sexta-feira, 10 de março de 2023

TUBARÃO (Peter Benchley).

 

NOTA: 8



Em 1975, o diretor Steven Spielberg lançou Tubarão, que se tornou um dos maiores clássicos do cinema, e um grande sucesso, arrecadando mais de US$ 100 milhões em bilheteria.

 

Mas hoje não estou aqui para falar do filme de Spielberg, mas, sim do livro que deu origem ao mesmo: TUBARÃO, livro de estreia de Peter Benchley.

 

Bom, já vou começar pelo obvio. O livro é muito diferente do filme, principalmente no que diz respeito a algumas cenas e alguns personagens. Claro, a cena de abertura é praticamente a mesma do filme, mas ainda assim tem suas diferenças. A principal delas é que o autor já resolveu mostrar o animal logo de cara, numa cena carregada de tensão e violência.

 

A partir do primeiro ataque, a história segue mais ou menos igual ao filme, como já disse, com suas diferenças. No primeiro momento, temos mais destaque para os coadjuvantes da trama, para depois focarmos no Chefe Brody e em sua família.

 

O livro é dividido em três partes.

 

Na primeira, temos o foco nos ataques do tubarão, que até acontecem na mesma ordem do filme, mas, com destaque para a presença do animal. Temos também o impacto que isso gera na comunidade de Amity, com Brody fazendo o possível para impedir que novos ataques aconteçam, sugerindo para as autoridades a interdição das praias, mas elas não aceitam, chegando a ameaçá-lo. Assim como no filme, a segunda pessoa a morrer é o garotinho na boia, e logo após, temos o confronto entre Brody e a mãe do garoto, na minha opinião, um dos momentos mais interessantes do livro, pelo modo como foi escrito – mais detalhes sobre isso adiante. Ainda na primeira parte, somos apresentados ao oceanógrafo Matt Hooper, que rapidamente cria uma divergência com Brody.

 

Na segunda parte, somos apresentados à vida na comunidade de Amity, com destaque para a relação entre Hooper e Ellen Brody. Esse é um dos pontos mais estranhos do livro, na minha opinião, porque parece surgir do nada, por causa de um relacionamento que Ellen teve com o irmão mais velho de Hooper. Bom, a segunda parte apresenta uma melhora quando chega ao ultimo capitulo, pois temos o foco no tubarão novamente.

 

Já a última parte é focada na caça ao peixe gigante. Ao contrário do que acontece no filme, nós somos apresentados à rotina diária de Brody, Hooper e Quint a bordo do Orca, enquanto eles esperam pelo peixe. No primeiro dia, acompanhamos os três enquanto discutem sobre a vida de pescador de Quint, enquanto o mesmo mostra a eles suas habilidades. No segundo dia, temos um breve encontro com o tubarão, mas antes disso, somos novamente apresentados à rotina dos três personagens a bordo do barco. Os dois últimos dias envolvem os confrontos finais com o peixe.

 

Pois bem, agora vamos falar sobre o livro em si. Como deu para ver, o livro é diferente do filme – algo muito comum – e apresenta momentos que foram aproveitados no longa de Spielberg, mas, a partir da segunda parte, temos uma história um pouco mais dramática, onde a rotina de Brody e dos demais personagens é apresentada, quase nos mínimos detalhes.

 

No entanto, um dos maiores problemas do livro, para mim, é a caracterização dos personagens. Se na primeira parte é possível ter simpatia por eles, o mesmo não pode ser dito da segunda parte, porque somos apresentados a Hooper, o oceanógrafo que chega à cidade para ajudar as autoridades. Ao contrario do filme, Hooper é mostrado como um personagem arrogante, que acha que sabe mais do que os outros por causa de sua profissão, apesar de às vezes se mostrar prestativo.

 

Os demais personagens também possuem caracterizações bizarras. Ellen, por exemplo, é descrita como uma dondoca que se arrepende de ter abandonado a vida de luxo que tinha após se casar com Brody; e o prefeito Vaughn, apesar de estar mais preocupado com a situação financeira da comunidade, em certos momentos, se mostra como um homem covarde e beberrão, que se envolve com membros da máfia de Nova York. Claro, não vejo nenhum problema com a visão pessoal do autor, mas em certos momentos, eu não consegui engolir as caracterizações dos personagens.

 

A escrita de Benchley é muito boa, porque em sua estreia, o autor conseguiu descrever o que queria mostrar com habilidade, principalmente as cenas envolvendo a cidade. No entanto, em certos momentos, ele apresenta algumas falhas, como descrever situações que parecem deslocadas ou extensas demais. O principal problema é que no final de alguns capítulos, o autor resolveu colocar cenas que não condizem com a narrativa, apenas para preencher espaço – na minha visão. As cenas de ataques são descritas muito bem e o suspense é construído aos poucos e consegue prender a atenção.

 

No entanto, o maior problema do livro é a relação entre Brody e Hooper. Desde o primeiro encontro, o autor faz questão de colocar um atrito entre eles, e tal atrito vai aumentando ao longo da historia, beirando ao exagero. E a coisa piora principalmente por causa do envolvimento de Hooper com Ellen, que, conforme mencionei acima, parece ter saído do nada, por causa de uma relação que ela tinha com o irmão dele.

 

A personalidade de Brody também apresenta um grave defeito na segunda parte, na sequencia do jantar. Durante toda a sequência, Brody é descrito como alguém extremamente desagradável, que não está nem um pouco à vontade com a situação, mas não se esforça para mudar. Na verdade, eu não gosto muito dessa sequência, porque ela parece sair do nada, a fim de mostrar como as personalidades dos envolvidos são fúteis.

 

E para finalizar os problemas, eu achei o final do livro muito apressado, com a solução acontecendo de uma vez, de forma quase impossível de acompanhar na leitura.

 

E o principal problema, não se refere ao livro como um todo, mas sim à tradução da editora DarkSide, que apresentou erros na escrita, principalmente nos diálogos. Para uma melhor leitura, eu recomendo a edição clássica da Círculo do Livro.

 

Mas, deixando esses problemas de lado, eu digo que Tubarão é um ótimo livro e serve como um bom pontapé inicial para quem não conhece a história, e para quem conhece apenas o filme.

 

Enfim, Tubarão é um livro muito bom. Uma história de horror e aventura escrita com grande habilidade, com momentos de tensão e suspense que prendem o leitor. Recomendado. 


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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

A CASA DO CEMITÉRIO (1981). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9



Entre 1980 e 1981, o diretor Lucio Fulci realizou a sua Trilogia do Inferno, em parceria com a atriz Catriona MacColl, que também se tornaram um marco em sua filmografia.

 

A CASA DO CEMITÉRIO é o ultimo filme da trilogia, e sem duvida, um dos mais violentos – senão o mais violento – de Fulci, tudo graças aos efeitos especiais, mas não vou falar sobre isso agora.

 

Antes de falar sobre os efeitos, vou falar sobre o filme. O longa é um dos mais estranhos do cineasta, com um clima de horror que predomina a fita desde o começo, com a ambientação sinistra da casa em estilo gótico rodeada por um cemitério.

 

Além disso, o filme é banhado de cenas carregadas no gore característico do diretor, onde o sangue jorra com gosto.

 

O filme é um dos mais estranhos de Fulci porque é uma mistura de vários gêneros, que vão desde casa mal-assombrada, passando pelo gore e chegando a história de crianças fantasmas. Mas isso não impede o longa de ser um dos melhores do diretor.

 

A trama até parece simples: família se muda para uma casa no interior e passa a ser aterrorizada por uma criatura sinistra; mas, conforme acabei de dizer, o roteiro mistura diferentes temas para chegar a tal, graças ao roteirista Dardano Saccheti, que utilizou temas de sua infância e de seu interesse para contar a história.

 

Conforme mencionado acima, o longa marca a terceira parceria de Fulci com a atriz Catriona MacColl, e ela não faz feio. Mais uma vez, a atriz interpreta uma personagem atormentada pelas forças das trevas, e desta vez, faz o que pode para salvar a família. Ao lado dela, temos o ator Paolo Malco, que também entrega uma ótima performance; no entanto, o problema no elenco de personagens, é o filho do casal, um ator mirim bem ruim... O resto do elenco também funciona bem, interpretando aqueles personagens estranhos, comuns no cinema de horror italiano.

 

A ambientação é a melhor coisa do filme, principalmente a casa em estilo gótico rodeada pelo velho cemitério. Desde que aparece em cena pela primeira vez, a casa passa uma sensação de medo e insegurança, principalmente nas cenas noturnas. O cemitério também contribui para isso, porque fica escondido na floresta, cercado de galhos velhos.

 

Conforme mencionado acima, o filme é um dos violentos de Fulci, graças aos efeitos especiais de gore, criados pelo mestre Giannetto de Rossi. Como fez deste que entrou no gênero horror, Fulci não poupa o espectador de cenas sangrentas, desde o começo do filme, em um assassinato duplo. A partir daí, o sangue rola solto, em uma cena mais sangrenta que a anterior, principalmente a cena do morcego, que colocou o longa na famigerada lista dos “Video-Nasties” no Reino Unido. A cena do morcego é a mais exagerada em termos de sangue, porque o mesmo corre em quantidades extremas, passando um pouco do limite, até. Outra cena também carregada de gore é a cena do assassinato da corretora de imóveis, que começa carregada de tensão e termina em um banho de sangue.

 

Além dos efeitos de sangue, temos também os efeitos por trás da criatura que vive no porão da casa, o Dr. Freudstein. A criatura parece um zumbi saído direto do clássico absoluto de Fulci, ao mesmo tempo que se parece também com alguém que sofreu um acidente. O monstro habita o porão da casa da família, que também é uma das melhores ambientações, envolta na escuridão, com cadáveres espalhados por todos os lados.

 

Além das cenas de gore, o filme também é cheio de cenas tensas, graças à direção maestral de Fulci, com a câmera que percorre todos os cômodos da casa, além do uso de lentes distorcidas e zooms e closes nos olhos do elenco.

 

Antes de encerrar, vou deixar uma curiosidade. A locação da casa gótica foi reaproveitada por Umberto Lenzi sete anos depois, no seu Ghosthouse.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror – Vol.4, em versão integral em dual áudio (Inglês ou Italiano).

 

Enfim, A Casa do Cemitério é um filme excelente. Uma história com clima de horror que predomina a narrativa desde o começo, misturado a uma direção inspirada e efeitos especiais carregados no gore. O diretor Fulci consegue criar tensão e horror na medida certa. Um dos melhores do Padrinho do Gore. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos.


Créditos: Versátil Home Vídeo


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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

AMITYVILLE 3 – O DEMÔNIO (1983). Dir.: Richard Fleischer.

 

NOTA: 8



Não há dúvidas que Amityville é uma das maiores – talvez a maior – franquia de terror do cinema. Ao todo, foram mais de dez filmes, entre as “continuações oficiais” e produções da Asylium. No entanto, a franquia tem apenas quatro filmes, lançados entre 1979 e 2017. Eu pessoalmente não considero os filmes que vieram depois de 1983, porque são todos horríveis e não tem nada a ver com a franquia original; o único que retomou a franquia foi Amityville – O Despertar, que traz a casa de volta.

 

Mas não vou falar sobre eles. Vou falar sobre o último filme da trilogia original, AMITYVILLE 3 – O DEMÔNIO, lançado em 1983 e novamente produzido por Dino de Laurentiis.

 

Ao contrário dos anteriores, aqui nós temos uma história original envolvendo a Mansão de Amityville, com pouco – ou quase nenhum – foco nos assassinatos cometidos por Ronald DeFeo em 1974.

 

Aqui, acompanhamos John Baxter, um cético repórter que compra a Mansão de Amityville após provar que um casal realiza falsas sessões espiritas. A partir daí, as coisas correm bem para ele, mas não demora muito para as manifestações acontecerem.

 

Amityville 3 foi dirigido por Richard Fleischer, que na época, estava em uma fase diferente da carreira. Aqui ele se mostra um diretor competente, e consegue tirar boas atuações do seu elenco, e cria cenas arrepiantes.

 

O elenco também não faz feio, principalmente o ator Tony Roberts, no papel do protagonista. Ele consegue passar a imagem do homem cético, que acredita somente no que é palpável. Tess Harper e Robert Joy também convencem, principalmente Harper, que interpreta a ex-esposa do protagonista, numa atuação dúbia, porque eu não sei dizer se ela concorda ou não com o divórcio; Joy interpreta o Dr. West, cientista que investiga o paranormal.

 

Devo mencionar também o elenco jovem, com as estreantes Lori Loughlin e – pasmem! – Meg Ryan, nos papeis da filha de Baxter e sua amiga, respectivamente. Em resumo, aqui, como nos outros filmes – principalmente no primeiro – temos personagens que parecem reais.

 

No entanto, o que mais chama a atenção no filme são os efeitos 3D. O longa foi produzido no auge dos efeitos 3D no cinema, onde praticamente todos os cineastas apelavam para o efeito, a fim de chamar o público. Não tenho dúvidas de que, na época, deve ter sido muito chamativo, mas, infelizmente, hoje em dia, é bem datado, principalmente por causa do fato de todos os personagens jogarem coisas na tela o tempo todo; e, conforme mencionei em Tubarão 3, quando o filme é convertido para 2D, a imagem e os efeitos ficam estranhos.

 

Na opinião, além dos efeitos 3D, temos também um pequeno problema relacionado à casa. Em certo momento, é possível ver que as tradicionais janelas foram substituídas por outras em dos lados da casa, e com isso, ao meu ver, a mesma perde parte de sua identidade.

 

Mas, mesmo com esse pequeno problema, é sempre bom ver a Mansão na tela, com suas janelas semelhantes a olhos, que chamam a atenção do espectador; além de sua presença ameaçadora e assustadora. Não há dúvidas que a Mansão se tornou a cara da trilogia.

 

Ao contrário dos dois anteriores, aqui não temos cenas carregadas de terror; ao invés disso, temos cenas levemente tensas, como por exemplo, a cena em que a personagem de Candy Clark percorre a casa com a lanterna, até o porão. É uma sequência tensa, mas não muito assustadora.

 

Realmente, parece que aqui, não temos muitas cenas memoráveis, talvez, apenas os efeitos em 3D. Talvez a mais memorável seja a sequência com a equipe de paranormais investigando a casa, até o momento em que o demônio surge e ataca o Dr. West. Mas nada disso impede o filme de ser divertido.

 

Antes de encerrar, queria deixar minha opinião em relação ao medo que a ex-esposa de Baxter tem em relação à Mansão de Amityville. Em uma cena anterior, ela se consulta com o Dr. West a respeito dos fenômenos que podem acontecer na casa; em outra, ela discute com a filha e a proíbe de visitar o pai na casa. Faltou uma cena do casal discutindo sobre a casa, principalmente após a tragédia que se abate sobre eles. Há um processo de negação por parte de Nancy, mas não há uma conversa entre eles depois disso. Eu achei que faltou isso, porque os dois primeiros filmes focavam em problemas familiares dentro da casa.

 

Amityville 3 foi lançado nos cinemas em 18/nov/1983 e foi um fracasso de bilheteria, o que levou os realizadores a produzirem as demais sequencias somente para a TV ou para o mercado de home vídeo. A franquia retornou oficialmente em 2017 com Amityville – O Despertar, que traz a Mansão de volta.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pelas Obras-Primas do Cinema na coleção Trilogia Terror em Amityville, em versão remasterizada.

 

Enfim, Amityville 3 é um filme muito bom. Um longa bem dirigido e com ótimas atuações, além de momentos de suspense e toques sobrenaturais. Um filme muito divertido, com uma historia original para a Mansão de Amityville. Recomendado.



Créditos: Obras-Primas do Cinema


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

AVISO.



AVISO!

O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso.

Novas resenhas a partir de Fevereiro/2023.

Obrigado.

NÃO SE DEVE PROFANAR O SONO DOS MORTOS (1974). Dir.: Jorge Grau.

 

NOTA: 9.5



Em 1968, o diretor George A. Romero lançou o seu A Noite dos Mortos-Vivos, que rapidamente se tornou um clássico do gênero de terror e do cinema de zumbis, estabelecendo todas as regras que são utilizadas desde então.

 

Mas hoje não estou aqui para falar do clássico de Romero, e sim, de NÃO SE DEVE PROFANAR O SONO DOS MORTOS, lançado em 1974, e dirigido por Jorge Grau, um dos melhores filmes de zumbi de todos os tempos.

 

Mas o que faz deste um dos melhores filmes de zumbi de todos os tempos? Bem, conforme já mencionei em outras resenhas, a resposta é simples: o filme como um todo.

 

Ao contrário do que estamos acostumados, aqui temos também um exemplo de filme que vai acontecendo aos poucos, como era costume na época, porque realmente as coisas vão acontecendo calmamente, e o principal foco da trama, os zumbis, não aparecem o tempo todo.

 

Então, temos aqui uma história focada nos personagens humanos, no caso, o trio de protagonistas, George; Edna; e o Sargento de polícia. Claro, temos outros personagens, mas o roteiro foca principalmente nos três e nas suas interações, mais detalhes adiante.

 

Na minha opinião, além do roteiro, das atuações, direção e efeitos especiais, o que torna esse filme atraente são os cenários. O longa foi rodado na Inglaterra, Espanha e Itália, e as locações britânicas são maravilhosas, convidativas. O diretor Jorge Grau soube aproveitar os cenários ao máximo, dando destaque para a pequena vila, o hospital e o cemitério, onde acontece a melhor sequência do filme.

 

Além das locações, temos também os efeitos especiais, conforme mencionado acima. Eles foram criados pelo mestre Giannetto de Rossi, um especialista em efeitos sangrentos do cinema de horror italiano, responsável por grandes obras. De Rossi fez grandes coisas aqui, criando absolutamente tudo, desde perfurações, machadadas e órgãos estripados. Difícil dizer qual o melhor, porque todos são maravilhosos.

 

O diretor Jorge Grau também merece menção. Sua direção é competente e segura, e não apela para truques falsos. O diretor conseguiu arrancar grandes coisas com sua câmera, principalmente nas cenas de horror, novamente, sem apelar para truques fajutos.

 

E finalmente, os três atores principais também não fazem feio, com atuações nada exageradas ou caricatas, principalmente nas cenas em que precisam esboçar medo.

 

Bem, já mencionei os quesitos técnicos, agora vou falar sobre os zumbis. Eles são a melhor coisa do filme, e conseguem assustar sem fazer nenhum esforço. Ao contrário dos zumbis apresentados nos filmes posteriores, aqui não temos zumbis putrefatos e caindo aos pedaços; longe disso. Os zumbis aqui estão intactos, mas nem por isso deixam de ser assustadores e sanguinários. E parece que ficam melhores a cada cena, principalmente na cena do cemitério, o auge do filme, na minha opinião. Segundo o diretor Grau, ele pesquisou em livros da polícia como ficam as pessoas depois de mortas, além de usar outras fontes para compor seus mortos-vivos, e o resultado é surpreendente. Me arrisco a dizer que os zumbis de Grau são muito parecidos com os zumbis de Romero.

 

Conforme também mencionei, o filme é carregado de sequências memoráveis, e a melhor delas é a do cemitério, onde o gore corre solto. Assim como todo o filme, a sequência começa contida, mas aos poucos, o terror vai acontecendo, e quando acontece, fica impossível respirar, porque é uma sequência carregada de tensão, principalmente porque os personagens estão encurralados, a mercê dos mortos-vivos. E claro, temos um momento de gore, com um personagem secundário que acaba morto pelos zumbis e despedaçado por eles.

 

Outra sequência que também merece menção é a do hospital, no final do filme. Assim como a do cemitério, aqui temos também uma sequência tensa e carregada no gore, e os efeitos de Giannetto de Rossi são os melhores aqui, conforme já mencionei.

 

Antes de encerrar, vou mencionar os personagens. O casal de protagonistas é simples, e não fazem feio, principalmente quando estão encurralados pelos zumbis. No entanto, o personagem do Sargento é extremamente o oposto deles, absolutamente autoritário, que não respeita ninguém e está disposto a tudo para provar que está certo.

 

Aliás, tenho que mencionar outra coisa. O roteiro é sagaz em promover desencontros entre o Sargento e os eventos envolvendo os zumbis, e a cada revisão, parece que ele vai descobrir a verdade, mas não é isso que acontece.

 

Não Se Deve Profanar o Sono dos Mortos chegou a ser lançado em VHS no Brasil com o título picareta de Zumbi 3, por motivos desconhecidos. Em contrapartida, foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Zumbis no Cinema, em versão integral restaurada.

 

Enfim, Não Se Deve Profanar o Sono dos Mortos é um filme excelente. Uma história de zumbis carregada de tensão e gore, aliados a requisitos técnicos dignos de nota, principalmente os efeitos especiais, criados por um mestre na arte. Os cenários ingleses também são o destaque, e tornam o filme mais bonito e convidativo. Um dos melhores filmes de zumbi de todos os tempos. Sangrento. Claustrofóbico. Excelente. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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segunda-feira, 28 de novembro de 2022

OS OLHOS SEM ROSTO (1960). Dir.: Georges Franju.

 

NOTA: 10



Quem disse que filmes de terror não podem ser bonitos, certamente nunca ouviu falar do Maestro Mario Bava. Conforme já comentei aqui antes, seus filmes são carregados de uma beleza exuberante, que somente ele sabia fazer.

 

Mas hoje não estou aqui para falar sobre o Maestro, e sim, sobre OS OLHOS SEM ROSTO, lançado em 1960, dirigido por Georges Franju.

 

O que posso dizer sobre esse filme? Bem, vou direto aqui. Não é um filme bonito; é um filme lindo! E tudo contribui para isso: a direção, o roteiro, e principalmente, a fotografia em preto e branco.

 

Os Olhos é um dos meus filmes de terror favoritos, e uma grande inspiração, mas vou deixar isso mais para frente.

 

Na minha opinião, o que torna esse filme tão único, é o simples fato de ser filme de terror pé no chão, sem apelar para monstros ou fantasmas; além disso, é o exemplo clássico da história onde o monstro não é quem aparenta.

 

E também, não deixa de ser um conto de fadas de horror, com a princesa presa na torre do castelo; no caso, a filha do professor.

 

Acredito que o primeiro ponto a ser discutido aqui é a fotografia em preto e branco. Ao contrário de muitos filmes produzidos no mesmo estilo, aqui temos somente os tons de preto e branco, sem apelar para o cinza, e as duas cores pulsam na tela. Eu sinceramente não consigo imaginar esse filme sendo colorido, porque é o caso em que o preto e branco combina muito bem com o longa e o deixa ainda mais bonito.

 

A direção e o roteiro também são pontos positivos, e não apelam para sustos falsos; na verdade, são responsáveis por cenas bem tensas, com destaque para a cena da cirurgia, que até hoje, consegue ser uma das mais chocantes do cinema, mesmo sendo em preto e branco. Outra cena bem tensa, é a cena do cemitério, quando o professor abre o tumulo onde sua filha estaria enterrada e joga um corpo lá dentro.

 

Além da fotografia, direção e roteiro, temos também o elenco. Todos os atores estão excelentes nos papeis, mesmo aqueles que não aparecem por muito tempo; inclusive, pode-se dizer que temos também alguns momentos de alivio cômico, mas sem apelar para personagens idiotas.

 

No entanto, quem está excelente no filme são três atores principais. Pierre Brausseur entrega uma atuação aterrorizante e fria, interpretando o professor. O personagem é um homem amargurado, que está disposto a tudo para trazer a beleza da filha de volta, e não mede esforços para isso; Alida Valli, grande nome do cinema de horror europeu, também não decepciona, interpretando a secretaria e assistente do professor, uma mulher que também está disposta a tudo para ajuda-lo, apesar de ter seus momentos de dúvida quanto a alguns dos métodos do homem.

 

Mas claro, quem realmente rouba a cena é a atriz Édith Scob, no papel de Christiane, a filha do professor. Ela é o coração e a alma do filme e enche a tela de encanto desde de sua primeira aparição. Ela é a típica personagem que passa o filme inteiro sofrendo por causa de sua condição, porque não foi culpa dela, e conforme mencionei acima, não é o monstro da história. Além disso, conforme também mencionei, o filme é um conto de fadas, então, ela é a princesa que vive presa no castelo, a espera de alguém que possa salvá-la.

 

A personagem é praticamente um anjo dentro do filme, com seu vestido branco, e ar inocente. Sua melhor cena, sem duvida, é a cena dos cachorros, onde interage com eles, abraçando-os e acariciando-os em suas gaiolas. E a melhor peça do figurino é a máscara branca, que ela usa durante todo o filme; completamente inexpressiva e melancólica, a máscara consegue causar calafrios no espectador sem fazer esforço. E o diretor também é muito inteligente, escondendo o rosto da personagem com o uso de ângulos específicos de câmera; na verdade, há apenas uma cena em que o verdadeiro rosto da personagem aparece, e por poucos segundos. O mesmo é dito do rosto verdadeiro da atriz Édith Scob, que aparece apenas uma vez, por poucos minutos.

 

Além de Christiane, outra personagem que também merece destaque é a jovem que tem seu rosto removido e passa a usar gaze e ataduras para cobrir as cicatrizes. Mesmo com pouca presença, é um dos muitos pontos altos do filme e um dos mais sinistros também.

 

Conforme também mencionei acima, Os Olhos é um dos meus filmes de terror favoritos e uma inspiração para mim. Isso porque estou escrevendo um livro sobre uma jovem com uma condição especifica, e a personagem Christiane me serviu de inspiração para compô-la.

 

Quando foi lançado nos cinemas, foi um fracasso de critica e de bilheteria, mas hoje em dia, é reconhecido como um dos maiores filmes de terror de todos os tempos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Obras-Primas do Terror – Vol.9, em inédita versão restaurada.

 

Enfim, Os Olhos Sem Rosto é um filme lindo.  Um filme de terror com aspecto de conto de fadas. Uma historia delicada, mas assustadora, capaz de provocar calafrios sem fazer esforço para isso. Um exemplo clássico da historia onde o monstro não é quem pensamos ser. Além disso, faz uma discussão sobre a beleza, tanto externa quanto interna. Um filme que, apesar de contemporâneo, possui um aspecto gótico. Um filme melancólico, que dá vontade de chorar. Uma bela fotografia em preto e branco enche a tela e contribui para deixa-lo mais bonito. Atuações magnificas, em especial da atriz Edith Scob, que entrega uma performance delicada, e cria uma personagem inesquecível.  Um filme maravilhoso. Um conto de fadas de terror. Um dos maiores filmes de terror de todos os tempos. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos. Perturbador. Comovente. Delicado. Assustador. Excelente.


Créditos: Versátil Home Vídeo

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sábado, 12 de novembro de 2022

NA SOLIDÃO DA NOITE (1945). Dir.: Vários.

 

NOTA: 9.5



Desde sua fundação, em 1962, a Amicus tornou-se um dos maiores estúdios de cinema britânicos de todos os tempos, rivalizando com a Hammer Films. Porém, ao contrário da Hammer, o estúdio tornou-se especialista em produzir antologias de horror, apesar de lançar outros filmes, a maioria voltados para o horror. Ao total, foram sete antologias, todas maravilhosas.

 

Mas hoje, não estou aqui para falar das antologias da Amicus, e sim, de NA SOLIDÃO DA NOITE, precursor do gênero de antologia, lançado em 1945.

 

O que posso dizer sobre esse filme? Bem, digo o seguinte: é um dos melhores filmes de terror de todos os tempos, e um dos melhores que já vi; além de ser um daqueles casos de filmes que ficam melhores a cada revista.

 

Conforme mencionado acima, o filme é o precursor do gênero de antologia, neste caso, contando com cinco histórias de horror. Na verdade, antes de entrar nas histórias propriamente ditas, o filme até começa de maneira simples, com o protagonista indo até uma casa de fazenda no interior da Inglaterra. Quando ele chega lá, começa a falar com os outros personagens a respeito de seus sonhos e pesadelos, o que intriga a todos ali. Em seguida, eles mesmos começam a contar suas próprias histórias.

 

The Hearse Driver: Um corredor de carro sofre um acidente, e vai parar no hospital, onde é atendido por uma bela enfermeira. Durante a estadia, ele tem uma estranha visão de um carro funerário estacionado abaixo de sua janela. Ao sair do hospital, ele vê o motorista do carro funerário em um ônibus e decide não embarcar. O ônibus então sofre um acidente e todos os passageiros morrem.

 

The Christmas Party: Uma adolescente está comemorando o Natal na casa de um amigo e participa de um jogo de esconde-esconde com os convidados. Durante a brincadeira, ela encontra um quarto de criança e conhece um garotinho que tem medo da irmã. Ao reencontrar os outros convidados, ela descobre que o garotinho está morto desde o século XIX.

 

The Haunted Mirror: Uma mulher compra um espelho para seu noivo. No inicio, tudo parece bem, mas, aos poucos, o homem é atormentado por estranhas visões relacionadas ao espelho. A mulher descobre que o objeto pertenceu a um homem que matou a esposa no século XIX, e precisa correr para impedir que o noivo perca a razão.

 

The Golfer’s Story: Dois campeões de golfe conhecem e se apaixonam por uma mulher e resolvem disputa-la com uma partida. Um deles ganha a partida e o outro se suicida em um lago. Às vésperas de seu casamento, o vencedor é atormentado pelo fantasma de seu amigo, que afirma que ele trapaceou no jogo e exige que o amigo assuma o erro.


The Ventriloquist’s Dummy: Um ventríloquo americano conhece outro em Paris e se surpreende com seu ato, cuja principal atração é seu boneco Hugo. Ao reencontrá-lo em Londres, o americano descobre que o ventríloquo possui sérios problemas psicológicos, e na mesma noite, é atacado por ele, que não pretende entregar seu boneco ao rival.

 

Uma antologia básica, não? Sim, no entanto, ao contrário das que vieram depois, principalmente nos anos 70, aqui, as histórias foram dirigidas por cinco pessoas diferentes, e cada uma imprimiu seu próprio estilo. Entre os diretores, temos o brasileiro Alberto Cavalcanti, que dirigiu a segunda e última historias – a do boneco, a melhor delas.

 

Além da presença do brasileiro Cavalcanti, é possível perceber aqui a principal característica das antologias: a diversidade entre as histórias. A primeira remete primeiramente a um romance, mas logo se transforma em um terror, com a presença do carro funerário; a segunda é uma história de fantasma com toques infantis, principalmente pela presença do garotinho; a terceira foca mais um suspense sobrenatural, além de apresentar elementos de horror psicológico; a quarta também é uma história de fantasma, mas com uma veia cômica; e a última, é um suspense psicológico, onde a loucura é o principal elemento.

 

Além das histórias narradas pelos personagens, temos também os interlúdios, com o protagonista interagindo com eles, que culmina na melhor parte do filme, quando o pesadelo dele se torna realidade, e ele interage com todas as histórias de uma maneira macabra e assustadora.

 

Com certeza, o episódio mais lembrado do filme é o último, The Ventriloquist’s Dummy. Sem dúvida, é o melhor episódio, com toques de suspense psicológico, com o ventríloquo atormentado por problemas mentais, que culminam numa personalidade alternativa, que ele usa em seu boneco Hugo. Falando nele, o boneco é um dos personagens mais assustadores do cinema – algo comum em bonecos de ventríloquo – e sua aparência e voz fina são dignas de pesadelos. Algo semelhante aconteceria em Magia Negra (1978), onde o ator Anthony Hopkins interpretou um ventríloquo domado por seu boneco.

 

Os demais personagens também são bem interessantes, cada um à sua maneira, principalmente o protagonista, que se mostra visivelmente atormentado por seus sonhos recorrentes; os demais apelam à sua psiquiatra para descobrir o motivo por trás dos sonhos dele e também por trás de suas próprias histórias, algo que não fica chato conforme os relatos acabam.

 

Na Solidão da Noite possui um legado importante entre os fãs de cinema, tendo como fã o diretor Martin Scorsese, que o elegeu um dos filmes mais assustadores de todos os tempos. O último episódio inspirou diversas histórias posteriores, entre elas, um segmento da série Além da Imaginação, além de outros filmes.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Obras-Primas do Terror.

 

Enfim, Na Solidão da Noite é um filme excelente. Uma história de horror composta por cinco segmentos aterrorizantes, que prendem a atenção do espectador. Cada um dos cineastas envolvidos deixa sua marca e as histórias ficam únicas por causa disso. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, com um grande legado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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