sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

A ZONA MORTA (Stephen King).

 

NOTA: 10



Que Stephen King é um mestre na arte de contar histórias, todos sabemos disso, e, sinceramente, até agora, não li nenhum livro ou conto de sua autoria que me decepcionou.

 

E mais uma vez, eu tive um exemplo da genialidade do autor. A ZONA MORTA, lançado no final dos anos 70, é um de seus maiores clássicos.

 

Primeiramente, eu acho difícil encaixar o livro em uma única categoria, porque o autor mistura três gêneros diferentes: suspense, ficção cientifica e romance. Mas devo dizer que os três gêneros se juntam com maestria, e cada um desempenha o seu papel.

 

Eu confesso que ouvi falar dessa história pela primeira vez quando assisti à adaptação dirigida por David Cronenberg em 1983, e de cara, eu já me apaixonei, porque naquela época, eu já conhecia o autor, mesmo que pelos filmes, e então, deveria saber que algo grande estava por vir, mas, mais detalhes sobre isso na resenha do filme.

 

As inúmeras vezes que assisti ao filme foram o suficiente para querer ler o livro, e então, decidi ir atrás do mesmo. No entanto, não foi assim de imediato. A primeira vez que eu vi o livro, foi a finada biblioteca daqui da minha cidade, numa edição que era da minha mãe. Anos depois, durante uma viagem à SP, fui a um sebo com meu pai e meu irmão, e comprei o livro, em outra edição. E quando a Suma relançou, eu comprei também e foi essa a edição que eu li.

 

E que livro. A Zona Morta é um livro fantástico. Mais uma vez, King se mostrou um mestre na arte de contar histórias, e ele conseguiu contar uma história redonda, com personagens cativantes e um enredo cheio de surpresas.

Como é de seu costume, King dividiu o livro em três partes, e cada uma tem o seu mérito.

 

A primeira parte mostra a vida de Johnny antes e durante o acidente que o deixou em coma, principalmente enquanto o mundo está mudando ao seu redor. King descreve os acontecimentos com maestria, relatando tudo com detalhes impressionantes; tanto que parece que estamos lá, acompanhando tudo de perto. Vemos principalmente as mudanças nas vidas dos demais personagens, como sua ex-namorada Sarah; seus pais; e Greg Stillson. Sarah se casou com um estudante de Direito e se tornou mãe; sua mãe, Vera, afunda-se cada vez mais na loucura provocada pelo fanatismo; e Greg Stillson dá os primeiros passos em direção à carreira política.

 

O autor mostra o desenrolar desses personagens da mesma forma que mostra os acontecimentos no mundo, intercalando tudo. Dessas histórias paralelas, uma das melhores é a da mãe de Johnny. King mostra que a personagem foi se tornando vítima do fanatismo pouco a pouco, pois acredita que o filho pode acordar do coma, ao contrário de seu pai, que se mostra bem realista quanto ao futuro do filho. Eu achei que bem sensato do autor mostrar que seu pai não acredita que o filho possa voltar, e com isso, ele passa a viver a sua vida; Vera é o oposto. Ela passa a frequentar grupos de orações e a gastar dinheiro com isso, algo que acaba destruindo parcialmente a relação com o marido. Gregg Stillson, por outro lado, também começa a colocar as mangas de fora, mostrando-se um homem verdadeiramente perigoso, disposto a tudo para alcançar seu objetivo, algo mostrado já no prólogo, numa cena horrorosa.

 

Quando Johnny desperta, ele se torna uma espécie de celebridade, por causa de seus poderes, algo que ele renega, porque não acredita que os poderes podem lhe trazer benefícios. Os principais acontecimentos mostrados no filme de Cronenberg aparecem aqui: Johnny tendo a visão da casa da enfermeira pegando fogo; e a perseguição ao assassino. Essa é, na minha opinião, a melhor parte da história, porque dá um toque de suspense e tensão que prendem o leitor e o deixam arrepiado. Toda a investigação é muito bem escrita, além dos momentos anteriores, que mostram o assassino agindo em Castle Rock. Enquanto eu lia toda essa sequência da investigação, eu pude visualizar o que está no filme de Cronenberg, e isso foi muito legal, porque eu já conhecia aquela história, mas do ponto de vista do filme; agora, só precisaria conhece-la do ponto de vista do próprio autor, o mesmo vale para a revelação e a derrota do assassino. E da mesma foram que Cronenberg, King entrega uma cena sangrenta.

 

Na segunda parte do livro, King descreve a rotina de Johnny como professor, algo que ele faz após se recuperar do acidente; tal rotina é relatada com base na relação dele com um garoto rico que tem dificuldades em aprender, mais ou menos como acontece no filme de Cronenberg, mas aqui a coisa é mais extensa. A relação entre os dois é muito boa de acompanhar, e quando o rapaz consegue se destacar em suas atividades, é difícil não se ficar contente. Além da relação entre os dois, o autor também separa um tempo para dedicar a obsessão de Johnny por Stillson, principalmente após conhece-lo em um comício, e ter uma visão, assim como acontece na adaptação de Cronenberg. King separa um capitulo extenso para contar a história de vida do antagonista, destacando sua personalidade perigosa, algo já presente logo em sua primeira aparição no prólogo, naquela cena horrível.

 

Sobre as novas previsões de Johnny, ambas acontecem em momentos chaves. A primeira, com Stillson, acontece durante o comício do político, e assim como no filme, Johnny prevê o fim do mundo. E a segunda, envolvendo o garoto, acontece em sua festa de formatura, e o professor prevê um inferno literal, o que provoca pânico nos presentes, e rende uma auto-homenagem metalinguística bem legal, que me pegou de surpresa.

 

E o capítulo sobre a vida de Stillson também merece nota, porque é tudo escrito com riqueza de detalhes impressionante, que não fica muito maçante.

 

Além de contar como o mundo mudou ao redor de Johnny, King também faz uso de figuras reais, como jornalistas e políticos, relatando, inclusive, o encontro do protagonista com um candidato real que acabou vencendo as eleições da época.

 

Ainda sobre a previsão de Johnny a respeito do garoto. Durante a leitura, eu pude notar semelhanças – terríveis semelhanças – com o famoso incidente da boate que ardeu em chamas em 2013, que ganhou a atenção não apenas do Brasil, mas do mundo inteiro. Não sei se quem já leu o livro teve a mesma impressão, mas vou deixa-la aqui, fique à vontade para concordar ou não.

 

E conforme mencionei, Johnny também dedica seu tempo a descobrir informações a respeito de Greg Stillson, algo que ele faz de maneira obsessiva. E no final, quando Johnny decide fazer alguma coisa a respeito – quem já leu o livro ou viu o filme sabe do que estou falando – King nos presenteia com momentos de tensão extrema, que nos provocam arrepios, pelo menos para mim foi assim.


E na última parte do livro, King relata o que aconteceu com os personagens após o comício de Stillson em Phoenix, por meio de relatos, inquéritos e cartas.

 

Antes de encerrar, um pouco mais sobre o antagonista. King praticamente transforma Stillson em um super-homem, que anda por aí acompanhado de capangas armados até os dentes, a maioria, membros de gangues de motociclistas, talvez inspirado naquela notícia que os Rolling Stones – ou outra banda de rock – iam contratar os Hell’s Angels para serem seus seguranças. Existe também o rumor que King de certa previu a candidatura de Donald Trump para presidência dos EUA, o que de fato ocorreu, visto que os feitos de Stillson se assemelham ao que Trump propagou durante seu mandato. Se isso é verdade ou não, talvez nem o próprio autor saiba. Já eu consegui ver paralelos assustadores com a atual situação política do Brasil – não vou entrar em detalhes, porque isso aqui não é sobre esse assunto.

 

E claro, durante a leitura, eu não tive a menor dificuldade de visualizar Johnny e os outros personagens interpretados pelos atores do filme de Cronenberg, Johnny principalmente, mais durante o início do filme, antes do acidente.

 

Este é um dos primeiros livros do Mestre ambientados na cidadezinha de Castle Rock, cenário recorrente em suas histórias e romances.

 

Em 1983, conforme mencionado, recebeu uma excelente adaptação para o cinema dirigida por David Cronenberg, e estrelada por Christopher Walken, Herbert Lom, Brooke Adams, Tom Skerrit e Martin Sheen.

 

Enfim, A Zona Morta é um excelente livro de Stephen King. Mais uma vez, o autor se mostrou um excelente contador de histórias, com sua habilidade ímpar. O autor conseguiu criar cenas verdadeiramente tensas e trágicas, misturando os temas com maestria, além de contar a história do Estado Unidos com detalhes dignos de nota. Um verdadeiro clássico de sua bibliografia.


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sábado, 12 de fevereiro de 2022

A MANSÃO DO INFERNO (1980). Dir.: Dario Argento.

 

NOTA: 9.5



Dario Argento é um dos grandes nomes do cinema de horror italiano. Nos primeiros anos de carreira, lançou grandes clássicos do gênero, entre eles, a Trilogia dos Bichos (1970-1971), além de Suspiria (1977) e Prelúdio para Matar (1975), sua grande obra-prima, e o maior Giallo de todos os tempos. 

 

Em 1980, Argento se uniu ao mestre do terror italiano, o Maestro Mario Bava, e juntos, produziram A MANSÃO DO INFERNO, o filme do meio da Trilogia das Mães, iniciada com Suspiria (1977). O que posso dizer sobre esse filme? Bem, vou ser claro: é um dos meus filmes favoritos do diretor, e também um dos seus melhores.

 

Inferno é um filme belíssimo, um verdadeiro espetáculo visual, e motivos para isso não faltam. Mais uma vez, Argento se mostra um mestre na direção, e também se mostra um grande contador de histórias, uma vez que aqui entrega mais um grande filme, do jeito que ele sabia fazer na época.

 

O diretor faz um dos seus melhores filmes, uma rara excursão no terror, visto que na época ele era mais conhecido por seus exemplares do Giallo, gênero que o consagrou no cinema. E aqui, fica evidente a presença do gênero, até porque, acredito que era difícil para o diretor se distanciar do mesmo, e sinceramente, eu não vejo nenhum problema nisso; na verdade, é algo até natural.

 

Inferno é um verdadeiro espetáculo visual, e grande parte se deve à fotografia. O filme é muito colorido, com cores que pulsam na tela, principalmente o azul, o vermelho e o rosa, cores utilizadas por Bava no seu O Chicote e o Corpo (1963); e graças a isso, o filme mais parece um longa do Maestro do que um longa de Argento. Além da fotografia, Bava também trabalhou na equipe de produção do filme.


O Maestro foi responsável pelos efeitos especiais, e também foi diretor da segunda equipe, além de ter substituído Argento na direção quando o mesmo precisou se afastar por problemas de saúde. Algumas das cenas comandadas pelo Maestro são as cenas debaixo d’água e a sequência dos ratos. E há até uma foto de bastidores onde ambos dividem o set de filmagens.


Inferno foi o último filme que contou com a colaboração de Mario Bava; o Maestro faleceu em 27/abr/1980.

 

Com certeza, o fato de ter sido o filme onde ambos trabalharam juntos, faz deste um verdadeiro deslumbre, e também deve servir como atrativo para os fãs do terror italiano, porque, conforme mencionado acima, o diretor Argento estava em alta na época, e entrega grandes filmes; e quanto ao Maestro Bava, não há comentários.




Inferno marcou uma nova parceria do diretor com sua companheira, a saudosa Daria Nicolodi, aqui no papel de atriz. A atriz entrega uma ótima atuação, no papel de uma condessa decadente e de saúde frágil, que se alia ao protagonista em sua busca por sua irmã. Além dela, temos ótimos atores, entre eles, a atriz Alida Valli, que já trabalhou com o diretor em Suspiria, além de ter trabalhado com o Maestro em Lisa e o Diabo (1973); a atriz interpreta a misteriosa senhoria do prédio, e sua performance é digna de calafrios. Outros como Feodor Chaliapin Jr.; Ania Pieroni; Irene Miracle e Gabriele Lavia também entregam grandes atuações, em papéis secundários, mas muito importantes para a trama.



Conforme mencionado acima, Inferno é o filme do meio da Trilogia das Mães, iniciada com Suspiria (1977) e concluída com A Mãe das Lágrimas (2007), que infelizmente, marca a fase decadente do cineasta. Recentemente, surgiram boatos a respeito da jovem que segue o protagonista na sequência da aula de música, interpretada por Ania Pieroni. Dizem que a personagem é a Mãe das Lágrimas em sua juventude. Quanto a isso, não sei o que dizer; o que posso dizer é que a atriz tem presença forte, com seus grandes olhos verdes.



Outra coisa que me atrai nesse filme, além da fotografia colorida, é o som. Sério, os efeitos de som aqui são maravilhosos e enchem os ouvidos, principalmente o som dos passos.

 

Além do som, é notável a habilidade de Argento em dar destaque para coisas “sem importância”, como por exemplo, a chuva e cacos de vidro, assim como fizera em Suspiria. Sobre a sequência da biblioteca, o que chama a atenção é o modo como as gotas caem na roupa de uma personagem, além do modo como a água cai do céu. Maravilhoso.

 


Conforme mencionado, Bava dirigiu a famigerada sequência dos ratos, uma sequência repugnante, onde os animais surgem aos poucos de um cano de esgoto, até o cobrirem por completo. Eu pessoalmente tenho PAVOR DE RATOS, e se estivesse presente na cena, ficaria muito, mas muito nervoso. Mas voltando a sequência, posso dizer que a punição que o personagem ali presente merece, porque ele é cruel com alguns gatos que invadem seu estabelecimento. Não sou fã de gatos, mas admito que o que ele faz com eles é cruel. A cena do esfaqueamento é digna do trabalho de Argento, que lembra muito seus Gialli anteriores, apesar de parecer um pouco deslocada. Eu pessoalmente faço uma comparação com a cena do cachorro em Suspiria, onde o animal foi tomado por forças sobrenaturais; aqui, acredito que não é diferente.

 


Sobre a cena como um todo, ela digna de um filme do Maestro, com as cores pulsantes e a luz que se projeta por detrás da árvore. Além disso, é rodada em grandes planos gerais, onde fica impossível focar em uma única coisa em particular.

 


Bem, aqui temos também outra amostra do gosto que Argento tem por gatos, conforme mostrou logo na Trilogia dos Bichos. Aqui, os animais fazem um estrago com uma das personagens, com direito a closes extremos de suas patas e garras afiadas se projetando para fora; além disso, a cena também apresenta elementos de Giallo, conforme dito diversas vezes aqui. 

 


Para encerrar, quero destacar a trilha sonora, composta pelo falecido Keith Emerson, com destaque para Mater Tenebrarum, presente na cena em que Mark, o protagonista, se arrasta pelo interior do prédio, trilha essa que se repete nos créditos finais. Além da trilha de Emerson, temos também trechos com ópera, principalmente a ópera de Verdi – Va’ pensiero, de Nabucco. A mesma toca em momentos chaves da trama, e pessoalmente, eu acho muito bonito. 

 

E por fim, quero deixar aqui as minhas impressões a respeito da Mãe das Trevas, principalmente da sua forma final. A mesma é interpretada pela atriz Veronica Lazar, que também atuou em Terror nas Trevas (1981), de Lucio Fulci; mesmo com pouca presença, ela consegue passar um ar de mistério, principalmente quando está junto de um velho cadeirante. E sua forma final é muito bonita; o mesmo vale para a maquiagem dos seus servos, com suas mãos putrefatas com unhas compridas e afiadas.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, em belíssima versão restaurada com áudio em italiano, na coleção Obras-Primas do Terror Vol.2, dedicada ao terror italiano.

 

Enfim, A Mansão do Inferno é um excelente filme do diretor Dario Argento. Um verdadeiro espetáculo visual, com cores que pulsam na tela e deixam o filme mais bonito, além de outros aspectos que contribuem para deixa-lo ainda melhor a cada revisão. A união de Dario Argento com o Maestro Mario Bava é o grande fator que chama a atenção para este filme, além da habilidade de Argento como diretor e roteirista. Um espetáculo de cores e som. 



Créditos: Versátil Home Vídeo



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segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

AVISO.

 






O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Novas resenhas a partir de Fevereiro/2022.

Obrigado.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10



Mario Bava era um mestre. Eu já disse isso algumas vezes aqui, mas, é sempre bom ressaltar. Desde que se aventurou na direção definitivamente, com o Clássico A Maldição do Demônio (1960), Bava nos presenteou com obras que até hoje são admiradas por cineastas e fãs de cinema. Mesmo tendo se aventurado em outros gêneros, como, por exemplo, o Western, o cinema épico, e até mesmo, o cinema de super-heróis, o diretor é mais conhecido pela sua presença no Terror, principalmente no Terror Gótico.  E AS TRÊS MÁSCARAS DO TERROR (1963) é mais um exemplo.

 

Este é, sem duvida, um dos melhores trabalhos do diretor – dentre muitos outros – , e talvez a sua única aventura no gênero de antologias. E além disso, Bava contou com a presença de outro grande Mestre do terror: o astro Boris Karloff, que aqui faz o papel de anfitrião, além de estrelar o segundo – e melhor – segmento do filme, mais detalhes sobre isso adiante.

 

O filme é divido em três episódios, todos apresentados por Karloff.

 

O primeiro, O Telefone, é uma história de mistério com toques de Giallo. Após chegar em casa, uma prostituta que começa a receber ligações misteriosas. Ela então começa a suspeitar que o responsável é o seu ex-namorado, que estava preso, mas conseguiu fugir. Desesperada, ela liga para uma amiga para pedir ajuda, mas não imagina que o terror estava apenas começando.

 

O próximo segmento, O Vurdalak, é o melhor deles, sem a menor dúvida. Na história, um homem encontra um cadáver sem cabeça e o leva para a casa de uma família, e logo descobre que se trata de um assassino que vivia na região. No entanto, ele não sabe que a família está esperando o pai voltar para casa, mas ao mesmo tempo, todos estão com medo, pois acreditam que ele pode ter sido vítima de uma maldição vampiresca.

 

O último segmento, A Gota D’Água, é uma clássica história de fantasma. Uma enfermeira recebe um telefonema para ir à casa de uma médium que morreu durante uma sessão para ajudar a empregada a prepara-la para o funeral. No entanto, ela acaba roubando o anel da falecida, e passa a ser atormentada pelo seu fantasma.

 

Com o roteiro adaptado de obras escritas por F.G. Synder, Ivan Chekhov e Aleksey K. Tolstoy, As Três Máscaras do Terror é uma antologia clássica, apresentada em episódios de curta duração; ou seja, um exemplar clássico do gênero, correto? Sim, mas tem mais um detalhe: foi dirigido pelo Maestro Mario Bava, e posso dizer que isso é o que a diferencia das demais. Afinal, Bava era um maestro do cinema de horror, e aqui, dá mais uma prova do seu enorme talento.

 

O filme é um espetáculo de cores, principalmente os dois últimos segmentos, mas não é só isso. Mesmo apostando em recursos limitados, o diretor foi capaz de criar cenas e sequencias memoráveis, dignas de estudo para cinéfilos e fãs de cinema.



Logo na introdução, apresentada pelo astro Boris Karloff, somos brindados com um show de cores pulsantes na tela, que já enchem os olhos e dão uma dica do que vem por aí. Em seguida, no primeiro episódio, podemos ver o quanto o maestro sabia lidar com apenas um cenário e poucos atores, mesmo porque é exatamente isso que é mostrado na tela. Bava sabia exatamente o que fazer com o que tinha nas mãos e entregou um segmento tenso e arrepiante. No entanto, é certo dizer que ele guardou o melhor para os dois segmentos seguintes. Ambos são exemplares clássicos do terror gótico que o diretor que sabia fazer, com seus cenários exuberantes, dignos de foto, luzes coloridas pulsantes e cores vibrantes. Um verdadeiro espetáculo visual.


 

Além disso, temos aqui a representação de três grandes gêneros do terror, conforme mencionado acima. O Telefone é um suspense psicológico com toques de Giallo, subgênero que estava dando seus primeiros passos no cinema; temos o clima de tensão e também as ligações misteriosas, que se tornariam uma das marcas do gênero, além da presença das luvas pretas segurando uma faca brilhante. O Vurdalak é uma história de vampiros, nesse caso, do vampiro da tradição russa, que volta para se alimentar do sangue das pessoas que mais amou em vida – conforme dito na resenha de A Noite dos Demônios (1972), que também adaptou a novela de Tolstoy; e como toda história de vampiros, temos a presença das vítimas com os pescoços marcados pelos caninos afiados, além também do fato de que elas voltam para matar seus familiares. E por fim, A Gota D’Água é uma clássica história de fantasma com toques de terror psicológico, onde a personagem principal é levada à loucura. Temos a figura do fantasma que volta para assombrar a pessoa que o prejudicou, assim como vemos nos filmes de terror japonês, e leva-la a ter seu merecido fim, além, é claro, de termos também o tema do objeto maldito que vai passando de pessoa para pessoa, desencadeando um ciclo sem fim.

 

Ainda sobre o primeiro segmento, podemos também notar que a história toca em um dos grandes tabus da humanidade: a representação da homossexualidade na tela, ainda mais naquela época. Mesmo abordada de forma até sutil, é difícil não fazer essa associação; e além disso, temos também pequenos momentos de erotismo e sensualidade, novamente, algo inédito e ousado para a época.

 

Mesmo assim, é impossível assistir à As Três Máscaras do Terror e não se maravilhar, principalmente com a fotografia. Conforme mencionado acima, é um filme colorido, com as cores pulsando e vibrando na tela, enchendo os olhos do espectador. Bava era muito conhecido principalmente por seus filmes coloridos, e aqui podemos ver o motivo. O maestro soube muito bem onde colocar as cores, dado o seu conhecimento anterior como diretor de fotografia, e com isso, nos brindou com momentos dignos de obras de artes. Aliás, todo o trabalho do diretor é soberbo. Seu elenco atua muito bem, principalmente o astro Boris Karloff, com destaque para sua atuação no segundo episódio, onde ele interpretou o único vampiro de sua carreira, com sua capa negra com o capuz coberto de pelos. Os efeitos especiais também são maravilhosos, principalmente a cena da cavalgada na floresta noturna, homenageada por Tim Burton em A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999); o fantasma da médium no último episódio também não fica atrás, com seu sorriso permanente e suas mãos em formato de garra. E claro, temos o som do vento soprando na noite. Conforme mencionei anteriormente, eu adoro quando tal efeito de som, pois dá uma sensação indescritível.

 

Sem dúvida, As Três Máscaras do Terror é um dos melhores filmes do Maestro Mario Bava, e um dos mais belos filmes de terror de todos os tempos. Quem disse que filme de terror não pode ser lindo e colorido, mas viu esse filme.

 

Foi lançado em 1963 na Itália, e no mesmo ano, a A.I.P. tratou de lançar uma versão alternativa nos Estados Unidos, que ganhou o título Black Sabbath, pelo qual também é conhecido. Os episódios foram trocados de ordem, além de contar com cenas alteradas – principalmente a introdução – e nova trilha sonora. No entanto, mesmo contando com a verdadeira voz do astro Boris Karloff, eu não gostei na versão internacional; eu prefiro muito mais a versão original italiana. Eu sei que algumas pessoas gostam das duas versões – ou até de uma delas – mas eu prefiro a versão oficial.

 

Chegou a ser lançado em DVD no Brasil pela distribuidora DarkSide – somente a versão italiana – , mas esteve fora de catálogo por anos, até ser lançado em DVD pela Versátil Home Vídeo, em belíssima versão restaurada, também com a versão internacional, até então, inédita no Brasil.

 

Enfim, As Três Máscaras do Terror é um filme belíssimo. Um verdadeiro espetáculo visual, com cores vibrantes que enchem os olhos do espectador, além de uma direção criativa do Maestro Bava, do jeito que somente ele sabia fazer. O astro Boris Karloff entrega uma atuação espetacular sob o comando do Maestro, interpretando o único vampiro de sua carreira. Uma trilogia de horror com toques de fantasia. Uma verdadeira obra de arte do cinema de horror. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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sexta-feira, 5 de novembro de 2021

TUBARÃO 2 (1978). Dir.: Jeannot Szwarc.

 

NOTA: 9.5



Tubarão, o Clássico de Steven Spielberg, lançado em 1975, tornou-se o primeiro filme blockbuster da história, arrecadando mais de US$ 100 milhões em bilheteria.  Motivados pelo sucesso do filme, os executivos da Universal logo se animaram para lançar uma sequência.

 

Lançado em 1978, TUBARÃO 2 foi dirigido por Jeannot Szwarc, e contou novamente com alguns membros da equipe e elenco do primeiro filme. Até hoje, é considerado a melhor sequência do filme de Spielberg, talvez por ainda contar com elementos de tensão e suspense. E realmente, é uma excelente continuação.

 

Devo dizer que esse foi um dos últimos filmes da franquia Tubarão que eu assisti, porque o meu contato com a franquia se deu da seguinte maneira: o primeiro eu assisti o Clássico; depois, veio o terceiro filme (1983); em seguida, este aqui; e por último, o quarto filme (1987). E confesso que fui pego de surpresa.

 

Sinceramente, como já estava acostumado com os filmes de tubarão, eu esperava que Tubarão 2 fosse um filme completamente diferente, com maior presença do vilão e maior número de mortes. E o que vi foi exatamente o oposto, principalmente no número de mortes, mas, mais detalhes sobre isso adiante.

 

Realmente, Tubarão 2 é um ótimo filme, e o principal motivo para isso seja o próprio desenvolvimento do longa. Os produtores Richard Zanuck e David Brown – que também produziram o original – tinham várias ideias em mente para o filme, chegando inclusive, a contar com sugestões do autor Peter Benchley, e até mesmo do próprio Spielberg, que acabaram abandonando o projeto. Após algumas sugestões, eles perceberam que o publico iria gostar de rever os personagens e o cenário do filme anterior, então, eles foram trazidos de volta.

 

O filme se passa quatro anos após os incidentes do primeiro filme, então, fomos levados de volta à Amity Island, com o Chefe Brody e os demais personagens, com adições de outros, principalmente os jovens. De fato, além dos filhos de Brody, aqui temos um elenco de jovens personagens, cuja principal atividade é sair para velejar. Além dos jovens, temos também outros adultos, entre eles, o dono do grupo imobiliário de Amity, que agora assume o posto de autoridade incrédula.

 

Sim, aqui temos isso novamente. Na verdade, talvez para os mais exigentes, Tubarão 2 pode parecer uma refilmagem malfeita do primeiro filme, uma vez que temos os mesmos elementos da trama anterior. Na verdade, não é bem assim. Mesmo contando com o elemento das autoridades incrédulas, o filme é bem diferente do original, principalmente em se tratando da trama. Aqui, nós temos um pouco mais de oportunidade de acompanhar a vida na cidade, e como o Chefe Brody exerce sua função perante todos. No primeiro filme, nós até já tivemos essa oportunidade, mas aqui, podemos desfrutar um pouco mais. E é muito bom retornar à Amity Island.

 

Conforme mencionado acima, aqui nós temos o retorno do Chefe Brody, novamente interpretado por Roy Scheider; e além dele, Lorraine Gary e Murray Hamilton retornam nos seus respectivos papéis, e também é muito bom vê-los novamente em cena. E além do elenco, e dos produtores Zanuck e Brown, o roteirista Carl Cottlieb e o design de produção Joe Alves também retornaram.

 

O elenco jovem também é um destaque. Muitos dos jovens atores eram inexperientes e logo no primeiro filme, apresentaram boas performances. O melhor é que aqueles atores realmente parecem jovens locais, que gostam de passar o tempo juntos, bebendo cerveja e se divertindo em grupos. E como em todos os grupos de jovens, nós temos aqui a famosa hierarquia, onde os perdedores são separados dos demais. No entanto, quando a situação se agrava, todos se unem para sobreviver à ameaça. Muito legal.


Outra coisa que deve ser mencionada é a direção de Szwarc. O diretor é muito bom no que faz, principalmente com seus ângulos elaborados atrás do tubarão; além disso, ele se mostra um ótimo diretor de atores, visto que seu elenco arranca ótimas performances, conforme mencionado. 


Tubarão 2 voltou a contar com John Williams na trilha sonora, e, ao contrário do que muitos devem pensar, o compositor não reaproveitou a trilha do filme de Spielberg; ao contrário, aqui temos uma trilha sonora diferente, com mais tensão e momentos líricos, com direito a harpa. Mas, não se enganem, a trilha sonora do primeiro filme ainda é a melhor de todas. 

 

E claro que não posso encerrar esse texto sem mencionar o tubarão. Segundo o designer de produção, Joe Alves, a equipe de efeitos especiais utilizou os mesmos moldes usados em Bruce para construir o peixe, com algumas diferenças. Claro, temos, por exemplo, a barbatana dorsal com o mesmo design, mas a face do tubarão é diferente, principalmente porque não tem aqueles dois detalhes na mandíbula. E assim como seu antecessor, o animatrônico apresentou problemas ao ser colocado na água, o que causou atrasos na produção. Mas a melhor parte, é a característica marcante do vilão: sua face queimada, cheia de cicatrizes, resultado do seu segundo ataque. Sem duvida, é o visual mais marcante do filme. E também temos tomadas de tubarões reais, novamente cortesia de Ron e Valerie Taylor.



E como mencionado acima, o filme apresentou alguns problemas nas filmagens, que também envolveram as câmeras utilizadas, principalmente devido às condições do tempo. Os barcos a vela também trouxeram problemas, principalmente quando começam a tombar durante o ataque do tubarão. Outras dificuldades técnicas incluem o uso das câmeras submarinas, na cena do jet-ski. A ilha artificial também trouxe problemas, visto que acabou se soltando de seu ponto de apoio e se deslocou em direção à Cuba. E o tubarão também apresentou dificuldades para funcionar em determinadas cenas. 

 

Tubarão 2 foi novamente rodado em Martha’s Vineyard, em Massachusetts. No entanto, a equipe permaneceu na locação durante 3 ou 4 semanas, e foram para a Flórida para filmar as cenas no mar. E além disso, algumas cenas debaixo d’água foram rodadas na Califórnia e nos tanques da MGM, e o realismo mais uma vez ficou evidente.

 

Para finalizar, Tubarão 2 teve sua contagem de cadáveres reduzida, visto que, segundo Zanuck e Brown, eles iriam perder seu público-alvo, os adolescentes, que iriam ao cinema para se divertir. E, após o sucesso do filme, os dois produtores logo se entusiasmaram para produzir uma nova sequência, o famigerado Tubarão 3 X People 0, que nunca foi produzido, mas chegou a ter um roteiro escrito por John Hughes e chegou a escalar o diretor Joe Dante para comandá-lo, mas, como sabemos, o projeto foi abortado.

 

Tubarão 2 foi lançado em 16/jun/1978, e tornou-se um sucesso de bilheteria, arrecadando US$ 208 milhões de dólares, apesar das críticas mistas. Foi lançado no Brasil em DVD, mas atualmente, está fora de catálogo.

 

O sucesso do filme inspirou a produção das próximas sequências, Tubarão 3, lançado em 1983 e dirigido por Joe Alves; e Tubarão – A Vingança, lançado em 1987 e dirigido por Joseph Sargent. No entanto, apesar do sucesso deste filme, as duas ultimas sequências são consideradas as piores, principalmente o último filme, que sepultou a franquia, mas não as imitações de quinta categoria...

 

Enfim, Tubarão 2 é um filme excelente. Uma sequência digna do primeiro filme, mesmo não contando com o brilhantismo de seu antecessor, mas mesmo assim, querido por muitos. O retorno do elenco original, aliados a um roteiro inspirado e uma direção afiada, fazem desta a melhor sequência do Clássico de Steven Spielberg. Um filme cheio de tensão e medo. Maravilhoso. 




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sábado, 30 de outubro de 2021

HALLOWEEN II – O PESADELO CONTINUA (1981). Dir.: Rick Rosenthal.

 

NOTA: 9.5



Não há dúvidas que Halloween – A Noite do Terror (1978) é um dos maiores filmes de terror de todos os tempos, e um clássico absoluto do gênero Slasher. Motivados pelo sucesso do primeiro filme, e inspirados pelo sucesso de outros exemplares do gênero, os produtores logo se animaram para lançar uma sequência. HALLOWEEN II – O PESADELO CONTINUA foi a primeira delas, distribuída pela Universal e produzida por Dino de Laurentiis.

 

Lançado em 1981, o filme é uma continuação direta do Clássico de John Carpenter, pois começa exatamente onde o primeiro filme parou, algo raro de ser nas continuações, mesmo hoje em dia. Aliás, esse é o primeiro ponto positivo do filme, porque geralmente, sequencias tendem a começar de forma independente, muitas vezes com passagens de tempo entre um filme e outro, mas aqui foi diferente.

 

Halloween II é um exemplo de sequência que não ofende o filme original, pelo contrário, chega a ser tão bom quanto, mesmo sem o brilhantismo do antecessor. Inclusive, conforme mencionado em diversos sites, os dois filmes juntos formam um longa único com 3 horas de duração. Outra coisa que é sempre mencionada, é que este é conhecido pelos fãs da franquia como o “Filme do Hospital”, uma vez que a historia se passa dentro do Hospital Memorial de Haddonfield, o que, para muitos, é motivo de algumas criticas, mas, mais detalhes sobre isso adiante. E outra coisa que chama atenção no filme, é o fato de haver mais sangue, ação e violência e cenas icônicas, mas não entrarei em detalhes ainda.

 

O fato é que Halloween II é um dos melhores da franquia, justamente por ser um filme que de certa forma, tentou seguir a tradição do primeiro filme, mantendo um clima de suspense e mistério, apesar de também apresentar cenas de violência e nudez, algo que não estava presente no filme anterior. O principal motivo para tais mudanças foi o fato de que naquela época, o gênero Slasher já apresentava tais características, principalmente nos primeiros filmes da franquia Sexta-Feira 13, cuja primeira sequência foi lançada no mesmo ano. Então, o jeito foi seguir a formula. E deu muito certo.

 

Eu sou um grande fã de Halloween II, e considero um dos meus favoritos da franquia. Eu assisti ao filme pela primeira vez em 2002 e gostei imediatamente, principalmente porque naquela época, eu estava descobrindo a franquia, então, quando surgiu a oportunidade, eu agarrei. Até hoje, eu gosto muito do filme e fica melhor a cada revisão. Aliás, conforme mencionei outra vezes, eu sou um fã assumido da franquia – menos dos filmes que vieram depois de Halloween H2O no inicio dos anos 2000 – até mesmo dos mais problemáticos, principalmente Halloween 5 e Halloween 6 (somente a Versão do Produtor). Felizmente, a franquia voltou com tudo em 2018, com o maravilhoso reboot de David Gordon Green, e suas duas continuações.

 

Halloween II foi novamente produzido por Moustapha Akkad e Irwin Yablans, que demonstraram interesse em realizar uma sequencia após o sucesso do gênero Slasher nos cinemas; então, para isso, chamaram novamente John Carpenter e Debra Hill; no entanto, na época, ambos estavam envolvidos na produção de A Bruma Assassina (1980), que seria lançado pela Avco Embassy. Tanto Carpenter quanto Hill na realidade não tinham muito interesse em uma sequência de Halloween, pelo menos não tão cedo, mas mesmo assim, acabaram entrando no projeto, mesmo após desavenças com Yablans, que acabou processando Carpenter após este se desvincular do projeto inicialmente e se dedicar à Bruma. Para prestar auxilio, o produtor Dino de Laurentiis também acabou se envolvendo, mesmo que por meio de sua companhia, a Dino de Laurentiis Corportation. No final, Carpenter e Hill escreveram o roteiro e assumiram o cargo de produtores, mas novos problemas surgiram. Segundo o próprio Carpenter, ele mesmo não gostou do trabalho que fez no roteiro, tendo inclusive, declarado que o escreveu enquanto bebia sua cerveja favorita, o que acabou explicando algumas decisões na trama – inclusive a principal delas. E além de escrever o roteiro e co-produzir, Carpenter também ficou novamente responsável pela trilha sonora, e contou com a ajuda de Alan Howarth; mas mesmo assim, o diretor acabou não se envolvendo tanto, porque acabou se dedicando a O Enigma de Outro Mundo, sua obra-prima, que sairia no ano seguinte. Mesmo assim, a trilha sonora ficou muito boa, principalmente o tema principal, que ganhou uma ótima variação. E para completar, Carpenter e Hill ainda estavam envolvidos com a produção de Fuga de Nova York, lançado no mesmo ano.

 

Halloween II, inicialmente, seria dirigido por Tommy Lee Wallace, que trabalhou no original como designer de produção e co-editor. No entanto, após o ler o roteiro, Wallace detestou e acabou abandonando o projeto, que acabou sendo dirigido por Rick Rosenthal, um conhecido de Carpenter, aqui em sua estreia na função. O diretor fez um ótimo trabalho e se mostrou muito competente, principalmente como diretor de atores, e conseguiu arrancar ótimas performances de seu elenco.

 

O filme marcou o retorno de Jamie Lee Curtis e Donald Pleasence à franquia, nos respectivos papeis de Laurie Strode e Dr. Loomis. Além deles, os atores Charles Cyphers e Nancy Stephens também retornaram, reprisando seus papeis. Cyphers não tem muita presença em tela, realmente, mas sua participação é memorável. Outros como a enfermeira-chefe Sra. Alves; os motoristas de ambulância, Jimmy e Budd; as enfermeiras Janet e Jill; e o vigia Sr. Garret; além do policial Hunt, completam o elenco de novos personagens do longa, e todos são muito bons, assim como os atores que os interpretam. Além do elenco, o diretor de fotografia Dean Cundey também retornou, e seu trabalho é excelente, principalmente nas cenas dos corredores escuros do hospital, que ganharam um clima soturno e macabro.

 

Alias, como mencionado acima, Halloween II é conhecido como o “Filme do Hospital”, e devo dizer que funcionou muito bem, porque eu acho que se o roteiro tivesse optado por uma trama parecida com o primeiro filme, talvez o resultado não fosse tão bom assim. No entanto, apesar da inovação na trama, para os mais exigentes, ela apresenta um grande problema: não tem absolutamente ninguém naquele hospital! Não sei realmente como os hospitais são retratados nos filmes americanos, mas, devo dizer que não me importo tanto assim para esse detalhe; claro, ver um hospital vazio e escuro num filme é estranho, mas isso não faz muita diferença para mim. Eu gosto desse clima.

 

Além de ser considerado o “Filme do Hospital Vazio”, Halloween II é o filme da franquia com as cenas de morte mais memoráveis para os fãs, e são muitas. Carpenter e Hill capricharam na violência aqui, com direito a mortes verdadeiramente sangrentas e pesadas, principalmente dentro do hospital. Temos também algumas cenas ótimas fora do hospital, sendo a melhor delas, a cena do atropelamento seguido da explosão de uma van. No entanto, as cenas mais famosas ficam mesmo dentro do hospital, com destaque para a enfermeira que tem seu rosto mergulhado em uma piscina de água quente, além da outra enfermeira que é levantada no ar após ser esfaqueada por um bisturi; além, é claro, da destruição de Michael, no final.

 

Não posso concluir este texto sobre Halloween II sem mencionar Michael Myers. Se no primeiro filme, nós tínhamos um Michael Myers mais misterioso, com ares de stalker, aqui a coisa é diferente. Michael assume uma personalidade mais mortal, que mata suas vítimas com requintes de crueldade, e ele praticamente não poupa ninguém. O vilão percorre os corredores do Hospital de Haddonfield como um predador a procura de sua presa, e não mede esforços para encontrá-la e matá-la. Em relação ao seu visual, temos aqui o que talvez o “Michael Myers de Halloween II”, com a mascara um pouco deformada e a gola do macacão rente ao pescoço, e o bisturi ao invés da faca. Além disso, temos o famoso visual no final do filme, com sangue escorrendo pelos olhos da máscara. Mesmo assim, ele continua o mesmo, e tais mudanças são quase imperceptíveis.

 

Outra coisa que ronda pela internet, é o fato de Halloween II ser o filme que “definiu” a franquia, ou seja, ele estabeleceu os rumos que a franquia tomaria nos anos seguintes, e muito disso provavelmente se deve ao fato de Carpenter ter escrito o roteiro enquanto bebia sua cerveja favorita – sem julgamentos, pelo amor de Deus! Quer dizer, talvez não seja exatamente o caso, mas o fato é que o filme apresenta situações que foram seguidas nas continuações, como por exemplo, a cena da escola, onde a palavra “Samhain” está escrita com sangue na lousa. Essa cena serviu para estabelecer a ligação de Michael Myers com a cultura druida e a celebração do Festival de Samhain, além de estabelecer ligação com a famigerada “Maldição de Thorn”, o que transformou o personagem numa entidade sobrenatural ligada a rituais de sacrifícios e seitas, conforme estabelecido em Halloween 5 e principalmente em Halloween 6. Outra coisa que Carpenter acrescentou aqui foi o fato de Laurie Strode – ALERTA DE SPOILER!ser irmã de Michael Myers, o que explica a obsessão do maníaco por ela. Segundo Carpenter, ele estava sem ideias para o filme e resolveu acrescentar esse detalhe na historia, talvez para explicar por que Michael persegue Laurie. Tal fato foi estabelecido nas sequencias, principalmente em Halloween H2O, onde Laurie e Michael se reencontram e se enfrentam como irmão e irmã. Nas demais continuações, os laços familiares aparecem na perseguição de Michael a sua sobrinha, mas, mais detalhes sobre isso nas resenhas de Halloween 4, Halloween 5 e Halloween 6 – Versão do Produtor.

 

Halloween II foi lançado nos cinemas em 30/out/1981 – há 40 anos – e tornou-se um sucesso de bilheteria, apesar das críticas negativas. O sucesso do filme inspirou John Carpenter e Debra Hill a produzir mais uma sequência, Halloween III – A Noite das Bruxas, lançado no ano seguinte, mas que tomou um caminho diferente, conforme veremos no futuro.

 

Foi lançado em DVD no Brasil, mas permaneceu fora de catálogo por anos, até ser lançado em Blu-Ray pela Obras-Primas do Cinema, numa edição caprichada, em versão restaurada, juntamente com o Clássico de John Carpenter, que também foi lançado em versão restaurada em 4k, além das versões estendidas para TV. Lá fora, os cinco primeiros filmes da franquia receberam um lançamento recente em novas versões restauradas em 4k, com artes de capa muito bonitas. Não sei se chegarão aqui no Brasil, principalmente os dois primeiros, mas, não custa sonhar, não é mesmo?

 

Enfim, Halloween II – O Pesadelo Continua é excelente. Um filme cheio de ação, violência, e cenas que são lembradas com muito carinho pelos fãs da franquia. Um exemplo de sequência que não ofende o filme original, pelo contrário, merece lugar ao seu lado, mesmo não contendo o brilhantismo do antecessor. O retorno de Michael Myers e outros personagens clássicos, aliados a um roteiro bem amarrado, uma direção afiada e trilha sonora inspirada, fazem deste um dos melhores filmes da franquia Halloween. Excelente. Sangrento. Arrepiante.

 

FELIZ DIA DAS BRUXAS!


Créditos: Obras-Primas do Cinema



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sábado, 9 de outubro de 2021

CARRIE – A ESTRANHA (1976). Dir.: Brian de Palma.

 

NOTA: 10



Carrie – A Estranha, romance de estreia de Stephen King, é um livro fascinante, assustador, chocante e atual. Já em seu primeiro livro, o autor mostrou sua capacidade para contar histórias, e lançou um de seus maiores clássicos. O sucesso do livro foi o suficiente para leva-lo para o cinema.

 

Lançado em 1976, dois anos após a publicação do livro, CARRIE – A ESTRANHA ainda hoje é a melhor adaptação da obra do autor, e o meu filme favorito do diretor Brian de Palma.  E motivos para isso não faltam.

 

O filme é um dos maiores clássicos do Cinema e do gênero Terror, e até hoje, é um dos filmes mais assustadores de todos os tempos. Produto da Nova Hollywood, além de ser um clássico, é um filme que para mim, possui uma grande importância, porque eu o vi pela primeira vez em uma época especifica da minha vida. Mais sobre isso adiante.

 

Bem, seja como for, o fato é que o filme é excelente, e fica melhor a cada revisão, e grande parte disso se deve ao diretor de Palma.

 

Até hoje, de Palma é considerado um dos maiores cineastas de todos os tempos, e aqui ele dá uma prova disso. O diretor é muito habilidoso com o que faz, e se mostra um excelente diretor de atores. Aliás, esse é um dos grandes trunfos do filme.

 

De Palma soube escolher seu elenco com perfeição e é possível enxergar os personagens nos rostos dos atores, e infelizmente, isso é o tipo de coisa que faz muita falta hoje em dia.

 

Outra coisa que chama a atenção no filme é o clima de nostalgia. Na essência, Carrie é uma história de colégio; no entanto, devo confessar que nesse sentido, eu sinto muito mais prazer assistindo o filme, porque as cenas no colégio são muito nostálgicas para mim. Como eu disse, eu assisti esse filme numa época muito especifica da minha vida, durante as férias de Julho; eu vi muito esse filme antes de retornar para a escola, então, o clima de colégio estava muito presente, e toda vez que eu assisto, essa sensação de nostalgia retorna e me deixa muito feliz.

 

Outra coisa que torna esse filme – o livro também – muito especial, é a própria protagonista. Carrie é uma excluída, vitima de bullying dos colegas e professores da escola. Eu me identificava muito com ela, principalmente com essa solidão e fragilidade que ela mostra na tela. De verdade, era como se eu me visse na personagem toda vez que vejo o filme. É o tipo de coisa que poucos filmes conseguem fazer comigo.

 

Além de tocar no tema do bullying, a historia também possui momentos chocantes, principalmente envolvendo violência. No livro, isso é muito forte, e o diretor de Palma soube passar isso para a tela. A começar pelo inicio, no vestiário; a cena da menstruação é uma das mais fortes do cinema, principalmente pela performance das atrizes. Sem exceção, todas dão um show de atuação na cena, transmitindo exatamente aquilo que a cena pede. No entanto, os momentos mais pesados ficam nas cenas entre Carrie e sua mãe. Todos os méritos, novamente, vão para as atrizes. Ambas conseguem passar a loucura, a tortura psicológica e o sofrimento descritos nas cenas e com isso, as mesmas ficam muito perturbadoras.

 

Falando nisso, devo destacar o elenco. De Palma soube escolher seu elenco com perfeição, e até hoje, sempre que assisto, eu consigo visualizar os personagens nos atores, sem o menor esforço. No entanto, quem rouba a atenção são Sissy Spacek e Piper Laurie, como Carrie e sua mãe, respectivamente. Conforme mencionei acima, as atrizes dão um show de atuação, e entregam atuações inspiradas, tanto que ambas receberam indicações ao Oscar®. O restante do elenco também não decepciona, e o melhor, eles não parecem forçados, caricatos ou inadequados.

 

No quesito técnico, o filme também não decepciona, principalmente a câmera. A câmera de De Palma realiza grandes feitos, principalmente quando se move pelo cenário, com destaque para o Baile de Formatura, em especial a cena da dança e quando as cartelas dos votos são recolhidas. Hoje em dia, talvez tais cenas seriam feitas de outro modo, mas na época, foram necessárias gambiarras para alcançar o resultado que vemos. A trilha sonora, composta pelo cantor italiano Pino Donaggio – colaborador frequente do diretor – é belíssima, principalmente o tema de Carrie e na sequência do incêndio no Baile. E devo destacar também a montagem. Para quem conhece o estilo de De Palma, sabe que ele utiliza técnicas malucas para contar suas historias, com direito a tela dividida e imagens juntas em distancias diferentes no mesmo plano. O mais legal é que na pós-produção, tais cenas são combinadas para criar o efeito, o funciona maravilhosamente. Toda a sequência da vingança de Carrie no Baile foi filmada com tela dividida, e até hoje, eu me pergunto como foi feita e principalmente, como cenas assim são escritas no roteiro. Aliás, devo destacar o take em que o Baile começa a pegar fogo, com Carrie em pé diante do palco contra a luz. É um take lindo!

 

Sendo um filme de terror, temos muitas cenas assustadoras. Sem duvida, a mais assustadora é a sequência do incêndio do Baile, porque é muito bem feita, com direito a takes chocantes de personagens morrendo – devo destacar aqui a cena em que as portas da quadra se abrem para Carrie sair, enquanto o lugar é tomado pelas chamas. A cena em que Carrie volta para a casa também é assustadora, principalmente por causa da trilha sonora.

 

Outra coisa que devo dizer é que Carrie é uma história sobre o sangue. Desde o começo, o sangue está presente na tela, mas o ápice é na sequência do Baile, quando a personagem é banhada pelo sangue. Eu digo que é uma das cenas mais tensas e assustadoras do cinema.

 

Antes de encerrar, devo dizer que o próprio Stephen King ficou muito feliz com o resultado, principalmente com o final, que conseguiu assustá-lo quando ele viu no cinema. Até hoje, ele diz que o filme não envelheceu, e razão ele tem. Até hoje, o filme é um dos maiores clássicos do Terror.

 

Enfim, Carrie – A Estranha é um clássico do cinema. Um filme verdadeiramente assustador, com atmosfera de nostalgia muito bem feita, e momentos de violência chocante.  Primeira adaptação de Stephen King para o cinema. Um dos Filmes Mais Assustadores de Todos os Tempos. Excelente. 




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