sábado, 8 de fevereiro de 2020

A COMPANHIA DOS LOBOS (1984). Dir.: Neil Jordan.


NOTA: 10



A COMPANHIA DOS LOBOS (1984)
A COMPANHIA DOS LOBOS é um filme lindo! Lançado em 1984, é a segunda aventura de Neil Jordan na direção; dois anos antes, ele estreou no cinema com Angel, O Anjo da Vingança, onde também iniciou sua parceria com o ator Stephen Rea, que se tornaria seu colaborador recorrente.

À primeira vista, o filme parece uma versão adulta da historia da Chapeuzinho Vermelho, devido às semelhanças da narrativa com o conto original. Na verdade, o filme é uma adaptação de uma historia da escritora Angela Carter, que trabalhou no roteiro ao lado do diretor. Apesar de fazer parte do gênero terror, eu pessoalmente, classifico o filme como uma obra de fantasia. E assistindo, fica claro o motivo dessa classificação.

É um filme belíssimo, cheio de cores, sombras e luzes, mas, principalmente, sombras. Além disso, é um verdadeiro filme de terror gótico, com tudo que tem direito. Claro, não chega aos pés de um filme do Maestro Mario Bava, mas, possui alguns dos elementos presentes no gênero. Sem duvida, o mais evidente é a floresta envolta em névoas, presente em algumas cenas; outros elementos também aparecem, como o próprio visual da pequena igreja da vila e o cemitério com as lapides inclinadas.

Não só isso. É um filme de fantasia na melhor concepção da palavra. Jordan deu a ele um aspecto de sonho mesmo, o que o deixa ainda mais bonito de se ver. E a cada revisão, ele fica melhor. Eu já sabia que o filme era maravilhoso, e após a ultima revisão, minha opinião não mudou. É o tipo de filme que prende a atenção do espectador, seja pela narrativa, pela fotografia, pelo design de produção... Enfim, tudo nele contribui para sua beleza.

Esse aspecto de sonho se deve muito ao orçamento limitado. Segundo o próprio diretor, ele encontrou dificuldades em trabalhar com o orçamento de que dispunha para criar o visual do filme; mesmo assim, o resultado ficou excelente, e deu ao longa um aspecto tanto fantasioso quanto claustrofóbico. Em vários momentos, os cenários são tão pequenos que parece os personagens vão ser esmagados por eles, ou então, dá a impressão de que eles estão, de fato, presos em um mundo de fantasia criado pela menina em seus sonhos. Não é o tipo de sensação que encontramos em muitos filmes de terror hoje em dia.

Então, A Companhia dos Lobos pode ser considerado somente como um filme de fantasia, e não como um filme de terror? Ao contrário. É um verdadeiro filme de terror. Apesar de classifica-lo mais como um filme de fantasia, eu admito que é, sim, um filme de terror. O terror está em dois pontos. O primeiro é a atmosfera. Conforme já mencionado, é um filme de terror gótico, e isso já o faz ser assustador. Existem cenas que provocam arrepios na espinha. Uma delas acontece no inicio do filme, quando a irmã da protagonista é atacada e morta por um bando de lobos. Além de contar com aspecto de pesadelo, a cena conta com efeitos especiais convincentes, que deixam-na mais arrepiante; um deles é o bonequinho que ganha vida e corre atrás da garota, antes de ser derrubado por ela. A fotografia também é um elemento-chave. As cenas noturnas são verdadeiramente arrepiantes e sombrias, e passam a sensação de insegurança. Realmente, eu não queria me aventurar naquela floresta depois do escurecer. As árvores estão mortas, sem folhas, com galhos secos e retorcidos, semelhantes a garras, e parece que vão nos agarrar e nos engolir. É tudo muito bem feito.

Outro ponto são os efeitos especiais. Mesmo para a época, são muito bons e convencem sem esforço. A primeira grande cena é justamente a primeira cena de transformação. É uma cena assumidamente sangrenta, com efeitos práticos muito bem executados. Desde a primeira vez que a vi, fiquei impressionado porque é realmente uma cena bem feita. Parece que de fato, o ator Stephen Rea está se transformando em lobo – uma transformação visceral, diga-se de passagem – arrancando sua pele, expondo seus músculos cobertos de sangue, enquanto seu rosto e seu corpo se modificam, até atingirem a forma completa de um lobo. A última cena de transformação também é excelente – inclusive, é a melhor cena do filme. Ao contrario da primeira, ela não possui litros de sangue, mas consegue ser mais violenta, devido à performance do ator Micha Bergese. Para os mais exigentes, talvez essas cenas pareçam falsas, mas, para mim, é exatamente o contrario. São muito melhores do que qualquer efeito digital de hoje.

O elenco é também um ponto a favor. Todos, sem exceção, entregam atuações muito boas e convincentes. Parece mesmo que aquelas pessoas são reais e vivem naquela época. Inclusive, alguns até entregam atuações que beiram ao cômico, como por exemplo, o ator que interpreta o garoto apaixonado por Rosaleen. Logo na sua primeira cena, no funeral, ele mostra a língua para a menina e leva um peteleco da mãe. É muito engraçada. O garoto é um completo palhaço, sempre tentando conquistar Rosaleen, seja por meio de presentes ou usando um passeio na floresta depois da missa. Mas suas investidas mostram-se fracassadas. Difícil assistir e não rir. Mas a melhor cena acontece quando ele chega correndo na vila, avisando que há um lobo nas redondezas. O pai da menina, assustado por não vê-la, dá-lhe uma surra, que se transforma em uma briga coletiva, com direito a socos, empurrões e banhos de água. Hilário. Difícil assistir e não dar risada.

Mas, apesar das atuações convincentes, quem rouba a cena são os veteranos Angela Landsbury e David Warner, que interpretam a avó e o pai de Rosaleen. Dona de uma respeitável carreira no cinema e o teatro, ela dá um show interpretando a Vovó, oscilando entre o cômico e o sério. De verdade. É a típica avó que cuida da netinha e lhe passa lições de vida, além de contar suas historias de feras que vivem na floresta. A melhor cena é quando ela o padre discutem no pátio da igreja após o mesmo atingi-la na cabeça com um galho que acabou de podar. Uma discussão muito engraçada, que fica melhor toda vez que revejo o filme. David Warner também não decepciona. Assim como Landsbury, ele também parece um pai verdadeiro, disposto a proteger e cuidar da família. E o melhor é que o ator convence muito como um típico pai de vilarejo do século XVIII. Na verdade, a atriz que interpreta a mãe de Rosaleen também convence.

No entanto, quem dá coração ao filme é a atriz Sarah Patterson, fazendo sua estreia no cinema. Ela entrega uma atuação espetacular. Sua Rosaleen é a própria imagem da inocência juvenil: ingênua, mas inteligente, ela vive em um mundo de fantasia, e não tem medo dos possíveis perigos que vivem na floresta, nem mesmo quando encontra o Caçador. Além disso, ela ficou perfeita na caracterização da Chapeuzinho Vermelho, fugindo da imagem clássica da personagem – loira de olhos azuis. Difícil dizer qual a melhor cena. Ao que parece, ela era muito mais jovem do que as outras atrizes que o diretor de elenco procurava, além do fato de que ela não poderia compreender os temas adultos presentes na narrativa. Mas o importante é que ela conseguiu entregar uma excelente atuação, e criou uma das melhores personagens do horror dos anos 80.

Além de ser um filme de lobisomens, A Companhia dos Lobos é também uma antologia. Mas não é típica antologia, que começa com a primeira historia e vai passando para as outras. Aqui, a antologia se desenrola por meio das historias que a Vovó conta para Rosaleen. E não são uma seguida da outra. Ocorre um período de tempo entre uma historia e outra, o que deixa o filme mais interessante, e às vezes, faz com que esqueçamos que estamos diante de uma antologia. E não é apenas a Vovó conta historias. Rosaleen também suas próprias historias para contar, e são tão assustadoras quanto as da Vovó. Difícil dizer qual a melhor, mas a minha favorita é a ultima, que acontece no final do filme.

E além de ser um filme de lobisomens e uma antologia, o filme também é uma historia de amadurecimento e despertar sexual, representados pela própria Rosaleen. É possível perceber o quanto ela amadurece durante o filme, seja por meio das historias de sua avó, seja por conta própria. É impressionante a transformação da personagem, de uma garotinha a uma adolescente prestes a descobrir o sexo. Um desses momentos acontece quando ela ouve os pais fazendo sexo à noite, e no dia seguinte questiona a mãe o que aconteceu entre eles. Não sei vocês, mas para mim, isso mostra o quão crescida a menina está. Mas sem duvida, o verdadeiro despertar acontece quando ela encontra o Caçador na casa da Vovó. Mesmo não contendo nada explicito – até porque não poderia – a sequencia é carregada de conteúdo erótico, representado pela figura sedutora do Caçador. Além disso, dá ênfase à historia original da Chapeuzinho, que diziam, era repleta de conteúdo adulto, envolvendo até pedofilia, canibalismo e zoofilia.

Mas nada disso impede A Companhia dos Lobos de ser um conto de fadas. Como já mencionado, o filme possui um aspecto de sonho e fantasia, que e chega até ser meio infantil. Um dos motivos é o fato de que foi todo filmado em estúdio, provavelmente pelo orçamento limitado. Mas nada disso é um defeito. Os cenários parecem verdadeiros e são muito bem feitos. Outra limitação orçamentaria é o fato de o diretor utilizar pastores-belga para simular os lobos, uma vez que o roteiro pedia a presença de mais lobos. Mas isso também não é um empecilho. Eu consigo imaginar aqueles cachorros como se fossem lobos, sem o menor problema, principalmente por causa da sua aparência. Lobos de verdade só aparecem algumas vezes no filme, e por poucos minutos. Mas como já disse, não faz a menor diferença; o importante é que convence muito bem e sem esforço.

E qual a minha cena favorita? Bom, não posso dizer, porque acontece no final do filme, então seria um spoiler. Só digo que é belíssima, e que servirá de inspiração para mim no futuro.

A Companhia dos Lobos foi lançado em Setembro de 1984, e foi recebido com criticas positivas, apesar de não ter tido uma boa bilheteria. Além de receber criticas positivas, o filme recebeu vários prêmios ao redor do mundo. No Brasil, foi lançado em Julho de 1987. Não sei se chegou a ser lançado em VHS por aqui, mas foi lançado em DVD, numa edição de banca. Atualmente, está fora de catálogo. Lá fora, já foi lançado em Blu-ray, em belíssima versão restaurada. 

Sobre o lançamento nos cinemas americanos, uma curiosidade: o filme foi distribuído pela Cannon Group, que o divulgou como um filme de terror, contraria à intenção do diretor Neil Jordan, que acreditava que tal intenção seria enganosa.

Conforme mencionei na resenha de Grito de Horror, A Companhia dos Lobos faz parte de uma “trilogia” de filmes de lobisomens lançados nos anos 80. Na verdade, outros exemplares do gênero também foram lançados nessa época, mas sem duvida, os mais memoráveis são: Grito de Horror, Um Lobisomem Americano em Londres e A Companhia dos Lobos, que em minha opinião, é o melhor deles.

Enfim, A Companhia dos Lobos é um filme belíssimo. Um filme de terror gótico com elementos de fantasia. Um dos melhores filmes de lobisomens de todos os tempos.

Maravilhoso.

Altamente recomendado.



"Little girls, this seems to say
Never stop upon your way
Never trust a stranger friend
No one knows how it will end
As you're pretty, so be wise
Wolves may lurk in every guise
Now as then, 'tis simple truth
Sweetest tongue has sharpest tooth."









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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

NOTA.












Faleceu hoje, aos 103 anos, o ator Kirk Douglas, pai do ator Michael Douglas. A notícia foi dada pelo ator.

Dono de uma carreira de quase 80 filmes, Kirk Douglas era um dos últimos membros da Era de Ouro de Hollywood. Nascido em Nova York, começou sua carreira no teatro, e na década de 40, esteve na Broadway. Na mesma época, alistou-se na Marinha.

No cinema, o ator teve sua primeira indicação ao Oscar em 1949, pelo filme O Invencível, um clássico do cinema noir, considerado uma de suas melhores atuações.

Nos anos seguintes, continuou a trabalhar em muitos filmes, até que, em 1960, estrelou o épico Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick. Até o hoje, o ator era lembrado pelo papel. Anteriormente, havia trabalhado com Kubrick em Glória Feita de Sangue (1957).

Em 1956, interpretou o pintor Vincent van Gogh no excelente Sede de Viver, de Vincente Minelli, onde atuou ao lado de Anthony Quinn.

Seus outros filmes incluem Ninho de Cobras (1970), ao lado de Henry Fonda; A Montanha dos Sete Abutres (1951), de Billy Wilder; Estranha Fascinação (1948), com Burt Lancaster; A Cidade dos Desiludidos (1962), também de Vincente Minelli, com Edward G. Robinson; O Rio da Aventura (1952), de Howard Hawks; Assim Estava Escrito (1952), também de Vincente Minelli; Vinkings, os Conquistadores (1958), de Richard Fleischer; Ulysses (1954), de Mario Camerini e Mario Bava, entre outros.

Outro de seus grandes trabalhos foi em 20.000 Léguas Submarinas (1954), também de Richard Fleischer, produzido pelos estúdios Disney, onde interpretou o heroico arpoador Ned Land. O ator dividiu a tela com outros grandes nomes, como Paul Lukas, Peter Lorre, e James Mason, que interpretou o Capitão Nemo. O filme levou dois Oscars em 1955, por Melhor Direção de Arte e Melhores Efeitos Visuais.

Nos anos 70, tentou levar o livro Um Estranho no Ninho para o cinema, com a esperança de interpretar o papel principal. O ator esteve na adaptação da Broadway. Michael Douglas acabou produzindo a adaptação para o cinema, dirigida por Milos Forman, e estrelada por Jack Nicholson, lançada em 1975. O filme levou o Oscar de Melhor Filme em 1976, além de outros prêmios.  

Foi um grande amigo do ator Karl Malden (1912-2009), que esteve em Streets of San Francisco, com Michael Douglas.

Apesar de nunca ter levado um Oscar de Melhor Ator, acabou levando um Oscar Honorário em 1996, e um premio do AFI: Life Achievement Award em 1987. Recebeu também o premio Cecille B. DeMille, e três indicações em Emmy. Em 2009, prestigiou o filho Michael na premiação do AFI, onde mostrou todo o orgulho que sentia dele.

Uma de suas ultimas aparições publicas ocorreu na premiação do Oscar em 2011, quando anunciou o premio de Melhor Atriz Coadjuvante. A atriz Melissa Leo levou o premio por sua atuação em O Lutador. Foi o grande momento da controversa premiação de 2011. A cerimonia do Oscar de 1958, cantou a canção “It’s Great Not to be Nominated”, ao lado de Burt Lancaster, uma performance muito divertida.

Também foi Embaixador da Boa Vontade dos EUA desde 1960, e, ao lado de sua atual esposa, fundou a “Harry’s Heaven”, para tratamento do Alzheimer.

Uma lenda de Hollywood, Kirk Douglas sempre será lembrado como um dos maiores atores de todos os tempos.

Fica aqui a homenagem do Livros & Filmes de Horror à Kirk Douglas.





Agradecimentos: Uol Entretenimento. 





segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

AVISO!












O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso.

Novas resenhas a partir de Fevereiro/2020.

Obrigado.



sábado, 23 de novembro de 2019

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (1999). Dir.: Tim Burton.


NOTA: 10



A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA 
(1999)
A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA é um filme belíssimo! É um dos meus filmes favoritos do diretor Tim Burton – o primeiro é Marte Ataca! (1996) – e sem duvida, um dos seus melhores – aliás, nenhum filme do Tim Burton é ruim, e ponto! Não digo isso só porque sou fã, mas porque é verdade.

Eu tive o prazer de ver esse filme no cinema com a minha família duas vezes, a primeira na semana da estreia, e outra no ultimo dia, e adorei. Foi uma das melhores experiências da minha vida, porque a historia original de Washington Irving faz parte da minha vida desde sempre, principalmente por causa da maravilhosa animação da Disney. Aliás, por anos, foi a única versão que eu conhecia, e quando soube que iria acontecer, fiquei muito animado. Eu queria ver esse filme! E minha mãe compartilhava esse sentimento, porque, uns dias antes, ela me acordou de madrugada para assistir a um especial sobre ele na TV, e eu adorei, e a minha vontade de assistir aumentou. E quando fomos ao cinema, fomos pegos de surpresa pela primeira cena, com o cocheiro decapitado. Sem duvida, uma das melhores apresentações de um filme. E o resto da sessão correu muito bem, com as surpresas surgindo a cada momento. E quando fomos novamente para o cinema, a sensação não mudou. E continua assim até hoje.

É o tipo de filme que não fica chato quando assistimos; pelo contrario, fica melhor a cada vez. E isso se deve à genialidade de Tim Burton. Desde que o descobri com Marte Ataca!, lançado três anos antes, eu me apaixonei, e essa paixão dura até hoje. Tim Burton é o meu cineasta favorito, e é o diretor que me inspira a querer fazer filmes, da mesma forma que os filmes de terror que ele assistia na infância também o inspiraram. E aqui, ele presta diversas homenagens a esses filmes.

Burton cresceu assistindo aos filmes de Roger Corman com Vincent Price, seu ídolo maior, além das produções da Hammer com Christopher Lee, e outros. Na minha opinião, infância melhor não há. Nada melhor do que assistir aos filmes que você gosta, com os atores e diretores que você gosta, e acabar se inspirando neles no futuro. Afirmo, sem medo, que Tim Burton é a minha inspiração.

Nada em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é ruim. A fotografia em preto e branco é linda; a direção de arte, impecável; o figurino, belíssimo; a maquiagem, incrível... Tudo é lindo. E é possível ver o quanto Burton é um cineasta excepcional. Sua direção é madura e correta, com todos os detalhes em ordem, do jeito que deveriam estar, tudo feito da maneira que ele sabe fazer.

Com certeza a paixão do cineasta pelo material é um dos fatores a favor do filme. Burton conhecia a historia desde pequeno, através da animação da Disney, e para ele, havia algo de extraordinário na figura de um Cavaleiro Sem Cabeça, correndo a cavalo pela floresta com a espada e a abobora nas mãos. E dá para ver que ele levou isso para o filme. Em vários momentos, a animação da Disney está presente, principalmente nas cenas envolvendo o Cavaleiro. Sério. Parece que Burton pegou a animação e literalmente a transformou em um filme live-action, porque é tudo muito parecido! Não apenas as cenas envolvendo o Cavaleiro, mas a cena da ponte também. A própria ponte que divide o lugarejo de Sleepy Hollow em dois, é idêntica à ponte da animação; foi inclusive uma das coisas que me chamou atenção no cinema. E as homenagens não param por aí.

Além disso, o clima soturno da animação também está presente no filme, principalmente nas cenas noturnas. Um exemplo é a cena de exumação no cemitério. Parece a abertura da animação, com as lapides inclinadas diante da igreja. Muito bem feita. E claro, a sequencia da floresta também remete ao filme da Disney, até porque, a sequencia de perseguição entre Ichabod e o Cavaleiro já era soturna e assustadora; e aqui, Burton recria essa sensação.

Mas claro, além de prestar homenagens aos filmes de sua infância, Burton também homenageia a historia original de Irving, apesar das inúmeras diferenças. A mais evidente, para mim, é a Fazenda Van Tassel. Em vários momentos, Irving descreve a casa de Baltus Van Tassel como um enorme castelo, e aqui, isso foi reproduzido com fidelidade. A casa parece mesmo um castelo; na verdade, parece um castelo de historias de fantasmas; todo imponente, que pode ser visto do topo da colina... Uma construção arrepiante. O próprio lugarejo de Sleepy Hollow também passa essa impressão. Uma pequena comunidade no meio do campo, praticamente isolada do mundo, com animais como vacas, ovelhas e gansos correndo ao ar livre. Um lugar bonito, mas com uma atmosfera assustadora. E claro, o cavalo de Ichabod Crane, Pólvora. Mesmo com pouca presença na historia, ele não poderia faltar, até porque, é o companheiro do professor no clímax. E toda a descrição desajeitada de Ichabod como cavaleiro também aparece, porque, simplesmente, não poderia faltar. É uma das principais características da historia original. Alguns dos personagens também são reflexos da historia original. Ichabod é um covarde, cheio de frescuras; Katrina é doce, amável e sensível; Brom Bones é o valentão que tenta passar a perna em Ichabod; Baltus é o fazendeiro rico; e o próprio Cavaleiro é o espirito dominante da região, que mete medo nos habitantes do lugarejo. Enfim, tudo que aparecia na historia aparece aqui, de maneira excepcional e perfeita.

Com certeza, um dos pontos principais da historia original, é quem era o Cavaleiro Sem Cabeça e como ele perdeu sua cabeça. Aqui, isso é apresentado. O Cavaleiro é um soldado hessiano que lutava em uma batalha nos arredores de Sleepy Hollow. A única coisa que mudaram foi o modo como ele perdeu a cabeça: na historia de Irving, ele é decapitado por uma bola de canhão; aqui é diferente. A cena do flashback é uma das melhores, mostrando o Cavaleiro em toda sua fúria, decapitando e trucidando soldados. Muito bem feita, bem dirigida e atuada. Sangrenta e arrepiante.

Aliás, posso dizer que A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça marca uma espécie de nova fase para o diretor Tim Burton. No inicio de sua carreira, ele fazia filmes com um tom mais família, quase sem nenhum sangue ou violência. Aqui, ele já muda de figura. O filme é repleto de cenas sangrentas, com destaque para as decapitações. Dizem que os responsáveis pela censura acharam as cenas tão pesadas que classificaram o filme para maiores; aqui no Brasil, recebeu classificação “18 anos”, o que gerou problemas para quem foi assistir no cinema. Hoje em dia, talvez as cenas não sejam tão pesadas assim, mas na época, era compreensível. Não me lembro de ver um filme do diretor anterior a esse com essa pegada. O próprio Burton inclusive optou por não cortar as cenas de decapitação. E ao que parece, o diretor seguiu essa nova linha, porque Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007) é carregado de cenas sangrentas, por causa do conteúdo original. E mesmo assim, não parece que foi dirigido por outro cineasta. Incrível.

O elenco é também um dos pontos altos. Em sua terceira colaboração com Burton, Johnny Depp está perfeito como Ichabod Crane. Também fã da animação da Disney, ele conseguiu representar o personagem de maneira crível e divertida. Suas cenas de desmaios são muito engraçadas e servem muito bem para quebrar a tensão após uma cena assustadora. Em uma entrevista, Depp declarou que chegou a cogitar a hipótese de usar próteses para ficar mais parecido com o Ichabod Crane da animação, o verdadeiro Ichabod Crane. Sinceramente, achei que foi muito bom que isso não aconteceu porque só existe um Ichabod Crane alto, extremamente magro, com uma cabeça pequena e chata em cima, e nariz comprido, que parece uma das pontas de um cata-vento preso ao seu fino pescoço. E esse Ichabod Crane é o Ichabod Crane da Disney. Ponto! No entanto, as melhores atuações são de Christina Ricci e Christopher Walken. A atriz interpreta Katrina Van Tassel com uma delicadeza e uma beleza impressionantes. Parece que ela assume a personagem, de tão perfeita que é sua atuação. Sem duvida, ela soube traduzir a personagem melhor do que ninguém. Belíssima. Já Christopher Walken está assustador no papel do Cavaleiro Sem Cabeça. Mesmo não aparecendo muito, sua presença é marcante, e dá um ar maligno ao personagem. O Cavaleiro também foi interpretado pelo dublê Ray Park no restante do filme, quando vemos o personagem sem sua cabeça. Outro dublê também deu vida ao Cavaleiro nas cenas de montaria. Mesmo assim, nenhum deles consegue superar Walken. O restante do elenco também está muito bem em suas performances, e não parecem caricatos em momento nenhum.

Como mencionado, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é repleto de homenagens aos filmes que Burton assistia na infância. A começar pelos clássicos da Hammer, estúdio de cinema britânico responsável pelos maiores filmes do gênero nos anos 50, 60 e 70. O filme tem todo um aspecto da Hammer, com suas cores escuras, sangue pulsante e ambientação gótica. Lembra muito os primeiros filmes coloridos do estúdio, como os filmes do Drácula, estrelados por Christopher Lee. Aliás, a presença do ator é uma das maiores homenagens ao estúdio. Christopher Lee era um dos ídolos de Burton, ao lado de Vincent Price, e sua presença é impactante. O ator aparece por poucos minutos, mas valem a pena. A presença dele é imponente, que inspira e exige respeito de quem está ali. Burton até menciona nos comentários que todos da equipe pararam para prestar a atenção no ator, dada a sua magnitude. Em outra cena, Burton cita suas inspirações também em Roger Corman e em Mario Bava. Novamente, a fotografia e a ambientação contribuem. Além de lembrar os filmes da Hammer, o filme também lembra os filmes do Ciclo Edgar Allan Poe, estrelados por Vincent Price, que Corman dirigiu nos anos 60. Eu já tive o prazer de assistir alguns dos filmes do Ciclo Edgar Allan Poe, e posso dizer que a semelhança é impressionante. A floresta assombrada parece muito com as florestas dos filmes de Corman. Aliás, um detalhe. A cena de investigação de Ichabod na floresta possui uma das melhores tomadas do cinema de horror. O investigador avista uma estranha figura branca andando por entre as arvores retorcidas e decide ver o que é; para mim, é uma bela cena de floresta mal-assombrada, e com certeza, vai servir de inspiração no futuro. Mas, voltando, parece mesmo que eu estava vendo um filme de Roger Corman, e parecia que Vincent Price iria aparecer a qualquer momento. A inspiração em Mario Bava também é evidente. A cena em que Ichabod é perseguido por um falso Cavaleiro Sem Cabeça lembra muito as cenas de A Máscara de Satã (1960) e As Três Máscaras do Terror (1963); além disso, existem também duas outras homenagens ao filme de estreia de Bava, todas muito bem feitas e respeitosas. Existe também uma homenagem ao Clássico Frankenstein (1931), estrelado por Boris Karloff: a cena do moinho. Burton já declarou que sua primeira lembrança de moinhos veio do filme de James Whale, e assim como as homenagens à Bava e Corman, ele a presta com todo o respeito que o filme merece. No entanto, além de homenagear seus filmes favoritos, o diretor também homenageia a si mesmo. Os espantalhos que aparecem no milharal no começo do filme lembram a fantasia de espantalho de Jack Skellington; o vestido que Katrina usa em determinada cena lembra a roupa de Beetlejuice; e as participações de seus ídolos, Christopher Lee e Michael Gough, remetem à presença de seu ídolo máximo em Vincent (1982) e em Edward Mãos-de-Tesoura (1990). 

A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça foi lançado em novembro de 1999 e tornou-se um sucesso de bilheteria. O filme marca a terceira colaboração entre Tim Burton e Johnny Depp, iniciada em 1990 com o inigualável Edward Mãos-de-Tesoura. Os dois trabalharam juntos novamente em Ed Wood (1994), cinebiografia do “pior diretor de todos os tempos”; A Fantástica Fábrica de Chocolates (2004); A Noiva-Cadáver (2005); Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (2007); Alice no País das Maravilhas (2010) e Sombras da Noite (2012), baseado na série de TV “Dark Shadows”, de Dan Curtis.

Enfim, A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça é um filme maravilhoso. Um dos meus filmes favoritos. Uma historia de amor com elementos de suspense. Um verdadeiro conto de fadas. Excelente.









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quarta-feira, 30 de outubro de 2019

HALLOWEEN (2018). Dir.: David Gordon Green.


NOTA: 9.5



HALLOWEEN (2018)
Michael Myers está de volta. 40 anos depois de sua primeira aparição no cinema, e 20 anos desde a última – porque eu desconsidero completamente tudo que veio depois de Halloween H2O: Vinte Anos Depois, de 1998 – , ele está de volta.

E que retorno! HALLOWEEN é maravilhoso! É muito melhor do que esperava que fosse; é tudo aquilo que os fãs da franquia esperavam, e muito mais. Já na minha primeira conferida, pude ver que o filme cumpriu tudo que prometeu. É assustador, é sangrento, é tenso... Tudo que o filme original era. É um filme feito para os fãs da franquia; e feito com amor.

Tudo nesse filme funciona de maneira brilhante, desde o roteiro, passando pela direção, até as atuações, os efeitos especiais; tudo se encaixa perfeitamente, numa historia magistral, sem nenhum defeito e nenhuma ponta solta.

Devo confessar que, quando soube que um novo filme seria feito, fiquei empolgado, porque, como mencionei acima, desde 1998, Michael Myers e cia. não tiveram o tratamento que mereciam nas telas; pelo contrario, o personagem foi detonado e humilhado por cineastas que nada sabiam de sua mitologia. E isso é tudo que vou dizer a respeito das experiências lamentáveis pelo qual ele passou; não só ele, toda sua turma.

Mas, felizmente, isso foi consertado. O novo filme dá uma repaginada no personagem, mas sem tirar sua essência e sem alterar sua mitologia. Aqui, Michael continua o mesmo, a pura encarnação do Mal, sanguinário, selvagem, implacável. Não apenas o vilão que foi repaginado. Laurie Strode, a sobrevivente do primeiro filme, também foi reescrita. Agora, ao invés da adolescente inocente, virgem, do primeiro filme, aqui, ela se transformou em uma eremita, que vive sozinha em sua casa, afastada da cidade, cercada por armas e armadilhas, que ela mesma construiu, pois sabia que Michael retornaria um dia. Dito e feito. Michael escapou mais uma vez, e está pronto para recomeçar seu reinado de terror.

E da mesma forma que no Original, aqui ele executa sua arte com maestria. Desde o primeiro assassinato, Michael mostra que não está “enferrujado” pelo tempo; pelo contrario, continua uma maquina de matar, sem medo ou remorso. E como sempre, ele se mostra especialista na arte de matar, executando suas vitimas com selvageria e requintes de crueldade, tudo sem o menor remorso. Porém, aqui existe uma diferença. Se, no Clássico de John Carpenter não havia sangue, aqui a coisa é diferente. O sangue corre solto, mas não no estilo “torture-porn”, que infelizmente, tomou o gênero de terror. Pelo contrario, o sangue corre do jeito certo, sem exageros, sem muita sujeira, sem artifícios. E os métodos de Michael? Mais sobre isso adiante.

Esse é aquele tipo de filme que dá gosto de assistir, porque foi feito para os fãs. Não sei os outros, mas eu adoro o Michael Myers de antigamente, uma força da Natureza, o Mal encarnado, o assassino sanguinário; e aqui ele é tudo isso. Mas não é apenas isso que faz desse um filme feito com carinho. Todo o suspense e a tensão, presentes no primeiro filme, também aparecem aqui, desde o começo. Quando eu vi aquela cena de abertura, antes dos créditos iniciais, eu fiquei arrepiado porque é muito bem feita; gostei tanto que voltei umas duas vezes. Não se fazem cenas assim hoje em dia; e quando alguém consegue, é porque tem habilidade, e o diretor David Gordon Green tem.

Mesmo sem nenhuma experiência no gênero, ele se mostrou um excelente diretor de horror, e executou tudo com brilhantismo. Ele não apelou para câmeras tremidas, movimentos rápidos e bruscos; foi tudo feito com a câmera nas posições certas, com os movimentos certos, nos ângulos certos. A fotografia também fez bonito, principalmente nas cenas noturnas. As paletas de cores são ótimas, e combinam com as cenas, e o melhor, dão uma impressão de veracidade. E as cenas noturnas são belíssimas; ao invés da horrível paleta “verde musgo”, muito usada pelo diretor David Fincher, aqui nós temos paletas escuras, pretas, mas que fazem um belo contraste com as luzes das casas e das aboboras nas ruas.

Sobre os créditos iniciais, eu acho que são os melhores da franquia desde o quinto filme. Não apenas pela forma como eles surgem, mas também o que eles representam. Representam o ressurgimento da franquia. Eu vi em algum lugar que a regeneração da abobora na abertura, representa a regeneração da franquia. E é verdade, tanto que a tipologia é a mesma – que não é utilizada desde H2O – e o modo de apresentação do elenco também é o mesmo, além da abobora ser a mesma do primeiro filme e se modificar do mesmo jeito. Se isso também não é uma homenagem, eu não sei o que é.

Aliás, o filme presta várias homenagens, não apenas ao primeiro filme, mas também à própria franquia. Por exemplo, a cena dos assassinatos no banheiro, lembra muito a cena do banheiro em H2O; um personagem diz um nome que remete ao segundo filme; a cena da sala de aula é idêntica à cena da sala de aula do primeiro filme; a própria menção do termo “boogey-man”, etc., mas talvez, um dos maiores easter eggs tenha aparecido já no trailer, um easter egg de Halloween III (1983), que não apresenta os personagens do universo criado por Carpenter e Debra Hill. Novamente, é uma prova do quão importante a Franquia Halloween se tornou.

Além de contar com momentos – muitos momentos – de terror, Halloween também tem momentos divertidos. Ou melhor, um momento divertido. Acontece na cena em que uma das amigas da neta de Laurie está cuidando de um garoto enquanto seus pais estão fora. O menino é muito engraçado. Eu dei algumas risadas nessa sequencia, porque é muito boa mesmo. Talvez, tenha servido para quebrar a tensão, porque momentos antes, tivemos algumas cenas de assassinatos.

Agora, sobre Laurie Strode. Conforme mencionado acima, aqui, ela deixou de ser a adolescente tímida do filme original, e se transformou numa eremita. Ela vive isolada em sua casa afastada da cidade, lugar que ela transformou em uma fortaleza, com armas e armadilhas por todos os lados. Não apenas isso; ela também se tornou uma espécie de pária, sendo rejeitada pela filha, de quem perdeu a guarda no passado, teve dois casamentos fracassados, e tornou-se alcóolatra. Além disso, algumas pessoas também a consideram uma louca por acreditar que Michael Myers pode retornar um dia, o que contribuiu para a destruição de sua família. A única pessoa que tenta se aproximar dela é sua neta, a quem ela também tenta proteger. Mas todo esse declínio ajuda na reconstrução da personagem. Não acho que a coisa tivesse o mesmo impacto se Laurie tivesse se tornado uma pessoa que apagou tudo de sua memoria, e vive uma vida normal. Esse declínio é o tipo de coisa que tem que acontecer com alguém como ela. Excelente reconstrução.

Além dos protagonistas, o filme também apresenta um personagem chamado Dr. Sartain, que se torna uma espécie de Dr. Loomis, uma vez que, após o falecimento do medico, ele tomou o caso de Michael para si, pois está determinado a descobrir por que ele se tornou um assassino. Mas, ao contrario de Loomis, Sartain não se mostra tão bonzinho assim, e está disposto a cometer loucuras para provar seu caso. Além dele, temos também um casal de jornalistas que tem quase o mesmo objetivo. Primeiro, eles visitam Michael em Smith’s Grove e tentam motivá-lo, mostrando-lhe sua mascara. Mas, com o fracasso da expedição, eles vão à casa de Laurie, com o objetivo de desvendar o mistério por trás daquela noite de Halloween, há 40 anos. Mas, eles também falham.

O filme tem muitos efeitos práticos, e eles funcionam muito bem. Eu falo de sangue, muito sangue. Michael é implacável nas cenas de assassinato, utilizando o que estiver ao seu alcance para matar, e o faz com requintes de crueldade e selvageria. Pescoços quebrados, queixos deslocados, rostos contra portas, gargantas perfuradas... Tudo que tem direito; e muito bem feito.

E novamente, Michael está perfeito. Um monstro implacável, movido por puro instinto assassino, sem medo ou remorso. Uma maquina de matar indestrutível, com desejo por sangue e carnificina. Seu figurino é praticamente o mesmo do filme original, com detalhe para sua icônica máscara; toda cheia de marcas do tempo, mas intacta, livre de furos ou rasgos. E quando eles finalmente se reencontram, é o melhor momento do filme, sem dúvida! Michael Myers ressurge em toda sua gloria, pronto para retornar a Haddonfield, e reiniciar seu reinado de terror.

Com certeza, Halloween é o retorno digno da franquia aos cinemas, após anos. É uma pena que Michael tenha passado por três experiências lastimáveis, antes de retornar do jeito que deveria. Mas tudo bem, o que importa é que ele está de volta, maior, melhor e mais assustador do que nunca. Recentemente, começaram a sair noticiais sobre duas continuações para o filme, que prometem encerrar definitivamente a historia de Laurie Strode e Michael Myers. A primeira, Halloween Kills, título esse que eu não consigo engolir, será lançada em 2020; a última parte, Halloween Ends, tem lançamento agendado para 2021. Vamos aguardar.

Enfim, Halloween é um filme excelente, que presta varias homenagens ao Clássico de John Carpenter, e à franquia. Maravilhoso. Assustador, sangrento, tenso. Um filme excelente.

Altamente recomendado.









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sexta-feira, 25 de outubro de 2019

HALLOWEEN, A NOITE DO TERROR (1978). Dir.: John Carpenter.


NOTA: 10


HALLOWEEN, A NOITE DO TERROR
(1978)
HALLOWEEN, A NOITE DO TERROR, é, sem duvida, a obra máxima de John Carpenter. Lançado há 40 anos – completa 41 anos de lançamento em 25/out – , ainda é o maior exemplar do gênero Slasher. Além disso, é um dos maiores filmes de terror de todos os tempos.

O que o torna um filme excepcional é a própria historia. Vale lembrar que quando o filme foi lançado, o gênero ainda engatinhava no cinema; o único exemplar lançado até então era o excelente Noite de Terror (1974), do diretor Bob Clark, considerado o primeiro Slasher da historia. Nessa época, o Slasher tinha algo de especial, simplesmente porque os responsáveis sabiam como contar uma historia. Ou seja, não havia necessidade de mostrar sangue o tempo todo na tela; antes disso tudo, havia um enredo, com personagens estabelecidos, enfim. Coisas que fazem muita falta hoje em dia.

Halloween é perfeito até hoje, não apenas pela historia redonda, mas também pela maneira como foi produzido. Claramente um filme de baixo orçamento, rodado em pouco tempo, com atores novatos, quase sem nenhum efeito especial... A fórmula para se contar uma boa historia, conforme já mencionei varias vezes.

Carpenter soube fazer grandes coisas com o orçamento que dispunha. Como exemplo, Jamie Lee Curtis e suas colegas não tinham dinheiro para o figurino, então, usaram suas próprias roupas; a icônica máscara do assassino Michael Myers foi confeccionada a partir de uma máscara do Capitão Kirk de Star Trek, e outras coisas mais. Viram como é possível fazer um grande filme com o mínimo possível de recursos?

O roteiro, escrito por Carpenter e sua colega Debra Hill, é excelente. Não tem nenhuma ponta solta, e durante boa parte da historia, não mostra nada de assustador, apostando mais no suspense. Além disso, não acontece uma carnificina, coisa esperada em filmes do gênero; ao contrário, Michael mata apenas cinco pessoas, e não há sangue em nenhuma das cenas, uma delas acontece off-screen. O único momento em que o filme mostra uma certa quantidade de sangue, é no inicio, quando Michael esfaqueia sua irmã.

Aliás, essa é outra grande tirada do roteiro. Ao contrario dos filmes de hoje, onde é preciso haver uma explicação para determinados eventos assustadores, Carpenter não diz absolutamente nada sobre o passado de Michael Myers. Em menos de 10 minutos, ele já mostra o garoto esfaqueando a irmã e depois sendo descoberto pelos pais, que removem sua mascara e revelam sua expressão neutra. E já é suficiente. Não há necessidade nenhuma de contar quem era o garoto antes do assassinato da irmã, nem de contar por que ele se tornou um assassino. Existem coisas que é melhor não explicar, e ponto.

Outro mérito do filme é a sua trilha sonora, composta por Carpenter. É uma das trilhas mais memoráveis do cinema de horror, ao lado da trilha de Psicose (1960), com certeza. É aquele tipo de trilha que quando escutamos, já sabemos de qual filme se trata; e o melhor, não fica chata de ouvir. Eu gosto muito dessa trilha, é uma das melhores, talvez a melhor, composta pelo diretor. E também se tornou uma das marcas do filme, ao lado do vilão Michael Myers.

O elenco também se destaca. Jamie Lee Curtis, em seu primeiro filme, está perfeita como Laurie Strode, a final girl. Inclusive, acho que ela se tornou o modelo para as futuras final girls do gênero: ingênua, tímida, virgem, inteligente... O tipo de mocinha perfeita, que vencerá o mal e sobreviverá no final. Suas colegas de elenco também não fazem feio. Nancy Loomis e P.J. Soles também estão ótimas nos papeis de Annie e Lynda, respectivamente; os outros coadjuvantes também estão muito bem. Mas, ninguém está melhor do que o astro Donald Pleasence, no papel do Dr. Sam Loomis. Ao lado de Blofeld, de Com 007 Só se Vive duas Vezes (1967), esse o papel mais memorável do ator. Loomis é implacável, e não mede esforços para encontrar Michael. Mesmo com pouca presença, Pleasence rouba a cena, e faz de Loomis um personagem memorável. Em certo momento do filme, Loomis proclama um dos mais famosos monólogos do cinema de horror, em uma cena muito bem feita:

“Eu o conheci há 15 anos; disseram-me que não havia nada.
Nem razão, nem consciência, nem compreensão, 
ou a mais remota noção de vida ou morte; bem ou mal; certo ou errado.
Eu conheci esse menino de 6 anos com esse rosto vazio, 
pálido, sem emoção, e... olhos negros. Os olhos do Mal. 
Eu passei 8 anos tentando alcança-lo, e depois mais 7 tentando 
mantê-lo preso, porque eu sabia que o que existia por
trás dos olhos daquele menino era pura e simplesmente... o Mal.”

Sem duvida, uma das melhores falas do filme, e Pleasence o faz de maneira brilhante, sem apelar para caras e bocas e gestos exagerados. O tipo de cena que merece ser estudada, não apenas pela atuação de Pleasence, mas também pelo roteiro. Uma cena brilhante.

Ainda sobre Loomis, é possível ver que ao longo do filme, ele se transforma num personagem obcecado. Como mencionado acima, ele não mede esforços para encontrar Michael, mas tem um porém aí. Ele não está disposto a sacrificar alguém; pelo contrario, está disposto a se sacrificar para capturar o vilão. Na minha opinião, é um dos melhores anti-heróis do gênero. Sim, porque o Dr. Loomis não é um herói, que salva a cidade da ameaça do vilão. É mais um anti-herói.

Halloween é um Slasher. É fato. E como tal, apresentou uma fórmula que se repetiria a exaustão pela década seguinte:

1) É preciso ter acontecido algo ruim no passado;
2) Você precisa apresentar um grupo de adolescentes sozinhos em um ambiente em que não podem contar com a ajuda de adultos;
3) Se você fizer sexo, você vai morrer;
4) Deve ter a cena do “don’t go in there!”;
5) You can’t kill the Boogeyman.

Essas eram as “regras” estabelecidas pelo gênero naquela época, além das demais apresentadas pela franquia Pânico, nos anos 90. As principais eram, talvez, a dos adolescentes cheios de libido que transam loucamente e são mortos pelo assassino; e a final girl, que é a garota tímida e virgem, que sempre derrota o assassino. No quesito anterior, Halloween tem outra coisa: os adolescentes libidinosos são extremamente folgados. Meu Deus, como são folgados! Isso vale tanto para a Annie, quanto para a Lynda, e o namorado dela, o Bob. Eles não têm vergonha nenhuma na cara, e transam sem pudor na casa dos outros. Não sei como uma coisa dessas é permitida, mas, funciona. Vou ser honesto, não gosto muito das amigas da Laurie por causa disso, mas, ao contrario do que viria depois nos outros filmes do gênero, elas são personagens simpáticas, bacanas, até, o tipo de amigos que todos nós tivemos no colégio.

Esse é também outro ponto. A nostalgia. Quando eu assisti esse filme pela primeira vez, eu ainda estava na escola, então, eu me identificava muito com aqueles estudantes na sala de aula, escrevendo em seus fichários. Eu adoro essa sensação que o filme me passa, ainda hoje. Dá vontade de voltar àqueles tempos de colégio. Os outros filmes da minha coleção que passam a mesma sensação são Carrie, A Estranha (1976) e Christine, O Carro Assassino (1983); no entanto, desses três, Carrie possui impacto maior – mas esse é assunto para outra resenha.

Como mencionado acima, o roteiro de John Carpenter e Debra Hill foca muito mais no clima de suspense do que no terror. Como já mencionei em outras resenhas, é o tipo de filme que faz muita falta hoje em dia, porque existe uma historia sendo contada. Hoje em dia, o filme pode parecer arrastado para os mais exigentes, mas, para mim, isso ainda funciona; tanto que, até a metade do filme, nada de assustador acontece – assustador no sentido “horror” da palavra, porque a tensão está presente em todos os momentos. Nós quase não vemos Michael durante o filme, ele está sempre na penumbra, observando as adolescentes, antes de mata-las; e quando a primeira delas morre, já se passaram mais de 40 minutos de filme. Hoje em dia, é muito difícil se ver um filme construído dessa maneira. E as outras mortes também demoram um pouco para acontecer, e acontecem do mesmo jeito: na base do suspense e da lentidão da cena. E como mencionado também, aqui morrem somente cinco pessoas. E, apesar de ser um Slasher, não há uma gota de sangue. É perfeito.

Não posso encerrar esse texto sem falar sobre Michael Myers. O que dizer sobre ele? Michael é, sem duvida, um dos maiores vilões do cinema de horror. Uma figura que vive nas sombras, um stalker, um voyeur, implacável, selvagem... Tudo isso e um pouco mais. Michael é uma força da natureza, o Mal encarnado, conforme Carpenter definiu. É um vilão que não precisa de origem, nem de explicação para seus atos; uma figura que mete medo só de olhar para ele; nada consegue impedi-lo. É o vilão perfeito. E já aqui, Carpenter apresentou a ideia de que o assassino não pode morrer, algo estabelecido também nos filmes seguintes. E outra coisa que o torna assustador, é o fato de não conseguirmos vê-lo direito. Carpenter e o diretor de fotografia Dean Cundey foram muito espertos nesse sentido; Michael passa boa parte do filme escondido nas sombras, e só conseguimos vê-lo ao longe, sem mostrar seu rosto. Ele só aparece mesmo nos momentos finais, por poucos segundos. Sua icônica máscara rendeu uma das historias mais famosas de bastidores. Um dos problemas estabelecidos no roteiro é justamente a máscara do assassino. Em certo ponto, Carpenter cogitou utilizar uma máscara de palhaço, mas não agradou. Então, eles alteraram o roteiro, e substituíram a mascara. Então, o diretor de arte, Tommy Lee Wallace, foi a uma loja de fantasias e comprou uma máscara do ator William Shatner, famoso pelo seriado Star Trek, onde interpretava o Capitão Kirk. Eles então cortaram mais os olhos, pintaram-na de branco e pintaram o cabelo de preto. O resto é historia. Michael Myers fixou seu lugar no hall dos vilões do cinema de horror.

Halloween tornou-se um sucesso de bilheteria, arrecadando mais de 70 milhões de dólares, em comparação ao orçamento de US$ 300 mil. Por anos, tornou-se o filme independente de maior bilheteria de todos os tempos, perdendo o posto para As Tartarugas-Ninja (1990).

O sucesso do filme motivou o lançamento de uma sequência, Halloween II, de 1981, considerado tão bom quanto o primeiro. O filme seguinte, Halloween III (1983), dirigido por Tommy Lee Wallace, foi um fracasso de bilheteria, por não apresentar os personagens dos filmes anteriores. A franquia retornou em 1988 com Halloween 4, O Dia das Bruxas, com Michael Myers e o Dr. Loomis de volta. Halloween 5, A Vingança de Michael Myers, foi lançado em 1989, e na opinião de muitos, começou a apresentar a queda de qualidade da franquia. A verdadeira “queda de qualidade” só viria mesmo em Halloween 6, A Última Vingança, lançado em 1995, e ultimo filme de Donald Pleasence, que faleceu antes do termino das filmagens. Halloween 6 teve inúmeros problemas de bastidores, sendo esquartejado pelo estúdio, e lançado duas vezes: a primeira, lançado nos cinemas, mostrou-se uma verdadeira bomba; já a segunda versão, batizada de Producer’s Cut, é considerada a mais próxima da versão final, além de apresentar diferenças na narrativa. Em 1998, a série foi retomada com Halloween H2O: Vinte Anos Depois, novamente com Jamie Lee Curtis no papel principal e Steve Miner na direção. H2O tornou-se o primeiro reboot da franquia, porque ignorou tudo o que foi feito depois do segundo filme, além de terminar de maneira a saga de Michael Myers de forma definitiva. Infelizmente, não foi bem assim. Eu pessoalmente adoro todos os filmes da franquia – que para mim, acaba em H2O – até mesmo “os ruins” Halloween 5 Halloween 6 – Producer’s Cut.

Enfim, Halloween, A Noite do Terror é um Clássico absoluto. Um dos maiores filmes de terror de todos os tempos. Mesmo depois de 40 anos, ainda se mantém imbatível. Uma história muito bem contada, redonda e sem pontas soltas. Um clássico dos Slashers, e sem dúvida, o maior filme do gênero. Brilhante. Assustador. Tenso. Um filme excelente.  

Altamente recomendado.







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