sábado, 6 de abril de 2019

O CASTELO ASSOMBRADO (1963). Dir.: Roger Corman.


NOTA: 8.5


O CASTELO ASSOMBRADO (1963)
O CASTELO ASSOMBRADO, dirigido por Roger Corman – que fez aniversário ontem – é a primeira excursão de H.P. Lovecraft no cinema. Aqui, no caso, a historia adaptada é O Caso de Charles Dexter Ward, uma das mais conhecidas historias do autor. Porém, O Castelo Assombrado não é considerado como uma adaptação de Lovecraft, mas, sim, um filme do ciclo Edgar Allan Poe, na qual Corman estava envolvido naquela época.

A razão para Corman escolher Dexter Ward foi a de que, até então, ele achava que havia trabalho em muitos filmes baseados em contos de Poe, então, resolveu escolher outro material. Então, com o aval da AIP (American International Pictures), escolheu a historia de Lovecraft. Mas, como mencionado acima, a AIP deu aval para Corman, mas, ao invés de utilizar o título da historia de Lovecraft, acabaram adotando – talvez por razoes de Marketing ou picaretagem – o título de um poema de Edgar Allan Poe, The Haunted Palace, inclusive utilizando o nome de Poe acima do título. Picaretagem ou Marketing? Vai saber.

Bem, mesmo com essa diferença, o fato é que o filme é muito bom. Realizado na década de 60, possui todos aqueles elementos dos filmes daquela época: a neblina, o cemitério retorcido, o castelo cheio de teias de aranha... Enfim, todos os elementos do Terror Gótico dos anos 60. Além desses elementos, merece destaque também a direção de arte, a cargo de Daniel Haller, que trabalhou com Corman nos filmes de Poe, e que, mais tarde, dirigiria duas adaptações da obra de Lovecraft: Morte Para um Monstro (1965) e O Altar do Diabo (1970), respectivamente, baseados em A Cor que Caiu do Espaço e O Horror de Dunwich. O trabalho de Haller é espetacular. Sua recriação da cidade Arkham é extraordinária, praticamente perfeita. Não sei como ela foi retratada em outras adaptações, mas aqui, a cidade fictícia criada pelo autor parece ter saído do papel, literalmente. Quando ela aparece, passa uma sensação de medo e claustrofobia, sensações que devem ter sido imaginadas por Lovecraft em seus textos. O castelo de Curwen também é um espetáculo, com seus corredores empoeirados, paredes cheias de teias de aranhas, e o quadro de seu proprietário acima da lareira; aliás, esse quadro já serve como garantia de muitos arrepios.

Como todos os filmes de Corman dessa época, O Castelo Assombrado é estrelado por Vincent Price, no papel principal; aliás, papeis, uma vez que ele interpreta tanto Charles Dexter Ward quanto seu ancestral, Joseph Curwen, e sua atuação é incrível. Price não tem medo de parecer exagerado, principalmente quando interpreta o vilão, após seu espirito possuir o corpo e a alma de Charles Ward. O resto do elenco também merece destaque, principalmente os atores que interpretam os habitantes de Arkham, tanto no passado como no presente; é possível ver que aqueles homens são vitimas da maldição de Curwen e o medo que sentem de seu descendente é real. Debra Paget também entrega uma ótima atuação como a esposa de Charles Ward; durante todo o filme, ela mostra-se uma mulher apaixonada pelo marido, e que teme por ele quando o terror começa a surgir. Corman sempre soube escolher mulheres bonitas para seus filmes do Poe, e aqui não foi diferente, mesmo não sendo um filme do Ciclo Edgar Allan Poe. E por fim, Lon Chaney Jr., o eterno Lobisomem da Universal, também não faz feio em sua interpretação do servo de Curwen.

Mesmo apostando mais no terror psicológico, O Castelo Assombrado possui momentos que são de fato assustadores. O melhor deles, sem duvida, é quando Charles e sua esposa são encurralados pelos habitantes amaldiçoados de Arkham nas ruas do vilarejo. É uma cena muito bem feita, onde o terror é construído aos poucos, e o resultado dificilmente sai da mente do espectador, e a maquiagem com certeza contribui para isso. Outro é o enterro de um dos habitantes da cidade, vitima da vingança de Curwen. Uma sequencia envolta em neblina, sem trilha sonora, com a figura de Curwen à distancia, observando tudo com seu olhar maligno.

Enfim, O Castelo Assombrado é um filme belíssimo, do jeito que Roger Corman sabia fazer naquela época, antes de se envolver com as produções atuais da Asylium.

Um filme muito bem feito, com toques de Terror Gótico, que enchem a tela de beleza. Bizarramente, nos créditos, o nome de Poe está grifado de maneira errada (Allen Poe ao invés de Allan Poe!). Permaneceu inédito no Brasil, até ser lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, na coleção Lovecraft no Cinema Vol.2.

Um ótimo inicio para a carreira cinematográfica de Lovecraft, que ganhou vida de fato, apenas nos anos 80, com o lançamento de Re-Animator: A Hora dos Mortos Vivos (1985), dirigido por Stuart Gordon, baseado no excelente conto Herbert West Reanimator.


Muito bem recomendado. 




Créditos: Versátil Home Vídeo



ASSASSINATOS NA FRATERNIDADE SECRETA (1983). Dir.: Mark Rosman.


NOTA: 8


ASSASSINATOS NA 
FRATERNIDADE SECRETA (1983)
ASSASSINATOS NA FRATERNIDADE SECRETA é um Slasher clássico. Como todos os filmes desse gênero produzidos nessa época, apresenta todos os elementos que estiveram presentes no gênero desde o Clássico Halloween (1978), de John Carpenter. E uma das características era que os produtores e roteiristas sempre inventavam historias que se passavam em fraternidades ou acampamentos. Esse filme segue o primeiro exemplo.

Porém, o que o torna um Slasher singular é a forma como a trama é contada. No inicio do filme, temos a clássica situação em que algo ruim aconteceu a um personagem, o que mais adiante, irá desencadear a onda de assassinatos que o público tanto espera. E de fato, aqui isso acontece, e o diretor não revela de cara o que é, mas é possível perceber que foi muito ruim. Porém, a partir daí, quando a historia de fato começa, tudo parece encaminhar para algo diferente, uma vez que não há praticamente nenhum indicio de que algo ruim aconteceu, a não ser o comportamento da Sra. Slater, dona da casa de fraternidade onde se passa a historia. O tal evento ruim só acontece momentos depois do começo do filme.

Normalmente, é o oposto. O evento ruim acontece no começo do filme, e torna-se o gatilho para os eventos sangrentos que o roteiro apresenta. Aqui, ao que parece, o diretor resolveu colocar dois eventos ruins na trama, sendo que de inicio, não dá pra perceber a ligação entre eles, como aconteceu comigo na primeira vez que assisti ao filme.

Aliás, é bem assim mesmo que o filme funciona. Para quem o assiste pela primeira vez, pode achar estranha a presença de buracos no roteiro, mas, sinceramente, se o espectador fizer um esforço, é possível preencher esses buracos; e foi o que aconteceu comigo. Para mim, isso é que é legal em situações assim – eu mesmo preencho os buracos (se é que eles existem) no roteiro, e tirar minhas próprias conclusões. No entanto, o diretor acabou respondendo uma das minhas duvidas em relação à historia – a presença do assassino na casa.

Bom, vamos então ao que importa nesse tipo de filme, a carnificina. Como em boa parte dos filmes dessa época, ela acontece aos poucos, às vezes de forma aleatória e sem motivo, mas, conforme a historia avança, as mortes começam de fato a fazer sentido. E aqui, é exatamente isso. Durante a festa promovida pelas garotas, o assassino primeiro mata um convidado aleatório – talvez para dar inicio aos homicídios em si, ou então para ele exercitar, não sei. Esse é, na minha opinião, o ponto fraco do roteiro; não havia necessidade de uma morte aleatória, uma vez que o cadáver desaparece e nem é mencionado novamente. Mas, a partir daí, a verdadeira carnificina começa, e de fato, vale a pena esperar. No gênero Slasher, o assassino é sempre criativo na hora de matar suas vitimas, utilizando o que estiver à mão para isso, e nesse filme, não é diferente. E como sempre, depois da primeira, a próxima consegue ser mais legal, e assim por diante. O problema, é que a sanguinolência é implícita – talvez por pretensão do diretor ou porque as cenas foram cortadas e nunca recuperadas – o que pode torna-lo um Slasher “light” em comparação aos seus “irmãos”. Mas isso não o deixa menos interessante e assustador em certos momentos.

Essa também é outra característica: a tensão construída aos poucos, e, dependendo do roteiro e da direção, funciona muito bem. Em certos momentos, principalmente na primeira vez que assisti ao filme, eu senti um arrepio na espinha, e cheguei a pular de susto. E nas outras vezes que assisti ao filme, não foi diferente.

Falando sobre as personagens principais, elas seguem aquela regra estabelecida no gênero: a heroína é a inocente do grupo, que faz o bem; as outras são as rebeldes, algumas vão além, não se preocupando com os outros e nem com o grupo. E em Fraternidade, a coisa não é diferente. A protagonista é boazinha, e não concorda com a brincadeira proposta pela líder do grupo, principalmente quando as coisas saem do controle. A antagonista é o oposto dela, perversa, egoísta, promiscua... e as outras garotas têm personalidades divididas: algumas pensam igual à líder do grupo; outras se preocupam com que pode acontecer, mas procuram não pensar nisso. Infelizmente, dependendo do filme, eu não consigo gostar da protagonista, e nesse filme isso acontece às vezes, principalmente no começo da historia.

Agora, falarei sobre o principal personagem da historia: o Assassino. O assassino é o ponto mais interessante dos Slashers, seja pela sua motivação, seja pela sua revelação no final, ou seja pelos métodos que usa para executar as vitimas. Nesse filme, o diretor faz questão de escondê-lo o tempo todo, às vezes, mostrando apenas sua arma trespassando as personagens. Como de costume, a revelação de quem ele é acontece no final, mas, ao contrario dos demais, aqui, a identidade é revelada por meio de um personagem secundário, ao contrario do que acontece nos demais filmes, onde um dos personagens adolescentes se revela como o assassino. Mas, aqui não é assim. O assassino é alguém alheio às personagens, alguém que elas não conhecem e nunca viram. Mas isso não faz dele menos interessante; pelo contrario. E a clássica fantasia que ele usa, é uma das melhores: UM PALHAÇO MISTURADO COM BOBO DA CORTE! Genial e assustador ao mesmo tempo! O engraçado é que, quando eu e meu irmão vimos essa fantasia no ótimo documentário Going to Pieces – The Rise and Fall of the Slasher Film, ele achou essa fantasia ridícula. Eu adorei; acho que é uma das melhores do gênero.


Enfim, Assassinatos na Fraternidade Secreta é um Slasher bem divertido, com um roteiro bem escrito, ótima direção e edição e clima de suspense de qualidade.

Permaneceu inédito no Brasil por muitos anos, até ser lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, na excelente coleção Slashers Vol.1.


Recomendável. 




Créditos da imagem: Versátil Home Vídeo


segunda-feira, 18 de março de 2019

AR FRIO (H.P. Lovecraft).


NOTA: 9


AR FRIO
AR FRIO é um conto fantástico. Uma historia de horror com toques ficção cientifica e mistério.

Escrito por Lovecraft no final dos anos 20, é um de seus melhores trabalhos, e um dos mais arrepiantes. Em poucas paginas, o autor cria uma trama simples, mas repleta de enigmas, que são revelados aos poucos, e de forma chocante.

O que também torna este um texto incrível é que, de certa forma, ele consegue fazer com que o leitor entre naquele lugar junto com o personagem principal – e narrador – e descobrir o que esconde o doutor que está hospedado no andar superior. E a medida que o mistério vai se desenrolando, logo percebemos que o protagonista não deveria ter feito aquilo, mas, infelizmente é tarde demais. De algum modo, ele torna-se cumplice do medico, não apenas no que diz respeito a sua estranha doença, mas também no que vem em seguida, quando a maquina que ele mantem em seu quarto – cujo proposito é macabro – começa a apresentar defeitos. Então, a partir daí, é possível perceber que não há saída.

Durante o tempo em que produziu o texto, Lovecraft passou parte de sua vida em Nova York, acompanhando sua esposa. Conforme relatou, foi uma terrível experiência, uma vez que estava fora de casa, e ajudou a intensificar seus medos, que ele transferiu para o papel, tanto aqui como em Ele, talvez o trabalho que mais reflete seu período na Grande Maçã.

Enfim, Ar Frio é excelente. Contém elementos de horror, talvez, um certo clima de investigação, e principalmente, de ficção cientifica. E tudo isso foi combinado de forma majestosa, culminando num final chocante.

Em 1993, recebeu uma adaptação no filme Necronomicon – O Livro Proibido dos Mortos, excelente antologia baseada nos textos do autor.

Um dos melhores trabalhos de H.P. Lovecraft.



H.P. LOVECRAFT






domingo, 17 de março de 2019

MOBY DICK (Herman Melville).


NOTA: 9


MOBY DICK
Uma batalha. Assim pode ser definida a leitura de MOBY DICK, obra máxima do autor Herman Melville. Após quase dois anos preso a ele, finalmente consegui concluir a leitura.

A leitura de Moby Dick não é fácil, uma vez que é uma obra complexa, composta por diversas camadas, e que, até hoje, recebe inúmeras intepretações.

Em seu texto, Melville conta basicamente uma historia de aventura, onde um grupo de marinheiros embarca num navio para caçar baleias. Parece simples, não? Bem, não é bem assim. A narrativa é lenta, densa e muito detalhada, principalmente quando o autor decide falar sobre a Cetologia, o estudo dos cetáceos. Pode até ser que o leitor desavisado queira pular essa parte do livro e ir direto para a narrativa em si (contada em primeira pessoa pelo protagonista Ismael), mas, infelizmente, não é possível, uma vez que Melville intercala trechos científicos com sua narrativa de ficção, então, é praticamente impossível separar essa parte da historia.

Como mencionado acima, Moby Dick possui diversas interpretações, sendo as mais conhecidas de que trata-se da eterna luta do Bem contra o Mal. E lendo o livro, isso ficou claro para mim em alguns pontos, principalmente no final. Não sei como aqueles que o leram interpretaram, mas, eu concluí que existe, sim, uma luta do Bem contra o Mal, mas, nesse caso, o Bem é a Baleia-Branca Moby Dick, e o Mal, o Capitão Ahab. Pelo menos essa foi a minha visão, uma vez que, desde sua primeira aparição na historia, Ahab deixa claro qual o seu objetivo: vingar-se de Moby Dick por ter-lhe arrancado a perna, e tê-lo colocado sobre um “tronco morto”. Essa também é outra visão sobre a obra: uma historia de obsessão, obsessão de vingança de Ahab, que está disposto a tudo para ter sua vingança, mesmo que custe sua vida e a vida de sua tripulação.

Um detalhe interessante: o próprio Melville fez parte de um navio baleeiro durante parte de sua vida, então, de certa forma, esse pode ser também um relato autobiográfico, uma vez que a jornada dos personagens é descrita com detalhes impressionantes; em certos momentos, cheguei a visualizar as cenas descritas pelo autor, até mesmo a própria Baleia-Branca.

E falando em Moby Dick, ele é, sem duvida, o personagem mais impactante da historia, talvez mais até que os próprios marinheiros. Melville o descreve com paixão, em toda sua gloria, quase como se ele fosse um personagem mítico, bíblico, até – também uma interpretação da obra, se não estou enganado.

O que também torna o texto incrível, é que, durante boa parte da historia, o autor quase não apresenta seu personagem-título, apenas mostra que ele está presente nos diálogos entre Ahab e sua tripulação. Depois disso, ficamos um longo tempo sem ver o nome de Moby Dick; porém, quando ele surge finalmente na historia, é um momento espetacular. Aliás, esse é outro ponto interessante – a ausência da Baleia-Branca. Em diversos momentos, parece que Ahab está vivendo uma fantasia, que aquela baleia existe apenas em sua cabeça, ou então, parece que a baleia está morta. Mas para ele, isso não importa – ele mostra-se decidido a cumprir seu destino, e o destino de Moby Dick, que ele acredita, será morrer por seu arpão.

Sobre a parte da Cetologia, digo o seguinte: é preciso muita paciência para ler, porque o autor descreve com detalhes a anatomia de uma baleia, além de explicar seu nome e também descrever – da forma mais gráfica possível – como os arpoadores içam seu corpo para o navio e o que fazem depois. E como já disse, é impossível separar-se dessa parte da historia.

Enfim, Moby Dick é um livro extraordinário, cansativo às vezes, é verdade, mas, extraordinário. Uma historia de aventura, ação, drama, suspense e emoção, tudo maravilhosamente escrito e executado.


Um livro fascinante. Um Clássico da Literatura Universal.


HERMAN MELVILLE


EVIL DEAD - UMA NOITE ALUCINANTE I - A MORTE DO DEMÔNIO (1981). Dir.: Sam Raimi.


NOTA: 10


EVIL DEAD - UMA NOITE ALUCINANTE I -
A MORTE DO DEMÔNIO (1981)
EVIL DEAD é um Clássico! Não apenas um Clássico do Terror, mas um Clássico do Cinema. Um marco do gore, é um filmes mais assustadores que eu já vi na vida.

Tudo começou em 2002, quando fui à locadora com meu irmão e minha mãe, como era costume nas noites de sexta-feira. Como sempre, fui à seção de filmes de terror e comecei a vasculhar as fitas. Acabei encontrando o VHS e resolvi alugar. Naquela mesma noite, botei no videocassete. O resultado foi uma noite de horror, tão grande que devolvi a fita no dia seguinte. Um tempo depois, aluguei a fita novamente e consegui assistir ao filme, com exceção da cena em que um dos monstros decepa a própria mão com os dentes – cena essa que me assustou da primeira vez. Mais tarde naquele mesmo ano, acabei comprando o DVD, que veio junto com o VHS do segundo filme, numa banca de revista. A experiência foi praticamente a mesma. Hoje em dia, reconheço o valor e a importância desse pequeno filme de horror.

Lançado em 1981, escrito e dirigido por Sam Raimi, não há duvidas de que é um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, contando com legiões de fãs no mundo todo.
Com certeza, o que torna Evil Dead tão assustador é a sua simplicidade. Rodado com um orçamento mínimo, praticamente por estudantes de cinema, é a prova de que não se precisa de um orçamento gigantesco para se contar uma boa historia, independente do gênero. Raimi conseguiu grandes feitos, principalmente técnicos, com destaque para a maquiagem dos monstros e truques de câmera, que seriam aprimorados no segundo filme, lançado seis anos depois.

Um detalhe curioso é que na época em que o filme foi lançado, o que estava em vigor no cinema de horror eram os slashers, então, Raimi e sua equipe queriam fazer uma coisa diferente, fora de realidade, como explicou o astro Bruce Campbell, anos mais tarde. E de fato, conseguiram. Filmes sobre possessões demoníacas não eram novidade no cinema na época, porém, eram sempre voltados para o cunho religioso. Até onde eu sei, antes de Evil Dead, não houve nenhum filme sobre possessão demoníaca abordada dessa maneira. E com certeza, nunca houve depois.

Como mencionado acima, o filme, além de ser um marco do horror, é um marco do gore, ou talvez, um dos mais importantes filmes gore do cinema. E falo sério. Desde o momento que o primeiro personagem é possuído pelos demônios, Raimi não nega fogo, e mostra sangue de todas as formas, saindo de todos os lugares, principalmente nos momentos finais. Antes dele, talvez o maior filme gore do cinema tenha sido O Despertar dos Mortos (1978), do saudoso George A. Romero, que logo na abertura, contava com sequencias verdadeiramente sangrentas, criadas pelo mestre Tom Savini. Mas aqui, parece que Raimi foi mais fundo, com o exagero ao máximo, o que contribui para o clima assustador da historia.

Porém, não só de horror vive Evil Dead. Em certos momentos, principalmente no inicio, o diretor pega leve com o espectador, às vezes criando um clima de filme leve, até engraçado. E mesmo depois que a coisa pega fogo, ele apresenta momentos em que nada acontece, o que também ajuda a aumentar o medo e a tensão. E não é sempre que isso dá certo.

Outra coisa que o filme ajudou a fazer, foi popularizar, e por que não, criar o subgênero Cabin in the Woods, onde os personagens vão para uma cabana nas montanhas. Talvez o exemplo mais conhecido depois de Evil Dead seja Cabana do Inferno (2003), primeiro filme dirigido por Eli Roth.

Não sei o que outros cineastas que exploraram esse subgênero fizeram em seus filmes, mas, aqui, Raimi praticamente transforma a cabana em um personagem da historia, talvez um dos personagens mais importantes da historia, uma vez que os outros não podem sair, porque os espíritos demoníacos tomaram todo o ambiente. E o pior é que, de fato, não há lugar para onde eles podem ir, conforme o protagonista Ash e sua irmã descobriram quando tentaram escapar após a polêmica sequencia das árvores – que até hoje, rende discussões. E como eles, de certa forma, também nós nos sentimos presos àquele lugar, ainda mais quando as esperanças de fugir com vida vão diminuindo à medida que todos são possuídos.

Por falar nos personagens, dois merecem destaque. O primeiro com certeza é Ash, interpretado por Bruce Campbell. Para quem conhece o personagem hoje, com seu ar de bad boy, com uma motosserra na mão, caçando e despedaçando demônios, vai se surpreender. Aqui ele é apresentado quase como um medroso, sempre gritando e hesitando na hora de matar os monstros. Isso é claramente uma forma de construir o personagem, uma vez que no segundo filme, ele se torna-se aquele Ash J. Williams que todos nós conhecemos e adoramos hoje – e que com certeza, gostaríamos de ser ou então ter ao nosso lado numa briga com os demônios da franquia. Outro que merece destaque é sua irmã, Cheryl. Se no inicio da historia, ela mostra-se uma pessoa insegura com aquela aventura, após ser possuída pelos demônios, torna-se um monstro implacável. Alias, essa sempre foi uma característica da trilogia: mesmo com os outros personagens sendo possuídos, sempre um acaba se tornando o vilão principal. E logo no primeiro filme, a coisa fica feia. A criatura não poupa o personagem principal em momento nenhum, principalmente depois que foge do porão, onde estava presa.

Para finalizar, Evil Dead é um filme cheio de fãs. Desde o seu modesto lançamento, tornou-se um dos mais importantes filmes de todos os tempos, figurando na lista dos “1001 Filmes que Você Precisa Ver Antes de Morrer”, além de receber altas avaliações em sites especializados no gênero e outros. E o reconhecimento passou para suas continuações, que também contam com altas avaliações do publico.

Em 2013, recebeu um remake, que contou com Raimi e Campbell como produtores. Como todo produto do cinema de horror atual, o remake aposta mais no clima pesado e na falta de sustos. Pelo menos, contou com efeitos práticos que conseguem ser convincentes, mas, não superam o original em nada.

Enfim, Evil Dead é um grande filme. Um verdadeiro Clássico do Terror. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos. Excelente.






OS RATOS NAS PAREDES (H.P. Lovecraft).


NOTA: 9.5


OS RATOS NAS PAREDES
Escrito por Lovecraft nos anos 20, OS RATOS NAS PAREDES é um dos seus melhores trabalhos, e talvez um dos mais conhecidos fora do Ciclo dos Mitos de Cthulhu, ao lado de A Tumba e Herbert West Reanimator.

Com uma narrativa repleta de tensão e suspense, Lovecraft tem aqui uma historia sufocante, construída aos poucos, mas que consegue prender a atenção e provocar arrepios.
Considerado como uma rara excursão do autor ao terror gótico, Ratos pode, sim, ser considerado como tal, uma vez que apresenta elementos presentes nesse tipo de texto: a família com segredos, a atmosfera e a arquitetura do local da narrativa.

O que também o torna um texto surpreendente é a forma como é construído. Ao invés de revelar logo de cara o terror, Lovecraft primeiro nos leva ao passado da família De La Poer, uma família antiga, cercada de mistérios e segredos obscuros. Nos primeiros parágrafos, o personagem principal narra a historia de seus ancestrais, e não é uma historia boa: assassinatos, loucura, ligações com seres pagãos... Enfim, uma família repleta de esqueletos nos armários. Mas, mesmo sabendo da historia, o protagonista mostra-se determinado a residir no castelo da família, após restaurá-lo. Porém, quase que imediatamente após sua chegada, seus gatos, em especial seu gato preto Nigger-Man, começam a se comportar de forma estranha, o que leva-o a investigar o que está acontecendo. A partir daí, Lovecraft leva seu protagonista ao inferno, de uma certa forma.

As cenas dentro do castelo são aterrorizantes, escritas com riqueza de detalhes, principalmente nos momentos finais da historia. Juro. Confesso que me imaginei naquele lugar junto com os personagens, o que de certa forma, aumentou minha sensação de claustrofobia. De fato, é possível sentir claustrofobia durante a leitura. E o final, é de cair o queixo.

Enfim, OS RATOS NAS PAREDES é um dos melhores textos de H.P. Lovecraft. Uma trama de terror genuína, com todos os elementos necessários para criar medo no leitor.


Um texto brilhante e assustador. Excelente.



H.P. LOVECRAFT

    LOBOS (1981). Dir.: Michael Wadleigh.



    Resenha publicada em homenagem ao ator Albert Finney, que faleceu em Fevereiro.

    NOTA: 10


    LOBOS (1981)
    LOBOS é um filme excelente. Um dos melhores filmes sobre animais assassinos já produzidos.

    Dirigido por Michael Wadleigh, o filme é baseado no livro de estreia do escritor Whitley Strieber, autor de Fome de Viver e do polêmico Comunhão.

    O que o torna um filme brilhante é a sua execução. Toda a trama desenvolve-se lentamente, deixando o terror nas sombras, revelando-o apenas nos momentos finais. Durante boa parte do filme, somos apresentados a uma historia policial clássica, com todos os elementos.

    Mas não apenas a trama policial merece destaque, como também a trama de suspense, construída aos poucos, na base da sugestão. Não sei se o diretor optou por fazê-lo por razões orçamentárias ou de proposito; o caso é que a coisa funciona brilhantemente. Assim como Spielberg fez em Tubarão, Wadleigh faz uso da câmera subjetiva para simular a presença dos lobos na cidade de Nova York; porém, ele o faz com o uso de câmeras especiais, com efeitos infravermelhos, que visualizam o calor das vítimas, por exemplo.

    Outra coisa bem realizada são os truques que o diretor usa para indicar que os animais estão sempre presentes, seja com o personagem especialista, interpretado por Tom Noonan, seja com os personagens indígenas, que constituem um elemento chave da historia. Todos os elementos funcionam e aumentam ainda mais o suspense e a vontade de ver os lobos. E quando eles surgem, – próximo ao final do filme – é possível ver que todos os truques valeram a pena, da mesma forma que no Clássico de Spielberg.

    Como mencionado acima, a trama é construída aos poucos, em slowburn, e isso, para alguns, pode ser um ponto fraco. Mas, pessoalmente, eu gostei da maneira como tudo foi orquestrado; até porque, não sei se o resultado ficaria tão bom se os lobos surgissem logo no começo do filme.

    Não sei como as coisas funcionam em outros filmes de animais assassinos, principalmente cães, mas aqui, a matança causada pelos lobos tem um motivo: a sobrevivência. Como explica o personagem de Eddie Holt, interpretado por Edward James Olmos, ao personagem principal, interpretado por Albert Finney, tudo está acontecendo por causa da destruição causada pelos homens no passado, o que deixou os animais sem lugar para morar, e a beira da extinção, uma pista deixada brevemente pelo personagem de Noonan, anteriormente. Ou seja, os papeis se inverteram.

    Porém, a policia não vê as coisas dessa forma, e, até verem de fato os lobos, acreditam que os crimes são trabalho de um grupo terrorista que está agindo nos Estados Unidos. As sequencias de investigações são muito bem construídas e convincentes. É possível ver que aqueles personagens estão querendo apenas fazer o seu trabalho e garantir a segurança do publico.

    Os aspectos técnicos também contribuem para a eficiência do filme. Não conheço o trabalho de Wadleigh, então, não posso afirmar se os seus outros filmes seguem a mesma linha técnica, mas aqui, tudo funciona. A fotografia de Gerry Fisher está perfeita, captando nos tons sujos e decadentes de Nova York com maestria; as câmeras steadicam também fazem bonito, principalmente nas cenas envolvendo a ponte do Brooklyn, onde os índios se escondem durante a noite e trabalham durante o dia. A trilha sonora é magistral, e garante arrepios na espinha.

    Além de ser um filme de terror policial, LOBOS também é um filme de terror sobrenatural, e isso é mostrado nas sequencias em que Holt passa por uma transformação na praia, e também na sequencia final. O tema da troca de formas na cultura indígena é muito bem explorado no filme, e, como já mencionado, possui um papel chave na trama, uma vez que fica no ar a duvida se os lobos são de fato lobos, ou índios em metamorfose. O aspecto sobrenatural também é sugerido na sequencia do primeiro assassinato, uma vez que a policia imagina que membros de um culto Vodu estão envolvidos no caso, mas isso é logo descartado. Seja como for, o resultado é arrepiante.

    Os animais do título são o verdadeiro destaque. Mesmo com pouca presença, eles enchem a tela com seu ar ameaçador e sua beleza. Eles surgem apenas no final do filme, e o fazem de maneira brilhante. Todos os lobos presentes na historia são negros e a fotografia noturna contribui para o clima de mistério da sequencia em que eles surgem. Eles passam o filme inteiro escondidos em uma igreja em ruinas na parte velha da cidade, e, sinceramente, o ambiente possui um clima gótico que contribui para o ar de mistério e suspense do filme.


    Enfim, LOBOS é um filme de primeira. Um filme de terror com elementos de trama policial e mistério e terror sobrenatural, tudo muito bem amarrado em uma trama redonda e bem construída.




    AVISO.

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