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segunda-feira, 18 de setembro de 2023

A NOITE DAS BRUXAS (2023). Dir.: Kenneth Branagh.

 

NOTA: 9.5


Desde que se aventurou a adaptar as obras de Agatha Christie, com o excelente Assassinato no Expresso do Oriente, lançado em 2017, o ator e cineasta Kenneth Branagh tem acertado na mosca. Os filmes são muito bem feitos, principalmente os roteiros, que deixam o espectador envolvido e ansioso para desvendar o mistério.

 

Foi assim com Expresso, foi assim com Morte no Nilo, lançado no ano passado, e é assim também com A NOITE DAS BRUXAS, terceira incursão do cineasta no chamado “Agathaverso”, novamente dirigindo e interpretando o clássico detetive Hercule Poirot.

 

E que filme!

 

Um aviso. Acabei de sair do cinema, então, tentarei conter os spoilers. Então vamos lá.

 

Temos aqui mais um acerto na mosca do cineasta, que soube adaptar a obra da escritora com maestria, desta vez, segundo consta, tomando liberdades criativas. Como ainda não li o livro, não posso dizer que liberdades criativas foram essas, mas digo que ambientar a historia em Veneza foi um grande acerto, porque criou um clima de mistério – e por que não, terror – ainda maior para a trama, além de acender minha memoria – mais detalhes adiante.

 

Mais uma vez, eu saí muito satisfeito do cinema, e desde já, peço por mais filmes ambientados nesse universo!

 

A Noite das Bruxas é excelente. É muito bem feito, bem dirigido, com ótimo design de produção, e como de praxe, um elenco estelar. O diretor Branagh fez mais uma vez um grande trabalho aqui, tanto atuando, quanto dirigindo. Mesmo não tendo assistido a todos os seus filmes, eu sei o grande cineasta que ele é, principalmente quando resolve se aventurar no universo de Shakespeare, por exemplo. Mas devo dizer que ele também encontrou seu lugar no “Agathaverso”, e espero que continue assim.

 

Como de costume, temos aqui uma história de mistério, contada com a maestria que a autora sabia empregar em suas obras – só digo isso com base na leitura do livro que originou o primeiro filme desse universo, que vai ganhar releitura e resenha aqui. No entanto, ao contrario das demais, aqui temos também uma leve história de terror, com fantasmas e lugares amaldiçoados. Novamente, não sei como é no livro original, mas devo dizer que achei a ideia de um palazzo assombrado genial, quase igual aos filmes de terror gótico realizados na Itália nos anos 60.

 

Eu gostei bastante da ambientação e do cenário. Parecia mesmo uma casa assombrada há séculos, do tipo que ganham fama com o boca-a-boca. E claro, o fato de ambientar a historia no Dia das Bruxas foi outro acerto, porque deu voz àquela velha regra, a de que as assombrações são mais fortes na Noite das Bruxas.

 

E como é um filme de Dia das Bruxas – sim, é um filme de Dia das Bruxas! – temos tudo que se espera de um filme como esse. Isso porque a história começa com uma festa de Dia das Bruxas, dada pela dona do palazzo, a Srta. Rowena Drake. No entanto, a festa é apenas um disfarce para uma sessão espirita, que terá como convidada, a médium Joyce Reynolds, que está ali com o pretexto de entrar em contato com a filha da Srta. Drake, que morreu misteriosamente anos antes. Mas pode esperar por mais, principalmente um mistério de assassinato – obviamente, não direi quem morreu e quem matou – que obriga Poirot a sair da aposentadoria.

 

E vou parar por aqui, pois não vou entregar detalhes da trama. O filme acabou de estrear no cinema, então, corra para a sala mais próxima e confira por si mesmo.

 

Como já mencionei, o filme possui alguns elementos de terror, e isso se deve principalmente à ideia de um lugar assombrado por fantasmas, o que culmina em algumas aparições durante a projeção, e jump-scares espertos. Sim, temos jump-scares, mas eles são muito diferentes dos usados no cinema atualmente. E a presença de figuras vestidas de preto, usando as famosas máscaras também contribui para deixar o filme mais assustador.

 

Além disso, é um filme que se passa todo durante a noite, uma noite chuvosa, que obriga os personagens a ficarem trancados no palazzo, reaproveitando uma técnica narrativa utilizada no primeiro filme – os personagens ficam presos por causa de um evento natural, no caso, uma tempestade. E tal fato contribui para deixar a trama ainda mais claustrofóbica, com Poirot interrogando os suspeitos, um por um, de diferentes métodos, até que um ou mais acabem agindo de forma suspeita e quase revelando demais. E claro, a lista de suspeitos é enorme.

 

O elenco também é um grande destaque, novamente composto por grandes astros do cinema, como de costume. Todos os atores estão muito bem aqui, e não passam a sensação de atuação forçada ou caricata; eles realmente passam tudo o que os personagens devem passar, conforme está escrito, tanto no livro, quanto no roteiro. E é sempre bom ver atores de outros gêneros em papéis fora de sua zona de conforto.

 

E antes de encerrar, conforme mencionei acima, o filme despertou minha memoria por causa de sua ambientação em Veneza. Durante toda a projeção, eu tive a impressão de estar assistindo a um Giallo, principalmente Quem a Viu Morrer? (1971), do diretor Aldo Lado; ou então, ao filme Inverno de Sangue em Veneza (1973). Tal sensação foi muito boa, e despertou em mim a vontade de assistir a esses filmes novamente.

 

E que venham mais filmes do “Agathaverso”!

 

Enfim, A Noite das Bruxas é um filme excelente. Uma historia de mistério e horror contada com a maestria do cineasta Kenneth Branagh, que brilha novamente no papel do detetive Poirot. A ambientação em Veneza também é um atrativo, em especial o cenário principal, que passa uma sensação de medo, misturada com desconforto e claustrofobia. E o elenco também não faz feio, com seus nomes de peso, como é costume nas adaptações da autora Agatha Christie. Um filme excelente e assustador. Altamente recomendado.



segunda-feira, 12 de setembro de 2022

COMUNHÃO (1976). Dir.: Alfred Sole.

 

NOTA: 9



Em 1974, o diretor Bob Clark lançou Noite de Terror, considerado o primeiro Slasher do cinema, porque foi o primeiro a abordar a questão das datas comemorativas associadas ao gênero.

 

Dois anos depois, foi lançado COMUNHÃO, do diretor Alfred Sole, considerado um dos primeiros exemplares do gênero.

 

Talvez para os mais exigentes, o único mérito desse filme seja o fato de ser o primeiro longa da atriz Brooke Shields, mas, é muito mais do que isso. Ao contrario do que viria depois no gênero, temos aqui um filme muito mais focado no suspense do que nas cenas de morte e no sangue, o que, conforme mencionei em outras resenhas, é muito bom, porque mostra que naquela época, os cineastas estavam muito mais interessados na história no que no sangue.

 

E Comunhão segue isso quase ao pé da letra, visto que temos aqui pouquíssimas cenas de morte – apenas três personagens morrem – e mais momentos de mistério e investigação policial. Aliás, isso é o que mais temos aqui, visto que os incidentes têm inicio após – não é spoiler! – o assassinato da personagem de Brooke Shields na primeira comunhão, uma cena muito pesada.

 

Durante boa parte do filme, somos brindados com cenas da policia investigando o homicídio, interrogando os parentes da menina, fazendo testes de poligrafo na irmã mais velha, etc... Além disso, temos também os demais personagens envolvidos no mistério, entre eles, a Sra. Tredoni, a mulher que cuida dos afazeres da igreja; e o Sr. Alphonso, o desprezível senhorio do prédio onde Alice mora com a família. Os demais eventos se resumem à policia investigando a personagem, e o pai desconfiado da sobrinha, principalmente após outro incidente.

 

Além dos momentos de investigação, o filme é cheio de momentos tensos e pesados, muitos deles envolvendo a família de Alice; a começar pelo fato de que o pai e a mãe são divorciados e se reencontram durante o funeral de Karen, e o clima é carregado de tensão, principalmente sexual, visto que os dois ainda se amam. Juntamente com isso, temos também a complicada relação entre a mãe e a tia de Alice. A tia Annie é uma mulher tipicamente autoritária, que não respeita nem mesmo o momento de luto da irmã e da sobrinha. As cenas dessa personagem são as mais pesadas, tudo graças ao roteiro e a interpretação afiados da atriz.

 

O Sr. Alphonso também é um personagem com momentos tensos, principalmente graças às suas atitudes em relação aos outros personagens; em determinada cena, ele tenta assediar Alice quando a menina lhe entrega o cheque, por exemplo. Uma cena verdadeiramente grotesca que não seria reproduzida hoje em dia...

 

E além dele, temos também a Sra. Tredoni, que cuida dos padres da igreja. Desde sua primeira aparição, fica claro que ela tem algum problema, principalmente com o Padre Tom... Não posso entrar em mais detalhes para não dar spoilers, mas, fica claro que ela é aquele tipo de personagem que usa a fé para justificar seus atos, não importa quão terríveis eles sejam.

 

E para fechar, temos a protagonista, Alice. Assim como os demais, desde sua primeira cena, é possível perceber que há algo errado na menina, principalmente nas cenas em que ela interage com os pais e com a irmã mais nova. A principio, ela aparenta ter ciúmes da irmã, mas conforme o filme avança, a coisa fica mais séria. Ela é, sem duvida, uma das melhores crianças perversas do cinema.

 

E claro, como todo Slasher, temos também a figura memorável do assassino. Aqui, temos um assassino que se veste com uma capa de chuva amarela e usa uma máscara de boneca translucida. E desde o começo, as suspeitas sobre sua identidade caem sobre Alice, visto que a menina tem as mesmas roupas, mas, durante o segundo assassinato, as suspeitas mudam – por motivos de spoiler, não vou revelar o porquê. É um dos melhores assassinos do gênero, e assusta sem o menor esforço.

 

Antes de encerrar, Comunhão é basicamente um filme de terror cristão, visto que a figura dos padres, das freiras e a igreja são presenças recorrentes no longa, o que lhe dá um aspecto até mais pesado, porque é difícil imaginar um Slasher ambientado nesse contexto, além de contribuir para algumas das críticas sociais apresentadas no filme.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Slashers – Vol.4, em versão restaurada sem cortes, após anos fora de catálogo.

 

Enfim, Comunhão é um filme perturbador. Uma trama cheia de mistério e violência, onde nada é o que parece. Um filme que consegue arrepiar sem fazer esforço para isso, com suspense bem construído e um final chocante. Uma trama perturbadora em todos os sentidos. Um dos primeiros exemplares do gênero Slasher e um dos melhores.


Créditos: Versátil Home Vídeo

 

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O GATO DE NOVE CAUDAS (1971). Dir.: Dario Argento.

 

NOTA: 9.5



Entre 1970 e 1971, o diretor Dario Argento lançou sua Trilogia dos Animais, que se tornaram um marco no Giallo italiano.

 

O GATO DE NOVE CAUDAS é o filme do meio dessa trilogia, e o meu favorito, embora não seja melhor do que o anterior, o Clássico O Pássaro das Plumas de Cristal (1970).

 

Por que é o meu favorito? Bem, o principal fator é a relação entre os protagonistas, o jornalista Carlo Giordani, e o criador de enigmas Franco Arnò, interpretados por James Franciscus e Karl Malden, respectivamente. Mas não é só isso.

 

O filme é um dos mais bem dirigidos pelo diretor, que aqui começou a apresentar algumas de suas características da carreira. Além disso, temos também uma das melhores variações do Giallo clássico, visto que aqui, não temos a presença das luvas pretas. Conforme mencionei em outras resenhas, eu gosto das variações do gênero, mas prefiro muito mais o clássico, com as clássicas luvas pretas e a navalha. No entanto, O Gato de Nove Caudas me agrada muito por ser um filme do mestre Argento, considerado um dos principais nomes do gênero.

 

Esse é o truque. Eu já vi algumas variações do Giallo, algumas dirigidas por especialistas, mas elas não me agradaram muito. Este aqui é diferente, porque estamos vendo o nascimento do gênero pelas mãos de Dario Argento, então, a meu ver, tais alterações são bem-vindas.

 

Além disso, temos também os personagens, que são muito criveis e simpatizantes, e quando algum morre, é um pouco triste até, porque todos possuem sua importância para a trama. Os melhores são os quatro protagonistas, principalmente a menininha Lori, que acompanha Arnò o tempo todo, porque o personagem é deficiente visual.

 

Além de um Giallo, temos aqui também um filme com elementos de espionagem, visto que após a invasão no instituto, todos começam a suspeitar que foi algo envolvendo espionagem, porque uma das pesquisas era muito secreta, e poderia trazer problemas – a existência do cromossomo XYY, que poderia levar o ser humano a desenvolver tendências criminalísticas, algo que o próprio diretor e o roteirista Dardano Sacchetti pesquisaram antes de desenvolver o roteiro.

 

E a trama toda se desenvolve a partir dessa invasão, porque a partir daí, temos o Giallo clássico, com inúmeros suspeitos, cujas peças vão se encaixando aos poucos, até a conclusão, onde o culpado é revelado. Eu confesso que fiquei surpreso na primeira vez que vi o filme, pois eu não sabia que aquele personagem era o culpado, algo que o gênero faz com maestria, independente do cineasta.

 

E como de costume, temos também os personagens estranhos e engraçados: o barbeiro; Gigi, um ex-condenado especialista em arrombamentos; Morsella, o detetive que adora falar sobre receitas; e alguns dos cientistas do instituto, como por exemplo, o Dr. Braum, que se torna um dos principais suspeitos. Desses personagens, os meus favoritos são Morsella e Gigi, o Perdedor, porque eles protagonizam as cenas mais engraçadas do filme.

 

Temos também o elemento do romance, que se desenvolve entre Giordani e Anna, a filha do dono do instituto, o Dr. Tersi. Pode parecer meio obvio que os dois acabariam se envolvendo, mas eu gosto, acho muito bacana. Os dois protagonizam uma das melhores cenas do filme, uma perseguição de carro por toda a cidade, apenas para despistar a polícia.

 

Mas o que mais impressiona é a técnica. Diferentemente do que veríamos no futuro, aqui temos um Argento ainda em fase de desenvolvimento como cineasta, com seus truques de câmera para simular a presença do criminoso, no caso, a câmera em POV e closes nas pupilas, algo que seria recorrente em sua filmografia. Com sua câmera, o diretor cria cenas verdadeiramente carregadas na tensão, visto que nunca vemos a figura do criminoso, nem mesmo quando há a presença de objetos, como cigarros e seringas, por exemplo. A câmera em POV seria também utilizada por outros diretores nos Gialli futuros, e acabou se tornando também uma característica do gênero; tanto que acabou migrando para os EUA nos Slashers.

 

Além de tudo isso, temos também a relação entre os protagonistas, para mim, a melhor coisa do filme. Desde o primeiro encontro, os dois personagens se dão super bem, e rapidamente começam a investigar o ocorrido, mesmo que isso signifique correr riscos. Como eu disse, é a melhor coisa do filme, e uma inspiração para mim como escritor, porque me lembra de dois personagens que eu e meu irmão criamos quando éramos crianças. Inclusive, essa é outra característica do gênero. Os dois não são policiais e decidem bancar os detetives, porque nos Gialli, a polícia nunca é eficiente, e cabe ao protagonista descobrir a identidade do criminoso. O melhor momento é quando Giordani pede ajuda ao seu amigo Gigi para entrar na casa de Tersi a fim de descobrir alguma pista.

 

E como em todo Giallo, temos as cenas de morte. Aqui, como de costume, o diretor Argento transforma as mortes em espetáculos visuais, principalmente a cena do trem, violenta ao extremo. Mas não se engane, são cenas muito boas de se ver, e o diretor começa a dar os primeiros passos em direção às cenas de assassinatos grandiosos.

 

Não posso concluir essa resenha sem falar da cena mais tensa do filme inteiro, a cena do cemitério. Em determinado momento, Arnò se lembra do relógio que a noiva de uma das vítimas usa, e conclui que ali pode estar a peça-chave do enigma. Então, ele e Giordani vão ao cemitério encontrar o relógio, o que culmina na cena com o jornalista trancado dentro da cripta escura. Mesmo sendo uma cena que dura poucos minutos, é uma cena muito tensa, pois dá para sentir o medo no protagonista. Segundo o roteirista Sacchetti, a cena lhe serviu de inspiração para criar outras cenas tensas no futuro.

 

Como mencionado acima, O Gato de Nove Caudas é o filme do meio da Trilogia dos Animais, produzida entre 1970 e 1971, com todos os filmes dirigidos pelo mestre Dario Argento, que se tornaram clássicos em sua filmografia e no gênero Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção A Arte de Dario Argento, em versão restaurada com áudio em italiano.

 

Enfim, O Gato de Nove Caudas é um filme excelente. Uma história de mistério com toques de espionagem e cenas de ação que o deixam ainda mais divertido. Um verdadeiro quebra-cabeça, onde as peças vão se juntando aos poucos e revelando o mistério para o espectador. Aqui, temos ainda um Dario Argento em fase de desenvolvimento cinematográfico, mas que mostra sua capacidade como cineasta. Um dos melhores filmes do diretor e um clássico dos Gialli italianos.


Créditos: Versátil Home Vídeo

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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

MORTE NO NILO (2022). Dir.: Kenneth Branagh.

 

NOTA: 9.5



AVISO: Tentarei conter os spoilers.



Em 2017, eu tive o prazer de assistir Assassinato no Expresso do Oriente, primeira excursão de Kenneth Branagh ao universo de Agatha Christie, no cinema com meu irmão. Devo dizer que foi um dos melhores filmes que vi naquele ano, graças à habilidade de Branagh em contar a história, além do elenco estrelar, e é claro, sua própria performance no papel do detetive Poirot.

 

No último sábado, eu tive o prazer de assistir MORTE NO NILO no mesmo cinema, novamente com meu irmão, e digo que este já tem seu lugar na minha lista dos melhores desse ano. No entanto, vou ser sincero aqui. Eu ainda não li o livro, porque estava com outra leitura em andamento, e eu queria assistir esse filme no cinema. Então, aqui está. Dito e feito.

 

Eu me arrisco a dizer que Nilo é melhor que Expresso, principalmente nos quesitos técnicos. Novamente comandando, e estrelando, uma adaptação de Agatha Christie, Branagh se mostrou um diretor competente, arrancando ótimas atuações de seu novo elenco estelar – característica das adaptações das obras da autora – e realizando tomadas de tirar o folego.

 

Primeiro, devo salientar que este é um filme completamente diferente do anterior, principalmente por causa da paleta de cores. Se em Expresso nós tínhamos um filme gelado, com cores escuras e frias, aqui é o oposto; desde o começo, nós somos banhados com cores fortes e quentes, que combinam com o ambiente, no caso, o Egito e o Rio Nilo. E as cores funcionam muito bem e passam a impressão de calor sem o menor esforço, e quando combinadas com o cenário, foram paisagens dignas de fotos, além de algumas sequencias em plano zenital que enchem os olhos.

 

Mas não só isso. Como mencionado acima, Branagh conseguiu mais uma vez reunir um elenco de estrelas para contar sua história, e cada um dos atores desempenha seu papel com maestria, com destaque para Gal Gadot, a nossa Mulher-Maravilha. A atriz mostra tudo de si no seu papel – que não vou dizer qual é – e mostra que pode ser considerada uma das melhores do ramo atualmente – não é exagero. Sua performance mistura alegria e tristeza com perfeição, e, destaco um take em que ela aparece vestida como Cleópatra, em uma possível referência ao vindouro filme da Rainha do Nilo, que ela deve protagonizar. E digo, com toda certeza, que ela merece interpretar Cleópatra, sim!

 

O restante do elenco também surpreende, principalmente Annette Bening e Armie Hammer. Os dois também brilham em seus papeis, mas Annette entrega uma atuação inspirada, misturando ódio e raiva de maneira singular. Armie também brilha no papel do milionário Simon, mesmo com sua pouca presença – talvez um reflexo do que aconteceu com o ator na vida real. Outros astros como Rose Leslie, Jennifer Saunders, Tom Bateman, Russell Brand, Ali Fazal, Letita Wright, Sophie Okonedo e Dawn French completam o elenco de estrelas. Quem também merece destaque aqui é Emma Mackey, no papel de Jacqueline de Bellefort, ex-noiva de Simon, e uma das principais suspeitas. Ela também entrega uma excelente atuação, indo da alegria à loucura de forma impressionante.

 

Mas, deixa eu falar sobre as performances de Gal Gadot e Armie Hammer. Ambos se entregam de corpo e alma aos papeis, e atuam em cenas cheias de glamour e principalmente, química. Seus personagens transbordam química na tela desde a primeira vez que se encontram, e essa química vai percorrendo o filme até o momento chave da trama. E os atores não tem medo de entregar cenas verdadeiramente ardentes. 

 

No entanto, apesar de seu brilho, Nilo foi alvo de uma polêmica, o que pode também ter atrasado seu lançamento nos cinemas. A vítima foi Armie Hammer, que se envolveu em um escândalo envolvendo assédio e até canibalismo, o que provocou seu cancelamento do cinema. Quanto a isso, não posso dar detalhes, porque não acompanhei nada, mas deixo aqui o meu parecer: é uma pena que ele tenha se envolvido em tais escândalos e desaparecido, porque é um grande ator, e quem já viu A Rede Social sabe do que estou falando. Se ele voltará ou não para o cinema, não sei, mas espero que sim.

 

E claro, além de diretor, Branagh também voltou a interpretar Poirot, e ele dá um show. Ele dá vida ao personagem de forma ímpar, destacando suas manias e excentricidades, além de, assim como todos, transitar do sério para o engraçado; e claro, aqui conhecemos um pouco mais do passado do personagem, movido por traumas.

 

Como mencionado acima, Nilo é melhor que Expresso, e espero que não seja a última vez que veremos Kenneth Branagh dando vida ao universo de Agatha Christie no cinema.

 

Enfim, Morte no Nilo é um filme excelente. Um verdadeiro espetáculo visual que enche a tela. Excelentes atuações de um elenco estelar, aliados à direção de Kenneth Branagh, fazem deste um dos melhores filmes do ano e uma das melhores adaptações de Agatha Christie para o cinema. Um filme maravilhoso, cheio de mistério, romance e um pouco de humor. 





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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A ZONA MORTA (Stephen King).

 

NOTA: 10



Que Stephen King é um mestre na arte de contar histórias, todos sabemos disso, e, sinceramente, até agora, não li nenhum livro ou conto de sua autoria que me decepcionou.

 

E mais uma vez, eu tive um exemplo da genialidade do autor. A ZONA MORTA, lançado no final dos anos 70, é um de seus maiores clássicos.

 

Primeiramente, eu acho difícil encaixar o livro em uma única categoria, porque o autor mistura três gêneros diferentes: suspense, ficção cientifica e romance. Mas devo dizer que os três gêneros se juntam com maestria, e cada um desempenha o seu papel.

 

Eu confesso que ouvi falar dessa história pela primeira vez quando assisti à adaptação dirigida por David Cronenberg em 1983, e de cara, eu já me apaixonei, porque naquela época, eu já conhecia o autor, mesmo que pelos filmes, e então, deveria saber que algo grande estava por vir, mas, mais detalhes sobre isso na resenha do filme.

 

As inúmeras vezes que assisti ao filme foram o suficiente para querer ler o livro, e então, decidi ir atrás do mesmo. No entanto, não foi assim de imediato. A primeira vez que eu vi o livro, foi a finada biblioteca daqui da minha cidade, numa edição que era da minha mãe. Anos depois, durante uma viagem à SP, fui a um sebo com meu pai e meu irmão, e comprei o livro, em outra edição. E quando a Suma relançou, eu comprei também e foi essa a edição que eu li.

 

E que livro. A Zona Morta é um livro fantástico. Mais uma vez, King se mostrou um mestre na arte de contar histórias, e ele conseguiu contar uma história redonda, com personagens cativantes e um enredo cheio de surpresas.

Como é de seu costume, King dividiu o livro em três partes, e cada uma tem o seu mérito.

 

A primeira parte mostra a vida de Johnny antes e durante o acidente que o deixou em coma, principalmente enquanto o mundo está mudando ao seu redor. King descreve os acontecimentos com maestria, relatando tudo com detalhes impressionantes; tanto que parece que estamos lá, acompanhando tudo de perto. Vemos principalmente as mudanças nas vidas dos demais personagens, como sua ex-namorada Sarah; seus pais; e Greg Stillson. Sarah se casou com um estudante de Direito e se tornou mãe; sua mãe, Vera, afunda-se cada vez mais na loucura provocada pelo fanatismo; e Greg Stillson dá os primeiros passos em direção à carreira política.

 

O autor mostra o desenrolar desses personagens da mesma forma que mostra os acontecimentos no mundo, intercalando tudo. Dessas histórias paralelas, uma das melhores é a da mãe de Johnny. King mostra que a personagem foi se tornando vítima do fanatismo pouco a pouco, pois acredita que o filho pode acordar do coma, ao contrário de seu pai, que se mostra bem realista quanto ao futuro do filho. Eu achei que bem sensato do autor mostrar que seu pai não acredita que o filho possa voltar, e com isso, ele passa a viver a sua vida; Vera é o oposto. Ela passa a frequentar grupos de orações e a gastar dinheiro com isso, algo que acaba destruindo parcialmente a relação com o marido. Gregg Stillson, por outro lado, também começa a colocar as mangas de fora, mostrando-se um homem verdadeiramente perigoso, disposto a tudo para alcançar seu objetivo, algo mostrado já no prólogo, numa cena horrorosa.

 

Quando Johnny desperta, ele se torna uma espécie de celebridade, por causa de seus poderes, algo que ele renega, porque não acredita que os poderes podem lhe trazer benefícios. Os principais acontecimentos mostrados no filme de Cronenberg aparecem aqui: Johnny tendo a visão da casa da enfermeira pegando fogo; e a perseguição ao assassino. Essa é, na minha opinião, a melhor parte da história, porque dá um toque de suspense e tensão que prendem o leitor e o deixam arrepiado. Toda a investigação é muito bem escrita, além dos momentos anteriores, que mostram o assassino agindo em Castle Rock. Enquanto eu lia toda essa sequência da investigação, eu pude visualizar o que está no filme de Cronenberg, e isso foi muito legal, porque eu já conhecia aquela história, mas do ponto de vista do filme; agora, só precisaria conhece-la do ponto de vista do próprio autor, o mesmo vale para a revelação e a derrota do assassino. E da mesma foram que Cronenberg, King entrega uma cena sangrenta.

 

Na segunda parte do livro, King descreve a rotina de Johnny como professor, algo que ele faz após se recuperar do acidente; tal rotina é relatada com base na relação dele com um garoto rico que tem dificuldades em aprender, mais ou menos como acontece no filme de Cronenberg, mas aqui a coisa é mais extensa. A relação entre os dois é muito boa de acompanhar, e quando o rapaz consegue se destacar em suas atividades, é difícil não se ficar contente. Além da relação entre os dois, o autor também separa um tempo para dedicar a obsessão de Johnny por Stillson, principalmente após conhece-lo em um comício, e ter uma visão, assim como acontece na adaptação de Cronenberg. King separa um capitulo extenso para contar a história de vida do antagonista, destacando sua personalidade perigosa, algo já presente logo em sua primeira aparição no prólogo, naquela cena horrível.

 

Sobre as novas previsões de Johnny, ambas acontecem em momentos chaves. A primeira, com Stillson, acontece durante o comício do político, e assim como no filme, Johnny prevê o fim do mundo. E a segunda, envolvendo o garoto, acontece em sua festa de formatura, e o professor prevê um inferno literal, o que provoca pânico nos presentes, e rende uma auto-homenagem metalinguística bem legal, que me pegou de surpresa.

 

E o capítulo sobre a vida de Stillson também merece nota, porque é tudo escrito com riqueza de detalhes impressionante, que não fica muito maçante.

 

Além de contar como o mundo mudou ao redor de Johnny, King também faz uso de figuras reais, como jornalistas e políticos, relatando, inclusive, o encontro do protagonista com um candidato real que acabou vencendo as eleições da época.

 

Ainda sobre a previsão de Johnny a respeito do garoto. Durante a leitura, eu pude notar semelhanças – terríveis semelhanças – com o famoso incidente da boate que ardeu em chamas em 2013, que ganhou a atenção não apenas do Brasil, mas do mundo inteiro. Não sei se quem já leu o livro teve a mesma impressão, mas vou deixa-la aqui, fique à vontade para concordar ou não.

 

E conforme mencionei, Johnny também dedica seu tempo a descobrir informações a respeito de Greg Stillson, algo que ele faz de maneira obsessiva. E no final, quando Johnny decide fazer alguma coisa a respeito – quem já leu o livro ou viu o filme sabe do que estou falando – King nos presenteia com momentos de tensão extrema, que nos provocam arrepios, pelo menos para mim foi assim.


E na última parte do livro, King relata o que aconteceu com os personagens após o comício de Stillson em Phoenix, por meio de relatos, inquéritos e cartas.

 

Antes de encerrar, um pouco mais sobre o antagonista. King praticamente transforma Stillson em um super-homem, que anda por aí acompanhado de capangas armados até os dentes, a maioria, membros de gangues de motociclistas, talvez inspirado naquela notícia que os Rolling Stones – ou outra banda de rock – iam contratar os Hell’s Angels para serem seus seguranças. Existe também o rumor que King de certa previu a candidatura de Donald Trump para presidência dos EUA, o que de fato ocorreu, visto que os feitos de Stillson se assemelham ao que Trump propagou durante seu mandato. Se isso é verdade ou não, talvez nem o próprio autor saiba. Já eu consegui ver paralelos assustadores com a atual situação política do Brasil – não vou entrar em detalhes, porque isso aqui não é sobre esse assunto.

 

E claro, durante a leitura, eu não tive a menor dificuldade de visualizar Johnny e os outros personagens interpretados pelos atores do filme de Cronenberg, Johnny principalmente, mais durante o início do filme, antes do acidente.

 

Este é um dos primeiros livros do Mestre ambientados na cidadezinha de Castle Rock, cenário recorrente em suas histórias e romances.

 

Em 1983, conforme mencionado, recebeu uma excelente adaptação para o cinema dirigida por David Cronenberg, e estrelada por Christopher Walken, Herbert Lom, Brooke Adams, Tom Skerrit e Martin Sheen.

 

Enfim, A Zona Morta é um excelente livro de Stephen King. Mais uma vez, o autor se mostrou um excelente contador de histórias, com sua habilidade ímpar. O autor conseguiu criar cenas verdadeiramente tensas e trágicas, misturando os temas com maestria, além de contar a história do Estado Unidos com detalhes dignos de nota. Um verdadeiro clássico de sua bibliografia.


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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (1972). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9.5



Lucio Fulci foi um dos mestres do terror italiano. Desde que resolveu se aventurar no gênero, tornou-se especialista em produções repletas de sangue e gore. No entanto, antes de se aventurar em produções gore, Fulci se aventurou no Giallo, e nos deu grandes exemplares do gênero, como por exemplo, Premonição (1977), Uma Sobre a Outra (1968), Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971).

 

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS é outro Giallo do diretor. Lançado em 1972, marca a segunda parceria de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan, após a colaboração em Uma Lagartixa. O Bosque dos Sonhos é um dos melhores Gialli de Fulci e também o mais polêmico, o que levou a ser excomungado da igreja católica.

 

Polêmicas à parte, o filme é um dos melhores exemplares do gênero, e um dos meus favoritos. O longa apresenta um dos temas mais pesados do gênero: o assassinato de crianças.

 

Não é segredo para ninguém que a morte de crianças é um dos maiores tabus do cinema, e aqui, Fulci faz uso desse tabu sem o menor pudor, com cenas de assassinatos cruéis. Tudo bem, o número de vítimas do assassino não é muito grande, mas mesmo assim, somos brindados com momentos de tensão que parecem piorar a cada revisão.

 

Aqui como em seus outros Gialli, aqui, Fulci não faz uso do assassino tradicional, com luvas pretas, mas mesmo assim, essa é uma grande variação do gênero. Como eu disse, eu aprecio algumas variações do Giallo, mas ainda prefiro o Giallo clássico. Mas mesmo assim, esse filme consegue ser muito agradável.

 

O principal detalhe é a ambientação. Ao contrário dos demais, O Bosque dos Sonhos é ambientado no interior da Itália, e Fulci soube capturar excelentes tomadas do interior, dando um ar convidativo para o filme. Devo dizer que essa ambientação é um dos meus fatores favoritos sobre o filme, e me passa uma ótima sensação. E além da ambientação de interior, temos também ótimos personagens, que passam a sensação de serem realmente pessoas simples do campo. E em relação a isso, Fulci também não teve o menor pudor em mostrar as pessoas como realmente são, então, temos aqui personagens malcuidados, com as roupas e os rostos sujos de terra e suor; além de figurantes idosos desdentados. Tudo isso aumenta ainda mais o realismo e deixa as cenas de tensão ainda melhores.

 

Sobre isso, digo o seguinte: temos aqui cenas dignas de programas sensacionalistas da TV, com o povo se juntando na porta da delegacia para exigir a captura do assassino, ou para linchá-lo em público. E claro, a coisa fica pior com a chegada de vários repórteres, dispostos a tudo para conseguir uma exclusiva. Em resumo, temos um verdadeiro circo midiático e popular. É possível notar que as pessoas daquele vilarejo querem um culpado a qualquer custo, e estão dispostos até a fazer justiça com as próprias mãos, conforme visto na cena do cemitério. Todos esses detalhes aumentam ainda mais o teor chocante do filme e o deixam ainda mais perturbador.

 

E não para por aí. Além da questão do assassino de crianças, temos também uma forte questão sexual, que fica ainda mais perturbadora porque envolve as crianças, principalmente os meninos. Logo no inicio do filme, Fulci nos presenteia com uma cena de nudez da atriz Barbara Bouchet – uma das musas do gênero – cuja personagem possui um forte apelo sexual e também um ar de mistério, que contribui para torna-la suspeita dos crimes. Patrizia, sua personagem, não demonstra pudor ao tentar seduzir um garoto que trabalha para ela, utilizando palavras de cunho sexual explicito. Realmente, uma cena que não seria realizada nos dias de hoje. Na verdade, eu tenho certeza que o filme não seria realizado nos dias de hoje, principalmente por causa de questões politicamente corretas, devo dizer, há muita coisa errada nesse filme, além dos assassinatos das crianças. Claro, Fulci não as exibe na tela, mas deixa a critério do espectador. Eu mesmo tenho algumas teorias perturbadoras envolvendo o personagem do padre.

 

Como mencionado acima, O Bosque dos Sonhos marcou a segunda colaboração de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan. Aqui, ela interpreta a Bruxa do vilarejo, uma mulher que vive sozinha no bosque a pratica feitiços com bonecos de cera. Logo de cara, Fulci faz questão de mostra-la como uma das suspeitas dos crimes, uma vez que ela é vista na cena de um dos crimes. Além disso, ela é mal vista pela população, que tem o habito de cuspir no chão sempre que a vê. E quando a polícia consegue captura-la, a coisa não muda de figura. A população se revolta com toda sua força e se mostra ainda mais hostil. E temos a cena do cemitério, talvez a cena mais cruel e violenta do filme, onde ela é açoitada com correntes, tudo ao som de Ornella Vanoni. A atriz entrega uma ótima atuação aqui.

 

Essa cena e a cena final mostram que Fulci sabia lidar com o gore ainda em seus primeiros filmes de terror, e o diretor não poupa ninguém. A cena do cemitério é a mais violenta do filme todo, graças à atuação e aos efeitos especiais de maquiagem, que lembram a cena de abertura de Terror nas Trevas (1981), que também contou com a presença de correntes.

 

E em certo ponto do filme, Fulci faz questão de mostrar um boneco do Pato Donald, fazendo alusão ao título do filme. E a revelação do assassino, bem como seu motivo para os crimes, são tão pesados que levaram o diretor a ser excomungado pela Igreja Católica; uma prova de que o diretor não tinha o menor medo de mostrar questões pesadas na tela.

 

Bom, seja como for, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um dos melhores filmes de Lucio Fulci e um dos melhores exemplares do Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo, em versão restaurada com áudio italiano.

 

Enfim, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um filme perturbador. Um Giallo com clima de interior que enche a tela. A direção de Lucio Fulci é um dos destaques, e o diretor consegue criar cenas de tensão que deixam o espectador nervoso, além de focar em assuntos proibidos sem o menor pudor. Uma história pesada, cheia de momentos revoltantes, e de suspense. Um filme excelente. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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sexta-feira, 26 de março de 2021

EVANGELHO DE SANGUE (Clive Barker).

 

NOTA: 8



Não há duvidas que o universo de Hellraiser, criado pelo escritor Clive Barker, é um dos mais ricos do terror. Em Hellraiser, o autor deu uma pequena amostra de como esse universo funciona, apresentando aquele que seria o personagem principal desse universo: o Cenobita Pinhead. Além disso, Barker mostrou que não estava para brincadeira, e criou uma historia banhada em sangue e sexo.

 

EVANGELHO DE SANGUE é mais uma historia do autor ambientada nesse universo, e também serve como uma espécie de prequel dos eventos narrados em Hellraiser. Aqui, o autor apresenta os dois principais elementos do universo de Hellraiser: a caixa de Lemarchand e o próprio Pinhead, descrevendo ambos nos mínimos detalhes, ao contrario do que fizera no livro anterior. Mas não é só isso.

 

Em Evangelho de Sangue, Barker mostra mais uma vez que é um escritor afiado, com uma escrita que penetra na mente do leitor com uma força impressionante. As descrições que ele faz dos cenários é muito bem feita, e não fica difícil para o leitor imaginá-los em sua mente; o mesmo vale para as cenas ambientadas no Inferno, quando Harry e seus amigos vão resgatar Norma. Não sei como foi para os outros leitores, mas eu consegui visualizar aquele Inferno como um lugar de fantasia, com um tom branco ou cinza, ou invés do tradicional vermelho. Barker o descreve quase como uma espécie de jardim morto, com tudo que tem direito. O mesmo vale para os demônios. Eles são descritos como criaturas humanoides, mas sem os chifres e asas de morcego. Sem duvida, uma visão diferente e original.

 

E da mesma forma que fizera no livro anterior, Barker começa a historia com os dois pés no peito, apresentando cenas grotescas de violência e sexo já no prologo. E o restante da historia vai pelo mesmo caminho. Durante toda a leitura, o leitor não é poupado de cenas dignas de pesadelos, com toques grotescos de violência, e principalmente, sexo. Isso mesmo. Barker mistura sangue e sexo em todos os momentos, de uma forma assustadoramente natural, e cada vez que isso acontece, é chocante, e o autor não mostra pudor nenhum, principalmente quando descreve o que as criaturas estão fazendo com seus “membros” – para usar um termo “leve”. É praticamente um terror pornográfico.

 

E falando em terror, novamente, esqueça os torture porn da vida: as cenas de horror descritas por Barker são dignas de pesadelo, com o sangue escorrendo aos montes; claro, não chegam aos pés do livro anterior, mas conseguem ser quase tão grotescas quanto – não há outra palavra para descrever. Com certeza, não é tipo de leitura recomendada para leitores de coração fraco.

 

Os personagens humanos são muito bons e quase parecem pessoas reais, com a diferença que todos têm ligação com o sobrenatural, principalmente o protagonista, o detetive Harry D’Amour. Desde que ele surgiu na historia, eu o visualizei como um detetive particular de filme noir, com o casaco e o chapéu. Aliás, as cenas de investigação do personagem quase parecem com cenas de um filme noir, daqueles clássicos, estrelados por Humphery Bogart. Os outros personagens também são bem descritos, cada um com sua característica própria.

 

No entanto, apesar de contar uma historia muito boa, Barker cometeu alguns erros. O primeiro deles acontece no prologo, quando ele apresenta um demônio-fêmea que nasceu em uma cena grotesca. Eu achei que aquela personagem seria relevante para a historia, mas ela simplesmente desaparece. Eu pelo menos não consegui reencontrá-la. Outro ponto negativo acontece no Inferno, quando Pinhead comete um ato de violência contra Norma, ato esse que não faz parte de seu repertorio. E eu também achei a historia de Lúcifer incompleta.

 

Aliás, esse é outro ponto. Barker criou um universo tão original para os Cenobitas, com um deus próprio, o Leviatã e também o Engenheiro, e aqui, ele apresenta justamente Lúcifer como líder do Inferno. Apesar de descrever uma batalha épica entre ele e Pinhead, eu achei que o autor poderia ter utilizado outra criatura para comandar o Inferno, até porque, como eu disse, a descrição do Inferno não combina com a imagem clássica que temos dele.

 

No entanto, devo dizer que o autor criou, sem duvida, uma batalha épica. Ele mostra que Pinhead está disposto a tudo para tomar o poder e não tem medo de derrubar Lúcifer, mesmo que para isso, tenha que derrubar o próprio Inferno. Toda essa sequencia da luta entre eles é espetacular, com direito a armadura e sangue, muito sangue. E quando Lúcifer ressurge, a atmosfera épica continua. E no final, temos quase um Pinhead arrependido do que fez. Muito bom.

 

E aqui também temos a Caixa de Lemarchand, que abre o portal para o Inferno dos Cenobitas. Como mencionado acima, quando Barker a introduz, faz questão de descrevê-la nos mínimos detalhes, descrevendo até a musiquinha que ela produz ao ser aberta. Por um momento, eu até havia me esquecido dela, mas quando ela retorna, é uma surpresa. E ainda falando do universo de Hellraiser, aqui temos também as clássicas correntes com ganchos; e elas fazem um estrago. Sério.

 

Bem, seja como for, o fato é que Evangelho de Sangue é um livro muito bom; não chega aos pés de Hellraiser, mas, se me perguntassem se merecia uma adaptação para o cinema, eu diria que sim, dependendo de quem assumisse as rédeas.

 

Enfim, Evangelho de Sangue é um livro muito bom. Uma historia épica de terror com toques grotescos de sangue e sexo. A escrita de Clive Barker prende o leitor com suas cenas dignas de pesadelo. Uma viagem literal ao Inferno, onde poucos saem com vida. O reencontro com Pinhead, o principal personagem do universo de Hellraiser. Um livro sangrento e arrepiante. Recomendado.



 

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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O QUE ELES FIZERAM ÀS SUAS FILHAS? (1974). Dir.: Massimo Dallamano.

 


NOTA: 9



Eu já disse varias vezes que o Giallo é um dos meus gêneros favoritos, e desde que surgiu no final dos anos 60, grandes exemplares surgiram. Alguns deles já foram mencionados aqui, todos dirigidos por grandes mestres, e o diretor Massimo Dallamano foi um deles. Ele é o responsável pelo excelente O Que Vocês Fizeram com Solange? (1972), que marcou a estreia da atriz Camille Keaton no cinema. Esse é um dos meus exemplares favoritos do gênero.

 

Dois anos depois, Dallamano retornou ao gênero com O QUE ELES FIZERAM ÀS SUAS FILHAS?, que pode ser encarado como uma espécie de continuação do filme anterior. Eu pessoalmente não vejo dessa forma, eu encaro como outro filme com uma temática parecida. Mas isso não o impede de também ser um grande exemplar do gênero.

 

Mais do que isso, eu diria que é um dos mais brutais exemplares do gênero, não somente pelas cenas de violência, mas também pela forma como ele aborda a polemica questão da prostituição adolescente. Sério, são cenas realmente muito tensas e desconfortáveis. Já as cenas de violência são brutais e não poupam o espectador do sangue. Não é novidade que o gênero Giallo é famoso por suas cenas de morte mirabolantes, com toques até artísticos, dependendo do cineasta, e Dallamano faz questão de mostrar o sangue na tela. Eu confesso que na primeira vez que eu assisti, eu fiquei impressionado com as cenas de violência, principalmente uma que acontece num banheiro.

 

E assim como fez no filme anterior, Dallamano se mostra um especialista no gênero, principalmente quando filma cenas de tensão e suspense. E o filme tem muitas delas, cada uma melhor que a outra, todas envolvendo o assassino. Os movimentos de câmera merecem destaque, com toques rápidos e câmera dentro do carro e na garupa da moto. É muito bom.

 

Outro destaque é a trilha sonora, composta por Stelvio Cipriani, um nome conhecido no gênero, tendo sido responsável pelas trilhas de alguns exemplares do Giallo. É uma trilha muito boa, diferente do tipo que se espera ouvir um filme desses, que geralmente parte para uma coisa mais lírica e bonita. Aqui, não. A musica é quase pesada, principalmente o tema, que depois seria “reaproveitado” pelo compositor no divertido Tentáculos (1977). Quando eu ouvi pela primeira vez, eu na hora me lembrei da música do filme do polvo gigante. Picaretagem ou outra coisa?

 

Outro ponto que merece ser mencionado é o assassino. Como é de praxe no gênero, o assassino veste roupas pretas e luvas de couro também pretas; aqui temos exatamente isso, mas com um diferencial. Ao invés da mascara preta, temos um capacete de motociclista, visto que o assassino faz uso desse veiculo na cena de perseguição. E ao invés do tradicional canivete, a arma escolhida é um cutelo de açougueiro. E o assassino faz estragos com ela. Grandes estragos. A maior prova é na cena em que os policiais estão investigando o apartamento de um suspeito e encontram o banheiro todo ensanguentado. Cena digna de Slasher.

 

Devo ressaltar também que, pela primeira vez – que eu saiba - , temos uma personagem feminina na policia. Geralmente nos Gialli as mulheres são as vitimas do assassino, mas o roteiro optou por algo diferente, e criou uma personagem feminina de fibra, que não abaixa a cabeça para ninguém. É o tipo de coisa que podia aparecer mais no Giallo. Dallamano ganha mais pontos por essa inclusão.

 

Conforme mencionado acima, O Que Eles Fizeram às Suas Filhas? é uma historia que envolve prostituição de adolescentes. É um tema muito difícil de ser abordado, porque envolvem principalmente as adolescentes que entram para esse mundo. E o roteiro não passa pano para o tema. E não apenas estamos falando de prostituição, mas também de estupro e pedofilia, uma vez que as garotas são menores de idade e os agressores são homens mais velhos. E o pior, são homens importantes, que dificilmente serão culpados ou associados a tais crimes. É o tipo de coisa que infelizmente existe na nossa sociedade e que vemos todos os dias nos jornais e noticiários da TV. E mesmo sendo abordado em uma obra de ficção, não deixa de ser um tema perturbador e que merece ser discutido.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.4, em versão restaurada com áudio original em italiano.

 

Enfim, O Que Eles Fizeram às Suas Filhas? é um grande exemplar do gênero Giallo. Um filme violento e perturbador, com cenas de ação de tirar o folego, que conta um roteiro bem amarrado e uma direção segura. Além disso, toca em um assunto difícil de lidar, e faz isso sem o menor pudor, deixando o espectador desconfortável. Mas nada disso é um empecilho para torna-lo um filme excelente. Altamente recomendado. 



Créditos: Versátil Home Vídeo



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