhores filmes de terror que já vi. É um daqueles casos onde tudo contribui para deixar um filme bom.

 

Mas não se engane, este não é um filme perturbador no nível de Os Meninos, apesar de tocar em assuntos um tanto controversos também. Se puder resumir, eu diria que é um daqueles filmes que se passam em um internato onde coisas misteriosas acontecem, e só.

 

E é isso mesmo que acontece aqui, embora não possa dizer em quantos graus se difere de outros filmes com essa pegada, porque eu não vi esses outros filmes; o mais próximo disso é o Clássico absoluto de Dario Argento, Suspiria (1977), que também aborda essa questão de um colégio interno para garotas, mas com uma temática sobrenatural; e outro exemplo é o também excelente Até o Vento tem Medo (1968), do mexicano Carlos Enrique Taboada, e um dos meus filmes de terror favoritos.

 

Pois bem, aqui, nós temos uma historia de horror ambientada em um internato para garotas, mas, diferente dos mencionados acima, a pegada de horror não é voltada para o sobrenatural – mais detalhes adiante.

 

Vamos falar então do filme como um todo. Conforme já mencionei em outras resenhas, o que faz deste um filme tão bom é a técnica. O diretor Serrador é absolutamente competente naquilo que faz, e se mostra um grande diretor, fazendo uso de movimentos de câmera pelos cenários, além de arrancar ótimas performances de seu elenco.

 

O roteiro também é muito bom, porque, como já disse, aposta no terror, mas no terror psicológico, e as vezes, demora para entregar o gênero, apostando no drama e no suspense, a fim de criar tensão e medo no espectador. Mas não se engane, nós temos cenas verdadeiramente tensas, como por exemplo, a cena do banho das garotas, onde o filho da proprietária do internato fica preso na sala da caldeira; ou então a cena da punição, que me serviu de inspiração, devo confessar. E temos outras também, mas não quero entregar spoilers.

 

O elenco – em sua maioria feminino – também merece menção, e todas as atrizes estão muito bem em seus papeis, principalmente a atriz Mary Maude, que interpreta a escudeira da proprietária do internato, Irene. A personagem é perversa em todos os sentidos e não poupa esforços para fazer da vida da mocinha um verdadeiro inferno, com direito a uma cena de humilhação publica – na minha opinião, a pior do filme.

 

Mas não se engane. A atriz Lilli Palmer também não fica atrás, e entrega uma das atuações mais poderosas que já vi em um filme. Sua Madame Fourmeau é controladora, está sempre de olho nas internas e também em seu filho Louis, a quem protege com todas as forças, o que traz consequências desastrosas.

 

O longa foi rodado na Espanha, e o diretor soube aproveitar muito bem o cenário, principalmente o internato. Durante a projeção, é possível perceber que o local quase se torna um personagem do filme e as sensações de claustrofobia e insegurança se fazem presentes. Eu particularmente adoro os takes com a fachada do internato, e devo dizer que o longa como um todo também me serviu de inspiração.

 

Além de ser um filme de terror psicológico, Internato também é um filme sobre repressão. Durante o filme, é possível ver que as garotas são reprimidas, principalmente sexualmente, sendo obrigadas a sair às escondidas para realizar suas fantasias, seja com o filho do lenhador, seja entre elas mesmas, principalmente Irene e Madame Fourmeau, que escondem das demais seus desejos secretos – não uma pela outra, mas pelas outras internas.

 

E claro, temos o elemento do mistério, aqui representado pelo fato de algumas garotas desaparecerem misteriosamente sem deixar rastros. Sem entregar spoilers aqui, mas ao longo do filme, nós vamos descobrindo que elas estão sendo assassinadas por um intruso – ou por alguém de dentro – e quando finalmente descobrimos sua identidade, a revelação e os métodos para os assassinatos são chocantes. Mas como eu disse, sem spoilers.

 

Foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo na coleção Obras-Primas do Terror 6, em versão sem cortes com áudio em inglês. A versão disponível aqui é a versão integral, no entanto, as cenas cortadas não foram restauradas, mas não atrapalham a experiência.

 

Enfim, Internato Derradeiro é um filme excelente. Um filme de horror psicológico com toques de terror gótico, dirigido por maestria. Um longa cheio de mistérios, que passa tanto a sensação de claustrofobia, quanto a sensação de insegurança. O principal cenário do filme quase se torna um personagem e passa tudo aquilo que precisa passar para o espectador. Uma trama de assassinato e mistério que prende a atenção do espectador até seu final chocante. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

segunda-feira, 31 de julho de 2023

O RETORNO DOS MORTOS-VIVOS (1973). Dir.: Amando de Ossorio.

 

NOTA: 8.5


Entre 1972 e 1975, o diretor espanhol Amando de Ossorio lançou a sua quadrilogia dos mortos-vivos cegos, que se tornaram cults graças à originalidade do cineasta ao criar os seus zumbis.

 

Eu já falei sobre o primeiro filme da franquia, A Noite do Terror Cego (1972), e hoje vou falar sobre O RETORNO DOS MORTOS-VIVOS, segundo filme da franquia, lançado um ano após o primeiro.

 

Este aqui é um dos meus favoritos da franquia, porque é um dos que eu mais vi, e toda vez eu me divirto, seja pelas situações inusitadas, seja pela trama, seja pelo filme em si.

 

Assim como no primeiro, Ossorio criou um novo conceito para os zumbis, aqui no caso, para os seus templários cegos, mais detalhes adiante.

 

A primeira coisa que se torna evidente é o modo como o roteiro do cineasta aborda a origem os templários neste aqui: eles eram cavaleiros que praticavam magia negra e foram condenados e tiveram seus olhos queimados. Ou seja, o cineasta deu uma nova origem para seus zumbis, algo que se tornaria comum na franquia daqui para frente.

 

Mas isso não torna o filme menos divertido, pelo contrário. Essa mudança na origem dos templários a cada filme faz parte do charme da franquia e contribui para deixa-la mais divertida a cada filme.

 

Vamos falar também sobre o roteiro. Aqui, nós somos apresentados à um evento que acontece no vilarejo há muito tempo, uma festa em homenagem à execução dos templários, e logo no inicio, somos apresentados aos preparativos para o evento. É uma boa estratégia de roteiro, porque, mais para frente, quando os templários surgem, alguns personagens são desacreditados pelos outros, por acharem que os mesmos estão sob efeito de álcool. Eu gosto de filmes que abordam festivais e outros eventos, porque passa a sensação de ser algo importante para a trama, e aqui é um exemplo.

 

Além do roteiro inteligente, temos também ótimos personagens. O personagem principal, Jack Marlowe, é um ex-policial que foi contratado para supervisionar a festa, comandada pelo prefeito corrupto, o senhor Duncan. O par romântico de Marlowe é a noiva do prefeito, que conheceu Jack no passado. E temos também o guarda costa do prefeito, Dacosta, que possui certo interesse em Vivian, a noiva do chefe. E por fim, um corcunda chamado Murdo, que no inicio, se mostra como sendo servo dos templários, mas muda de lado após ser traído por eles.

 

Aliados a eles, temos os personagens secundários, que estão ali apenas para serem mortos pelos zumbis, e alguns até que têm certa importância no começo da historia, mas depois são deixados de lado.


No entanto, apesar do roteiro inteligente, Ossorio faz uso dos mesmos artifícios que utilizou no filme anterior, então aqui temos novamente personagens masculinos que desprezam as mulheres, e as transformam em meros objetos sexuais, ou então as tratam de maneira inferior. Assim como no primeiro, eu fico pensando que, em tempos de feminicídio, com os números aumentando a cada ocorrência, se esses filmes seriam bem vistos hoje em dia; com certeza, não.

 

Assim como todo filme de zumbi, O Retorno dos Mortos-Vivos serve também como uma espécie de critica à corrupção, visto que, assim que os templários atacam a cidade, Duncan trata de pegar seu dinheiro e fugir dali. E temos também uma comparação com o clássico de Romero, visto que os personagens ficam presos em um local fechado, cercados pelos zumbis, algo assumidamente inspirado por Ossorio.

 

Acima, eu mencionei a festa em homenagem à execução dos templários, e devo dizer que, assim como em todo filme de terror em que ocorre um evento, o mesmo é destruído, nesse caso, pelos templários. Os cavaleiros fazem um estrago no lugar, matando as pessoas com golpes de espada enquanto elas tentam fugir. É a melhor sequencia do filme, sem duvida.

 

A sequencia na igreja, com os personagens trancados também é boa, e os personagens fazem o que podem para controlar a situação, mesmo que no final as coisas não acabem bem para alguns deles.

 

E claro, antes de encerrar, temos os zumbis cegos. Aqui, como no primeiro, eles são retratados como caveiras que andam a cavalo pelo campo, desprovidos de olhos, mas que conseguem caçar suas presas por meio do som. Claro, não estão melhores do que no primeiro filme, mas é sempre um prazer vê-los cavalgando em câmera lenta pelos cenários, e também quando atacam os personagens a pé.

 

Como mencionado no inicio do texto, O Retorno dos Mortos-Vivos faz parte da Quadrilogia dos Mortos-Vivos Cegos, criada por Ossorio, e lançada entre 1971 e 1972. Os demais filmes são O Galeão Fantasma (1974) e A Noite das Gaivotas (1975), que, assim como este, mudam a historia da origem dos templários, assim como a ambientação. Segundo o próprio Ossorio, havia planos para um quinto filme, mas divergências criativas e problemas com orçamento levaram o cineasta a abortar seus planos. Atualmente, a quadrilogia possui status de cult entre os fãs de terror.

 

Foi lançado no Brasil em DVD pela Versátil Home Vídeo na coleção Os Mortos-Vivos Cegos, que reúne os quatro filmes da franquia.

 

Enfim, O Retorno dos Mortos-Vivos é um ótimo filme. Um longa divertido e assustador, contado com a maestria e originalidade impares do diretor Amando de Ossorio. Um roteiro inteligente e personagens carismáticos também contribuem para deixar o filme melhor a cada revista. Os zumbis templários cegos são o grande destaque, com seu visual original e assustador. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo.

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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

NÃO SE DEVE PROFANAR O SONO DOS MORTOS (1974). Dir.: Jorge Grau.

 

NOTA: 9.5



Em 1968, o diretor George A. Romero lançou o seu A Noite dos Mortos-Vivos, que rapidamente se tornou um clássico do gênero de terror e do cinema de zumbis, estabelecendo todas as regras que são utilizadas desde então.

 

Mas hoje não estou aqui para falar do clássico de Romero, e sim, de NÃO SE DEVE PROFANAR O SONO DOS MORTOS, lançado em 1974, e dirigido por Jorge Grau, um dos melhores filmes de zumbi de todos os tempos.

 

Mas o que faz deste um dos melhores filmes de zumbi de todos os tempos? Bem, conforme já mencionei em outras resenhas, a resposta é simples: o filme como um todo.

 

Ao contrário do que estamos acostumados, aqui temos também um exemplo de filme que vai acontecendo aos poucos, como era costume na época, porque realmente as coisas vão acontecendo calmamente, e o principal foco da trama, os zumbis, não aparecem o tempo todo.

 

Então, temos aqui uma história focada nos personagens humanos, no caso, o trio de protagonistas, George; Edna; e o Sargento de polícia. Claro, temos outros personagens, mas o roteiro foca principalmente nos três e nas suas interações, mais detalhes adiante.

 

Na minha opinião, além do roteiro, das atuações, direção e efeitos especiais, o que torna esse filme atraente são os cenários. O longa foi rodado na Inglaterra, Espanha e Itália, e as locações britânicas são maravilhosas, convidativas. O diretor Jorge Grau soube aproveitar os cenários ao máximo, dando destaque para a pequena vila, o hospital e o cemitério, onde acontece a melhor sequência do filme.

 

Além das locações, temos também os efeitos especiais, conforme mencionado acima. Eles foram criados pelo mestre Giannetto de Rossi, um especialista em efeitos sangrentos do cinema de horror italiano, responsável por grandes obras. De Rossi fez grandes coisas aqui, criando absolutamente tudo, desde perfurações, machadadas e órgãos estripados. Difícil dizer qual o melhor, porque todos são maravilhosos.

 

O diretor Jorge Grau também merece menção. Sua direção é competente e segura, e não apela para truques falsos. O diretor conseguiu arrancar grandes coisas com sua câmera, principalmente nas cenas de horror, novamente, sem apelar para truques fajutos.

 

E finalmente, os três atores principais também não fazem feio, com atuações nada exageradas ou caricatas, principalmente nas cenas em que precisam esboçar medo.

 

Bem, já mencionei os quesitos técnicos, agora vou falar sobre os zumbis. Eles são a melhor coisa do filme, e conseguem assustar sem fazer nenhum esforço. Ao contrário dos zumbis apresentados nos filmes posteriores, aqui não temos zumbis putrefatos e caindo aos pedaços; longe disso. Os zumbis aqui estão intactos, mas nem por isso deixam de ser assustadores e sanguinários. E parece que ficam melhores a cada cena, principalmente na cena do cemitério, o auge do filme, na minha opinião. Segundo o diretor Grau, ele pesquisou em livros da polícia como ficam as pessoas depois de mortas, além de usar outras fontes para compor seus mortos-vivos, e o resultado é surpreendente. Me arrisco a dizer que os zumbis de Grau são muito parecidos com os zumbis de Romero.

 

Conforme também mencionei, o filme é carregado de sequências memoráveis, e a melhor delas é a do cemitério, onde o gore corre solto. Assim como todo o filme, a sequência começa contida, mas aos poucos, o terror vai acontecendo, e quando acontece, fica impossível respirar, porque é uma sequência carregada de tensão, principalmente porque os personagens estão encurralados, a mercê dos mortos-vivos. E claro, temos um momento de gore, com um personagem secundário que acaba morto pelos zumbis e despedaçado por eles.

 

Outra sequência que também merece menção é a do hospital, no final do filme. Assim como a do cemitério, aqui temos também uma sequência tensa e carregada no gore, e os efeitos de Giannetto de Rossi são os melhores aqui, conforme já mencionei.

 

Antes de encerrar, vou mencionar os personagens. O casal de protagonistas é simples, e não fazem feio, principalmente quando estão encurralados pelos zumbis. No entanto, o personagem do Sargento é extremamente o oposto deles, absolutamente autoritário, que não respeita ninguém e está disposto a tudo para provar que está certo.

 

Aliás, tenho que mencionar outra coisa. O roteiro é sagaz em promover desencontros entre o Sargento e os eventos envolvendo os zumbis, e a cada revisão, parece que ele vai descobrir a verdade, mas não é isso que acontece.

 

Não Se Deve Profanar o Sono dos Mortos chegou a ser lançado em VHS no Brasil com o título picareta de Zumbi 3, por motivos desconhecidos. Em contrapartida, foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Zumbis no Cinema, em versão integral restaurada.

 

Enfim, Não Se Deve Profanar o Sono dos Mortos é um filme excelente. Uma história de zumbis carregada de tensão e gore, aliados a requisitos técnicos dignos de nota, principalmente os efeitos especiais, criados por um mestre na arte. Os cenários ingleses também são o destaque, e tornam o filme mais bonito e convidativo. Um dos melhores filmes de zumbi de todos os tempos. Sangrento. Claustrofóbico. Excelente. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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segunda-feira, 5 de abril de 2021

A NOITE DOS DEMÔNIOS (1972). Dir.: Giorgio Ferroni.

 

NOTA: 10



É incrível a variação que existe nas histórias de vampiros. Desde que surgiram no cinema, tivemos uma variedade incrível do subgênero, passando por grandes obras, clássicos obrigatórios, filmes notáveis, medianos e grandes bombas. Eu mesmo já tive contato com muitos desses filmes e posso dizer que, mesmo já tendo visto praticamente tudo, eu ainda me surpreendo com o que aparece de vez em quando.

 

A NOITE DOS DEMÔNIOS (1972), do diretor italiano Giorgio Ferroni é um dos exemplos de grandes obras do gênero. É um filme belíssimo, que, mesmo sendo contemporâneo, possui um forte aspecto gótico, e esse apenas um dos seus vários atrativos.

 

Esse é o tipo de filme de terror que não precisa ser feio para ser assustador; pelo contrario, um filme de terror pode, sim, ser lindo e ser assustador ao mesmo tempo, e exemplos disso não faltam, principalmente os filmes dirigidos pelo Maestro Mario Bava. Mas, vamos falar sobre este filme aqui.

 

Pois bem, devo dizer que a primeira coisa que me chamou a atenção nele foi justamente o seu aspecto gótico e interiorano, que, conforme comentei anteriormente, é algo que me chama muito a atenção. Eu gosto desse tipo de ambientação e clima num filme; faz com que eu me sinta bem, e deixa o filme ainda mais bonito. Realmente é o tipo de coisa que não vemos muito hoje em dia.

 

Outra coisa que acrescenta ao filme é sua trilha sonora. Assim como muitas da época, quase não temos aqui uma trilha pesada, comum nesse tipo de filme; pelo contrario, aqui a trilha é melancólica, mas muito bonita, o tipo de trilha que pode ser ouvida sozinha, sem precisar do filme. Outros pontos como a fotografia dessaturada, o figurino nostálgico e os efeitos especiais também contribuem para deixar o filme ainda melhor e mais bonito.

 

No entanto, conforme mencionado acima, este é um filme de vampiros. O roteiro é baseado na novela The Family of the Vourdalak, de Alekesy K. Tolstoy, escrita no século XIX. O Vurdalak é um vampiro que faz parte da tradição russa, e, segundo a lenda, tem o costume de sugar o sangue das pessoas que amou em vida. E é exatamente isso que acontece aqui. Tudo começa com uma maldição, que aos poucos, é transmitida aos membros da família, infectando um por um com sede de sangue. Mas não pense em encontrar vampiros com longas presas afiadas. Aqui não temos isso, somente a pele branca como papel e o uso da estaca de madeira no peito como arma. Não espere o uso de crucifixos, alho e morcegos, porque nada disso aparece. Além disso, eles podem andar livremente durante o dia. Mas esse é também um ponto positivo, uma vez que cada um cria vampiros do jeito que quiser, conforme disse o diretor John Landis num episodio da série History of Horror: quando se trata de criaturas de “fantasia” como vampiros e lobisomens e outros, não existem regras. E é verdade. Com isso, os autores podem ser criativos. E temos também a questão da maldição que é passada para os membros da família, aliados à superstição. Como disse em outra resenha, essa questão da superstição me atrai muito por causa do medo que os personagens sentem ao cair da noite.



E novamente, esse é um fator que faz deste um filme assustador. As cenas envolvendo os vampiros são as melhores possíveis, com o medo e tensão sendo construídos aos poucos, sem apelar para jump-scares e sangue em excesso. E aqui os vampiros são o que deveriam ser, criaturas sugadoras de sangue que matam suas vitimas com requintes de crueldade. Não estou dizendo que vampiros não podem ter remorso, do contrario, podem, sim; mas aqui nós não temos essa característica e podemos nos familiarizar com os vampiros tradicionalmente perversos. 

 

Antes de encerrar, devo dar um parecer sobre os efeitos especiais, criados pelo mestre Carlo Rambaldi. Quem está familiarizado com seu trabalho, sabe que ele não brincava em serviço, e foi responsável pelas mais extraordinárias criações do cinema fantástico. Aqui, mais uma vez, ele mostra seu talento ao criar cenas arrepiantes, com direito a corações arrancados, peitos perfurados e rostos derretendo. Um trabalho de mestre que não fica datado.

 

A Noite dos Demônios foi dirigido por Giorgio Ferroni, em sua segunda excursão no gênero. Doze anos antes, ele foi responsável pelo também excelente O Moinho das Mulheres de Pedra, um clássico do terror gótico italiano. Infelizmente, apesar sua considerável filmografia, o diretor só se aventurou no gênero com esses dois filmes, e A Noite dos Demônios foi seu ultimo trabalho na direção.

 

The Family of the Vourdalak foi adaptada para o cinema anteriormente em 1963, no também excelente As Três Máscaras do Terror, antologia dirigida pelo Maestro Mario Bava, no segundo segmento, estrelado por Boris Karloff, interpretando o único vampiro de sua carreira.

 

Foi lançado em DVD no Brasil na excelente coleção Vampiros no Cinema, da Versátil Home Vídeo, em versão original em italiano.

 

Enfim, A Noite dos Demônios é um belíssimo filme de terror. Uma historia de horror com toques interioranos e com forte aspecto gótico, mesmo sendo contemporâneo. Um filme arrepiante que prende a atenção do espectador com suas imagens poéticas e assustadoras. Um dos melhores filmes de vampiro de todos os tempos, e um clássico do terror gótico italiano. Maravilhoso. Excelente. Altamente recomendado. 



Créditos: Versátil Home Vídeo


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quinta-feira, 23 de maio de 2019

A NOITE DO TERROR CEGO (1972). Dir.: Amando de Ossorio.


NOTA: 9.5


A NOITE DO TERROR CEGO (1972)
A NOITE DO TERROR CEGO é um grande filme de zumbis. Lançado em 1972, é o primeiro filme da Quadrilogia dos Mortos Cegos, criada pelo diretor espanhol Amando de Ossorio.

E o que torna esse um grande filme é exatamente sua simplicidade. Realizado com um orçamento baixo, o filme é cheio de criatividade, principalmente envolvendo os zumbis. Ossorio conseguiu criar personagens ameaçadores que conseguem assustar qualquer um com facilidade. É sério.

Aliás, desde sua abertura, o filme tem como objetivo, provocar arrepios no expectador. Enquanto rolam os créditos, somos brindados com cenas de castelos e igrejas medievais em ruinas, ao som da música tema, que também contribui para o clima de horror. No entanto, após os créditos, o diretor leva a trama para um caminho um pouco mais “leve”, quase romântico, enquanto prepara o terreno para o horror.

Como já mencionei na resenha de Os Meninos (1976), Terror Cego é construído aos poucos, em slowburn, o tipo de construção que me atrai muito, porque funciona muito bem, ao contrario dos filmes de hoje, que não têm paciência nenhuma em criar clima, e jogam tudo na cara do publico. Em outras palavras, um filme com essa estrutura lenta faz muita falta hoje em dia.

No entanto, apesar da trama redonda, existe um problema: a forma como Ossorio trata suas personagens femininas. Nos nossos tempos atuais de assedio e cultura do estupro e do feminicídio, o filme talvez nem seria feito, porque o cineasta faz questão de tratar suas mulheres como objetos sexuais, principalmente no ultimo ato, por conta de uma pesada cena de estupro no cemitério abandonado. Se fosse hoje em dia, tanto o filme quanto seu criador, seriam motivos de polêmicas e discussões.  

Tirando esse detalhe, o fato é que Ossorio criou uma pequena obra do terror, com clima gótico, interiorano e repleto de claustrofobia, novamente, presente no ultimo ato. E como mencionado acima, tudo funciona com maestria. Em vários momentos, Ossorio não faz uso de trilha sonora nos momentos de terror, o que contribui – e muito – para dar calafrios na espinha. Novamente, essa é uma técnica que faz falta no cinema de horror atual.

A respeito dos zumbis, digo o seguinte: desde que surgem pela primeira vez, eles conseguem meter medo. Com suas roupas sujas, crânios putrefatos, barbudos e sem olhos, são os melhores exemplos de zumbis dos anos 70. Mesmo estando mortos há anos, eles mostram que podem ser ameaçadores, cavalgando pelos campos, com espadas em punho, prontos para cortar e devorar – literalmente – suas vitimas. E como não possuem olhos, eles caçam suas vitimas pelo som, mais precisamente, da respiração e dos batimentos cardíacos; ou seja, ninguém está seguro se cruzar seu caminho.

Terror Cego é o primeiro filme da Quadrilogia dos Mortos Cegos. A primeira sequência, El Ataque de Los Muertos Sin Ojos, foi lançada no ano seguinte, devido ao sucesso de seu antecessor. O filme seguinte, El Buque Maldito, saiu em 1974, e o ultimo da serie, La Noche de Las Gaviotas, foi lançado em 1975. Todos os filmes foram escritos e dirigidos por Ossorio. Segundo o próprio diretor, um quinto filme seria produzido, mas não houve interesse dos produtores. Hoje em dia, a Quadrilogia dos Mortos Cegos é objeto de culto entre os fãs do cinema de horror.

Por muitos anos, permaneceu inédito no Brasil, até que foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, na excelente coleção Zumbis No Cinema, em versão restaurada com áudio original em espanhol.

Enfim, A Noite do Terror Cego é um grande filme de terror espanhol. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos. Um dos melhores filmes de zumbi.




Créditos: Versátil Home Vídeo


domingo, 17 de março de 2019

OS MENINOS (1976). Dir.: Narciso Ibáñez Serrador.


NOTA: 10


OS MENINOS (1976)
OS MENINOS é um filme brutal. Uma pequena obra do terror espanhol que me assustou já na primeira vez que eu assisti.

E sem dúvida, o terror está nisso mesmo, a simplicidade da trama. Segundo filme de terror dirigido por Serrador – o primeiro foi Internato Derradeiro (1969) – este talvez seu filme mais lembrado do gênero.

A historia acompanha um casal inglês em férias na Espanha, que decide ir até uma ilha distante para fazer turismo. Ao chegar lá, eles não encontram nenhum adulto, apenas crianças; a principio, não acham estranho, mas, acabam descobrindo algo horrível e assustador.

Desde o começo, o filme mostra que não aconselhável para pessoas sensíveis: durante dez minutos, Serrador enche a tela com imagens de documentários mostrando varias atrocidades cometidas na História, com destaque para o sofrimento e morte das crianças. Eu costumo dizer que essa abertura é um teste para ver se é possível assistir ao filme. Confesso que no inicio, tive vontade de avançar para o filme em si, mas acabei assistindo até o fim. Porém, eu logo descobri que avançar até o começo da historia não adiantaria em nada, uma vez que o que surge em seguida é tão chocante quanto a abertura. Sério. E o melhor, o filme é construído do jeito que eu mais gosto, o chamado slowburn, onde durante boa parte da projeção, nada acontece, e, finalmente, quando acontece, é a todo vapor. E o filme é um soco no estomago atrás do outro.

Para quem acha chocante ver crianças malvadas em filmes de terror, vai ter um verdadeiro choque. Eu me refiro a crianças munidas de facas, foices, armas de fogo, brincando de piñata humana... Um show de horrores. Mas, curiosamente, um show de horrores muito bem feito.

Não conheço os outros filmes de Serrador – apenas o também excelente Internato Derradeiro – então não sei se ele faz uso das técnicas aqui utilizadas nos seus outros trabalhos. O fato é que Os Meninos é muito bem feito, maravilhosamente dirigido e fotografado, além de contar com uma trilha sonora arrepiante. Porém, o que mais o difere de outros filmes de terror é o fato de a historia se passar principalmente durante o dia, com um sol escaldante! Durante todo o tempo de projeção, é possível sentir o calor dos personagens, como se estivéssemos com eles naquela ilha deserta. E mesmo durante a única sequencia noturna, essa sensação não passa. É impressionante, e, sinceramente, muito difícil de fazer hoje em dia. E também falando na trilha sonora, ela também contribui para assustar, principalmente o tema principal. Na verdade, não se ouve trilha sonora durante boa parte do filme, apenas nos momentos de tensão.

Tensão é uma palavra que também serve para definir Os Meninos. Como já mencionado acima, durante boa parte do tempo, nada acontece, mas quando finalmente ocorre alguma coisa, quem assiste fica na ponta da cadeira, ou tenta cobrir o rosto com o cobertor como foi o meu caso. Eu assisti ao filme pela primeira vez numa madrugada – talvez de sexta para sábado, ou sábado para domingo – e logo no inicio, foi a experiência mais assustadora da minha vida em muito tempo, pelos motivos já descritos. O filme foi lançado por aqui em DVD pela Versátil, na coleção Obras-Primas do Terror 3, e está presente no segundo disco da coleção, juntamente com O Parque Macabro (1962), outro pequeno filme de terror que me assustou de verdade

Enfim, assistir a Os Meninos foi uma das experiências mais assustadoras da minha vida, mas também foi uma das melhores. Um dos melhores filmes de terror que já assisti. Brutal e brilhante. Não recomendado para pessoas sensíveis. Maravilhoso. Assustador. Chocante. 



AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.