segunda-feira, 2 de novembro de 2020

NOSFERATU (1922). Dir.: F.W. Murnau.

 

NOTA: 10



Desde que sua publicação, no final do século XIX, Drácula, do autor Bram Stoker, tornou-se um sucesso. Na virada do século XX, a obra passou a ser adaptada para o cinema, por vários cineastas, ao longo dos anos. Foram mais de 200 adaptações, entre elas, clássicos absolutos, produções medianas, produções trash e grandes bombas. A primeira adaptação surgiu em 1920, em um filme húngaro chamado A Morte de Drácula. Infelizmente, não sabemos quase nada a respeito desse filme, porque ele foi perdido. Então, eis que, em 1922, surgiu aquela que é considerada a primeira adaptação oficial do livro de Bram Stoker: NOSFERATU, dirigido por F.W. Murnau. 

 

Nosferatu é um Clássico do Cinema, não apenas do cinema de horror. É um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, e até hoje, mantém o seu poder de causar calafrios no espectador. Lançado no auge do Expressionismo Alemão, o filme é um dos maiores representantes do movimento; o maior ainda é O Gabinete do Dr. Caligari, lançado dois anos antes. O Expressionismo Alemão foi um estilo de cinema que surgiu nos anos 20, cuja maior caraterística eram as imagens distorcidas, geralmente de personagens e cenários, graças ao uso de recursos cinematográficos e maquiagem. Além do filme de Murnau e de Caligari, o movimento teve outros grandes exemplares, como Metrópolis (1927), de Fritz Lang, considerado um marco no cinema de ficção cientifica.

 

Mas não é apenas seu papel no movimento que faz de Nosferatu uma obra atemporal. Ele também foi o responsável pela introdução do cinema de terror gótico, apresentando algumas das características que se tornariam marcas no gênero, como por exemplo, portas que se abrem sozinhas, o castelo no alto da colina, a própria ambientação, com teias de aranha, e cortinas esvoaçantes. Tudo o que conhecemos do terror, pode-se dizer que surgiu com o filme de Murnau, apesar de eu não ter 100% de certeza a respeito disso.

 

Bom, o fato é que o filme é, sim, muito assustador. Desde o momento em que o Conde Orlok, interpreto por Max Schreck, surge, já sentimos um calafrio na espinha, principalmente por causa de sua aparência – mais sobre isso adiante. E o terror não para. Vale lembrar que o filme foi lançado numa época em que o cinema de terror era mais artístico, com toques belos, que conseguiam assustar, muito diferente do que vemos atualmente. Nosferatu é um exemplo. Não há dúvida que o filme é belíssimo. A fotografia é um dos principais fatores, e deu ao filme um ar de mistério e fantasia, que passou a ser copiado por diversos cineastas nas décadas seguintes.

 

A direção de Murnau é excelente. O diretor conseguiu criar cenas belíssimas com os recursos que tinha à disposição, e, praticamente com uma única câmera, devido a questões de orçamento. Graças a isso, o filme é repleto de cenas memoráveis, desde o começo, quando Hutter e sua esposa se abraçam apaixonadamente, passando pelas cenas no castelo, a cena na praia, e a famosa cena das sombras de Orlok nas escadas.

 

E o medo está presente, principalmente após a chegada do vampiro a Wisborg. Não sabemos o que ele vai fazer, mas ficamos apreensivos, e não conseguimos tirar os olhos da tela. Tudo isso acompanhado às cenas da esposa de Hutter angustiada, esperando que o marido volte para casa. E a coisa fica ainda pior, uma vez que a chegada do vampiro é acompanhada pela chegada da Peste, o que obriga dos cidadãos a ficarem trancados em casa. Ou seja, não há escapatória. O vampiro é imbatível e está disposto a dizimar a população da cidade. Uma coisa realmente assustadora.

 

Além da fotografia, o filme também foi inovador pelo fato de ser o primeiro filme rodado em locação. O filme teve locações na Alemanha, principalmente na cidade de Wismar, além de locações em Lauenburg, Rostock e em Sylt. Outras locações foram nos próprios Montes Cárpatos, principalmente no Castelo de Orava, e também em Tatras Altos, na fronteira entre a Eslováquia e a Polônia. De todas essas locações, a mais impressionante é o Castelo de Orava, que serviu de cenário para o castelo do conde. Realmente, o lugar dá a impressão de ser um castelo assombrado, com suas janelas enormes e portas que se abrem sozinhas. Espetacular. 

 

Porém, o melhor fica para o Conde Orlok. Sua caracterização é absolutamente aterrorizante: o vampiro é alto, magro, veste-se todo de preto, careca, com orelhas e unhas pontudas e dentes frontais afiados. É uma figura digna de pesadelos. Segundo informações, Orlok é o mais próximo da ideia original que Bram Stoker tinha de Drácula; ao contrário do conde charmoso e aristocrático, ele seria repulsivo e nada atraente. Como ainda não li o livro, não posso dizer se tal afirmação está correta, mas concordo com ela.

 

Provavelmente, Nosferatu é conhecido também por sua história de bastidores problemática. O que aconteceu foi que os realizadores, e principalmente o estúdio, a Prana-Films, não consultaram a família de Stoker para comprar os direitos de adaptação, talvez porque não sabiam, ou então, não se preocuparam. O fato é que a viúva do autor ficou furiosa com todos os envolvidos, e mesmo com as alterações nos nomes dos personagens, ela ordenou que as copias do filme fossem destruídas. Felizmente, antes disso, algumas copias conseguiram ser levadas para fora da Alemanha, o que possibilitou a exibição do filme fora do país. Ainda bem, porque senão, o filme entraria para a lista de filmes perdidos, o que seria uma lástima, porque, queira ou não, o filme é um registro histórico. Hoje em dia, é considerado um dos filmes mais importantes da Alemanha, e um marco do Expressionismo Alemão, e o filme mais famoso de Murnau.

 

Outra história de bastidores, aliás, uma lenda de bastidores, é a de o ator Max Schreck era, de fato, um vampiro. Não sei de onde tal boato surgiu, mas talvez tenha relação com seu sobrenome, que em alemão significa “Medo” ou “Terror”. Seja como for, o fato é que esse boato ficou conhecido por muito tempo. Outra história de bastidores que surgiu é a de o produtor, Albin Grau, estava envolvido com ocultismo, e, inclusive, existe a historia de que símbolos ocultistas estejam presentes na carta que Knock recebe do Conde; e outra história de bastidores, envolve o provável envolvimento da produtora Prana-Films com o Nazismo, e inclusive, o próprio filme foi considerado como parte da propaganda antissemita. Se todos são verdade, talvez nunca saibamos.

 

Mesmo quase 100 anos desde seu lançamento, o filme se mantem muito forte, tendo influenciado uma série de outros filmes do gênero, e também diversos cineastas, como por exemplo, o diretor Tim Burton, fã declarado do Expressionismo Alemão, que homenageou o movimento, e o filme em Batman, o Retorno, com o vilão Max Schreck, interpretado por Christopher Walken.

 

Em 1979, ganhou um excelente remake dirigido por Werner Herzog, e estrelado por Klaus Kinski, Isabelle Adjani e Bruno Ganz.

 

Teve seus bastidores retratados no excelente A Sombra do Vampiro (2000), dirigido por E. Elias Merhige, e estrelado por John Malkovich, no papel de Murnau, Willem Dafoe, no papel de Schreck, e Udo Kier, como o produtor Albin Grau. Apesar de focar nos bastidores da produção, o filme é uma obra de ficção, principalmente porque faz uso da lenda de que Schreck era um vampiro de verdade. Mesmo assim, é altamente recomendado.

 

Foi lançado em DVD por aqui pela Versátil Home Vídeo, primeiro na coleção Vampiros no Cinema, e depois na caixa Nosferatu – Edição Definitiva Limitada, juntamente com o excelente remake de 1979.


Enfim, Nosferatu é um Clássico do Cinema. Um filme verdadeiramente assustador, que ainda mantém seu impacto, quase 100 anos após seu lançamento. Uma história arrepiante, repleta de características que se tornariam parte do cinema de terror gótico, e que consegue assustar e provocar calafrios sem o menor esforço. A direção de F.W. Munrau torna o filme ainda mais belo e impressionante, com luzes e sombras distorcidas. A atuação de Max Schreck é o grande ponto do filme, e o ator dá vida a um personagem arrepiante, diabólico e repulsivo. A primeira adaptação registrada do clássico de Bram Stoker. Um marco do Expressionismo Alemão, e um dos Filmes Mais Assustadores da História. Obrigatório para fãs de cinema. Altamente recomendado. 



Créditos: Versátil Home Vídeo 


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sábado, 31 de outubro de 2020

NOTA.

 



Faleceu hoje (31/out) o ator escocês Sean Connery. A noticia foi divulgada pela BBC e confirmada pela família do ator. Connery tinha 90 anos.

 

Com mais de 50 anos de carreira, Sean Connery era considerado um dos maiores atores de todos os tempos, tendo interpretado papeis memoráveis no cinema. No entanto, foi reconhecido como o primeiro interprete do agente secreto James Bond, cuja estreia no cinema aconteceu em 007 Contra o Satânico Dr. No (1962). O ator voltaria a interpretar o agente secreto em outros cinco filmes.

 

Além de seu papel como James Bond, o ator também esteve em outros clássicos do cinema, como Os Intocáveis (1987), de Brian de Palma, pelo qual levou um Oscar® de Melhor Ator Coadjuvante, Highlander, o Guerreiro Imortal (1986) e O Nome da Rosa (1986), baseado no romance de Umberto Eco.

 

Também esteve em filmes como O Mais Longo dos Dias (1962), considerado um dos maiores filmes de guerra de todos os tempos; Marnie, Confissões de Uma Ladra (1964), de Alfred Hitchcock; Zardoz (1973); Assassinato no Expresso do Oriente (1974); Darby O’Gill and the Little People (1959), da Disney; e A Rocha (1996).

 

Seus outros papeis de destaque foram em Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (1991), onde interpretou o Rei Ricardo; Robin E Marian (1976), onde interpretou Robin Hood; Lancelot, o Primeiro Cavaleiro (1995), no papel do Rei Arthur; Coração de Dragão (1996), dando voz ao dragão Draco; e Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), interpretando o pai do arqueólogo mais famoso do cinema.

 

Além de ter recebido um Oscar® de Melhor Ator Coadjuvante, também recebeu BAFTA, por sua atuação em O Nome da Rosa, e um premio Life Achievement Award em 2006.

 

Apesar de sua extensa carreira, Sean Connery será sempre lembrado como o primeiro e melhor interprete do agente secreto James Bond.

 

Um dos maiores atores de todos os tempos, deu vida a personagens inesquecíveis, e deixou seu nome na historia do cinema para sempre.

 

Fica aqui a homenagem do Livros & Filmes de Horror a SEAN CONNERY, o eterno James Bond.


quinta-feira, 22 de outubro de 2020

UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER (1971). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9



Como já mencionei em outras resenhas, o diretor Lucio Fulci era o Padrinho do Gore. Desde que se aventurou no gênero terror, no final dos 70, Fulci mostrou que entendia da arte de assustar o publico com cenas repletas de sangue. Porém, antes de se tornar um dos mestres do terror da Itália, Fulci resolveu se aventurar no Giallo, que na época, estava em alta no país. O diretor iniciou a carreira no gênero com Uma Sobre a Outra (1969), passando pelo polêmico O Segredo do Bosque dos Sonhos (1972), Premonição (1977), e este aqui, UMA LAGARTIXA NUM CORPO DE MULHER, lançado em 1971.

 

O filme, que marca sua primeira parceria com a atriz brasileira Florinda Bolkan, é um dos melhores exemplares do gênero. Com uma trama cheia de mistérios e reviravoltas, o filme consegue prender a atenção do espectador, e deixa-lo intrigado para resolver o mistério.

 

Como já disse outra vezes, o Giallo foi um subgênero que, da mesma forma que o terror, por exemplo, teve suas variações, e esse filme é uma delas. Sim, porque ele não apresenta o tradicional assassino de luvas pretas que sai matando mulheres com requintes de crueldade. Aqui, a trama é bem diferente; o roteiro apresenta uma ideia até original para o gênero, a ideia de que, às vezes, nosso subconsciente nos prega peças. Não digo que esse tema específico não foi abordado outras vezes em outras mídias, até acredito que sim; estou dizendo que, no gênero Giallo, eu vi poucos filmes que tocaram nesse assunto. Claro, a ideia da testemunha ocular que viu algo, mas não tem certeza, é algo recorrente, mas não chegou a ser explorada por um viés cientifico. Então, aqui, temos, sim, a protagonista que não sabe o que viu, mas abordado de outra forma. Segundo o roteiro, tudo acontece no subconsciente da personagem, que sofre de insônia e parece apresentar transtornos psicológicos.

 

Tal argumento é muito bem abordado pelo filme, principalmente nas cenas de investigação, quando os policiais decidem entrevistar o terapeuta. Admito que às vezes, as explicações dele parecem um tanto confusas, mas, se fizermos um esforço, podemos entender o que está sendo dito para nós, e até compreender a chave do mistério. Um mistério, que, como é comum no gênero, só é revelado no final do filme.

 

O roteiro faz uso de algo que já vi em outros exemplares. Em certo ponto da trama, as evidencias coletadas pela policia apontam para um determinado personagem, apesar do mesmo negar sua participação no caso. Pois bem, o filme utiliza desse argumento, e ao mesmo tempo, apresenta outros personagens que podem também ser culpados pelo crime, o que obriga o espectador a pensar um pouco mais. É uma tática muito boa, que funciona.

 

Eu confesso que na primeira vez que assisti ao filme, tive minhas dúvidas, principalmente a respeito do crime e do titulo; mas, conforme fui assistindo outras vezes, comecei a “pescar” as dicas apresentadas no roteiro e passei a compreender o que estava sendo apresentado. É uma coisa que acontece em muitos Gialli, porque as peças do quebra-cabeça nos são entregues aos poucos, então, temos que raciocinar antes de começar a montá-lo. Fulci faz uso desses enigmas com maestria, e consegue, sem esforço, deixar o espectador em dúvida. Ouso até dizer que essa dúvida fica conosco até mesmo depois do mistério ser resolvido, obrigando-nos a rever o filme.

 

Como mencionado acima, o filme marca a primeira parceria entre o diretor e a atriz brasileira Florinda Bolkan. A performance da atriz é excelente. Sua personagem parece tomada pela paranóia constante, provavelmente ocasionada por seus problemas psicológicos. Florinda passa, com total veracidade, tudo aquilo que a personagem está sentindo, seja medo, duvida, ódio... uma atuação excelente. Seus colegas de elenco não ficam atrás. O ator Jean Sorel, que já trabalhou com o diretor em Uma Sobre a Outra, também entrega uma ótima performance como o marido da protagonista; mas, quem rouba a cena, de fato, é o ator Stanley Baker, no papel do inspetor encarregado do caso; parece mesmo que ele é um policial, que não mede esforços para resolver o enigma e prender o culpado. Os outros atores também entregam boas atuações, e seus personagens também tornam-se criveis. Porem, o filme tem um defeito. A vizinha da protagonista é interpretada pela atriz Anita Strindberg, não-creditada. Eu sei que ela é uma das musas do Giallo, mas, como disse na resenha de No Quarto Escuro de Satã, eu não gosto dela, não acho que seja uma boa atriz. Sua participação no filme é pouca, mas, mesmo assim, não me agrada.

 

O responsável pelos efeitos especiais foi o mestre Carlo Rambaldi, famoso por criar o monstro de Alien, o 8º Passageiro e o E.T. de E.T., o Extraterrestre. Com vasto currículo, Rambaldi já trabalhou com alguns mestres do cinema, e no terror, seus truques merecem ser mencionados. Como já sabemos, Fulci tornou-se conhecido por ser o Padrinho do Gore, algo que desempenhou com maestria. Pois bem, mesmo não sendo um filme de terror, aqui temos alguns efeitos de gore, principalmente nos sonhos da protagonista. E Fulci já deu uma amostra do que faria no futuro, porque o gore é caprichado, com direito a tripas expostas e sangue escorrendo. Porem, a cena mais famosa do filme é a tal “cena dos cachorros”, que causou um grande alvoroço na época, devido a sua veracidade. O caso foi tanto que Rambaldi teve de levar os bonecos para o tribunal, a fim de provar que não eram verdadeiros. A cena é, de fato, chocante e impressionante. Um verdadeiro tapa na cara.

 

Além dos efeitos especiais de Carlo Rambaldi, o filme também contou com a trilha sonora do grande Maestro Ennio Morricone. A trilha do Maestro é excelente, com aspecto de fantasia, principalmente nas sequencias de sonho da protagonista. Nas cenas de suspense, a trilha muda de foco, tornando-se até um pouco sombria. Um belo exemplo do trabalho promissor do saudoso Maestro Ennio Morricone.

 

Para finalizar, vou destacar a sequencia em que a protagonista é perseguida por um dos suspeitos do crime dentro do Alexander Palace. Mesmo não sendo um filme de terror, esse é o momento mais assustador do filme, porque é impossível saber o que vai acontecer. A tensão está presente em todos os momentos, e parece que vai aumentando a medida que o homem se aproxima dela. Uma sequencia impressionante, digna de pesadelos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.2, em excelente versão restaurada.

 

Enfim, Uma Lagartixa Num Corpo de Mulher é um filme excelente. Uma historia enigmática de investigação policial, com elementos de erotismo e terror. Um roteiro muito bem escrito, que não entrega de cara a solução para o espectador, obrigando-o a raciocinar conforme vai acompanhando o filme. Uma direção madura de Lucio Fulci contribui para deixar o filme ainda melhor, combinado com a excelente atuação da atriz brasileira Florinda Bolkan. Um excelente exemplar do gênero Giallo.



Créditos: Versátil Home Vídeo





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sexta-feira, 25 de setembro de 2020

UM OTIMISTA INCORRIGÍVEL (Michael J. Fox).

 

NOTA: 9



UM OTIMISTA INCORRIGÍVEL, do ator Michael J. Fox, é um livro excelente. Um relato verdadeiro e corajoso de uma pessoa portadora do Mal de Parkinson, ou Doença de Parkinson, conforme mencionado no livro.

 

O que o torna um livro especial, é a capacidade que Fox tem de descrever a sua rotina com a doença, sem medo de esconder nada, expondo suas maiores dificuldades diárias, em todos os setores em que atua, o trabalho, a política, a família e a fé. Em cada um desses segmentos, ele faz um relato de como vive seu dia, e como a doença interfere em seu desenvolvimento, e como, infelizmente, ela também o atrapalha.

 

Fox deixa claro que não é fácil viver com Parkinson, principalmente por causa das características da doença, sendo os tremores as mais comuns. Ele expõe a difícil tarefa de controla-los, desde as primeiras horas do dia, e, durante a leitura, fica fácil entender o motivo. Mesmo não tendo, e nem conhecendo ninguém que tem a doença, eu consigo entender as dificuldades do ator, e como deve ser difícil lutar contra algo que você não pode controlar. E ele faz sempre questão de expor essa luta constante.

 

A escrita do livro é muito boa. Parece que Fox está escrevendo um diário e mostrando para nós, para que soubéssemos da sua luta contra a doença, e principalmente, da luta para encontrar a cura, algo que ele tem feito praticamente desde divulgou para o mundo que era portador da doença.

 

Nos capítulos referentes ao trabalho e à política, ele deixa isso muito claro, descrevendo sua luta para encontrar a cura, com a ajuda da sua Fundação, montada em 2000; além disso, ele também se mostra um defensor das pesquisas com células-tronco, que podem ter um papel muito importante na batalha contra o Parkinson.

 

Nos demais capítulos, ele relata a sua convivência com a família, desde o nascimento de seu primeiro filho, até o nascimento de sua última filha. É um dos melhores momentos do livro, porque, de certa forma, não é difícil não se emocionar e até mesmo rir com o que o ator escreve, como por exemplo, a primeira vez que seu filho andou de bicicleta ou o Bar e o Bat mitzvá deles. São de fato, belos momentos, assim como a viagem de carro que ele fez com o pai quando criança. Ele também relata as dificuldades que enfrentou como pai de primeira viagem, principalmente por não tinha mais o próprio pai para ajuda-lo, entre outras coisas.

 

O livro é, sem dúvida, o relato de um lutador. Um homem que teve sua vida mudada de maneira brusca, sem opção de escolha. É o tipo de livro que qualquer pessoa deveria ler. É um livro que faz jus ao título, porque, o próprio Fox admite que nunca desistiu de encontrar uma solução para sua condição, mesmo tendo pensado em desistir no início; mas, motivado pela família e pela fé, ele resolveu se erguer e encontrar uma saída. Infelizmente, até hoje, a cura para o Parkinson não foi encontrada; no entanto, a luta de Michael J. Fox em encontra-la serviu e serve de inspiração para muitos.


Altamente recomendado. 


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segunda-feira, 24 de agosto de 2020

NO QUARTO ESCURO DE SATÃ (1972). Dir.: Sergio Martino.


 NOTA: 8


O diretor Sergio Martino resolveu ingressar no gênero Giallo em 1971, com o ótimo O Estranho Vício da Senhora Wardh, onde iniciou uma caprichada parceria com os atores Edwige Fenech e George Hilton, que formaram um dos casais mais famosos do gênero. E aqui, ele repete a parceria com a atriz, agora interpretando uma vilã. 

NO QUARTO ESCURO DE SATÃ é a terceira excursão de Martino no gênero, e um dos melhores. Mesmo não contanto com a trama clássica de assassinatos misteriosos, Martino fez um ótimo trabalho novamente, dando ao filme um aspecto interiorano e convidativo.

Como mencionei na resenha de Torso, essa é uma das melhores características de alguns dos Gialli do diretor, e ajudam a torna-los ainda mais atraentes. De verdade, são filmes que podem ser assistidos no final de semana a tarde, e a sensação que fica é muito boa, parece que combina. É o tipo de coisa que torna o Giallo um gênero tão agradável.

Ao contrario de seus compatriotas, Martino não optou pelas características clássicas do gênero – somente em O Estranho Vício e Torso – , deixando a figura do assassino mais de lado, e aqui não é diferente. E isso faz total sentido, uma vez que mudanças na estrutura dos filmes do gênero eram muito bem-vindas, e vários cineastas optaram por usá-las, o que deu uma certa variada. Eu pessoalmente sou fã do Giallo Clássico, com o assassino de luvas pretas, mas não vejo problema em assistir a um exemplar diferente. 

Bem, aqui, existe, sim a figura do assassino misterioso, mas, ele mesmo não faz parte da trama central. A trama central envolve o estranho triangulo sexual – não dá pra chama-lo de “triangulo amoroso” de jeito nenhum – formado pelos personagens principais, um triangulo repleto de submissão, sexo e violência. No fundo, essa é a essência do filme, uma historia de violência e tortura psicológica, e o diretor não poupa o espectador. Se você acha filmes com essa temática muito pesados, então, não recomendo este aqui. Grande parte da violência é desencadeada pelo personagem Oliviero, escritor decadente e alcóolatra. O personagem é terrível; humilha e tortura psicologicamente a esposa, seja em particular, seja em público, tem um caso com uma ex-aluna e com a empregada da casa e trata todos ao seu redor com desprezo. A única criatura que não sofre em suas mãos é o seu gato preto, Satã. Irina, sua esposa, é típico exemplo de personagem submisso. Vive sempre triste e com medo das agressões do marido; e Floriana é a mulher sedutora da cidade grande. Outros personagens como a empregada da mansão; uma senhora catadora de lixo; os policiais que investigam os homicídios; uma jovem prostituta e sua tia cafetina; e o dono da livraria, completam o elenco da trama, e todos eles são estranhos, cada um a sua maneira, o que é comum, ao meu ver.

Como mencionado, o diretor Martino repete aqui a parceria com a atriz Edwige Fenech, um dos grandes símbolos sexuais da época. Ao contrario do filme anterior, aqui ela interpreta uma personagem sem escrúpulos, que seduz tanto o casal principal, quanto um dos moradores da cidade, e sua atuação é fantástica. Acredito que não haveria atriz melhor para interpretar o papel, visto que é uma personagem cheia de sensualidade, e, francamente, a atriz era muito sensual. Da mesma forma que no filme anterior – e nos demais onde trabalharam juntos – , o diretor não faz pudor ao mostra-la nua.

Mas, apesar de ser um filme muito bom, ele também tem seus defeitos. Na minha opinião, o maior deles é a atriz Anita Strinberg, que interpreta Irina, a esposa de Oliviero. Eu sei que, assim como o Slasher, o Giallo também teve suas musas, e a atriz é considerada uma delas, mas eu pessoalmente não gosto dela. Eu não acho que ela entrega uma boa atuação, e aqui, a sua personagem passa o filme todo chorando e gritando, e mesmo quando acontece a reviravolta, a atuação dela não melhora. O ator Ivan Rassimov, outro colaborador frequente do diretor, também está nesse filme, no papel de um personagem misterioso, que infelizmente, quase não possui relevância para a historia, mesmo na hora da reviravolta. Sinceramente, acho que ele nem precisava estar no filme. E a sequencia dos créditos de abertura é muito lenta, tanto que eu pulo sempre que vejo o filme. E os miados do gato são muito irritantes.

Mesmo com esses problemas, No Quarto Escuro de Satã é um filme muito bom. Como eu disse, possui uma atmosfera de interior, que o torna ainda mais charmoso. Parte disso vem da própria ambientação. As locações são belíssimas, típicas do interior da Itália. A mansão do escritor também, com seus corredores vazios, janelas enormes, exterior todo deteriorado... O tipo de casa onde alguma coisa desagradável pode acontecer, e também, convidativa.

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em versão restaurada, na coleção Giallo Vol.3.

Enfim, No Quarto Escuro de Satã é um ótimo exemplar do gênero Giallo. Tem um clima interiorano que o torna mais charmoso. Além disso, sua trama é repleta de situações rocambolescas, onde nada e ninguém é o que aparenta ser. Uma historia de violência e tortura muito bem contada, que chama a atenção. Uma direção segura e criativa, e uma trilha sonora calma e tensa ao mesmo tempo. Um dos melhores filmes do diretor Sergio Martino. Recomendado.

 

Créditos: Versátil Home Vídeo




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domingo, 26 de julho de 2020

NOTA.







Hoje (26/jul), a atriz americana Olivia de Havilland nos deixou. A notícia foi confirmada pelo site Entertainment Weekly.

Uma das maiores atrizes de todos os tempos, Olivia era a última representante da Era de Ouro de Hollywood.

Com quase 70 filmes em sua carreira, Olivia teve como grande papel a personagem Melaine Hamilton, em ...E o Vento Levou (1939), um dos maiores Clássicos do Cinema.

Seus outros grandes papeis foram em Só Resta uma Lágrima (1946), A Porta de Ouro (1942), Aeroporto 77 (1977), Capitão Blood (1935), As Aventuras de Robin Hood (1938), A Herdeira (1949), dentre muitos outros.

Teve como grande parceiro, o ator Eroll Flynn, com quem atuou em nove filmes, entre eles Robin Hood e Capitão Blood. Juntos, eles formavam um dos mais belos casais da História do Cinema.

Além de seu grande sucesso no cinema, a atriz possuía uma vida pessoal um tanto quanto conturbada, principalmente por conta de sua relação com sua irmã, a também atriz Joan Fontaine, e por tido problemas com a Warner Bros., mesmo após o sucesso de ...E o Vento Levou.

Em 2017, foi interpretada pela atriz Catherine Zeta-Jones, no filme Feud. A atriz entrou com um processo contra os realizadores porque não gostou da forma como foi retratada na série.

Olivia de Havilland participou de muitos dos maiores clássicos do Cinema, e seus papeis tornaram-se inesquecíveis.

A atriz venceu o Oscar® de Melhor Atriz duas vezes, por Só Resta uma Lágrima e por  A Herdeira. Ela se aposentou no final dos anos 70. Em 2003, fez uma rara aparição pública na 75ª Cerimônia do Oscar®, onde foi aplaudida de pé pelos participantes.

Mesmo com seu papel memorável em ...E o Vento Levou, a atriz também será lembrada por seus outros papeis. Em 2008, recebeu do então presidente George W. Bush, a Medalha Nacional das Artes, pela sua contribuição para o Cinema.

Olivia de Havilland completou 104 anos em 1/jul deste ano. Ela morreu em sua casa em Paris, onde vivia desde 1958, de causas naturais. Com sua partida, a Era de Ouro de Hollywood se encerra definitivamente.

Olivia de Hallivand foi uma grande atriz, dona de papeis memoráveis. Sua contribuição para a História do Cinema foi imensurável, e ela, com certeza, deixou seu nome marcado na História da Sétima Arte para sempre.

Ela nunca será esquecida.

Fica aqui a homenagem à grande atriz Olivia de Havilland.




quarta-feira, 1 de julho de 2020

CARRIE, A ESTRANHA (Stephen King).


NOTA: 10



CARRIE, A ESTRANHA
CARRIE, A ESTRANHA é um Clássico de Stephen King. Seu romance de estreia, até hoje, é uma de suas melhores obras, e um livro relevante e atual.

Primeiro, é importante dizer que, muito mais que um livro de terror, Carrie é um livro sobre bullying. É um assunto muito presente na narrativa, e que sempre é alvo de discussões, principalmente quando acontece alguma tragédia em nossa sociedade. Sempre que vemos alguma noticia sobre um massacre escolar, acabamos descobrindo que o responsável cometeu o crime motivado por uma coisa: raiva acumulada por anos de bullying no ambiente escolar; raiva que explodiu de forma implacável. E é por isso que a questão do bullying deve ser trazida a tona, para talvez evitar que tais tragédias aconteçam. Então, no fundo, é justo dizer que Stephen King escreveu um livro sobre bullying nas escolas, e as consequências que ele traz. Acredito que seja a melhor maneira de definir o livro.

Pois bem, mudando o foco para a escrita do livro, digo o seguinte: já em seu livro de estreia, Stephen King soube criar uma historia excelente, perturbadora e apavorante. Seu texto é brilhante, escrito de uma forma simples, mas que prende o leitor até o final. Já comentei em outras resenhas que esse é o brilhantismo do autor, sua capacidade de criar enredos e personagens cativantes, que pegam o leitor pela mão e atiçam sua imaginação. Não é difícil imaginar como são aqueles personagens e aqueles cenários, porque eles são, realmente, criveis. É o tipo de coisa que somente grandes contadores de historias conseguem fazer, e sempre irei tratar disso quando fizer resenha de algum livro de Stephen King.

Outra coisa que torna a narrativa interessante é a forma como o autor a compôs. Ao invés de optar por algo linear, o autor resolveu conta-la em tempos diferentes, oscilando entre o passado e o presente, utilizando trechos de documentos sobre o fenômeno da telecinesia – a capacidade de mover objetos com a força do pensamento – e entrevistas sobre a tal Noite do Baile, evento que abalou a cidade onde a história se passa. Esses trechos de documentos científicos e entrevistas são muito interessantes e bem realistas; em certos momentos, eu imaginava se tudo aquilo existia mesmo. Um trabalho magistral.

Carrie é também uma historia brutal. As cenas da menina com sua mãe são arrepiantes, e a tortura psicológica ao qual a protagonista é submetida é muito pesada, e chega a ser triste ler essas passagens; é quase como se estivéssemos lá, vendo tudo aquilo, mas incapazes de agir. Eu já tive essa impressão na primeira vez que li o livro, e nessa releitura, a coisa não foi diferente. São cenas dignas de pesadelos.

Conforme mencionado acima, o principal evento da historia é a Noite do Baile, um evento muito comentado na narrativa, seja pelos alunos, seja pelos cientistas que estudaram o caso de Carrie depois. Muito bem, quando o autor finalmente o apresenta, a gente já tem uma vaga ideia do que vai acontecer, porque é citado nos trechos de estudos científicos e entrevistas, e o que aconteceu não foi nada bom; e quando é revelado o ocorrido, é o momento em que a historia se transforma numa verdadeira historia de horror, graças à Carrie e seus poderes. Ela é terrivelmente humilhada por uma das alunas, e decide se vingar. E sua vingança é terrível, atingindo seus colegas na Noite do Baile, metade da cidade, e sua mãe. Ela não poupa ninguém, e destrói tudo em seu caminho. Também não foi difícil imaginar toda a destruição, muito menos nos efeitos que isso causou na população. Para resumir, as pessoas nunca mais foram as mesmas depois disso tudo. Impressionante.

Outra coisa que podemos dizer sobre Carrie, é que é uma historia sobre o sangue. Ele está presente na narrativa do começo ao fim, e King não economiza, principalmente na sequencia da vingança de Carrie. O autor literalmente dá a ela um banho de sangue, e não a poupa disso. É sério, é arrepiante o que o autor faz com ela, com direito a facada, partes do corpo em carne viva, e sangue de porco. Um verdadeiro banho de sangue.

Com certeza o maior impacto da narrativa é a cena do vestiário, quando Carrie tem sua primeira menstruação. É uma cena que já surge com os dois pés na porta, uma cena forte e muito pesada, com a protagonista sofrendo humilhações das colegas, porque não sabia o que estava acontecendo com seu corpo, porque a mãe nunca lhe contou sobre isso. Tal selvageria foi muito bem retratada na excelente adaptação dirigida por Brian de Palma.

Devido ao seu conteúdo referente ao bullying, Carrie é, sim, um livro atual e relevante para discussões.

Em 1976, dois anos após sua publicação, recebeu uma excelente adaptação para o cinema dirigida por Brian de Palma, e estrelada por Sissy Spacek e Piper Laurie, nos papeis de Carrie e sua mãe, respectivamente.

Para finalizar, talvez não seja novidade que o livro quase não viu a luz do dia, porque Stephen King não se empolgou com o que estava escrevendo, e jogou as primeiras paginas no lixo. Felizmente, sua esposa recolheu as mesmas, deu uma lida e o incentivou a continuar, porque havia gostado. O resto é historia.

Enfim, Carrie, a Estranha é um clássico absoluto de Stephen King. Uma historia brutal de violência, tortura e sangue, contada com maestria. O autor consegue prender a atenção do leitor desde a primeira pagina, e não o poupa de situações pesadas e chocantes. Um livro construído de forma brilhante, cuja simplicidade é sua maior característica, e que cona com cenas verdadeiramente assustadoras e dignas de pesadelos. Uma historia de tirar o folego. Um livro excelente, e um dos maiores de Stephen King. Brilhante. Assustador. Maravilhoso. Altamente recomendado.



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