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sábado, 10 de fevereiro de 2024

OS ZUMBIS DE SUGAR HILL (1974). Dir.: Paul Maslansky.

 

NOTA: 8.5


Acredito que de todas as criaturas que supostamente não existem, o zumbi seja a única de que fato é real, visto que nas ilhas do Haiti existem relatos de pessoas que voltaram dos mortos, graças a um pó especial criado por alto-sacerdotes do vodu.

 

Desde que surgiram, foram poucos os filmes de zumbi que exploraram a origem haitiana da criatura. OS ZUMBIS DE SUGAR HILL é um dos exemplos que abordaram a origem real dos monstros.

 

Lançado em 1974, produzido pela American International Picture, este é um dos exemplares do blaxploitation são voltados para o terror. Conforme mencionei na resenha de Blácula, o blaxploitation foi um movimento cinematográfico voltado para o publico negro, com filmes produzidos e estrelados por negros, muitos deles voltados para o gênero de ação ou policial.

 

Sugar Hill vai pelo lado contrario, e foca principalmente no terror, apesar de conter alguns elementos de filmes de máfia também.

 

Eu digo que este é um dos meus filmes de zumbi favoritos, principalmente por causa da atmosfera e do visual dos zumbis. Eu me divirto com o filme a cada revisão e as cenas dos zumbis são arrepiantes.

 

Este é um filme muito bem feito, com uma ótima direção e um roteiro afiado, que aposta na temática do vodu sem nenhum medo ou tabu. As cenas que envolvem a religião haitiana são assustadoras, porque os cineastas conseguiram criar a atmosfera com realismo impressionante, algo também visto em A Maldição dos Mortos-Vivos (1988), do saudoso Wes Craven.

 

Mas no fundo, Sugar Hill é um filme de vingança, com a protagonista resolvendo se vingar dos gangsteres que mataram seu namorado; no entanto, ao invés que utilizar métodos convencionais, Sugar recorre a uma feiticeira vodu e ao Barão Samedi – figura presente nas lendas vodu – e a um exercito de zumbis para executar sua vingança, executando os capangas do vilão com requintes de crueldade.

 

O vilão é interpretado pelo ator Robert Quarry, figura conhecida nos filmes da A.I.P, famoso por seu papel nos filmes do Conde Yorga. Eu confesso que, mesmo adorando ver o ator em outros papeis, eu gosto muito mais da interpretação de Quarry como o Conde Yorga. Seu personagem é muito bom, e não se importa com ninguém a não ser consigo mesmo. E a vingança de Sugar contra ele é feita quase como uma vingança de videogame, com os zumbis matando seus capangas até chegar a ele – eu não jogo videogame, então estou usando uma metáfora que ouvi anteriormente.

 

Mas, na minha opinião, o melhor do filme são os zumbis. Não sei como estava o cinema de zumbis naquela época, mas aqui, temos um dos melhores visuais dos monstros. Eles estão cobertos de teias de aranha, com os corpos pintados de branco e olhos vidrados. E como todo zumbi que se preze, eles se levantam de seus túmulos do cemitério. O visual deles é arrepiante e provoca calafrios sempre que eles aparecem.

 

Além do visual maravilhoso dos zumbis, o filme também passa uma sensação de calor, principalmente nas cenas externas; é possível sentir o suor dos personagens e quase sentimos calor junto com eles.

 

Conforme mencionado acima, Sugar Hill invoca o Barão Samedi, uma figura conhecida na religião vodu. Ao que parece, o personagem é muito poderoso e é utilizado por alto-sacerdotes da religião. O personagem aparentemente apareceu em um filme do James Bond e deve ter servido de inspiração para o vilão da animação A Princesa e o Sapo da Disney.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Zumbis no Cinema 3, em versão restaurada com um depoimento do diretor como extra.

 

Enfim, Os Zumbis de Sugar Hill é um filme muito bom. Um filme de zumbis muito criativo e assustador, com uma direção inspirada e um roteiro muito bem construído, aliado a um elenco afiado. Os zumbis são a melhor coisa do filme, com seu visual arrepiante que provoca calafrios. Um exemplar do gênero terror do movimento blaxploitation. Um dos meus filmes de zumbis favoritos. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

A CRIPTA DOS SONHOS (1973). Dir.: Roy Ward Baker.

 

NOTA: 8.5


Desde sua fundação, em 1962, a Amicus tornou-se um dos maiores estúdios de cinema britânicos de todos os tempos, rivalizando com a Hammer Films. Porém, ao contrário da Hammer, o estúdio tornou-se especialista em produzir antologias de horror, apesar de lançar outros filmes, a maioria voltados para o horror. Ao total, foram sete antologias, todas maravilhosas.

 

Em 1973, o estúdio lançou A CRIPTA DOS SONHOS, dirigida por Roy Ward Baker, com roteiro baseado em histórias publicadas nos quadrinhos da EC Comics.

 

Eu vou dizer logo de cara que esta é uma das que eu mais gosto, e sempre divirto com ela toda vez que assisto, e isso se deve principalmente aos segmentos apresentados aqui. Ao todo, são cinco histórias curtas, contadas por cada um dos personagens que entraram em um elevador e se depararam com uma espécie de clube no subsolo do prédio.

 

Midnight Mess: Um homem contrata um investigador para encontrar sua irmã, e após saber de seu paradeiro, mata o detetive e pega seu dinheiro. Ao chegar no vilarejo onde a irmã está morando, ele acaba descobrindo algo terrível sobre o lugar quando a noite cai.

 

The Neat Job: Um homem com mania de limpeza e organização se casa e tenta fazer sua esposa se adaptar à nova vida e às suas regras. No entanto, um dia, enquanto o marido está fora, a mulher acaba provocando uma confusão na casa e é surpreendida por ele.

 

This Trick’ll Kill You: Um casal de mágicos está de viagem na Índia e se depara com os truques de um faquir. Rapidamente, o homem revela os segredos por trás dos truques do faquir, humilhando-o. Dias depois, o mesmo homem se depara com um novo truque e decide mostra-lo a sua esposa, não imaginando as consequências.

 

Bargain in Death: Um homem decide se fingir de morto para obter o dinheiro do seguro, e para isso, pede ajuda a um amigo. O mesmo homem é enterrado no cemitério e aguarda o amigo, mas não imagina que dois estudantes de Medicina decidem utilizar seu corpo a fim de passar nas provas.

 

Drawn and Quartered: Um artista descobre que foi enganado por críticos e decide se vingar utilizando os poderes do vodu. Ao retornar à Londres, ele começa a pôr seu plano em pratica, mas não dá conta das consequências que o vodu trará para si mesmo.

 

E temos aqui mais uma antologia básica, com começo, meio e fim, e interlúdios.

 

O filme foi dirigido por Roy Ward Baker, um nome conhecido no horror inglês, tendo participado de produções voltadas ao gênero tanto na Amicus quanto na Hammer, “rival” desta primeira.

 

Devo dizer que Baker fez um bom trabalho aqui, principalmente em se tratando dos segmentos. Cada um é diferente à sua maneira, e parece que o diretor empregou diferentes estilos ao dirigi-las, algo que se tornaria comum nas antologias posteriores, principalmente aqueles dirigidas por mais de uma pessoa.

 

A Cripta é mais uma das sete antologias produzidas pela Amicus, entre os anos de 1965 e 1974, e meio que se tornaram a marca registrada do estúdio, além do fato de produzirem filmes principalmente contemporâneos – poucos são os filmes produzidos por eles que não são. O que todas essas antologias têm em comum é o fato de possuírem de quatro a cinco segmentos, serem dirigidos pela mesma pessoa, e possuírem um elenco em sua maioria estelar.

 

Aqui temos a presença de alguns nomes reconhecíveis, sem apelar para grandes astros, como Peter Cushing, Joan Collins, Christopher Lee, ou Ingrid Pitt, que trabalharam em produções anteriores do estúdio. No time de coadjuvantes, temos o ator Denholm Elliott, que participou de A Casa que Pingava Sangue (1971), e da trilogia Indiana Jones. E temos também um ou dois nomes reconhecíveis do cinema inglês fazendo pequenas participações.

 

Além de contar com nomes reconhecidos no elenco, boa parte dessas antologias contavam com histórias inspiradas nos quadrinhos da EC Comics, as séries Tales from the Crypt e Vault of Horror. Sempre que eu assisto à esta ou à outra antologia cujas bases são essas series, eu sempre penso como elas deviam ser contadas nos quadrinhos, visto que é uma mídia diferente, com suas próprias regras e limitações.

 

Vale lembrar também que este é um filme que era produto de sua época, e isso pode ser exemplificado pelo terceiro segmento, cujo cenário é a Índia e, com exceção do ator que interpretou o faquir, não temos quase nenhum ator indiano no elenco, algo que não seria visto com bons olhos hoje em dia.

 

Como toda antologia, temos aqui também aquelas histórias que não são tão boas, algo comum no gênero. Eu pessoalmente não gosto muito do segundo segmento, porque, mesmo apresentando um caso sério de um personagem com manias, eu sempre acho que a conclusão acaba levando para o exagero, visto que a esposa do protagonista destrói toda a casa porque tem medo do que ele pode fazer quando descobrir que ela sujou uma cômoda. Não sei se isso de fato acontece na vida real, mas eu tenho a impressão que é um pouco de exagero. O quarto segmento também é um pouco fraquinho, visto que puxa mais para o humor negro do que para o terror. O meu favorito é o primeiro segmento; e gosto também dos demais.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Obras-Primas do Cinema na coleção Amicus Productions, em versão remasterizada sem cortes.

 

Enfim, A Cripta dos Sonhos é uma das melhores antologias da Amicus Productions. Um filme arrepiante, com clima de nostalgia. Cada uma das histórias é macabra por si mesma, o que o torna ainda melhor a cada revisão. Os mais diversos assuntos relacionados ao terror, abordados de forma simples, mas eficiente, aliados a atuações convincentes e uma direção e roteiro experientes. Sem dúvida, um dos melhores exemplos do cinema britânico de horror, e uma das melhores antologias do cinema. Macabro. Divertido. Arrepiante.


Créditos: Obras-Primas do Cinema.

 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

AS PROFECIAS DO DR. TERROR (1965). Dir.: Freddie Francis.

 

NOTA: 8.5 



Desde sua fundação, em 1962, a Amicus tornou-se um dos maiores estúdios de cinema britânicos de todos os tempos, rivalizando com a Hammer Films. Porém, ao contrário da Hammer, o estúdio tornou-se especialista em produzir antologias de horror, apesar de lançar outros filmes, a maioria voltados para o horror. Ao total, foram sete antologias, todas maravilhosas.

 

AS PROFECIAS DO DR. TERROR foi a primeira delas. Lançado em 1965, foi dirigido por Freddie Francis, e estrelado por Peter Cushing, Christopher Lee e Donald Sutherland. O estúdio se inspirou no Clássico Na Solidão da Noite (1945), a primeira antologia lançada nos cinemas. Dr. Terror é uma das melhores antologias da Amicus e uma das minhas favoritas, e como todo exemplar do gênero, é composto por pequenas histórias, aqui, contadas pelo personagem título, interpretado por Cushing.

 

A primeira, Werewolf, fala sobre um arquiteto que retorna para a antiga casa de sua família, a fim de realizar reformas para o novo proprietário. Durante a reforma, ele descobre o tumulo de um antigo lobisomem, que acreditava estar desaparecido. Quando o lobisomem retorna, o arquiteto precisa correr para enfrenta-lo, antes que ele mate novamente. No entanto, o que ele não imagina é que outro lobisomem está mais próximo do que ele pensa.

 

Na segunda história, Creeping Vine, uma família retorna para sua casa após um período de férias. Rapidamente, o marido descobre que uma trepadeira está agindo de forma estranha, atacando a todos ao seu redor. Ele então recorre aos cientistas para descobrir o que está acontecendo. Quando um deles é morto pela trepadeira, a família se vê presa em sua própria casa, talvez sem a possibilidade de fuga.

 

Em Voodoo, um músico viaja com sua banda até as Antilhas, a fim de fazer um show num clube local. Após o show, o trompetista descobre a respeito de um deus local, e movido pela curiosidade, decide assistir a uma cerimônia, e acaba fascinado pela música tribal, e decide se apropriar dela, apesar dos avisos dos sacerdotes. Durante uma apresentação em Londres, coisas estranhas acontecem no clube, mas o músico não se intimida. No entanto, ele acaba descobrindo as consequências de seu ato.

 

Na história seguinte, Disembodied Hand, um severo crítico de artes é humilhado por um artista durante uma exposição. Tomado pelo ódio, ele o atropela, causando a perda de sua mão, levando-o a depressão e ao suicídio. Porém, o crítico passa a ser perseguido pela mão decepada do artista, o que traz consequências desastrosas.

 

A última história, Vampire, é sobre um médico recém-casado que retorna a Nova Inglaterra com sua esposa. No início, as coisas ocorrem bem, mas, logo um garotinho surge no consultório com estranhas marcas no pescoço, chamando a atenção de outro médico. Nas noites seguintes, novas coisas estranhas acontecem, levando o segundo médico a chegar a uma conclusão: o rapaz se casou com uma vampira. Hesitante, ele decide matá-la, mas não imagina as consequências terríveis de seu ato.

 

Uma antologia básica, não é mesmo? Com histórias curtas, com poucos personagens e que vão direto ao ponto, certo? Isso mesmo. Mas, o que faz desse um filme muito bom é a sua execução. Dr. Terror é um filme muito bem feito, com ótimos atores, um roteiro direto, e momentos verdadeiramente arrepiantes. É aquele tipo de filme que, mesmo sendo simples, consegue alcançar seu objetivo, e o faz muito bem.

 

Eu gosto muito desse tipo de filme, que faz uso de coisas e cenas simples para assustar o espectador, e a Amicus faz isso muito bem. Além disso, mesmo sendo dirigido por um único diretor, cada história apresenta um aspecto diferente, o que deixa o filme ainda mais atraente, e melhor a cada revisão. O diretor Freddie Francis conseguiu criar um filme digno de nota, colorido, divertido e assustador. O diretor é um antigo colaborador da casa, tendo sido responsável pela direção de A Maldição da Caveira (1965), As Torturas do Dr. Diabolo (1967), Contos do Além (1972), As Bonecas da Morte (1966), entre outros filmes do estúdio, além de ser o responsável por Drácula – O Perfil do Diabo (1968) e O Monstro de Frankenstein (1964), da Hammer. Um especialista no gênero.

 

Eu sou um admirador de antologias, justamente por conta da simplicidade. São filmes de longa-metragem, mas que contam com histórias curtas, com poucos personagens, e que conseguem contar muito mais do que um filme próprio. E tudo era feito da forma mais simples, mas real possível, capaz de prender a atenção do espectador, e assustá-lo sem fazer muito esforço. E o mais interessante, é que cada história parece transitar em gêneros diversos, apesar do filme como um todo ser um filme de terror, o que também é muito comum nas antologias, principalmente nas antologias que eu já vi.

 

E claro, contavam com um grande elenco. Aqui, nós temos a dupla de cavalheiros do terror, Christopher Lee e Peter Cushing, além de Michael Gough, e Donald Sutherland, e cada um tem seu próprio mérito, principalmente Cushing, que entrega uma performance arrepiante como o Dr. Terror, o vidente que prevê o futuro dos quatro homens dentro da cabine, futuros terríveis, diga-se de passagem. Dos quatro personagens, o melhor é o Sr. Marsh, o crítico de arte interpretado por Lee, arrogante e cético até o ultimo fio de cabelo, até mesmo quando tem seu futuro revelado pelo doutor. Os outros personagens também são muito bons, cada um com sua peculiaridade.

 

E as histórias? As histórias também são muito boas, cada uma a sua maneira. Como é de praxe nas antologias, temos histórias assustadoras e quase sempre uma história absurda, e aqui não é diferente. As minhas favoritas são a primeira e a última, que falam sobre lobisomens e vampiros, respectivamente. E como acabei de dizer, tudo feito de maneira simples e rápida, mas eficiente.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Obras-Primas do Cinema, na coleção Amicus Productions – Vol.2, em versão remasterizada.

 

Enfim, As Profecias do Dr. Terror é um filme muito bom, que consegue assustar o espectador sem esforço. Uma das melhores antologias de terror, produzidas de maneira simples, mas eficiente, que conta uma ótima direção e um elenco de estrelas. Um clássico da Amicus Productions e um de seus melhores filmes. Altamente recomendado. 


Créditos: Obras-Primas do Cinema


Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


quinta-feira, 8 de agosto de 2019

OS MORTOS-VIVOS (1981). Dir.: Gary A. Sherman.


AVISO!

ESSA RESENHA CONTÉM SPOILERS!


NOTA: 10


OS MORTOS-VIVOS (1981)
OS MORTOS VIVOS (1981) é um filme excelente. Original, assustador, impressionante e com um final de cair o queixo.

Esse é sem duvida, um dos melhores filmes de terror que já tive o prazer de assistir. Já tinha conhecimento de sua existência graças a uma resenha publicada no site Boca do Inferno, e já de cara, fiquei curioso, porque o que mais me chamou a atenção, era o fato de que o filme tinha um final surpresa. E é verdade. Na primeira vez que eu vi, fiquei chocado. Não me lembrava de ter visto um final tão soco no estomago como o apresentado nesse filme – acho que nem os finais do Shyamalan são tão pesados.

É o tipo de filme que não deve, em hipótese alguma, ser visto pela metade. É necessário assisti-lo desde o começo para entender o que está acontecendo, porque os primeiros sinais de mistério surgem logo depois da sequencia de abertura. E depois que surgem, não param mais. É uma surpresa atrás da outra, o que impede o espectador de parar para respirar. É sério.

O roteiro, escrito por Ronald Shussett e Dan O’Bannon - os criadores de Alien (1979) - é perfeito, redondo e muito bem amarrado. Não existe nenhuma falha na narrativa, e tudo acontece do jeito certo. E como já disse, não poupa o espectador. Porém, o maior problema do filme é o fato de que não dá para falar sobre ele sem entregar spoilers – tentarei fazer isso aqui, mas não prometo nada! É tanta coisa que pega o espectador de surpresa, que fica difícil não entregar pelo menos uma. Talvez, o máximo que pode ser dito é que é um filme de zumbis. Talvez, e olhe lá, difícil dizer mais sem estragar a surpresa.

Bom, além de ser um filme inteligente, é um filme assustador, com imagens que já tornaram-se antológicas – mais sobre isso adiante. É um filme assustador porque existem cenas que fazem qualquer um pular da cadeira, sem esforço. Elas surgem no momento mais inesperado, com uma trilha sonora alta, digna de provocar medo – quase um jump scare, mas um jump scare muito bem feito, diga-se. Esses jump-scares acontecem nas cenas de assassinato, e olhe, que cenas de assassinato. Ao contrario dos Slashers que estavam em vigor na época, aqui nós temos cenas verdadeiramente pesadas, violentas, cruéis: gargantas cortadas, rostos desfigurados e derretidos e membros decepados. Tudo feito de maneira brilhante, realista, até, digna de causar arrepios. Mas claro que as cenas assustadoras não se resumem apenas às cenas de assassinato. Existem também momentos em que o simples olhar de um personagem é assustador; até porque, aquelas pessoas são, de fato, assustadoras e bizarras. E o medo também acontece na forma como tais cenas são construídas: aos poucos, sem pressa, tudo para deixar o espectador mais assustado. E consegue.

O protagonista, o xerife Dan Gillis, é o típico personagem de bom coração de filmes assim. Autoridade na pequena cidade, ele mostra-se um homem que quer, a todo custo, desvendar os crimes que estão acontecendo, sempre confiando na razão e não em forças sobrenaturais. Sua esposa, Janet, é professora na escola local, e a típica esposa apaixonada e devotada ao marido, sempre preparando seu jantar quando ele chega em casa depois do trabalho. Juntos, eles formam um casal simpático, talvez, um casal de mocinhos, mas a coisa não é bem assim. Agora, o personagem mais sinistro é o Sr. Dobbs, o agente funerário. Um velhinho alto, magro, de óculos grandes, que sempre ouve musicas antigas enquanto trabalha. Dobbs é obcecado pelo trabalho. Mas não é o tipo de obsessão boa, não. Seu trabalho na funerária é o de reconstruir os corpos que recebe; e sempre faz o serviço com um sorriso maléfico no rosto, referindo-se a eles como “obras-primas” depois de concluídos. Um sujeito sinistro, no mínimo. Os outros personagens também não ficam atrás. Temos os pescadores, a garçonete, o frentista, o homem do guincho... Todos sinistros.

Como mencionado acima, Os Mortos-Vivos pode ser considerado um filme de zumbis. Mas não espere aqueles zumbis que arrastam os pés, que andam com os braços estendidos, não. Aqui, os zumbis são quem a gente menos espera. E o melhor, o roteiro não dá uma explicação para o que está acontecendo na cidade, e, francamente, para mim, isso não importa. É como o tal conteúdo da mala do Pulp Fiction (1994). A gente nunca sabe o que tem lá dentro, porque não é mostrado, e não faz a menor diferença. Aqui, é a mesma coisa. O máximo que o roteiro faz, é apresentar uma frase presente num livro sobre bruxaria, que diz como os mortos podem ser trazidos de volta, e só. Não precisa de mais nada.

Como em todo filme de zumbis, os efeitos especiais são destaque. E não é pra menos. O responsável por eles foi o saudoso Stan Winston, em inicio de carreira. Como ele mesmo declarou, ele fez tudo sozinho, até porque, o hoje famoso Stan Winston Studio não existia, então, ele teve que arregaçar as mangas. E conseguiu fazer coisas extraordinárias. A melhor, sem dúvida, é o corpo da primeira vitima, com o rosto todo enfaixado, somente com um olho e a boca à mostra. Uma imagem perfeita, que mesmo presente por poucos segundos, já fica na memória. E a cena da agulha também. Segundo Winston, tudo presente naquela cena é um efeito especial, até mesmo o corpo enfaixado. E o resultado é de causar frio na espinha. A outra grande cena, é a cena da reconstrução facial. Winston também fez tudo aquilo sozinho, e o resultado também é de cair o queixo, tanto que ele declarou que foi o efeito que mais o deixou orgulhoso. Nada mal para o homem que se tornou responsável pelas maiores criaturas do cinema de fantasia atual, como os dinossauros da trilogia Jurassic Park, o Pinguim de Batman – O Retorno, O Exterminador do Futuro e Edward Mãos-de-Tesoura, por exemplo. Stan Winston faleceu em 15/jun/2008.

Além dos excelentes efeitos especiais, o filme também é cheio de cenas memoráveis, além das já mencionadas. Outra que merece destaque é quando uma multidão está caminhando em direção ao carro de uma família em apuros. É uma cena brilhante, escura, onde não vemos os rostos das pessoas, apenas as silhuetas, e somente uma luz iluminando as pessoas por trás. Sem duvida, uma cena apavorante. Outra – e foi essa que me surpreendeu primeiro – acontece antes, quando o frentista, que estava de costas, vira-se para a câmera e mostra seu rosto: a revelação é chocante, e como eu disse, foi a que me surpreendeu primeiro. E por ultimo, destaco aquela em que todos colocam flores no tumulo da esposa do xerife, no final do filme. Macabra e muito bem feita.

Os aspectos técnicos também não ficam atrás. Vou destacar a fotografia. Sem duvida, o melhor momento acontece acima, mas existem outras cenas onde o diretor de fotografia fez um ótimo trabalho. Posso estar enganado, mas acho que ele fez uso de luz natural em algumas cenas, principalmente na cena do hotel, e nas cenas noturnas. Todas são muito bem feitas, bem montadas, dirigidas e atuadas. Os atores também não fazem feio. Em momento nenhum, eles mostram-se exagerados ou caricatos; pelo contrário, dá pra imaginá-los como pessoas reais, principalmente o xerife Gillis. Quando ele faz a descoberta chocante no final do filme, as expressões de medo e descrença em seu rosto são verdadeiras. A cena em que ele confronta Dobbs e a esposa é brilhante e muito pesada.

Os Mortos-Vivos foi rodado na cidade de Mendocino, na Califonia. Não sei se a ideia era de que a historia se passasse na Nova Inglaterra, mas o fato é que isso não atrapalha em nada. A locação é belíssima, com sua atmosfera de cidade pequena, costeira, uma verdadeira comunidade de pescadores. Anteriormente, a cidade foi usada como locação em O Altar do Diabo (1970), de Daniel Haller, baseado em O Horror de Dunwich, de H.P. Lovecraft.

Como mencionado acima, o roteiro foi escrito por Ronald Shussett e Dan O’Bannon, e foi vendido como “from the creators of Alien”, inclusive nos trailers. No entanto, O’Bannon declarou que Shussett escreveu o roteiro sozinho, e apenas colocou seu nome no projeto com a promessa de que isso aumentariam suas chances. Porém, ao perceber que suas ideias não foram incluídas, O’Bannon pediu que seu nome fosse removido do projeto, mas isso não aconteceu.

O filme não fez muito dinheiro nas bilheterias, mas o trabalho de Winston foi bastante elogiado; porém, o filme acabou parando na famigerada lista dos “Vídeo Nasties” britânica em 1990 com 30 segundos de cortes – foi lançado sem cortes apenas em 1999. Hoje em dia, o filme possui uma aura cult e é considerado um dos melhores filmes de terror dos anos 80.

O filme chegou a ser lançado em DVD no Brasil há alguns anos, – não sei se saiu em VHS – mas, hoje em dia, está fora de catálogo.

Enfim, Os Mortos-Vivos é um filme excelente. Uma historia fascinante e assustadora. Um filme inteligente e cheio de surpresas. Um pequeno clássico do terror dos anos 80. Brilhante.

Altamente recomendado.










Agradecimentos: Site "Boca do Inferno".


sábado, 20 de julho de 2019

ZOMBIE (1979). Dir.: Lucio Fulci.


NOTA: 10



ZOMBIE (1979)
ZOMBIE (1979) é a Obra Máxima de Lucio Fulci, o Padrinho do Gore. Mais do que isso, é um filme que merece destaque em todas as listas dos maiores filmes de zumbi de todos os tempos.

Zombie é excelente, sem duvida, um dos melhores do gênero. É difícil dizer qual o melhor momento, mas o fato é que, quando o terror começa, não poupa ninguém.

Como já mencionei anteriormente, desde que resolveu se aventurar no terror, Fulci mostrou-se um mestre no gênero, e neste filme, ele mostrou toda sua força. Isso é fato.

Se parar pra pensar, o filme apresenta uma historia simples, até, mas é nessa simplicidade que está o brilhantismo. Fulci conseguiu fazer coisas espetaculares, dignas de estudo, não só do gênero de horror, mas do cinema em geral. O diretor mostra-se um mestre com a câmera, e seus enquadramentos são maravilhosos, desde a primeira cena.

Não apenas a direção de Fulci merece destaque, como também a edição de Vincenzo Tomassi. Novamente, desde a primeira cena, o filme é um primor, e nesse caso, também não é diferente. Tomassi conseguiu editar as cenas aéreas do veleiro em Nova York muito bem, intercalando com tomadas mais fechadas, e isso continua conforme a cena avança, culminando em um dos momentos mais memoráveis do filme, o surgimento do primeiro zumbi. Já vi muitas sequencias de abertura bem feitas antes, e com certeza, essa é uma delas.

A trilha sonora, composta por Fabio Frizzi e Giorgio Tucci também merece ser mencionada. Em alguns momentos, o tema musical é um tanto diferente para um filme do gênero; na verdade, parece de filme de ação; no entanto, quando surgem os tambores, aí a coisa muda de figura. O tema causa calafrios na espinha, e não fica cansativo; o mesmo vale para os outros temas musicais. É também o tipo de musica que fica na nossa cabeça, e quando toca, rapidamente, nos lembramos do filme.

E claro, como em todo filme de terror, a ambientação contribui. A ilha de Matul é um lugar abandonado, às moscas mesmo. As casas dos nativos estão caindo aos pedaços; pedaços de troncos estão espalhados; caranguejos andam pelas ruas, enfim... o cenário de um apocalipse. Mas de todos, o mais impressionante é a velha igreja, convertida em hospital. O lugar não passa a sensação de conforto, pelo contrario, chega a ser pior que o próprio vilarejo. O engraçado é que a casa do Dr. Menard é toda arrumada, localizada numa parte bacana da ilha... Detalhes que não merecem explicação, conforme mencionarei adiante. O fato é que o aspecto abandonado da ilha contradiz contra a beleza da cidade de Nova York, mostrada no inicio do filme.

Sendo cria do cinema de horror italiano, Zombie contem cenas absurdas, e a melhor delas, sem duvida, é a cena de luta entre um zumbi e um tubarão. Não sei da onde os roteiristas tiraram essa ideia, mas o fato é que é uma cena bem legal de se ver, além de ser visualmente bem filmada. A cena foi filmada por Ramon Bravo, autor e cinegrafista mexicano, que em 1977, foi responsável pelas cenas submarinas de Tintorera, do diretor René Cardona Jr. Como fizera na cópia mexicana de Tubarão, Bravo executou um excelente trabalho, que chega a ser convidativo até. O mesmo vale para a cena de luta entre o zumbi e o tubarão. O zumbi foi interpretado pelo próprio Bravo, que também foi o treinador do tubarão. Isso explica talvez a naturalidade da cena. Sem dúvida, é uma das cenas mais memoráveis do filme. E existe outra, talvez a mais absurda, mas, na minha opinião, não afeta em nada o filme.

Claro, não posso deixar de mencionar os zumbis. Criados pelo Maestro Gianneto de Rossi, esses são os melhores zumbis que já apareceram em um filme. Falo de zumbis putrefatos, com vermes saindo dos buracos dos olhos, andando devagar, com gosma branca e verde escorrendo da boca, roupas maltrapilhas... Enfim, um trabalho de gênio. Talvez, para os mais exigentes, possa parecer estranho que estejam tão bem assim, até porque, são corpos de conquistadores espanhóis do século XVI, mas, pessoalmente, eu não ligo pra isso. Os zumbis são excelentes, e ponto. Difícil dizer qual o mais assustador, mas o melhor é o que ilustra o pôster do filme, e que arranca a garganta de uma das personagens a dentadas. Uma cena brilhante, tanto pela construção, como pelos efeitos de maquiagem. Sério, de Rossi faz um trabalho espetacular, que compete até com os efeitos criados por Tom Savini nos filmes do saudoso George A. Romero. Além dos zumbis, de Rossi nos presenteia com corpos despedaçados, tripas expostas, mordidas e tiros de cair o queixo. Mas, o melhor fica para a cena da lasca. Conforme mostraria no futuro, Fulci tinha “fetiche” por olhos, e na cena da lasca, ele dá uma amostra do seu poder. É uma cena construída lentamente, de forma que o espectador fica tentado a acompanhar, mas ao mesmo tempo, quer tapar os olhos, porque imagina que o final não vai ser bom. E não vai ser bom, mesmo. Uma cena brilhante, inesquecível.

O filme foi escrito por Dardano Sachetti – não creditado – e Elisa Briganti, e como mencionado acima, é brilhante. Não existem falhas na historia, nem furos de roteiro. A única pista dada, mesmo sutilmente, é que os zumbis são trazidos de volta graças ao vodu, o que difere dos zumbis criados por Romero, que voltam graças à radiação. Aqui, os roteiristas aproveitaram a origem dos monstros, que eram trazidos de volta graças à um feitiço vodu, e eram usados para trabalhar em lavouras e plantações. Claro que aqui não é isso que acontece. Os zumbis voltam famintos por carne e a carnificina é grande.

O filme também marca o inicio da parceria entre Fulci e o produtor Fabrizio de Angelis, que trabalhariam juntos em toda a grande fase do diretor. De Angelis, conforme ele mesmo relata, demonstrou interesse em trabalhar com Fulci, mesmo sabendo de seu temperamento; ele também descreveu a rotina de filmagens como tranquila, com todos se relacionando bem entre si, e também como foi gravar a famigerada e até hoje comentada última cena. De Angelis também declarou que ele foi o responsável por vender o filme para os Estados Unidos, conforme era feito naquela época: o produtor negociava com a distribuidora americana, e vendia o filme, por meio de um resumo da historia ou às vezes, apenas pelo titulo. E também, segundo o próprio, ele e a equipe forma processados por Dario Argento, por lançarem o filme com o título Zumbi 2, como se fosse uma continuação do Clássico O Despertar dos Mortos, que Argento produziu junto com Romero no ano anterior. Mas isso acabou resolvido.

Não sei se chegou a ser lançado em VHS por aqui, mas chegou a ser lançado em DVD há alguns anos; mas, mesmo assim, permaneceu raro, até que foi finalmente lançado em DVD, em excelente versão restaurada sem cortes, pela Versátil Home Vídeo, na maravilhosa coleção Zumbis no Cinema Vol.3.

Recentemente, ganhou uma também excelente versão restaurada em 4k, lançada em Bluray pela Blue Underground, que já lançara o filme anteriormente. Essa versão restaurada vem acompanhada com três modelos de capa, todos muito bem feitos.

Zombie é considerado um dos Filmes Mais Assustadores de todos os tempos, ocupando a 98ª posição na lista do Bravo’s 100 Scariest Movie Moments, e a 41ª posição na lista dos 100 Filmes Mais Assustadores da História, criada pela extinta Revista SET em 2009.

Enfim, Zombie é um Clássico. Um dos maiores filmes de zumbis de todos os tempos. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos. A obra máxima de Lucio Fulci. Clássico absoluto, obrigatório.

Altamente recomendado.




Créditos: Versátil Home Vídeo



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