segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

O QUE ELES FIZERAM ÀS SUAS FILHAS? (1974). Dir.: Massimo Dallamano.

 


NOTA: 9



Eu já disse varias vezes que o Giallo é um dos meus gêneros favoritos, e desde que surgiu no final dos anos 60, grandes exemplares surgiram. Alguns deles já foram mencionados aqui, todos dirigidos por grandes mestres, e o diretor Massimo Dallamano foi um deles. Ele é o responsável pelo excelente O Que Vocês Fizeram com Solange? (1972), que marcou a estreia da atriz Camille Keaton no cinema. Esse é um dos meus exemplares favoritos do gênero.

 

Dois anos depois, Dallamano retornou ao gênero com O QUE ELES FIZERAM ÀS SUAS FILHAS?, que pode ser encarado como uma espécie de continuação do filme anterior. Eu pessoalmente não vejo dessa forma, eu encaro como outro filme com uma temática parecida. Mas isso não o impede de também ser um grande exemplar do gênero.

 

Mais do que isso, eu diria que é um dos mais brutais exemplares do gênero, não somente pelas cenas de violência, mas também pela forma como ele aborda a polemica questão da prostituição adolescente. Sério, são cenas realmente muito tensas e desconfortáveis. Já as cenas de violência são brutais e não poupam o espectador do sangue. Não é novidade que o gênero Giallo é famoso por suas cenas de morte mirabolantes, com toques até artísticos, dependendo do cineasta, e Dallamano faz questão de mostrar o sangue na tela. Eu confesso que na primeira vez que eu assisti, eu fiquei impressionado com as cenas de violência, principalmente uma que acontece num banheiro.

 

E assim como fez no filme anterior, Dallamano se mostra um especialista no gênero, principalmente quando filma cenas de tensão e suspense. E o filme tem muitas delas, cada uma melhor que a outra, todas envolvendo o assassino. Os movimentos de câmera merecem destaque, com toques rápidos e câmera dentro do carro e na garupa da moto. É muito bom.

 

Outro destaque é a trilha sonora, composta por Stelvio Cipriani, um nome conhecido no gênero, tendo sido responsável pelas trilhas de alguns exemplares do Giallo. É uma trilha muito boa, diferente do tipo que se espera ouvir um filme desses, que geralmente parte para uma coisa mais lírica e bonita. Aqui, não. A musica é quase pesada, principalmente o tema, que depois seria “reaproveitado” pelo compositor no divertido Tentáculos (1977). Quando eu ouvi pela primeira vez, eu na hora me lembrei da música do filme do polvo gigante. Picaretagem ou outra coisa?

 

Outro ponto que merece ser mencionado é o assassino. Como é de praxe no gênero, o assassino veste roupas pretas e luvas de couro também pretas; aqui temos exatamente isso, mas com um diferencial. Ao invés da mascara preta, temos um capacete de motociclista, visto que o assassino faz uso desse veiculo na cena de perseguição. E ao invés do tradicional canivete, a arma escolhida é um cutelo de açougueiro. E o assassino faz estragos com ela. Grandes estragos. A maior prova é na cena em que os policiais estão investigando o apartamento de um suspeito e encontram o banheiro todo ensanguentado. Cena digna de Slasher.

 

Devo ressaltar também que, pela primeira vez – que eu saiba - , temos uma personagem feminina na policia. Geralmente nos Gialli as mulheres são as vitimas do assassino, mas o roteiro optou por algo diferente, e criou uma personagem feminina de fibra, que não abaixa a cabeça para ninguém. É o tipo de coisa que podia aparecer mais no Giallo. Dallamano ganha mais pontos por essa inclusão.

 

Conforme mencionado acima, O Que Eles Fizeram às Suas Filhas? é uma historia que envolve prostituição de adolescentes. É um tema muito difícil de ser abordado, porque envolvem principalmente as adolescentes que entram para esse mundo. E o roteiro não passa pano para o tema. E não apenas estamos falando de prostituição, mas também de estupro e pedofilia, uma vez que as garotas são menores de idade e os agressores são homens mais velhos. E o pior, são homens importantes, que dificilmente serão culpados ou associados a tais crimes. É o tipo de coisa que infelizmente existe na nossa sociedade e que vemos todos os dias nos jornais e noticiários da TV. E mesmo sendo abordado em uma obra de ficção, não deixa de ser um tema perturbador e que merece ser discutido.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo Vol.4, em versão restaurada com áudio original em italiano.

 

Enfim, O Que Eles Fizeram às Suas Filhas? é um grande exemplar do gênero Giallo. Um filme violento e perturbador, com cenas de ação de tirar o folego, que conta um roteiro bem amarrado e uma direção segura. Além disso, toca em um assunto difícil de lidar, e faz isso sem o menor pudor, deixando o espectador desconfortável. Mas nada disso é um empecilho para torna-lo um filme excelente. Altamente recomendado. 



Créditos: Versátil Home Vídeo



Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

EDWARD MÃOS-DE-TESOURA (1990). Dir.: Tim Burton.

 

NOTA: 10



O que posso dizer sobre EDWARD MÃOS-DE-TESOURA (1990), obra-prima do diretor Tim Burton? Bom, vou dizer o seguinte: esse é um dos filmes da minha vida. Ponto. Eu amo esse filme.

 

Desde a primeira vez que o assisti, há vinte anos, eu me apaixonei pela historia logo de cara. Na época, eu já era fã declarado do Tim Burton, tendo assistido A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999) e Marte Ataca! (1996) inúmeras vezes. Mas, com Edward Mãos-de-Tesoura, eu posso dizer que a coisa foi bem diferente. Eu confesso que o filme era bem diferente do que eu esperava, se bem que eu não tinha a menor ideia de como o filme era, e rapidamente ele me encantou.

 

O filme é lindo. É um caso em que tudo contribui para deixa-lo lindo, desde o roteiro, passando pela direção, atuações, direção de arte, trilha sonora... Enfim, tudo. E assistindo a ele pela enésima vez, minha opinião não mudou. É o tipo de filme que fica melhor a cada revisão.

 

O roteiro, escrito por Caroline Thompson, a partir de um tratamento escrito em parceria com o diretor, não possui falhas ou furos. Tudo encaminha do jeito certo, para as direções corretas; os diálogos são criveis e os personagens também. A direção madura de Tim Burton também é digna de nota. Em seu quarto filme, o diretor já se mostrou competente e hábil naquilo que ele queria mostrar na tela e no modo como queria mostrar. Outro ponto positivo vai para a direção de arte. As casas da vizinhança no subúrbio ganharam tons pasteis, mas coloridos; mas o principal vai para o castelo de Edward. Situado no alto da colina, o castelo é o perfeito castelo de conto de fadas. Seu interior é todo gótico, cheio de teias de aranha e pó; as janelas e portas são enormes e difíceis de abrir... Enfim, tem tudo aquilo que existe numa historia gótica de verdade. E a trilha sonora... A trilha sonora é um caso à parte.

 

Composta por Danny Elfman, colaborador recorrente do diretor, a trilha é belíssima. Uma verdadeira trilha sonora de conto de fadas, com coro infantil do começo ao fim. É o tipo de musica que podemos ouvir sem precisar assistir ao filme. Maravilhosa.

 

E as atuações? Bem, assim como tudo no filme, o elenco é perfeito. A escolha de Johnny Depp para o papel não poderia ter sido melhor. Difícil imaginar outro ator no papel. Depp trouxe toda a doçura e inocência presentes no roteiro. O visual do personagem também é um destaque, com seu rosto branco como papel, todo vestido de preto. O diretor se inspirou no visual de Cesare, o sonambulo de O Gabinete do Dr. Caligari (1920), um Clássico do Expressionismo Alemão, para compor o visual de Edward. Um visual excelente. O restante do elenco também dá um show. Todos conseguiram passar exatamente aquilo que estava no roteiro, e tornaram os personagens criveis, como se fossem pessoas reais, que vemos todos os dias.

 

O filme marca a última aparição de Vincent Price no cinema. O diretor era fã declarado do ator, tendo assistido a todos os seus filmes de terror na infância, então, ele resolveu prestar uma homenagem ao ídolo. Aqui, o ator interpreta o inventor de Edward, que morreu antes de concluí-lo, o que o deixou com suas mãos de tesoura. A presença do antigo astro dos filmes de terror dá um toque a mais ao filme, tornando-o ainda mais belo; e também não deixa de ser emocionante vê-lo em cena, em sua última aparição. Sem duvida, o momento mais emocionante é a cena da morte do inventor, que precisava ser mostrada. É um cena linda, que causa arrepios e até um nó na garganta. Impossível não se emocionar.


Edward Mãos-de-Tesoura é a clássica historia de alguém solto em um mundo que não conhece. Eu particularmente adoro esse tipo de historia porque eu me identifico com o estranho solto naquele mundo. Tudo é novo para ele, justamente porque ele passou a vida inteira isolado no castelo no alto da colina. Impossível não se emocionar com o fascínio de Edward ao conhecer a vizinhança. Ele de fato para um garotinho empolgado com tudo que vê ao seu redor. Como eu disse, eu gosto muito desse tipo de historia. 


Mas também existe o outro lado, ponto de virada, onde a vizinhança passa e rejeitá-lo. Eu fiquei emocionado na primeira vez que eu assisti, porque eu queria defender o protagonista dos ataques da população e também do vilão, mas infelizmente, não podia. É o tipo de reação que todos nós temos quando assistimos a um filme com uma historia como essa, porque ficamos do lado do protagonista e queremos que tudo acabe bem. E devido à sua ingenuidade, Edward acaba se tornando um alvo fácil para o vilão, que arma um plano, mas ele acaba se prejudicando.

 

Além de tudo isso, o filme é também uma belíssima historia de amor. Quando chega na casa de Peg, a representante da Avon do bairro, Edward vê uma foto de sua filha mais velha, Kim, e se apaixona por ela. Quando os dois finalmente se conhecem, Kim não tem uma boa impressão dele, mas, após tentar salvá-lo quando ele cai na armadilha de seu namorado, passa a enxergá-lo com outros olhos. E claro, a gente torce para que eles fiquem juntos no final, mas, o rumo da historia acaba sendo diferente, e muito melhor.

 

Conforme mencionei no inicio, eu assisti esse filme pela primeira vez há vinte anos, e desde então, não me canso de assistir. Sempre que me dá vontade, eu coloco para rodar e assisto, do começo ao fim. Foi o primeiro filme em DVD que eu ganhei da minha mãe, o que o torna ainda mais especial para mim.

 

Enfim, Edward Mãos-de-Tesoura é um filme belíssimo. Um verdadeiro conto de fadas, com todos os elementos do gênero, e que fica melhor a cada revisão. Um filme impecável. A obra-prima de Tim Burton, e se, duvida, a sua melhor criação. Um filme perfeito.

 

Para conferir a resenha no Canal LFH, acesse o link do canal. 

https://www.youtube.com/channel/UCR5ejd7xqh0SIOeZEpED16w






Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

DRAGÃO VERMELHO (Thomas Harris).

 

NOTA: 9



Não há dúvidas que o Dr. Hannibal Lecter é um dos personagens mais temidos e amados de todos os tempos; talvez, o assassino favorito de todos. Seu auge foi em O Silencio dos Inocentes, segundo livro da Trilogia do personagem criado por Thomas Harris. Porém, antes de entrar na graça do público no livro do meio da trilogia, o personagem deu as caras, ainda que de forma discreta em DRAGÃO VERMELHO, primeiro livro da trilogia. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o livro não é sobre o Dr. Hannibal Lecter, e sim, sobre o ex-agente do FBI, Will Graham, e sua busca pelo assassino conhecido como Fada do Dente.

 

Dragão Vermelho é um livro excelente, uma história policial escrita com maestria, com uma narrativa repleta de adrenalina, que prende o leitor desde o começo, tornando impossível abandonar a leitura. E o autor faz isso muito bem.

 

As cenas descritas por ele são muito intensas, com detalhes impressionantes do processo de investigação do FBI, além das cenas dos homicídios, também descritas com riqueza impressionante. Desde a primeira cena, a ação não para, e o leitor se vê obrigado a continuar a leitura, apenas para descobrir o desfecho. E existem muitas cenas assim. Uma delas é quando eles recebem uma carta do assassino para o Dr. Lecter, escrita num papel higiênico. Todo o processo para descobrir a origem do mesmo, bem como o tipo de material, é tudo descrito nos mínimos detalhes, como se o próprio autor estivesse lá, acompanhando todo o processo. É de roer as unhas, principalmente porque, segundo está no livro, o tempo é curto.

 

Esse é o outro fator. O tempo. Conforme o autor descreve, o assassino tem um determinado tempo para agir, de acordo com o calendário lunar, então, eles precisam agir com rapidez, a fim de impedir que outras pessoas sejam assassinadas. E a medida que a leitura avança, parece que o relógio também avança.

 

Os personagens são um dos pontos positivos da história. O autor os descreve como pessoas reais, cheias de problemas, falhas e humanidade; não é difícil simpatizar com eles, principalmente com o protagonista, o ex-agente Will Graham. Harris deixa claro que o policial possui uma historia conturbada, com vários traumas do passado, principalmente se levarmos em conta sua relação com o Dr. Lecter, que ele próprio ajudou a prender no passado. A cena em que os dois se encontram na cela é angustiante; dá para sentir o medo do policial e seu desespero para sair dali. E tudo isso acaba se refletindo na vida pessoal do detetive, a ponto de quase destruir sua família.

 

E claro, não dá para falar desse livro sem mencionar o Dr. Lecter. Mesmo com pouco tempo na narrativa, ele se torna o seu ponto alto, principalmente se levarmos em conta nossas experiências anteriores com o personagem, seja nos filmes ou nos demais livros da trilogia. Lecter é excelente. Um vilão frio e calculista, cujo único passatempo é se divertir a custas do medo alheio.

 

Outro personagem de destaque é o assassino, o Sr. Francis Dolarhyde, também conhecido como Fada do Dente. Harris deixa claro que o personagem possui algum ou vários traumas de infância, e que tais traumas o consumiram por inteiro, fazendo-o chegar a completa insanidade. É um personagem muito bem escrito, e por que não dizer, assustador. Ele não demonstra pudor ao executar seus crimes, utilizando de métodos bárbaros para atingir seu objetivo, transformar-se no Grande Dragão Vermelho, personificado pela clássica pintura de William Blake.

 

Aqueles que conhecem a historia graças às adaptações para o cinema, sabem que em certo momento, surge uma personagem feminina, que se torna uma espécie de interesse romântico e por que não, humano, do assassino. Pois bem, tais momentos surgem na historia no momento certo, mostrando que o autor não tem a menor pressa em desenvolver a narrativa e os personagens, conforme já mencionado. E quando esses momentos acontecem, a gente rapidamente se lembra de tê-los visto nos filmes, o que torna a leitura ainda mais rica, na minha opinião.

 

Pois bem, Dragão Vermelho é excelente. Uma narrativa policial intrigante e arrepiante, que prende o leitor desde a primeira página. A escrita de Thomas Harris é fascinante, digna de nota. Um livro cheio de suspense, mistério e ação, que pode deixar o leitor com medo de dormir com a luz apagada. Arrepiante. Assustador. Altamente recomendado. 


Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


terça-feira, 15 de dezembro de 2020

AVISO.

 



O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Novas resenhas a partir de Fevereiro/2021.

Obrigado. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

A INOCENTE FACE DO TERROR (1972). Dir.: Robert Mulligan.

 

NOTA: 9



Filmes com crianças perversas são extremamente chocantes, principalmente porque a difícil imaginar uma criança fazendo mal para qualquer ser vivo. Mas existem, sim, filmes que abordam essa temática polemica, e A INOCENTE FACE DO TERROR (1972) é um deles, e um dos melhores.

 

Dirigido por Robert Mulligan, de O Sol é Para Todos (1960), e baseado no livro de Thomas Tryon, que também escreveu o roteiro, este é um pequeno clássico do terror que aborda o tema de crianças perversas, no caso, os gêmeos Niles e Holland Perry. E mais que um filme de crianças malvadas, este é também um filme de terror e suspense psicológico de primeira, que requer certo raciocínio do espectador, principalmente na primeira vez.

 

Na minha primeira conferida, eu confesso que fiquei surpreso com o resultado, uma vez que o diretor nunca faz questão de mostrar os dois irmãos no mesmo frame; ao invés disso, ele faz isso que cortes rápidos e movimentos de câmera, que conseguem enganar o espectador, sem o menor esforço. E as surpresas não param por aí.

 

Além dessa trama cheia de mistério e reviravoltas, outra coisa que torna o filme atraente é a sua ambientação. A trama se passa durante os anos 30, no interior dos Estados Unidos. E a sensação que o longa passa é muito boa; parece que estamos vivendo aquela época, com recriações fieis à época, além de um clima de interior que enche os olhos. É o tipo de coisa que eu gosto em um filme, conforme mencionei em outras resenhas.

 

Além do clima de interior, outro detalhe que prende o espectador é a trilha sonora, composta por Jerry Goldsmith. Desde os créditos de abertura, ouvimos uma trilha belíssima, com ar de fantasia, ou de filme familiar, sem aqueles toques pesados de filme de terror. Não há dúvidas que Goldsmith era um grande compositor, com uma grande contribuição para o cinema, e a trilha sonora deste filme é uma delas. Uma trilha muito linda, mesmo.


Além da trilha sonora, outro ponto positivo é a fotografia. O filme é completamente colorido, com a fotografia destacando o calor do verão, e passando a sensação de calor; nas cenas noturnas, a coisa não é diferente; são cenas bem filmadas, que também passam uma sensação de realidade. Além da sensação de calor, o filme tem uma cena filmada do ponto de vista de um corvo, que sobrevoa a fazenda. Uma cena muito linda, com a câmera área percorrendo as locações, combinada com a trilha de Goldsmith.

 

E por fim, as atuações. Não existem atuações exageradas e caricatas; ao contrário, todos os atores entregam ótimas performances, e passam a sensação de serem pessoas reais. O melhor fica com os gêmeos Chris e Martin Udvarnoky, que interpretam os irmãos Perry. Por se tratar de um filme de gêmeos, temos aqui o clássico exemplo de gêmeo bom e gêmeo mal, e os atores mirins atuam muito bem, passando veracidade, chegando, inclusive, a confundir o espectador, principalmente porque eles usam as mesmas roupas, coisa comum nos gêmeos. Diana Muldaur também entrega uma atuação digna de nota, no papel da mãe dos gêmeos. Sua personagem carrega um trauma nas costas, e por conta disso, vive adoentada. Pois bem, a atriz passa essa sensação de personagem amargurada por algo terrível do passado e mais tarde, quando sua saúde piora, e sensação permanece. E por fim, a atriz Uta Hagen também não faz feio, no papel da avó dos irmãos, chegando até a ser melhor que eles.

 

A Inocente Face do Terror é um filme de terror psicológico, no melhor estilo do gênero. É uma história sobre loucura, principalmente, e um dos gêmeos é atormentado por ela. É evidente a loucura do personagem, principalmente quando acontece uma reviravolta chocante na trama, e o garoto não consegue se libertar dela, o que gera uma das melhores e mais assustadoras cenas do filme.

 

Por conta da história, é um filme que não dá para falar muito sem entregar spoilers; o máximo que pode ser dito é que acontece uma reviravolta chocante, e só isso. O resto fica por conta do espectador. O máximo que posso dizer é que o final é muito pesado, e me impressiona toda vez que assisto. E só isso.

 

Foi lançado por aqui em DVD pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror Vol.3. Anteriormente, chegou a ser lançado em VHS no Brasil, mas esteve fora de catálogo por muitos anos; além disso, também foi lançado em DVD pela Classicine.

 

Enfim, A Inocente Face do Terror é um filme excelente. Uma fascinante historia de terror e suspense psicológicos, com reviravoltas e conclusões chocantes. Um filme que pode enganar o espectador desavisado, principalmente na primeira vez, e por isso, deve ser visto novamente. A direção de Robert Mulligan, misturada com o roteiro de Thomas Tryon, além da trilha sonora de Jerry Goldsmith, e as atuações convincentes, formam o conjunto perfeito, e deixam o filme ainda melhor a cada revisão. Um filme perturbador em todos os sentidos. Excelente. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo



Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


sábado, 21 de novembro de 2020

HÄXAN, A FEITIÇARIA ATRAVÉS DOS TEMPOS (1922). Dir.: Benjamin Christensen.

 

NOTA: 10



Filmes sobre a Caça às Bruxas não são fáceis de assistir, e o principal motivo são as cenas de tortura e execução. Pois bem, não sei qual o primeiro filme a retratar esse período vergonhoso da historia da Humanidade, mas, sem dúvida, HÄXAN, A FEITIÇARIA ATRAVÉS DOS TEMPOS (1922) é um dos melhores e mais assustadores, mesmo quase cem anos após seu lançamento.

 

Não se engane. Mesmo depois de tanto tempo, o filme continua relevante e atual, e principalmente, muito assustador. Häxan é um filme profano até a medula, com suas imagens perturbadoras e chocantes, até para os padrões atuais.

 

O diretor Benjamin Christensen teve como base o polêmico O Martelo das Feiticeiras (Malleus Maleficarum), o mais famoso livro sobre Caça às Bruxas da História, publicado no século XV, que se tornou uma espécie de guia para a Inquisição durante a época. Pois bem, segundo informações, o diretor mostrou interesse em fazer um filme sobre o livro, ainda em 1919, e pelos dois anos seguintes, estudou o tema a fundo. A pós-produção levou um ano para ser concluída, enquanto a fotografia principal levou cerca de oito meses. Como resultado, o filme tornou-se o longa europeu mais caro do cinema mudo.

 

Como mostrado já nos letreiros de abertura, o filme é divido em sete capítulos. No primeiro capitulo, somos apresentados a uma espécie de documentário, mostrando a representação do Demônio e das bruxas durante a Idade Média, usando como imagens, as clássicas ilustrações da época. Nos capítulos seguintes, o filme apresenta uma espécie de recriação da época medieval, como se fosse uma espécie de antologia. O mais pesado fica para os capítulos 4 até o capitulo 6, onde o diretor relata como foi a época da Inqusição, mostrando sem pudores o julgamento e tortura de uma velha senhora, acusada de bruxaria. E no ultimo capitulo, o filme nos leva até a Era Moderna, no caso, o começo da década de 20, onde o avanço da Ciência tenta nos dar uma explicação racional para o que na Idade Média era considerado como manifestações do Demônio, como por exemplo, doenças mentais e deformidades.

 

Do começo ao fim, Häxan é uma obra importante para os fãs de cinema. No quesito técnico, apresenta grandes cenas com efeitos especiais, como por exemplo, projeções, animação stop-motion e maquiagem. São cenas muito boas, e até hoje não deixam de ser impressionantes, pelo menos para mim. Difícil destacar uma cena especifica, porque são todas muito bem feitas, principalmente a maquiagem das criaturas, mais detalhes adiante.

 

Além de fazer uso de efeitos especiais dignos de nota, o diretor também não mostra pudor ao retratar a realidade, principalmente nas cenas históricas. Não espere pessoas com maquiagem para simular a sujeira e a velhice; não, aqui é tudo mostrado na cara dura: imperfeições, dentes faltando, sujeira, tudo que tem direito. E além disso, o diretor também faz questão de mostrar até mesmo cenas de nudez, mesmo que maneira quase imperceptível, e também, sacrifícios humanos e rituais satânicos com realismo impressionante.

 

Como mencionado acima, a maquiagem é um dos destaques. Os demônios e as criaturas são retratados de maneira quase que realista, principalmente o próprio Satã, interpretado pelo próprio diretor. Não me lembro de ter visto uma caracterização tão profana quanto a mostrada aqui, nem mesmo em outros filmes que falam sobre o assunto. A maquiagem é tão perfeita que faz pensar que aquelas criaturas são reais, o que aumenta o grau de realismo.

 

E a melhor sequência do filme, sem dúvida, é a sequência da Missa Negra dentro da floresta. Tem de tudo: profanação, sacrifícios, nudez, adoração à Satã... Tudo feito de uma maneira impressionante, que, novamente, beira ao realismo. É de fato uma sequência perturbadora e quase desconfortável, principalmente por conta das imagens de profanação e adoração à Satã, mas também não deixa de ser impactante e digna de nota, por conta da maneira como foi dirigida e montada. Uma sequência arrepiante e digna de pesadelos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Obras-Primas do Cinema, em versão restaurada, com três opções de áudio e muitos extras. Lá fora, recebeu uma nova restauração em 4k em Blu-Ray pela Criterion; anteriormente, foi lançado em DVD no Brasil pela Magnus Opus; e além disso, como está em domínio publico, pode ser encontrado no YouTube sem dificuldades.

 

Enfim, Häxan, A Feitiçaria Através dos Tempos é um filme excelente. Uma obra verdadeiramente assustadora, com imagens e cenas dignas de pesadelos. Um filme muito bem feito, e que até hoje, impressiona, por conta de seus efeitos especiais e cenas antológicas. O diretor Benjamin Christensen faz um relato histórico detalhado e impressionante da época medieval, passando pela Inquisição, e mostrando, sem pudor, cenas de tortura, violência, nudez e profanação. Sem dúvida, uma obra profana até a medula, mas não menos impressionante e atual. Um dos filmes de terror mais assustadores de todos os tempos. Perturbador. Arrepiante. Macabro. Excelente. Altamente recomendado.

 


Créditos: Obras-Primas do Cinema



Agradecimentos:

Canal Boca do Inferno.com.br


Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A NOITE DOS ARREPIOS (1986). Dir.: Fred Dekker.

 

NOTA: 9.5



Não é novidade nenhuma que os anos 80 foram a década mais prolifera do terror, com inúmeras produções baratas, muitas de gosto duvidoso, mas muito divertidas. A NOITE DOS ARREPIOS (1986), do diretor Fred Dekker, é uma delas.

 

Devo confessar que sempre tive uma impressão errada a respeito desse filme; achava que se tratava de uma comedia adolescente de humor negro, com zumbis no meio; e muito disso se deve a um dos pôsteres, que mostrava um zumbi vestido de smoking em frente a uma janela, segurando um buque de flores.

 

Bem, eis que tive a oportunidade de assistir ao filme. Eu não podia estar mais errado! A Noite dos Arrepios é um filme super legal, do tipo que faz falta hoje em dia. É um filme B? Sim! A história é absurda? Com certeza! Tem atores canastrões e atuações exageradas? Pode apostar! Mas tudo isso faz parte do charme do longa. É sério, desde a primeira vez que vi esse filme, eu adorei. É tanta besteira e canastrice jogadas na tela, mas são besteiras e canastrices divertidas, daquelas que arrancam sorrisos e risos propositais.

 

Sem contar que o roteiro é uma bela homenagem ao cinema Classe B dos anos 50, e também ao próprio gênero terror. São tantas referencias apresentadas que não soam forçadas, e são fáceis de aceitar; e cada uma é melhor que a anterior. Nomes de cineastas do gênero como David Cronenberg, John Landis, Tobe Hooper, Sam Raimi e John Carpenter são citados no longa, no caso, os personagens foram batizados assim; além, é claro, do nome da universidade: Corman University! Não é genial? Não seria demais se essa universidade existisse de verdade? E temos também uma ponta do saudoso Dick Miller no papel do faz-tudo Walter Paisley.

 

Além das citações a cineastas, temos também citações a filmes do gênero, como por exemplo, o clássico de Ed Wood, Plano 9 do Espaço Sideral (1959), mencionado logo no começo do filme. Aliás, o começo do filme merece uma citação. Todo rodado em preto e branco, com ambientação nos anos 50, ficou perfeito. Parece mesmo que estamos assistindo a um filme B de ficção cientifica daquela época. Muito bom.

 

A Noite dos Arrepios é um filme de zumbi, com tudo que tem direito. Só que existe algo a mais. É um filme de zumbi com pitadas de ficção cientifica, uma vez que a ameaça é desencadeada por um experimento alienígena que cai na Terra. O prologo ambientado dentro da nave extraterreste também é muito legal. Tem até legenda para os diálogos dos ETs. E o melhor é que parece não ter relação nenhuma com o título do longa; por exemplo: “O que uma nave extraterrestre tem a ver com arrepios?”, ou então, “É um filme de invasão alienígena? Então por que tem esse título?”. Com certeza, qualquer pessoa que vá assistir ao filme pela primeira vez vai fazer essa pergunta.

 

Além de ser um dos melhores filmes de zumbis dos anos 80, é também um dos maiores representantes do Terrir, que tomou conta do gênero na época. O filme é propositalmente uma comedia de humor negro. Tem tudo que faz parte: situações absurdas, diálogos estúpidos e personagens idiotas. A dupla de protagonistas, Chris e JC, é um exemplo. Os dois são completos losers, que vivem tentando azarar as garotas, mas não conseguem, principalmente Chris. Quando se apaixona pela mocinha, ele é tão medroso, que JC precisa ir falar com ela. Situação corriqueira e familiar. Outros personagens como os membros da fraternidade, o faxineiro, o cientista, os policiais incompetentes, as garotas da fraternidade e uma garota CDF completam o elenco de personagens imbecis e caricatos. Um prato cheio.

 

No entanto, nenhum deles é melhor do que o detetive Cameron. Interpretado pelo sempre canastrão Tom Atkins, outra figura carimbada do cinema de terror, o policial é o dono do filme. Ele tem as melhores tiradas, os melhores diálogos, as melhores cenas e a melhor fala do longa. Impossível esquecer: “Eu tenho boas e más notícias, garotas! A boa notícia é que seus namorados chegaram. A má notícia é que eles estão mortos”. É genial! É a frase que resume o filme inteiro. E como todo personagem de comédia, ele também seu próprio bordão: o também clássico “Thrill me!”, “Manda ver!”. Não sei quantas vezes ele diz a frase, mas não fica chato; pelo contrário, a gente até espera por ela! Hilário. Fora a caracterização do personagem. Sempre de sobretudo, com a gravata desfeita, e arma na mão; além disso, é um fracassado de marca maior, traumatizado por um trauma do passado. E a fama do personagem é tanta que a NECA lançou uma action-figure do personagem com uma espingarda e uma lata de cerveja. Item de colecionador.

 

Essa também é outra sacada do filme. Tem umas três histórias diferentes dentro do roteiro. A primeira é sobre alienígenas; a segunda é sobre zumbis; e a terceira é sobre um maníaco foragido. E o melhor é que todas se encaixam. Sem dúvida, o roteiro é muito bem amarrado e não deixa nada de fora, até os detalhes que aparecem no começo são retomados depois. Novamente, é o tipo de coisa que faz falta hoje em dia.

 

E claro, não dá pra não mencionar os zumbis. Como todo filme de terror dos anos 80, foram utilizados efeitos práticos para dar vida aos mortos-vivos; e tais efeitos são espetaculares. Tem de tudo: maquiagem, animatrônicos e marionetes. Os zumbis são excelentes, com o clássico andar arrastado e expressão neutra. No entanto, o melhor de todos é um cujo rosto foi rasgado e apenas a caveira ficou a mostra. Muito bom. Existe até um gato zumbi!

 

Para finalizar, A Noite dos Arrepios possui um enorme apelo cult nos Estados Unidos. É um dos filmes de zumbi mais lembrados pelos fãs do gênero por lá. Aqui no Brasil, permanecia inédito por anos – não sei se chegou a passar na televisão – até que foi lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, na coleção Zumbis no Cinema, em versão restaurada, na Versão do Diretor, com o final original.


Enfim, A Noite dos Arrepios é um filme super legal. Um festival de bobagens e sustos, combinados de maneira perfeita, do jeito que somente cineastas criativos sabiam fazer. Um filme com apelo saudosista absoluto, e que fica melhor a cada revisão. O tipo de filme que podemos assistir embarcando na piada, e continuamos rindo até o final. Um roteiro bem amarrado e uma direção experiente, aliados a atuações canastronas e efeitos especiais de primeira, foram uma combinação perfeita. Um exemplo de filme que faz falta atualmente. Genial. Engraçado. Assustador. Exagerado. Excelente. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo



Acesse também:

https://livrosfilmesdehorror.home.blog/


AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.