sábado, 9 de outubro de 2021

CARRIE – A ESTRANHA (1976). Dir.: Brian de Palma.

 

NOTA: 10



Carrie – A Estranha, romance de estreia de Stephen King, é um livro fascinante, assustador, chocante e atual. Já em seu primeiro livro, o autor mostrou sua capacidade para contar histórias, e lançou um de seus maiores clássicos. O sucesso do livro foi o suficiente para leva-lo para o cinema.

 

Lançado em 1976, dois anos após a publicação do livro, CARRIE – A ESTRANHA ainda hoje é a melhor adaptação da obra do autor, e o meu filme favorito do diretor Brian de Palma.  E motivos para isso não faltam.

 

O filme é um dos maiores clássicos do Cinema e do gênero Terror, e até hoje, é um dos filmes mais assustadores de todos os tempos. Produto da Nova Hollywood, além de ser um clássico, é um filme que para mim, possui uma grande importância, porque eu o vi pela primeira vez em uma época especifica da minha vida. Mais sobre isso adiante.

 

Bem, seja como for, o fato é que o filme é excelente, e fica melhor a cada revisão, e grande parte disso se deve ao diretor de Palma.

 

Até hoje, de Palma é considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos, e aqui ele dá uma prova disso. O diretor é muito habilidoso com o que faz, e se mostra um excelente diretor de atores. Aliás, esse é um dos grandes trunfos do filme.

 

De Palma soube escolher seu elenco com perfeição e é possível enxergar os personagens nos rostos dos atores, e infelizmente, isso é o tipo de coisa que faz muita falta hoje em dia.

 

Outra coisa que chama a atenção no filme é o clima de nostalgia. Na essência, Carrie é uma história de colégio; no entanto, devo confessar que nesse sentido, eu sinto muito mais prazer assistindo o filme, porque as cenas no colégio são muito nostálgicas para mim. Como eu disse, eu assisti esse filme numa época muito especifica da minha vida, durante as férias de Julho; eu vi muito esse filme antes de retornar para a escola, então, o clima de colégio estava muito presente, e toda vez que eu assisto, essa sensação de nostalgia retorna e me deixa muito feliz.

 

Outra coisa que torna esse filme – o livro também – muito especial, é a própria protagonista. Carrie é uma excluída, vitima de bullying dos colegas e professores da escola. Eu me identificava muito com ela, principalmente com essa solidão e fragilidade que ela mostra na tela. De verdade, era como se eu me visse na personagem toda vez que vejo o filme. É o tipo de coisa que poucos filmes conseguem fazer comigo.

 

Além de tocar no tema do bullying, a historia também possui momentos chocantes, principalmente envolvendo violência. No livro, isso é muito forte, e o diretor de Palma soube passar isso para a tela. A começar pelo inicio, no vestiário; a cena da menstruação é uma das mais fortes do cinema, principalmente pela performance das atrizes. Sem exceção, todas dão um show de atuação na cena, transmitindo exatamente aquilo que a cena pede. No entanto, os momentos mais pesados ficam nas cenas entre Carrie e sua mãe. Todos os méritos, novamente, vão para as atrizes. Ambas conseguem passar a loucura, a tortura psicológica e o sofrimento descritos nas cenas e com isso, as mesmas ficam muito perturbadoras.

 

Falando nisso, devo destacar o elenco. De Palma soube escolher seu elenco com perfeição, e até hoje, sempre que assisto, eu consigo visualizar os personagens nos atores, sem o menor esforço. No entanto, quem rouba a atenção são Sissy Spacek e Piper Laurie, como Carrie e sua mãe, respectivamente. Conforme mencionei acima, as atrizes dão um show de atuação, e entregam atuações inspiradas, tanto que ambas receberam indicações ao Oscar®. O restante do elenco também não decepciona, e o melhor, eles não parecem forçados, caricatos ou inadequados.

 

No quesito técnico, o filme também não decepciona, principalmente a câmera. A câmera de De Palma realiza grandes feitos, principalmente quando se move pelo cenário, com destaque para o Baile de Formatura, em especial a cena da dança e quando as cartelas dos votos são recolhidas. Hoje em dia, talvez tais cenas seriam feitas de outro modo, mas na época, foram necessárias gambiarras para alcançar o resultado que vemos. A trilha sonora, composta pelo cantor italiano Pino Donaggio – colaborador frequente do diretor – é belíssima, principalmente o tema de Carrie e na sequência do incêndio no Baile. E devo destacar também a montagem. Para quem conhece o estilo de De Palma, sabe que ele utiliza técnicas malucas para contar suas historias, com direito a tela dividida e imagens juntas em distancias diferentes no mesmo plano. O mais legal é que na pós-produção, tais cenas são combinadas para criar o efeito, o funciona maravilhosamente. Toda a sequência da vingança de Carrie no Baile foi filmada com tela dividida, e até hoje, eu me pergunto como foi feita e principalmente, como cenas assim são escritas no roteiro. Aliás, devo destacar o take em que o Baile começa a pegar fogo, com Carrie em pé diante do palco contra a luz. É um take lindo!

 

Sendo um filme de terror, temos muitas cenas assustadoras. Sem duvida, a mais assustadora é a sequência do incêndio do Baile, porque é muito bem feita, com direito a takes chocantes de personagens morrendo – devo destacar aqui a cena em que as portas da quadra se abrem para Carrie sair, enquanto o lugar é tomado pelas chamas. A cena em que Carrie volta para a casa também é assustadora, principalmente por causa da trilha sonora.

 

Outra coisa que devo dizer é que Carrie é uma história sobre o sangue. Desde o começo, o sangue está presente na tela, mas o ápice é na sequência do Baile, quando a personagem é banhada pelo sangue. Eu digo que é uma das cenas mais tensas e assustadoras do cinema.

 

Antes de encerrar, devo dizer que o próprio Stephen King ficou muito feliz com o resultado, principalmente com o final, que conseguiu assustá-lo quando ele viu no cinema. Até hoje, ele diz que o filme não envelheceu, e razão ele tem. Até hoje, o filme é um dos maiores clássicos do Terror.

 

Enfim, Carrie – A Estranha é um clássico do cinema. Um filme verdadeiramente assustador, com atmosfera de nostalgia muito bem feita, e momentos de violência chocante.  Primeira adaptação de Stephen King para o cinema. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos. Excelente. 




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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

AMITYVILLE II – A POSSESSÃO (1982). Dir.: Damiano Damiani.

 

NOTA: 9



Não há duvidas que Amityville é uma das maiores – talvez a maior – franquia de terror do cinema. Ao todo, foram mais de dez filmes, entre as “continuações oficiais” e produções da Asylium. No entanto, a franquia tem apenas quatro filmes, lançados entre 1979 e 2017. Eu pessoalmente não considero os filmes que vieram depois de 1983, porque são todos horríveis e não tem nada a ver com a franquia original; o único que retomou a franquia foi Amityville – O Despertar, que traz a casa de volta.

 

Mas não vou falar sobre eles. Vou falar sobre o segundo filme da trilogia original, AMITYVILLE II – A POSSESSÃO, lançado em 1982 e produzido por Dino de Laurentiis.

 

Esse foi meu primeiro contato oficial com a franquia, porque foi o primeiro filme que assisti, numa edição lastimável de banca que vinha junto com o terceiro filme. Eu aluguei muitas vezes na locadora, antes de comprar quando estavam vendendo. E devo dizer que foi uma das experiências mais assustadoras da minha vida, não porque o filme é ruim, mas porque ele é muito assustador.

 

O filme tem tantas cenas assustadoras que é difícil dizer qual é a mais. Eu pessoalmente tenho muito medo da cena em que a entidade percorre a casa à noite, fazendo barulhos sinistros. Eu já assisti várias vezes, mas quando chega nessa cena, eu sinto arrepios na espinha. E devo citar também o confronto entre o Padre Adamsky e o garoto possuído.

 

O que torna essas cenas ainda mais assustadoras, além da direção, é a ausência de trilha sonora. Eu já comentei algumas vezes que é um fator determinante para criar um momento de tensão em um filme de terror, e aqui, isso é aproveitado com habilidade.

 

Apesar de ter sido lançado três anos depois do primeiro filme, Amityville II é considerado uma prequel, porque conta para nós o que aconteceu na casa antes dos Lutz se mudarem para lá. De fato, existem certos elementos que constatam tal afirmação, principalmente a questão da possessão demoníaca e os assassinatos numa noite de chuva. No entanto, há uma cena no início do filme onde as janelas da casa estão seladas com pregos, algo que acontece no primeiro filme. Eu honestamente não sei como interpretar isso, porque aconteceu anteriormente, então... Fica a critério de cada um. Dizem também que o walkman do filho mais velho é outro ponto contra a constatação de que é uma prequel, então...  Novamente, é difícil chegar a uma conclusão.

 

No entanto, o que podemos dizer com certeza a respeito de Amityville II, é que se trata de um filme sobre possessão demoníaca, pegando carona no sucesso do Clássico Absoluto O Exorcista (1973), ainda que tardiamente. É sério, eu acho que é o último filme que tentou entrar na onda do filme de William Friedkin, mas devo dizer que é um dos melhores. As cenas de possessão são realmente muito boas, graças à maquiagem, principalmente. Eu devo dizer que quando vi tais cenas pela primeira vez, principalmente a cena dos assassinatos, eu fiquei com muito medo, porque a maquiagem é muito boa, com tudo que tem direito, até mesmo voz alterada. É tudo muito bem feito.

 

Outro ponto que quero destacar são as atuações. Alguns atores até que entregam boas performances, mas, também existem momentos em que as atuações são sofríveis, principalmente na cena dos assassinatos.

 

Agora, além da questão da possessão demoníaca, existem questões um tanto quanto controversas, todas envolvendo a família. O pai é alcoólatra e dominador; a mãe é submissa e existe um clima de incesto entre os irmãos mais velhos. Além da família, devo destacar também o padre. Sinceramente, eu não o considero um padre honesto, sem pensamentos pecaminosos; pelo contrário, é evidente a atração sexual que ele sente pela filha mais velha, e isso fica claro na cena de exorcismo. Não sei se aqueles que assistiram ao filme tiveram a mesma impressão que eu, mas vou deixa-la aqui.

 

Antes de encerrar, devo mencionar também a trilha sonora, novamente composta por Lalo Schifrin. Sinceramente, eu prefiro muito mais a trilha sonora deste filme; é mais assustadora do que a do filme anterior – na verdade, há uma certa diferença entre as duas, até mesmo o uso do coro infantil – e isso fica mais evidente em cenas especificas, principalmente no final do filme, quando há o uso de instrumentos de corda.

E como sempre, temos excelentes tomadas da casa, principalmente de suas famosas janelas, dignas de arrepios, a marca registrada da trilogia.

 

Foi lançado em VHS e DVD – em edição de banca – no Brasil, mas estava fora de catálogo até que foi relançado em DVD pela Obras-Primas do Cinema no box Trilogia Terror em Amityville, em versão remasterizada.

 

Enfim, Amityville II – A Possessão é um filme assustador, com uma atmosfera de pesadelo que provoca arrepios no espectador. Um clima de medo enche o longa desde o começo e deixa o espectador apavorado. As cenas de possessão são muito boas e assustadoras, principalmente a cena de exorcismo, e a trilha sonora provoca arrepios sem o menor esforço. Um filme excelente.


Créditos: Obras-Primas do Cinema

 

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terça-feira, 24 de agosto de 2021

CANDYMAN (Clive Barker).

 

NOTA: 9.5



Eu já mencionei algumas vezes aqui que Clive Barker é um dos maiores escritores de horror de todos os tempos. Sua obra mais famosa, Hellraiser, é sem dúvida, um dos trabalhos mais assustadores e originais que já vi. Também ambientado no mesmo universo, o livro Evangelho de Sangue até que é divertido e grotesco, mas não chega aos pés da obra anterior.

 

E hoje, vou falar sobre outra obra do autor, talvez a mais famosa depois de Hellraiser: CANDYMAN, ou O Proibido, como também é conhecido.

 

Bom, esse é um dos melhores textos do autor que já li, e motivos para isso não faltam. Barker conseguiu criar uma história verdadeiramente assustadora, com uma temática apropriada: lendas urbanas. Eu pessoalmente acho o próprio termo assustador, porque sempre passa a impressão de algo macabro que aconteceu nas cidades ao longo dos anos. Bem, aqui temos exatamente isso.

 

Candyman é uma excelente historia sobre o assunto, apesar de não focar totalmente nisso. Na verdade, no início, temos a impressão de que estamos lendo uma história sobre investigação, uma vez que a protagonista, a universitária Helen, decide se aventurar nos bairros decadentes de Liverpool a fim de encontrar mais e mais material para sua tese, no caso, as pichações locais. Somente após a protagonista ouvir relatos sobre homicídios na região, é que a historia muda de foco e passa a se concentrar na lenda urbana do personagem-título, também conhecido “O Proibido”, visto que todos têm medo de falar sobre ele.

 

Esse é o grande ponto da história, na minha opinião. Barker criou uma entidade tão perversa que até os moradores da região têm medo de pronunciar seu nome, e honestamente, isso é o tipo de coisa que me atrai muito em histórias de terror; essa coisa da entidade maldita que traz mau-agouro para todos é uma das melhores representações de algo terrível, e já tivemos grandes exemplos, e este é mais um deles.

 

E sendo uma história de Clive Barker, não poderiam faltar cenas grotescas, e aqui temos ótimas delas. O autor até faz uso de um dos maiores tabus do horror para conduzir as investigações da protagonista e fazê-la adentrar no território da entidade do título – não direi qual é o tabu para não entregar spoilers; digo apenas que o autor não mostra nenhum pudor ao falar dele. E temos também algum conteúdo sexual, principalmente quando Helen encontra a entidade.

 

E falando em Candyman, foi separar um tempo para falar sobre ele. Quem já viu o filme, sabe como ele é fisicamente, mas, ao ler a história original, a coisa é bem diferente. Não espere encontrar o Candyman imortalizado por Tony Todd; ao contrário, temos aqui em ser grotesco e repugnante, mas que consegue ser sedutor e charmoso. Não sei para quem já leu, mas eu o imaginei como um homem mesmo, elegantemente vestido, mas não idêntico ao Candyman de Tony Todd, principalmente por causa da cor de sua pele. Sim, aqui, não temos o forte comentário social presente no filme de Bernard Rose, somente uma história sobre uma lenda urbana.

 

Acredito que essa seja a maior surpresa para quem vai ler a história pela primeira vez, porque a questão racial é tão forte no filme, que parece que também foi tirada do texto original, mas não é esse o caso.

 

Mas nada disso nos impede de criar uma conexão com o filme conforme lemos o livro. Eu mesmo, enquanto lia determinadas cenas, pude visualizar as mesmas presentes no filme, principalmente a cena da pichação que simboliza a entidade, o jantar e o encontro da protagonista com Candyman. Não seria surpresa se eu pudesse até ouvir a trilha sonora do filme.

 

Candyman foi lançado na coletânea Livros de Sangue de Clive Barker, mas a mesma se encontrava fora de catalogo há anos. Foi relançado no Brasil pela editora DarkSide Books em belíssima edição individual, com texto de apoio.

 

Em tempo: resolvi ler o livro para me preparar para o novo filme, que estreia em Agosto de 2021, com produção de Jordan Peele, o mestre da crítica social do cinema de terror atual.

 

Enfim, Candyman é excelente. Uma história de horror com elementos investigativos que prende a atenção do leitor até última pagina. A escrita de Clive Barker é perfeita, e o autor cria uma ambientação capaz de deixar o leitor arrepiado, além de dar vida a uma de suas criaturas mais famosas. Um livro arrepiante. Uma leitura rápida, mas digna de nota. Altamente recomendado.


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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (1972). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9.5



Lucio Fulci foi um dos mestres do terror italiano. Desde que resolveu se aventurar no gênero, tornou-se especialista em produções repletas de sangue e gore. No entanto, antes de se aventurar em produções gore, Fulci se aventurou no Giallo, e nos deu grandes exemplares do gênero, como por exemplo, Premonição (1977), Uma Sobre a Outra (1968), Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971).

 

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS é outro Giallo do diretor. Lançado em 1972, marca a segunda parceria de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan, após a colaboração em Uma Lagartixa. O Bosque dos Sonhos é um dos melhores Gialli de Fulci e também o mais polêmico, o que levou a ser excomungado da igreja católica.

 

Polêmicas à parte, o filme é um dos melhores exemplares do gênero, e um dos meus favoritos. O longa apresenta um dos temas mais pesados do gênero: o assassinato de crianças.

 

Não é segredo para ninguém que a morte de crianças é um dos maiores tabus do cinema, e aqui, Fulci faz uso desse tabu sem o menor pudor, com cenas de assassinatos cruéis. Tudo bem, o número de vítimas do assassino não é muito grande, mas mesmo assim, somos brindados com momentos de tensão que parecem piorar a cada revisão.

 

Aqui como em seus outros Gialli, aqui, Fulci não faz uso do assassino tradicional, com luvas pretas, mas mesmo assim, essa é uma grande variação do gênero. Como eu disse, eu aprecio algumas variações do Giallo, mas ainda prefiro o Giallo clássico. Mas mesmo assim, esse filme consegue ser muito agradável.

 

O principal detalhe é a ambientação. Ao contrário dos demais, O Bosque dos Sonhos é ambientado no interior da Itália, e Fulci soube capturar excelentes tomadas do interior, dando um ar convidativo para o filme. Devo dizer que essa ambientação é um dos meus fatores favoritos sobre o filme, e me passa uma ótima sensação. E além da ambientação de interior, temos também ótimos personagens, que passam a sensação de serem realmente pessoas simples do campo. E em relação a isso, Fulci também não teve o menor pudor em mostrar as pessoas como realmente são, então, temos aqui personagens malcuidados, com as roupas e os rostos sujos de terra e suor; além de figurantes idosos desdentados. Tudo isso aumenta ainda mais o realismo e deixa as cenas de tensão ainda melhores.

 

Sobre isso, digo o seguinte: temos aqui cenas dignas de programas sensacionalistas da TV, com o povo se juntando na porta da delegacia para exigir a captura do assassino, ou para linchá-lo em público. E claro, a coisa fica pior com a chegada de vários repórteres, dispostos a tudo para conseguir uma exclusiva. Em resumo, temos um verdadeiro circo midiático e popular. É possível notar que as pessoas daquele vilarejo querem um culpado a qualquer custo, e estão dispostos até a fazer justiça com as próprias mãos, conforme visto na cena do cemitério. Todos esses detalhes aumentam ainda mais o teor chocante do filme e o deixam ainda mais perturbador.

 

E não para por aí. Além da questão do assassino de crianças, temos também uma forte questão sexual, que fica ainda mais perturbadora porque envolve as crianças, principalmente os meninos. Logo no inicio do filme, Fulci nos presenteia com uma cena de nudez da atriz Barbara Bouchet – uma das musas do gênero – cuja personagem possui um forte apelo sexual e também um ar de mistério, que contribui para torna-la suspeita dos crimes. Patrizia, sua personagem, não demonstra pudor ao tentar seduzir um garoto que trabalha para ela, utilizando palavras de cunho sexual explicito. Realmente, uma cena que não seria realizada nos dias de hoje. Na verdade, eu tenho certeza que o filme não seria realizado nos dias de hoje, principalmente por causa de questões politicamente corretas, devo dizer, há muita coisa errada nesse filme, além dos assassinatos das crianças. Claro, Fulci não as exibe na tela, mas deixa a critério do espectador. Eu mesmo tenho algumas teorias perturbadoras envolvendo o personagem do padre.

 

Como mencionado acima, O Bosque dos Sonhos marcou a segunda colaboração de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan. Aqui, ela interpreta a Bruxa do vilarejo, uma mulher que vive sozinha no bosque a pratica feitiços com bonecos de cera. Logo de cara, Fulci faz questão de mostra-la como uma das suspeitas dos crimes, uma vez que ela é vista na cena de um dos crimes. Além disso, ela é mal vista pela população, que tem o habito de cuspir no chão sempre que a vê. E quando a polícia consegue captura-la, a coisa não muda de figura. A população se revolta com toda sua força e se mostra ainda mais hostil. E temos a cena do cemitério, talvez a cena mais cruel e violenta do filme, onde ela é açoitada com correntes, tudo ao som de Ornella Vanoni. A atriz entrega uma ótima atuação aqui.

 

Essa cena e a cena final mostram que Fulci sabia lidar com o gore ainda em seus primeiros filmes de terror, e o diretor não poupa ninguém. A cena do cemitério é a mais violenta do filme todo, graças à atuação e aos efeitos especiais de maquiagem, que lembram a cena de abertura de Terror nas Trevas (1981), que também contou com a presença de correntes.

 

E em certo ponto do filme, Fulci faz questão de mostrar um boneco do Pato Donald, fazendo alusão ao título do filme. E a revelação do assassino, bem como seu motivo para os crimes, são tão pesados que levaram o diretor a ser excomungado pela Igreja Católica; uma prova de que o diretor não tinha o menor medo de mostrar questões pesadas na tela.

 

Bom, seja como for, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um dos melhores filmes de Lucio Fulci e um dos melhores exemplares do Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo, em versão restaurada com áudio italiano.

 

Enfim, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um filme perturbador. Um Giallo com clima de interior que enche a tela. A direção de Lucio Fulci é um dos destaques, e o diretor consegue criar cenas de tensão que deixam o espectador nervoso, além de focar em assuntos proibidos sem o menor pudor. Uma história pesada, cheia de momentos revoltantes, e de suspense. Um filme excelente. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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sexta-feira, 23 de julho de 2021

O MACACO (Stephen King).

 

NOTA: 8.5



Que Stephen King é um mestre na arte de contar histórias, todos sabemos disso, e, sinceramente, até agora, não li nenhum livro ou conto de sua autoria que me decepcionou.

 

O MACACO, presente na antologia Tripulação de Esqueletos, é um desses exemplos. É um dos contos mais arrepiantes do Mestre que eu já li. Na verdade, reli.

 

A primeira vez que li essa historia foi na edição da Objetiva, mas foi há muito tempo; e quando peguei o livro para reler algum conto, tive muita dificuldade porque as letras eram muito pequenas, então, comprei a edição da Suma, e essa semana, sentei para ler esse conto.

 

E que leitura. O Macaco é um conto verdadeiramente arrepiante, sobre os nossos pesadelos mais profundos, que sempre voltam para nos assombrar, cedo ou tarde.

 

O autor constrói uma história simples sobre um objeto aparentemente inocente, mas que fundo é um instrumento do terror, que carrega algo de ruim dentro de ruim. Eu já tinha visto a capacidade do Mestre em criar uma história assim em Christine e A Máquina de Lavar Roupa, e aqui, ele se mostra mais uma vez sua habilidade.

 

Mas mais do que uma história de um objeto maldito, O Macaco também é uma história de loucura, e ambiguidade, uma vez que em certos momentos, ficamos na dúvida se o macaco é mesmo um objeto maldito, ou se tudo não passa de imaginação do protagonista, que é assombrado por ele desde criança.

 

E francamente, não vejo objeto melhor para assombrar alguém do que um macaco de corda. Eu sinceramente, morro de medo desses brinquedos, principalmente por causa do seu sorriso sinistro e seus olhos penetrantes. Basta procurar na internet qualquer imagem de um macaco de brinquedo com címbalos, que vão ver o que quero dizer. Essas coisas são assustadoras, e quem já viu Toy Story 3 deve ter ideia do que estou falando...

E em se tratando de uma história de Stephen King, não pode deixar de ter aquele toque especial do autor, e nesse caso, ele não faz questão de esconder que o perigo está nos címbalos do macaco, que a cada toque, algo terrível acontece com alguém relacionado ao protagonista, coisas horríveis mesmo, uma mais assustadora que a outra.

 

E claro, temos também um pequeno toque de loucura, uma vez que, após reencontrar o macaco, o protagonista muda completamente sua personalidade, indo de um pai e marido amorosos, para um pai que agride seu filho mais velho com crueldade. E tal comportamento ameaça a instabilidade de sua família, mas o pior de tudo, é que eles não sabem o motivo de tal mudança.

 

E outra coisa que autor faz bem é o uso de flashbacks para explicar a relação do protagonista com o macaco, além de demonstrar as habilidades malditas com mesmo com as pessoas envolvidas com o protagonista, além de envolve-lo em um jogo de terror psicológico de arrepiar.

 

Enfim, O Macaco é um ótimo conto. Uma história simples, mas assustadora, sobre pesadelos de infância, que sempre conseguem voltar. A escrita de Stephen King é o grande destaque, e o autor consegue contar a história com sua habilidade de sempre, levando ao leitor para dentro da narrativa. Um conto arrepiante, digno de pesadelos. Muito bem recomendado. 



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sexta-feira, 2 de julho de 2021

CANINOS BRANCOS (Jack London).

 

NOTA: 9.5



Eu adoro lobos-cinzentos. São algumas das minhas criaturas favoritas, principalmente por causa de sua beleza. E eu já comentei sobre eles. A primeira vez foi sobre o meu primeiro livro, O Vale dos Lobos, publicado em 2014, pelo Grupo Editorial Scortecci; e a segunda vez foi sobre o filme Lobos (1981), filme de terror que me inspirou a escrever o livro.

 

E aqui estou, mais uma vez, para falar sobre lobos. Mas desta vez, não será uma história de horror. Pelo contrário, é uma história linda: CANINOS BRANCOS, do autor Jack London.

 

Na verdade, este texto é sobre uma releitura, uma vez que eu já havia lido o livro antes, numa edição da Editora Martin Claret. No entanto, aquela não foi uma leitura muito prazerosa, porque eu resolvi ler cada uma das partes do livro num dia diferente – o livro é dividido em cinco partes. E nessa leitura, eu não me agarrei com firmeza na história.

 

Bom, agora com essa releitura, a coisa foi diferente. Eu pude me prender à leitura no tempo certo, lendo um pouco de cada vez, principalmente porque o livro é composto basicamente por texto, e não contem muitos diálogos.

 

Aliás, preciso dizer que esse é um detalhe que torna a leitura desse livro complicada, uma vez que London faz uso de muito texto para descrever as aventuras de seu personagem-título. Mas ao mesmo tempo que é uma leitura complicada, é também prazerosa e impressionante porque eu quase não leio livros com poucos diálogos e poucos personagens humanos.

 

Isso mesmo, quase não temos personagens humanos nessa história, e faz sentido, porque não é uma história sobre pessoas, mas sim, sobre um lobo.

 

London faz deste livro quase uma biografia do personagem, contando para nós como e onde ele nasceu, passando por sua juventude, até chegar a vida adulta. Se isso não é uma biografia, não sei o que deve ser. E o autor não poupa Caninos Brancos de perrengues, e que perrengues. Existem passagens violentas no livro, que cortam o coração do leitor, e é difícil escolher a pior. Eu confesso que enquanto estava lendo, eu senti um aperto no coração.

 

E as coisas pioram quando ele se torna propriedade de um homem branco que o compra de um cacique. Não vou dizer o que acontece, para não dar spoilers, mas é tão terrível quanto os perrengues que ele enfrenta na floresta e na aldeia dos índios.

 

Mas apesar disso, Caninos Brancos é um grande livro. London se mostrou um excelente autor, e soube contar sua história com total maestria. E o livro contém grandes cenas, todas protagonizadas pelo personagem-título; as melhores, na minha opinião, acontecem no final da história.

 

Antes de encerrar, devo dizer que o motivo que me levou a ler – ou nesse caso, reler – o livro foi a adaptação lançada em 1993 e produzida pela Disney. É um filme excelente, e durante a leitura, eu pude visualizar o ator animal que interpretou o lobo, o cão Jed.

 

Essas são as qualidades que fazem de Caninos Brancos um livro excelente e um grande romance do escritor Jack London.

 

Enfim, esse é um excelente livro. Uma linda história de aventura, ação, drama e amor contada com uma maestria ímpar. O autor Jack London se mostrou um grande contador de histórias e criou um dos maiores romances dos Estados Unidos. Um livro maravilhoso. Altamente recomendado.



JACK LONDON


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O CHICOTE E O CORPO (1963). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10



Não há duvidas que Mario Bava era um mestre do cinema de horror, conforme já mencionei em outras resenhas aqui.

 

Bem, hoje, irei falar sobre mais um de seus filmes: O CHICOTE E O CORPO (1963), um dos meus favoritos dele, e que conta com o astro Christopher Lee no elenco.

 

O que dizer sobre esse filme? Bom, devo dizer o óbvio: é um filme maravilhoso, e tudo isso se deve ao próprio Bava. O diretor sabia muito bem como queria contar uma historia e o que deveria usar para isso, e aqui, ele faz isso de sua melhor arma: a criatividade. Bava era extremamente criativo com o uso da câmera e da luz, e graças a isso, foi o responsável pelos mais belos filmes de terror de todos os tempos.

 

O Chicote e o Corpo é um deles, e como mencionei, um dos meus favoritos. É uma verdadeira história de terror gótico, de castelo assombrado, com tudo que tem direito, e que somente o gênero poderia trazer de melhor. E mais, é visualmente deslumbrante. Toda vez que eu assisto ao filme, eu me surpreendo com as imagens colocadas na tela. Eu não me canso de assistir a esse filme. E fica melhor a cada revisão.

 

É o tipo de filme de terror que os italianos sabiam fazer, com todos os toques góticos e sobrenaturais, misturados com uma pitada de suspense psicológico.

 

A fotografia é o principal destaque do filme. Assim como fizera em seus outros filmes, Bava criou uma obra colorida, onde todas as cores pulsam na tela em tons vivos. Sim, é um filme de terror colorido, do tipo de faz falta hoje em dia. Não se engane, eu gosto de filmes de terror em preto e branco, mas, com filmes de terror coloridos, parece que a coisa é mais diferente. E na versão lançada em DVD pela Versátil, a qualidade é muito melhor do que as outras versões disponíveis.

 

E claro, Bava também foi o responsável pela direção de fotografia e pelos efeitos especiais, e como sempre, mostrou-se muito habilidoso e fez um excelente trabalho, uma vez que ele começou sua carreira no cinema atuando nessas respectivas áreas.

 

Como todo filme de terror gótico, a história é ambientada num castelo, nesse caso, um castelo à beira-mar. Bava soube fazer uso do cenário, sempre destacando seu interior claustrofóbico e seu exterior clássico, com as torres que se destacam ao longe. A praia é também um ótimo cenário, com as ondas quebrando na areia, e completamente deserta.

 

O elenco também é um ponto positivo, com destaque para o grande Christopher Lee, em sua segunda colaboração com Bava. Mesmo com pouca presença em tela, o astro dá um show de atuação no papel de Kurt Menliff, o vilão do filme. O personagem é um verdadeiro sádico, que sente prazer perverso em torturar a esposa do irmão, que foi sua amante, com requintes de crueldade, agredindo-a com o chicote, a fim de despertar seu apetite sexual. Aliás, esse é um ponto que deve ser mencionado. O filme possui um forte tom de erotismo, apesar de não conter cenas de nudez, mas mesmo assim, é possível captar os toques de erotismo e sensualidade.

 

E claro, O Chicote e o Corpo é um excelente filme de fantasmas com toques de suspense. Os italianos sabiam fazer grandes filmes de fantasmas, misturados com outros gêneros, e nesse caso, temos uma mistura de história de fantasma com história de assassinato misterioso, uma vez que temos duas cenas de assassinatos e não sabemos quem é o culpado. Eu acho uma ótima combinação para esse filme, porque prende ainda mais a atenção do espectador.

 

E sendo um filme de fantasmas, temos também o espírito que ronda o castelo e assombra seus familiares, nesse caso, Nevenka, conduzindo-a a episódios de histeria e levando-a a loucura completa. E isso funciona muito bem.

 

Antes de encerrar, devo mencionar o som. Conforme mencionei na resenha de Seis Mulheres para o Assassino (1964), também de Bava, o som é um elemento a parte. E aqui, não é diferente. O áudio em italiano é maravilhoso, e parece ecoar para fora da tela, como se estivéssemos no assistindo no cinema; além disso, o vento é quase um personagem, soprando desde o começo do filme, deixando clara a sua presença. Eu gosto muito de filmes de terror onde o vento pode ser ouvido, para mim passa uma sensação agradável e fantasmagórica. E a trilha sonora de Carlo Rustichelli é maravilhosa, com um ar melancólico que casa muito bem com o filme.

 

Esses são os atrativos que fazem deste um excelente filme de terror italiano, do tipo que somente eles sabiam fazer.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror, em versão restaurada com áudio em italiano. 

 

Enfim, O Chicote e o Corpo é um filme excelente. Uma historia de fantasmas com elementos eróticos e psicológicos que prendem a atenção do espectador. A direção de Mario Bava é o melhor aspecto do filme, e, aliado a uma fotografia colorida, deixam-no ainda mais bonito, e melhor a cada revisão. O astro Christopher Lee entrega uma excelente atuação. Um verdadeiro espetáculo visual, do jeito que somente Bava sabia fazer. Altamente recomendado.



Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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