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segunda-feira, 9 de outubro de 2023

O SANGUE DE SATÃ (1978). Dir.: Carlos Puerto e Juan Piquer Simon.

 

NOTA: 6


Eu confesso que tenho uma relação estranha com filmes de temática satanista; mesmo sabendo da existência de alguns clássicos do gênero, eu sempre assisto a eles com um certo receio, principalmente por causa das imagens de adoração.

 

O SANGUE DE SATÃ, lançado em 1978, com direção de Carlos Puerto e Juan Piquer Simon, é um desses exemplos.

 

Desde a primeira vez que assisti a esse filme, eu fui tomado por uma sensação de estranheza, mistura com certo desconforto, principalmente por causa de suas cenas especificas – mais detalhes adiante.

 

Mas antes de falar sobre esses dois problemas, vou falar sobre o filme.

 

É possível ver que os diretores se esforçam para criar uma atmosfera de horror e satanismo, além de contar com um elenco que convence em suas atuações.

 

Sendo um filme espanhol, o longa teve cenas rodadas em Madrid, principalmente no começo, quando casal protagonista está andando pelas ruas da cidade; as demais cenas foram rodadas em um casarão possivelmente localizado no interior da Espanha, e tais cenas são muito boas, e passam uma sensação de desconforto e medo.

 

O elenco, composto por quatro atores, convence muito bem em suas performances, principalmente o casal de mocinhos, com destaque pessoal para a mocinha. A interação entre eles é boa e ambos passam a sensação de que são um casal de verdade, em especial nas cenas de amor.

 

O outro casal também passa a sensação de medo que provavelmente estava escrito no roteiro, sendo amigáveis no começo, e depois, revelando-se como adoradores de Satã, apesar de falharem um pouco nesse aspecto.

 

As cenas de horror são bem dirigidas, principalmente a cena do tabuleiro Ouija, que é filmada em plano zenital em pelo menos dois takes. Ela acontece aos poucos, com a tensão sendo construída aos poucos, dando foco às performances do elenco, principalmente das atrizes.

 

Como todo exemplar do exploitation, temos aqui cenas apelativas, no caso, apostando em conteúdo altamente erótico. E vamos aqui falar do maior problema do filme, que é a cena de orgia que rola durante um ritual. É uma cena que demora muito para acontecer, que se alterna em vários takes dos casais juntos, e a trilha sonora também não ajuda. Desde a primeira vez que vi, eu senti um desconforto, e esse desconforto vem toda vez que a cena começa.

 

O Sangue de Satã, conforme o titulo nacional entrega, foi produzido no hype dos filmes de conteúdo satanista, que surgiram no final dos anos 60. Conforme mencionei no inicio, eu tenho relação estranha com filmes que focam nesse tópico, principalmente por causa das cenas que envolvem rituais e adoração, por conta das imagens. É o tipo de conteúdo que me assusta, dependendo do filme, porque é impressionante a maneira como são abordadas em determinados longas. Aqui, temos um conteúdo altamente apelativo, que mostra as imagens que se espera, mas que no fundo, mostra os satanistas como eles realmente são, pessoas entediadas que fazem uso do satanismo como desculpa para realizar suas fantasias sexuais.

 

Além do problema da cena da orgia, temos também um problema no roteiro em si, a começar pelo prologo, que mostra um ritual comandado por um velho, mas que não acrescenta em nada à trama, além de ser muito apelativo e também demorado. Além disso, durante o filme, um homem misterioso é visto andando pela casa, mas não mostra quem ele é, nem sua relação com o casal de vilões; ao que parece, seu único propósito é protagonizar uma cena de quase estupro, onde ele ataca a mocinha.

 

Junto com esses problemas, temos também a questão do culto de satanismo em si, porque o roteiro não faz questão de explicar o mistério dos satanistas, visto que aparentemente, eles estavam mortos desde o inicio do filme, ou não... Nessa ultima revisão, eu fiquei perdido. O final também não responde a algumas questões.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror Vol.14, áudio original em espanhol.

 

Enfim, O Sangue de Satã é um filme bom. Um filme que aborda a questão do satanismo com víeis apelativo e erótico, além de contar com cenas de tensão, mas que causam desconforto no espectador. O elenco é um ponto positivo, e os atores arrancam ótimas performances, principalmente o casal de mocinhos. A direção também consegue convencer, e os diretores criam algumas cenas verdadeiramente tensas. Um cult exploitation que deve agradar aos fãs do gênero.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

terça-feira, 26 de julho de 2022

ENTREVISTA COM O VAMPIRO (Anne Rice).

 

NOTA: 10


EM MEMÓRIA DE ANNE RICE



Ao longo de sua carreira, Anne Rice foi uma das autoras mais populares de todos os tempos, principalmente graças às Crônicas Vampirescas, que ganharam milhões de fãs ao redor do mundo. ENTREVISTA COM O VAMPIRO foi o primeiro livro da série, além de ser o primeiro livro da autora.

 

Esse não foi o meu primeiro contato com o universo vampiresco de Anne Rice; há alguns anos, eu resolvi encarar o livro Pandora, e achei excelente – merece releitura e resenha. E também, eu tinha certo conhecimento em relação a esta história, até porque eu já vira o filme dezenas de vezes, mas nunca cheguei a ler o livro. Cheguei a buscar um exemplar na internet, mas nunca conseguia encontrar, até que a Editora Rocco se propôs a relança-lo em capa dura e novo projeto gráfico, mas com a clássica tradução da autora Clarice Lispector. Dito e feito.

 

Este aqui é um dos melhores livros de vampiro que já li na vida. Anne Rice é uma autora habilidosa e conta uma história dramática e assustadora, com tudo que tem direito.

 

A história, quem já leu – ou viu o filme – conhece, e é muito boa. O vampiro Louis – e a autora – conta sua história com precisão impressionante, e as descrições contribuem para deixar a leitura ainda melhor, e principalmente, fica fácil associar ao filme.

 

O modo como a autora estrutura o livro também merece menção. Ela consegue misturar as passagens do passado do protagonista com o presente de maneira quase imperceptível, tal o nível de mergulho na obra.

 

E claro, temos os personagens. Lestat é sem dúvida, o melhor vampiro da literatura, depois de Drácula, claro. A autora o descreve como um ser perverso, que sente gosto pelo sangue e por matar, seja por necessidade, seja por diversão – algo visto no filme com perfeição. Louis é a figura do vampiro melancólico, que passa a eternidade se lamentando e sofrendo por sua condição, algo que eu abraço também. A vampirinha Cláudia é uma das melhores personagens vampiras da literatura. Não sei se antes dela, existiu alguma personagem como ela, mas, ela é muito boa. Talvez a melhor característica da menina, seja o fato de que ela nunca vai crescer depois de virar vampiro, algo que eu acho muito legal, mas não concordo completamente.

 

Antes de mencionar a passagem deles por Paris, deixa eu falar sobre a segunda parte do livro, onde eles viajam pela Europa, principalmente por Varna, onde encontram diversas superstições sobre vampiros. Em especial, uma sequência em que eles passam a noite numa hospedaria é muito boa. Ali, eles encontram diversas pessoas que tem muito medo dos vampiros, tanto que enfeitam o lugar com coroas de alho e crucifixo; ou seja, a superstição clássica presente nas histórias de vampiros. Dessas pessoas, um homem que está prestes a enterrar a esposa é o melhor, porque ele conta para Louis como foi o seu próprio encontro com um vampiro que acabou de ser enterrado. É uma cena muito boa, digna dos filmes de vampiro da Hammer, por exemplo; inclusive, já digo que virou uma das minhas partes favoritas do livro.

 

No entanto, a melhor parte acontece em Paris, quando Louis e Cláudia conhecem o enigmático Armand e o Teatro dos Vampiros. A autora os descreve como os vampiros realmente devem ser: seres da escuridão, que vestem negro e tem a pele branca como papel, além de serem cruéis e ao mesmo tempo, enigmáticos, principalmente Armand, o segundo melhor personagem da história. Eu já havia conhecido essa parte no filme, mas no livro é muito melhor, porque as descrições são mais profundas, assim como os dilemas do protagonista. Além disso, a personagem Madeleine tem uma participação maior após virar vampira; e temos também outra vampira com mais destaque. Mas o melhor fica com a ideia do Teatro dos Vampiros, algo que a autora descobriu que existe realmente em Paris anos após publicar o livro. Eu acho muito interessante essa ideia de um teatro composto somente por vampiros, que todas as noites encenam suas peças mórbidas para o público parisiense. No filme, isso já era sensacional, mas no livro, é muito melhor. Não posso deixar de mencionar a maravilhosa primeira peça, com a mortal interagindo com os vampiros no palco, aterrorizada. Mesmo lendo o livro, eu não ainda não sei se a mortal é uma atriz ou não. E para finalizar essa parte, temos aqui um conflito do protagonista com seus sentimentos por Armand, que vão consumindo-o por dentro e fazendo-o sofrer mais ainda. Confesso que enquanto eu lia, eu estava esperando que algo fosse acontecer. Enfim, essa é a melhor parte da história, sem dúvida.

 

E o que vem depois não fica atrás, com Louis e Armand viajando pelo mundo, conhecendo lugares famosos, além de lidar com seus próprios problemas, principalmente por causa do que aconteceu em Paris, além disso, temos também o reencontro entre Louis e Lestat, uma das cenas mais tristes do livro, que acontece já em Nova Orleans no século XX. E a conclusão da história também é muito boa.

 

Não é novidade que em 1994, o livro ganhou uma adaptação para o cinema, dirigida por Neil Jordan e roteirizada pela própria autora. E ainda esse ano, a AMC irá lançar uma nova adaptação do livro, desta vez para a televisão, com os mesmos personagens, mas também com alterações na questão da época.

 

Anne Rice nos deixou em dezembro de 2021. Suas obras, no entanto, viverão para sempre, principalmente suas Crônicas Vampirescas, que até hoje, têm legiões de fãs espalhados pelo mundo.

 

Enfim, Entrevista com o Vampiro é um livro excelente. Uma história trágica de horror e sofrimento contada com maestria. A escrita da autora é fantástica e transporta o leitor para dentro da obra e o envolve completamente. Seus vampiros são a representação do puro Mal, com todas as características, além de novas regras. Um dos melhores livros de vampiro de todos os tempos. 



ANNE RICE

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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9



Como já mencionei em outras resenhas, o diretor Lucio Fulci era o Padrinho do Gore. Desde que se aventurou no gênero terror, no final dos 70, Fulci mostrou que entendia da arte de assustar o publico com cenas repletas de sangue. Porém, antes de se tornar um dos mestres do terror da Itália, Fulci resolveu se aventurar no Giallo, que na época, estava em alta no país. O diretor iniciou a carreira no gênero com Uma Sobre a Outra (1969), passando pelo polêmico O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), Premonição (1977), e este aqui, UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER, lançado em 1971.

 

O filme, que marca sua primeira parceria com a atriz brasileira Florinda Bolkan, é um dos melhores exemplares do gênero. Com uma trama cheia de mistérios e reviravoltas, o filme consegue prender a atenção do espectador, e deixa-lo intrigado para resolver o mistério.

 

Como já disse outra vezes, o Giallo foi um subgênero que, da mesma forma que o terror, por exemplo, teve suas variações, e esse filme é uma delas. Sim, porque ele não apresenta o tradicional assassino de luvas pretas que sai matando mulheres com requintes de crueldade. Aqui, a trama é bem diferente; o roteiro apresenta uma ideia até original para o gênero, a ideia de que, às vezes, nosso subconsciente nos prega peças. Não digo que esse tema específico não foi abordado outras vezes em outras mídias, até acredito que sim; estou dizendo que, no gênero Giallo, eu vi poucos filmes que tocaram nesse assunto. Claro, a ideia da testemunha ocular que viu algo, mas não tem certeza, é algo recorrente, mas não chegou a ser explorada por um viés cientifico. Então, aqui, temos, sim, a protagonista que não sabe o que viu, mas abordado de outra forma. Segundo o roteiro, tudo acontece no subconsciente da personagem, que sofre de insônia e parece apresentar transtornos psicológicos.

 

Tal argumento é muito bem abordado pelo filme, principalmente nas cenas de investigação, quando os policiais decidem entrevistar o terapeuta. Admito que às vezes, as explicações dele parecem um tanto confusas, mas, se fizermos um esforço, podemos entender o que está sendo dito para nós, e até compreender a chave do mistério. Um mistério, que, como é comum no gênero, só é revelado no final do filme.

 

O roteiro faz uso de algo que já vi em outros exemplares. Em certo ponto da trama, as evidencias coletadas pela policia apontam para um determinado personagem, apesar do mesmo negar sua participação no caso. Pois bem, o filme utiliza desse argumento, e ao mesmo tempo, apresenta outros personagens que podem também ser culpados pelo crime, o que obriga o espectador a pensar um pouco mais. É uma tática muito boa, que funciona.

 

Eu confesso que na primeira vez que assisti ao filme, tive minhas dúvidas, principalmente a respeito do crime e do titulo; mas, conforme fui assistindo outras vezes, comecei a “pescar” as dicas apresentadas no roteiro e passei a compreender o que estava sendo apresentado. É uma coisa que acontece em muitos Gialli, porque as peças do quebra-cabeça nos são entregues aos poucos, então, temos que raciocinar antes de começar a montá-lo. Fulci faz uso desses enigmas com maestria, e consegue, sem esforço, deixar o espectador em dúvida. Ouso até dizer que essa dúvida fica conosco até mesmo depois do mistério ser resolvido, obrigando-nos a rever o filme.

 

Como mencionado acima, o filme marca a primeira parceria entre o diretor e a atriz brasileira Florinda Bolkan. A performance da atriz é excelente. Sua personagem parece tomada pela paranóia constante, provavelmente ocasionada por seus problemas psicológicos. Florinda passa, com total veracidade, tudo aquilo que a personagem está sentindo, seja medo, duvida, ódio... uma atuação excelente. Seus colegas de elenco não ficam atrás. O ator Jean Sorel, que já trabalhou com o diretor em Uma Sobre a Outra, também entrega uma ótima performance como o marido da protagonista; mas, quem rouba a cena, de fato, é o ator Stanley Baker, no papel do inspetor encarregado do caso; parece mesmo que ele é um policial, que não mede esforços para resolver o enigma e prender o culpado. Os outros atores também entregam boas atuações, e seus personagens também tornam-se criveis. Porem, o filme tem um defeito. A vizinha da protagonista é interpretada pela atriz Anita Strindberg, não-creditada. Eu sei que ela é uma das musas do Giallo, mas, como disse na resenha de No Quarto Escuro de Satã, eu não gosto dela, não acho que seja uma boa atriz. Sua participação no filme é pouca, mas, mesmo assim, não me agrada.

 

O responsável pelos efeitos especiais foi o mestre Carlo Rambaldi, famoso por criar o monstro de Alien, o 8º Passageiro e o E.T. de E.T., o Extraterrestre. Com vasto currículo, Rambaldi já trabalhou com alguns mestres do cinema, e no terror, seus truques merecem ser mencionados. Como já sabemos, Fulci tornou-se conhecido por ser o Padrinho do Gore, algo que desempenhou com maestria. Pois bem, mesmo não sendo um filme de terror, aqui temos alguns efeitos de gore, principalmente nos sonhos da protagonista. E Fulci já deu uma amostra do que faria no futuro, porque o gore é caprichado, com direito a tripas expostas e sangue escorrendo. Porem, a cena mais famosa do filme é a tal “cena dos cachorros”, que causou um grande alvoroço na época, devido a sua veracidade. O caso foi tanto que Rambaldi teve de levar os bonecos para o tribunal, a fim de provar que não eram verdadeiros. A cena é, de fato, chocante e impressionante. Um verdadeiro tapa na cara.

 

Além dos efeitos especiais de Carlo Rambaldi, o filme também contou com a trilha sonora do grande Maestro Ennio Morricone. A trilha do Maestro é excelente, com aspecto de fantasia, principalmente nas sequencias de sonho da protagonista. Nas cenas de suspense, a trilha muda de foco, tornando-se até um pouco sombria. Um belo exemplo do trabalho promissor do saudoso Maestro Ennio Morricone.

 

Para finalizar, vou destacar a sequencia em que a protagonista é perseguida por um dos suspeitos do crime dentro do Alexander Palace. Mesmo não sendo um filme de terror, esse é o momento mais assustador do filme, porque é impossível saber o que vai acontecer. A tensão está presente em todos os momentos, e parece que vai aumentando a medida que o homem se aproxima dela. Uma sequencia impressionante, digna de pesadelos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.2, em excelente versão restaurada.

 

Enfim, Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher é um filme excelente. Uma historia enigmática de investigação policial, com elementos de erotismo e terror. Um roteiro muito bem escrito, que não entrega de cara a solução para o espectador, obrigando-o a raciocinar conforme vai acompanhando o filme. Uma direção madura de Lucio Fulci contribui para deixar o filme ainda melhor, combinado com a excelente atuação da atriz brasileira Florinda Bolkan. Um excelente exemplar do gênero Giallo.



Créditos: Versátil Home Vídeo





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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972). Dir.: Sergio Martino.


 NOTA: 8


O diretor Sergio Martino resolveu ingressar no gênero Giallo em 1971, com o ótimo O Estranho Vício da Senhora Wardh, onde iniciou uma caprichada parceria com os atores Edwige Fenech e George Hilton, que formaram um dos casais mais famosos do gênero. E aqui, ele repete a parceria com a atriz, agora interpretando uma vilã. 

NO QUARTO ESCURO DE SATÃ é a terceira excursão de Martino no gênero, e um dos melhores. Mesmo não contanto com a trama clássica de assassinatos misteriosos, Martino fez um ótimo trabalho novamente, dando ao filme um aspecto interiorano e convidativo.

Como mencionei na resenha de Torso, essa é uma das melhores características de alguns dos Gialli do diretor, e ajudam a torna-los ainda mais atraentes. De verdade, são filmes que podem ser assistidos no final de semana a tarde, e a sensação que fica é muito boa, parece que combina. É o tipo de coisa que torna o Giallo um gênero tão agradável.

Ao contrario de seus compatriotas, Martino não optou pelas características clássicas do gênero – somente em O Estranho Vício e Torso – , deixando a figura do assassino mais de lado, e aqui não é diferente. E isso faz total sentido, uma vez que mudanças na estrutura dos filmes do gênero eram muito bem-vindas, e vários cineastas optaram por usá-las, o que deu uma certa variada. Eu pessoalmente sou fã do Giallo Clássico, com o assassino de luvas pretas, mas não vejo problema em assistir a um exemplar diferente. 

Bem, aqui, existe, sim a figura do assassino misterioso, mas, ele mesmo não faz parte da trama central. A trama central envolve o estranho triangulo sexual – não dá pra chama-lo de “triangulo amoroso” de jeito nenhum – formado pelos personagens principais, um triangulo repleto de submissão, sexo e violência. No fundo, essa é a essência do filme, uma historia de violência e tortura psicológica, e o diretor não poupa o espectador. Se você acha filmes com essa temática muito pesados, então, não recomendo este aqui. Grande parte da violência é desencadeada pelo personagem Oliviero, escritor decadente e alcóolatra. O personagem é terrível; humilha e tortura psicologicamente a esposa, seja em particular, seja em público, tem um caso com uma ex-aluna e com a empregada da casa e trata todos ao seu redor com desprezo. A única criatura que não sofre em suas mãos é o seu gato preto, Satã. Irina, sua esposa, é típico exemplo de personagem submisso. Vive sempre triste e com medo das agressões do marido; e Floriana é a mulher sedutora da cidade grande. Outros personagens como a empregada da mansão; uma senhora catadora de lixo; os policiais que investigam os homicídios; uma jovem prostituta e sua tia cafetina; e o dono da livraria, completam o elenco da trama, e todos eles são estranhos, cada um a sua maneira, o que é comum, ao meu ver.

Como mencionado, o diretor Martino repete aqui a parceria com a atriz Edwige Fenech, um dos grandes símbolos sexuais da época. Ao contrario do filme anterior, aqui ela interpreta uma personagem sem escrúpulos, que seduz tanto o casal principal, quanto um dos moradores da cidade, e sua atuação é fantástica. Acredito que não haveria atriz melhor para interpretar o papel, visto que é uma personagem cheia de sensualidade, e, francamente, a atriz era muito sensual. Da mesma forma que no filme anterior – e nos demais onde trabalharam juntos – , o diretor não faz pudor ao mostra-la nua.

Mas, apesar de ser um filme muito bom, ele também tem seus defeitos. Na minha opinião, o maior deles é a atriz Anita Strinberg, que interpreta Irina, a esposa de Oliviero. Eu sei que, assim como o Slasher, o Giallo também teve suas musas, e a atriz é considerada uma delas, mas eu pessoalmente não gosto dela. Eu não acho que ela entrega uma boa atuação, e aqui, a sua personagem passa o filme todo chorando e gritando, e mesmo quando acontece a reviravolta, a atuação dela não melhora. O ator Ivan Rassimov, outro colaborador frequente do diretor, também está nesse filme, no papel de um personagem misterioso, que infelizmente, quase não possui relevância para a historia, mesmo na hora da reviravolta. Sinceramente, acho que ele nem precisava estar no filme. E a sequencia dos créditos de abertura é muito lenta, tanto que eu pulo sempre que vejo o filme. E os miados do gato são muito irritantes.

Mesmo com esses problemas, No Quarto Escuro de Satã é um filme muito bom. Como eu disse, possui uma atmosfera de interior, que o torna ainda mais charmoso. Parte disso vem da própria ambientação. As locações são belíssimas, típicas do interior da Itália. A mansão do escritor também, com seus corredores vazios, janelas enormes, exterior todo deteriorado... O tipo de casa onde alguma coisa desagradável pode acontecer, e também, convidativa.

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em versão restaurada, na coleção Giallo Vol.3.

Enfim, No Quarto Escuro de Satã é um ótimo exemplar do gênero Giallo. Tem um clima interiorano que o torna mais charmoso. Além disso, sua trama é repleta de situações rocambolescas, onde nada e ninguém é o que aparenta ser. Uma historia de violência e tortura muito bem contada, que chama a atenção. Uma direção segura e criativa, e uma trilha sonora calma e tensa ao mesmo tempo. Um dos melhores filmes do diretor Sergio Martino. Recomendado.

 

Créditos: Versátil Home Vídeo




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sábado, 8 de fevereiro de 2020

A COMPANHIA DOS LOBOS (1984). Dir.: Neil Jordan.


NOTA: 10



A COMPANHIA DOS LOBOS (1984)
A COMPANHIA DOS LOBOS é um filme lindo! Lançado em 1984, é a segunda aventura de Neil Jordan na direção; dois anos antes, ele estreou no cinema com Angel, O Anjo da Vingança, onde também iniciou sua parceria com o ator Stephen Rea, que se tornaria seu colaborador recorrente.

À primeira vista, o filme parece uma versão adulta da historia da Chapeuzinho Vermelho, devido às semelhanças da narrativa com o conto original. Na verdade, o filme é uma adaptação de uma historia da escritora Angela Carter, que trabalhou no roteiro ao lado do diretor. Apesar de fazer parte do gênero terror, eu pessoalmente, classifico o filme como uma obra de fantasia. E assistindo, fica claro o motivo dessa classificação.

É um filme belíssimo, cheio de cores, sombras e luzes, mas, principalmente, sombras. Além disso, é um verdadeiro filme de terror gótico, com tudo que tem direito. Claro, não chega aos pés de um filme do Maestro Mario Bava, mas, possui alguns dos elementos presentes no gênero. Sem duvida, o mais evidente é a floresta envolta em névoas, presente em algumas cenas; outros elementos também aparecem, como o próprio visual da pequena igreja da vila e o cemitério com as lapides inclinadas.

Não só isso. É um filme de fantasia na melhor concepção da palavra. Jordan deu a ele um aspecto de sonho mesmo, o que o deixa ainda mais bonito de se ver. E a cada revisão, ele fica melhor. Eu já sabia que o filme era maravilhoso, e após a ultima revisão, minha opinião não mudou. É o tipo de filme que prende a atenção do espectador, seja pela narrativa, pela fotografia, pelo design de produção... Enfim, tudo nele contribui para sua beleza.

Esse aspecto de sonho se deve muito ao orçamento limitado. Segundo o próprio diretor, ele encontrou dificuldades em trabalhar com o orçamento de que dispunha para criar o visual do filme; mesmo assim, o resultado ficou excelente, e deu ao longa um aspecto tanto fantasioso quanto claustrofóbico. Em vários momentos, os cenários são tão pequenos que parece os personagens vão ser esmagados por eles, ou então, dá a impressão de que eles estão, de fato, presos em um mundo de fantasia criado pela menina em seus sonhos. Não é o tipo de sensação que encontramos em muitos filmes de terror hoje em dia.

Então, A Companhia dos Lobos pode ser considerado somente como um filme de fantasia, e não como um filme de terror? Ao contrário. É um verdadeiro filme de terror. Apesar de classifica-lo mais como um filme de fantasia, eu admito que é, sim, um filme de terror. O terror está em dois pontos. O primeiro é a atmosfera. Conforme já mencionado, é um filme de terror gótico, e isso já o faz ser assustador. Existem cenas que provocam arrepios na espinha. Uma delas acontece no inicio do filme, quando a irmã da protagonista é atacada e morta por um bando de lobos. Além de contar com aspecto de pesadelo, a cena conta com efeitos especiais convincentes, que deixam-na mais arrepiante; um deles é o bonequinho que ganha vida e corre atrás da garota, antes de ser derrubado por ela. A fotografia também é um elemento-chave. As cenas noturnas são verdadeiramente arrepiantes e sombrias, e passam a sensação de insegurança. Realmente, eu não queria me aventurar naquela floresta depois do escurecer. As árvores estão mortas, sem folhas, com galhos secos e retorcidos, semelhantes a garras, e parece que vão nos agarrar e nos engolir. É tudo muito bem feito.

Outro ponto são os efeitos especiais. Mesmo para a época, são muito bons e convencem sem esforço. A primeira grande cena é justamente a primeira cena de transformação. É uma cena assumidamente sangrenta, com efeitos práticos muito bem executados. Desde a primeira vez que a vi, fiquei impressionado porque é realmente uma cena bem feita. Parece que de fato, o ator Stephen Rea está se transformando em lobo – uma transformação visceral, diga-se de passagem – arrancando sua pele, expondo seus músculos cobertos de sangue, enquanto seu rosto e seu corpo se modificam, até atingirem a forma completa de um lobo. A última cena de transformação também é excelente – inclusive, é a melhor cena do filme. Ao contrario da primeira, ela não possui litros de sangue, mas consegue ser mais violenta, devido à performance do ator Micha Bergese. Para os mais exigentes, talvez essas cenas pareçam falsas, mas, para mim, é exatamente o contrario. São muito melhores do que qualquer efeito digital de hoje.

O elenco é também um ponto a favor. Todos, sem exceção, entregam atuações muito boas e convincentes. Parece mesmo que aquelas pessoas são reais e vivem naquela época. Inclusive, alguns até entregam atuações que beiram ao cômico, como por exemplo, o ator que interpreta o garoto apaixonado por Rosaleen. Logo na sua primeira cena, no funeral, ele mostra a língua para a menina e leva um peteleco da mãe. É muito engraçada. O garoto é um completo palhaço, sempre tentando conquistar Rosaleen, seja por meio de presentes ou usando um passeio na floresta depois da missa. Mas suas investidas mostram-se fracassadas. Difícil assistir e não rir. Mas a melhor cena acontece quando ele chega correndo na vila, avisando que há um lobo nas redondezas. O pai da menina, assustado por não vê-la, dá-lhe uma surra, que se transforma em uma briga coletiva, com direito a socos, empurrões e banhos de água. Hilário. Difícil assistir e não dar risada.

Mas, apesar das atuações convincentes, quem rouba a cena são os veteranos Angela Landsbury e David Warner, que interpretam a avó e o pai de Rosaleen. Dona de uma respeitável carreira no cinema e o teatro, ela dá um show interpretando a Vovó, oscilando entre o cômico e o sério. De verdade. É a típica avó que cuida da netinha e lhe passa lições de vida, além de contar suas historias de feras que vivem na floresta. A melhor cena é quando ela o padre discutem no pátio da igreja após o mesmo atingi-la na cabeça com um galho que acabou de podar. Uma discussão muito engraçada, que fica melhor toda vez que revejo o filme. David Warner também não decepciona. Assim como Landsbury, ele também parece um pai verdadeiro, disposto a proteger e cuidar da família. E o melhor é que o ator convence muito como um típico pai de vilarejo do século XVIII. Na verdade, a atriz que interpreta a mãe de Rosaleen também convence.

No entanto, quem dá coração ao filme é a atriz Sarah Patterson, fazendo sua estreia no cinema. Ela entrega uma atuação espetacular. Sua Rosaleen é a própria imagem da inocência juvenil: ingênua, mas inteligente, ela vive em um mundo de fantasia, e não tem medo dos possíveis perigos que vivem na floresta, nem mesmo quando encontra o Caçador. Além disso, ela ficou perfeita na caracterização da Chapeuzinho Vermelho, fugindo da imagem clássica da personagem – loira de olhos azuis. Difícil dizer qual a melhor cena. Ao que parece, ela era muito mais jovem do que as outras atrizes que o diretor de elenco procurava, além do fato de que ela não poderia compreender os temas adultos presentes na narrativa. Mas o importante é que ela conseguiu entregar uma excelente atuação, e criou uma das melhores personagens do horror dos anos 80.

Além de ser um filme de lobisomens, A Companhia dos Lobos é também uma antologia. Mas não é típica antologia, que começa com a primeira historia e vai passando para as outras. Aqui, a antologia se desenrola por meio das historias que a Vovó conta para Rosaleen. E não são uma seguida da outra. Ocorre um período de tempo entre uma historia e outra, o que deixa o filme mais interessante, e às vezes, faz com que esqueçamos que estamos diante de uma antologia. E não é apenas a Vovó conta historias. Rosaleen também suas próprias historias para contar, e são tão assustadoras quanto as da Vovó. Difícil dizer qual a melhor, mas a minha favorita é a ultima, que acontece no final do filme.

E além de ser um filme de lobisomens e uma antologia, o filme também é uma historia de amadurecimento e despertar sexual, representados pela própria Rosaleen. É possível perceber o quanto ela amadurece durante o filme, seja por meio das historias de sua avó, seja por conta própria. É impressionante a transformação da personagem, de uma garotinha a uma adolescente prestes a descobrir o sexo. Um desses momentos acontece quando ela ouve os pais fazendo sexo à noite, e no dia seguinte questiona a mãe o que aconteceu entre eles. Não sei vocês, mas para mim, isso mostra o quão crescida a menina está. Mas sem duvida, o verdadeiro despertar acontece quando ela encontra o Caçador na casa da Vovó. Mesmo não contendo nada explicito – até porque não poderia – a sequencia é carregada de conteúdo erótico, representado pela figura sedutora do Caçador. Além disso, dá ênfase à historia original da Chapeuzinho, que diziam, era repleta de conteúdo adulto, envolvendo até pedofilia, canibalismo e zoofilia.

Mas nada disso impede A Companhia dos Lobos de ser um conto de fadas. Como já mencionado, o filme possui um aspecto de sonho e fantasia, que e chega até ser meio infantil. Um dos motivos é o fato de que foi todo filmado em estúdio, provavelmente pelo orçamento limitado. Mas nada disso é um defeito. Os cenários parecem verdadeiros e são muito bem feitos. Outra limitação orçamentaria é o fato de o diretor utilizar pastores-belga para simular os lobos, uma vez que o roteiro pedia a presença de mais lobos. Mas isso também não é um empecilho. Eu consigo imaginar aqueles cachorros como se fossem lobos, sem o menor problema, principalmente por causa da sua aparência. Lobos de verdade só aparecem algumas vezes no filme, e por poucos minutos. Mas como já disse, não faz a menor diferença; o importante é que convence muito bem e sem esforço.

E qual a minha cena favorita? Bom, não posso dizer, porque acontece no final do filme, então seria um spoiler. Só digo que é belíssima, e que servirá de inspiração para mim no futuro.

A Companhia dos Lobos foi lançado em Setembro de 1984, e foi recebido com criticas positivas, apesar de não ter tido uma boa bilheteria. Além de receber criticas positivas, o filme recebeu vários prêmios ao redor do mundo. No Brasil, foi lançado em Julho de 1987. Não sei se chegou a ser lançado em VHS por aqui, mas foi lançado em DVD, numa edição de banca. Atualmente, está fora de catálogo. Lá fora, já foi lançado em Blu-ray, em belíssima versão restaurada. 

Sobre o lançamento nos cinemas americanos, uma curiosidade: o filme foi distribuído pela Cannon Group, que o divulgou como um filme de terror, contraria à intenção do diretor Neil Jordan, que acreditava que tal intenção seria enganosa.

Conforme mencionei na resenha de Grito de Horror, A Companhia dos Lobos faz parte de uma “trilogia” de filmes de lobisomens lançados nos anos 80. Na verdade, outros exemplares do gênero também foram lançados nessa época, mas sem duvida, os mais memoráveis são: Grito de Horror, Um Lobisomem Americano em Londres e A Companhia dos Lobos, que em minha opinião, é o melhor deles.

Enfim, A Companhia dos Lobos é um filme belíssimo. Um filme de terror gótico com elementos de fantasia. Um dos melhores filmes de lobisomens de todos os tempos.

Maravilhoso.

Altamente recomendado.



"Little girls, this seems to say
Never stop upon your way
Never trust a stranger friend
No one knows how it will end
As you're pretty, so be wise
Wolves may lurk in every guise
Now as then, 'tis simple truth
Sweetest tongue has sharpest tooth."









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quarta-feira, 29 de maio de 2019

O HOMEM DE PALHA (1973). Dir.: Robin Hardy.


NOTA: 9


O HOMEM DE PALHA (1973)
Lançado em 1973, O HOMEM DE PALHA é um filme maravilhoso. Uma obra de horror com toques musicais, eróticos e de fantasia. Erroneamente considerado um filme da produtora Hammer, contou com dois astros do estúdio em seu elenco: Christopher Lee e Ingrid Pitt. Em diversas entrevistas, o astro considerava este o seu melhor filme. E não é pra menos.

Porém, antes de ser considerado um dos melhores filmes britânicos de todos os tempos, e o “Cidadão Kane dos filmes de horror”, esse filme teve uma historia conturbada, durante e após sua produção.

Tudo começou quando o roteirista Anthony Shaffer tinha interesse em contar uma historia envolvendo uma seita pagã, em especial os antigos druidas. Seu roteiro foi enviado à produtora British Lion, que demonstrou interesse em realiza-lo. No entanto, após o inicio das filmagens, os problemas começaram, na locação na Escócia. O filme foi rodado no inverno, então o elenco teve que se esforçar para se adaptar ao clima, principalmente quando envolvia cenas de nudez. O ator Edward Woodward enfrentou problemas na sequencia em que seu personagem é trancafiado no interior do Homem de Palha do título, sendo o maior deles ter sido “banhado” em urina de uma cabra que estava acima de sua cabeça. O baixo orçamento também foi um problema, tanto que o astro Christopher Lee não recebeu nenhum salario, fato esse que comentou sem pudores. E por fim, na distribuição, os problemas aumentaram, uma vez que a British Lion não demonstrou interesse em distribui-lo, após uma recepção negativa nas exibições-teste. O medo dos produtores foi tanto, que chegaram a pedir ao produtor Roger Corman para distribuir o filme nos Estados Unidos, o que também causou problemas, uma vez que não houve publicidade. E por fim, anos mais tarde, quando houve interesse por parte de Christopher Lee em recuperar as inúmeras cenas que foram cortadas, os negativos foram despachados e sumiram misteriosamente, o que deixou os envolvidos muito abalados.

Mas, apesar de seus inúmeros problemas, O Homem de Palha é um filme maravilhoso, com um clima de horror quase inexistente, fotografia inspirada e direção de arte também inspirada. Como já comentei antes, o filme é construído em slowburn, uma técnica que aprecio muito, e que faz falta hoje em dia.

O fato é que o filme consegue assustar sem fazer esforço, seja pela ambientação interiorana, a fotografia ou a direção de arte ou até mesmo pelas atuações, muitas delas a cargo de figurantes reais. São muitos os momentos que causam arrepios, sendo que os principais ficam no ultimo ato, quando ocorre o ritual de sacrifícios humanos que faz parte da religião dos habitantes da ilha.

Esse também é um ponto que merece destaque, porque, se por um lado, temos o oficial Howie, um religioso fervoroso, que procura sempre seguir os ensinamentos cristãos, do outro, temos os residentes daquela comunidade, com seus métodos nada ortodoxos, como por exemplo, a pratica de amor ao ar livre, ou ensinamentos sobre sexo para crianças ou então, o ritual das jovens de dançarem nuas ao ar livre. Tudo isso é visto com desaprovação pelo Sargento, que não tem pudores de expor suas crenças para aquelas pessoas, mesmo quando sua vida está em perigo. Esse é um dos pontos altos do filme, a religião cristã contra a religião pagã, e, conforme assisti ao filme, ficou claro qual lado iria vencer.

Olhando por esse lado, pode-se dizer que o Sargento Howie é o típico mocinho idealista, que enfrenta até a autoridade máxima para provar seu ponto de vista. Sinceramente, acho esse tipo de personagem desinteressante, por causa da forma como são desenvolvidos; mas aqui, não foi difícil torcer pelo Sargento, porque ele se mostrou determinado a cumprir suas duas missões.

Como mencionado acima, o filme possui de fato, momentos que assustam, sendo um deles, a sequencia em que o Sargento percorre a ilha de ponta a ponta para encontrar a menina desaparecida, em especial uma cena em que uma criança sai de dentro de um armário, e outra, ocorrida logo depois, quando ele encontra uma peça de ritual em sua cama. Cenas de causar calafrios. Além desses toques assustadores, o filme também é repleto de erotismo, como na já mencionada cena que um grupo de garotas dança em volta de uma fogueira – todas aparecem nuas – , ou então, quando Willow, a filha do dono da pousada onde Howie se hospeda, dança nua pelo quarto, numa tentativa de seduzir o policial. Willow foi interpretada pela atriz Britt Ekland, talvez mais conhecida por ter sido casada com o ator Peter Sellers – na época, eles já estavam divorciados. No ano seguinte, a atriz participou de The Man With the Golden Gun, no papel de Bond Girl, que também contou com a presença de Christopher Lee, no papel do vilão.

E além de seus momentos de horror, o filme também tem contornos musicais, seja numa rápida cena quando o sargento vai até a escola, descobrir se a menina desaparecida estudava lá, seja no ultimo ato, o do sacrifício, quando todos os habitantes da ilha dançam e cantam fantasiados, conforme a tradição. Essa é talvez, a sequencia mais bonita do filme, seja pela canção, seja pelo trabalho dos atores.

E claro, não poderia deixar de mencionar o astro Christopher Lee, aqui, conforme ele mesmo declarava, em seu melhor filme. Seu personagem, Lorde Summerisle, é o grande líder da comunidade. Todos ali seguem suas ordens com obediência quase cega, sem questionar suas decisões e autoridade. Não sei se o personagem pode ser considerado um vilão, coisa que o ator sabia interpretar muito bem, principalmente o Conde Drácula nos filmes da Hammer. Summerisle mostra-se prestativo na investigação do policial, um homem elegante, gentil e educado. E quando está junto dos residentes da ilha, nada disso desaparece, o que talvez, torne-o mais ameaçador. Este é sem, duvida, um dos melhores personagens do saudoso ator, que deixou sua marca no cinema de horror para sempre.

Enfim, O Homem de Palha é um filme maravilhoso. Uma produção envolta em mistério, fantasia, erotismo e terror. Um dos melhores filmes de horror de todos os tempos.



AVISO.

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