sexta-feira, 1 de março de 2024

UM DRINK NO INFERNO (1996). Dir.: Robert Rodriguez.

 

NOTA: 9.5


O primeiro filme de terror a gente nunca esquece, não é verdade? E quanto ao segundo?

 

Qual foi o segundo filme de terror que vocês assistiram? O meu foi UM DRINK NO INFERNO, um misto de ação, terror e crime, comandado pela dupla Quentin Tarantino e Robert Rodriguez.

 

Infelizmente, serei obrigado a dar spoilers aqui nessa resenha, senão, a mesma ficaria incompreensível.

 

Recado dado, vamos lá.

 

Para quem já conhece, o filme é dividido em duas partes bem diferentes.

 

Na primeira, acompanhamos uma trama de crime digna dos filmes de Tarantino, com os irmãos, Seth e Richard Gecko, dois criminosos que espalham o terror pelo país e sequestram uma família, com o objetivo de fugir para o México. Na segunda parte, acompanhamos os personagens em um bar de strip-tease que se revela um antro de vampiros sugadores de sangue.

 

Passada essa introdução, vamos falar sobre o filme como um todo.

 

A começar pela direção de Robert Rodriguez, que é muito boa, e o diretor consegue conduzir as duas partes da trama com maestria, e ambas acertam em cheio.

 

A primeira parte, conforme mencionada acima, lembra muito os filmes de ação do diretor Tarantino, com a temática de sequestro e assalto a lojas e bancos, com ângulos de câmera e diálogos que poderiam ter saído diretamente de um filme de Tarantino, assim como as cenas violência.

 

Já a segunda parte, se transforma em um filme completamente diferente, com um ar de trasheira, com cenas de mortes exageradas e sangrentas ao extremo, com o sangue jorrando sem parar logo após a introdução dos vampiros, e os personagens lutando contra as criaturas com tudo que encontram no local, como tacos de bilhar e as pernas das mesas.

 

E o roteiro de Tarantino é muito bom em combinar essas duas partes, e faz tudo com maestria. Na primeira metade, tudo acontece aos poucos, com a dupla de irmãos se organizando para fugir do país, enquanto mantêm uma mulher como refém, mas as coisas não acabam bem, e os dois são obrigados a sequestrar uma família para ajudá-los a fugir.  No entanto, quando chegamos na segunda metade, o terror surge com tudo, com direito a corpos decepados e sangue jorrando com gosto; mas, após o massacre inicial, o roteiro novamente aposta no slow-burn, até desencadear para novos momentos de terror.

 

Os efeitos especiais foram criados pela KNB Effects Group, de Robert Kurtzman, Greg Nicotero, e Howard Berger, e eles não economizaram. Aqui tem de tudo, de membros falsos, passando por bonecos animatrônicos, e fantasias de monstros. Esqueça os vampiros clássicos. Aqui, temos vampiros monstruosos, com rostos deformados, e presas afiadas. Difícil dizer qual é o melhor, porque todos são muito bem feitos, e, convencem muito até hoje, assim como os efeitos de sangue.

 

Deixe-me falar um pouco mais sobre os vampiros. Além do visual monstruoso, eles são inspirados nos vampiros clássicos, e seguem algumas regras, como, por exemplo, são derrotados pela luz do sol; estacas de madeira no coração e cruzes também funcionam; e se transformam em morcegos. No entanto, o que os torna diferentes, é que eles podem ingerir outras bebidas, conforme mostrado quando somos apresentados ao bar Twittie-Twister – não vou usar a tradução aqui, para não criar polêmicas.

 

No início da resenha, eu mencionei que este foi o meu segundo filme de terror, porque eu o assisti quando era criança com a minha mãe. Até assisti-lo novamente, anos depois, eu me lembrava de algumas cenas, e sempre que o revejo, e as cenas aparecem, sinto um quentinho no coração. Por isso, este filme tem um lugar especial na minha vida.

 

Enfim, Um Drink no Inferno é um filme excelente. Um filme de ação e terror, contado com maestria pela dupla Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, com um roteiro bem afiado e direção inspirada. Os efeitos especiais são o grande destaque, com tudo que tem direito, e a KNB cria vampiros verdadeiramente assustadores. Altamente recomendado.



sábado, 17 de fevereiro de 2024

A FILHA DE SATÃ (1962). Dir.: Sidney Hayers.

 

NOTA: 8.5


Eu não assisti a muitos filmes de bruxaria, mas digo que A FILHA DE SATÃ é um dos melhores, e um dos meus filmes de terror favoritos.

 

Lançado em 1962, e distribuído nos Estados Unidos pela lendária American International Pictures, este é um filme com uma atmosfera sinistra que se predomina desde o começo e vai até o final, construída com uma grande maestria.

 

Desde a primeira vez que assisti a esse filme, fui tomado por uma sensação de nostalgia – mesmo não tendo vivido naquela época – e uma conexão com os filmes de horror produzidos na Inglaterra naquela época, principalmente aqueles produzidos pela lendária Hammer.

 

Em vários momentos, o filme lembra as produções contemporâneas da Hammer, principalmente por causa da atmosfera e da ambientação britânica.

 

Mas não é apenas a ambientação que torna esse um dos meus filmes de terror favoritos; o roteiro, escrito por Richard Matheson e Charles Beaumont, a partir de um conto de Fritz Leiber, é muito bom e aposta pouco a pouco na questão da bruxaria, deixando no inicio, um clima de mistério, principalmente a respeito da relação entre o casal de protagonistas e os personagens secundários, que os tratam de maneira diferente. No entanto, após descobrirmos que Tansy, esposa do professor Norman Taylor, é uma bruxa, o roteiro aposta a fundo no tema da bruxaria, com direito a feitiços e objetos sagrados.

 

Após revelar que Tansy é uma bruxa, o roteiro nos mostra o quão perigosa a vida do casal se torna, principalmente a vida de Norman, a começar pela falsa acusação de assedio por uma garota que o admirava nas salas de aula; em seguida, o namorado da garota o ameaça com um revolver. Eu gosto muito dessa primeira ameaça à vida de Norman porque remete a um filme de suspense passional.

 

Outra coisa muito boa que o roteiro faz é deixar em aberto até perto do final se o que está acontecendo ao casal é fruto de bruxaria ou não, e faz isso muito bem, porque deixa essa duvida no ar, até chegar ao final, quando a verdadeira vilã é revelada – não direi quem é para não dar spoilers.

 

Além do roteiro, a direção de Sidney Hayers é muito boa, e o cineasta arranca ótimas performances de seus atores, mesmo aqueles que interpretam papeis secundários. De todos os atores, o casal protagonista está muito bem aqui, principalmente o ator Peter Wyngarde, que interpreta o cético professor Norman. O ator convence muito bem, passando o ceticismo com naturalidade. Este é um dos melhores personagens do cinema de horror na minha opinião.

 

No seu país da origem, foi lançado com o título Night of the Eagle, que remete ao final do filme, quando a vilã faz uma bruxaria para atacar o protagonista e faz uma estatua de uma águia ganhar vida. Alias, as estatuas de águias são elementos importantes na narrativa, presentes desde a primeira cena, dando uma espécie de pressagio do que vai acontecer ao longo do filme.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Obras-Primas do Terror 4, em versão restaurada.

 

Enfim, A Filha de Satã é um filme muito bom. Uma historia de bruxaria contada com maestria, aliada a um elenco inspirado. A ambientação inglesa também contribui para deixar o filme ainda melhor a cada revisão, além de deixar o longa mais nostálgico. Um dos melhores filmes de bruxaria de todos os tempos.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sábado, 10 de fevereiro de 2024

OS ZUMBIS DE SUGAR HILL (1974). Dir.: Paul Maslansky.

 

NOTA: 8.5


Acredito que de todas as criaturas que supostamente não existem, o zumbi seja a única de que fato é real, visto que nas ilhas do Haiti existem relatos de pessoas que voltaram dos mortos, graças a um pó especial criado por alto-sacerdotes do vodu.

 

Desde que surgiram, foram poucos os filmes de zumbi que exploraram a origem haitiana da criatura. OS ZUMBIS DE SUGAR HILL é um dos exemplos que abordaram a origem real dos monstros.

 

Lançado em 1974, produzido pela American International Picture, este é um dos exemplares do blaxploitation são voltados para o terror. Conforme mencionei na resenha de Blácula, o blaxploitation foi um movimento cinematográfico voltado para o publico negro, com filmes produzidos e estrelados por negros, muitos deles voltados para o gênero de ação ou policial.

 

Sugar Hill vai pelo lado contrario, e foca principalmente no terror, apesar de conter alguns elementos de filmes de máfia também.

 

Eu digo que este é um dos meus filmes de zumbi favoritos, principalmente por causa da atmosfera e do visual dos zumbis. Eu me divirto com o filme a cada revisão e as cenas dos zumbis são arrepiantes.

 

Este é um filme muito bem feito, com uma ótima direção e um roteiro afiado, que aposta na temática do vodu sem nenhum medo ou tabu. As cenas que envolvem a religião haitiana são assustadoras, porque os cineastas conseguiram criar a atmosfera com realismo impressionante, algo também visto em A Maldição dos Mortos-Vivos (1988), do saudoso Wes Craven.

 

Mas no fundo, Sugar Hill é um filme de vingança, com a protagonista resolvendo se vingar dos gangsteres que mataram seu namorado; no entanto, ao invés que utilizar métodos convencionais, Sugar recorre a uma feiticeira vodu e ao Barão Samedi – figura presente nas lendas vodu – e a um exercito de zumbis para executar sua vingança, executando os capangas do vilão com requintes de crueldade.

 

O vilão é interpretado pelo ator Robert Quarry, figura conhecida nos filmes da A.I.P, famoso por seu papel nos filmes do Conde Yorga. Eu confesso que, mesmo adorando ver o ator em outros papeis, eu gosto muito mais da interpretação de Quarry como o Conde Yorga. Seu personagem é muito bom, e não se importa com ninguém a não ser consigo mesmo. E a vingança de Sugar contra ele é feita quase como uma vingança de videogame, com os zumbis matando seus capangas até chegar a ele – eu não jogo videogame, então estou usando uma metáfora que ouvi anteriormente.

 

Mas, na minha opinião, o melhor do filme são os zumbis. Não sei como estava o cinema de zumbis naquela época, mas aqui, temos um dos melhores visuais dos monstros. Eles estão cobertos de teias de aranha, com os corpos pintados de branco e olhos vidrados. E como todo zumbi que se preze, eles se levantam de seus túmulos do cemitério. O visual deles é arrepiante e provoca calafrios sempre que eles aparecem.

 

Além do visual maravilhoso dos zumbis, o filme também passa uma sensação de calor, principalmente nas cenas externas; é possível sentir o suor dos personagens e quase sentimos calor junto com eles.

 

Conforme mencionado acima, Sugar Hill invoca o Barão Samedi, uma figura conhecida na religião vodu. Ao que parece, o personagem é muito poderoso e é utilizado por alto-sacerdotes da religião. O personagem aparentemente apareceu em um filme do James Bond e deve ter servido de inspiração para o vilão da animação A Princesa e o Sapo da Disney.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Zumbis no Cinema 3, em versão restaurada com um depoimento do diretor como extra.

 

Enfim, Os Zumbis de Sugar Hill é um filme muito bom. Um filme de zumbis muito criativo e assustador, com uma direção inspirada e um roteiro muito bem construído, aliado a um elenco afiado. Os zumbis são a melhor coisa do filme, com seu visual arrepiante que provoca calafrios. Um exemplar do gênero terror do movimento blaxploitation. Um dos meus filmes de zumbis favoritos. Altamente recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

O VÍCIO (1995). Dir.: Abel Ferrara.

 

NOTA: 8



Os filmes de vampiro estão presentes no cinema desde sempre, com uma enorme variedade de conteúdos, criados por vários cineastas ao longo dos anos.

 

O VÍCIO, lançado em 1995, dirigido por Abel Ferrara, é uma dessas variações, e uma das mais criativas, por motivos que serão descritos mais adiante.

 

Este é um dos melhores filmes de vampiro que já vi, principalmente por conta da criatividade do roteiro e da direção de Ferrara. O cineasta subverte o gênero com maestria e faz uma analogia interessante com o titulo do longa.

 

Acredito que o principal fator de criatividade seja o fato do filme ser rodado em preto e branco, o que o torna ainda mais sombrio e sinistro. Em momento nenhum as cores fazem falta, e deixam o filme ainda melhor.

 

Mesmo não tendo visto os demais filmes de Ferrara, eu imagino que o cineasta gosta de subverter os temas com os quais trabalha, e coloca as suas características nos mesmos, e aqui não deve ter sido diferente.

 

Além de ser um filme de vampiro, O Vício é também um filme sobre filosofia, e isto está presente desde o começo, visto que a protagonista é estudante de Filosofia e está prestes a concluir sua tese de doutorado. O roteiro de Nicholas St. John – colaborador frequente do cineasta – é recheado de frases que devem remeter à Filosofia, com citações e menções a filósofos conhecidos. Eu pessoalmente acho essa sacada muito interessante porque possui uma relação com os estudos da protagonista e também com a própria ideia de que vampiros podem ser filósofos.

 

O elenco também é um ponto positivo para o filme, principalmente a atriz Lili Taylor, que interpreta a protagonista Kathleen. No inicio do filme, ela se mostra uma pessoa doce e gentil, focada nos estudos, mas após ser atacada, ela se transforma em outra pessoa, que não se importa em ferir os outros, e não dá importância para os estudos. Além disso, logo após o ataque, é possível perceber que ela não entende o que está acontecendo consigo mesma, e passa a sofrer as consequências. Essa é uma característica que me chama muito a atenção em historias de vampiros, os vampiros que não entendem sua condição e sofrem por causa disso. Mas logo isso muda, e Kathleen se transforma em uma criatura sedenta de sangue.

 

O restante do elenco não faz feio, principalmente o ator Christopher Walken, que interpreta um vampiro filosófico que carrega consigo a sabedoria dos séculos. Apesar da pouca presença, o personagem rouba a cena.

 

Conforme mencionado acima, O Vício subverte o gênero de forma criativa, visto que a própria palavra “Vampiro” não é mencionada em momento nenhum ao longo do filme. Além disso, o roteiro faz uma analogia interessante com o vicio em drogas – daí o titulo – visto que, após adquirir o gosto pelo sangue, a protagonista passa a querer consumir o mesmo cada vez mais, até decair completamente, culminando na cena do massacre. E também devo dizer que o roteirista St. John cria suas próprias regras em relação às criaturas, o que é sempre bom de se ver: seus vampiros não possuem presas e podem andar à luz do dia; e os outros elementos não são apresentados aqui, mas sinceramente não fazem falta.

 

E além disso, o diretor Ferrara nos faz questão de mostrar Nova York como um lugar dominado pelas gangues e pela degradação, algo mostrado no cinema décadas antes.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Vampiros no Cinema 3, em versão restaurada, com um making of entre os extras.

 

Enfim, O Vício é um filme muito bom. Uma historia de vampiros ousada que subverte o gênero com criatividade impar e faz uma analogia interessante com o uso de drogas. A direção de Abel Ferrara é muito boa e o diretor consegue arrancar ótimas performances de seu elenco, que não está nem um pouco exagerado. A fotografia em preto e branco também é um destaque, e deixa o filme mais sombrio e sinistro. Um ótimo filme de vampiro e um exemplar criativo do gênero.



Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

AVISO.



 

AVISO.


O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso.

Novas resenhas a partir de Fevereiro/2024.


Obrigado.


sábado, 16 de dezembro de 2023

A FILHA DO DEMÔNIO (1991). Dir.: Michele Soavi.

 

NOTA: 7.5


Durante o final da década de 80 e começo da década de 90, o cinema de horror italiano começava a dar seus últimos suspiros, com obras ruins e de gosto duvidoso; no entanto, alguns cineastas ainda tentavam extrair o máximo de conseguiam em filmes que até possuíam um certo charme. Michele Soavi foi um desses cineastas, tendo apresentado ao publico filmes que possuíam um teor lírico, mas assustadores ao mesmo tempo.

 

A FILHA DO DEMÔNIO é um desses exemplos. Lançado em 1991, produzido e co-escrito pelo mestre Dario Argento, este é um filme um tanto quanto difícil de classificar, por causa do seu roteiro um tanto elaborado, que às vezes demora um pouco para engatar e apresentar uma trama concreta.

 

A começar pelo seu prólogo, ambientado no Norte da Califórnia em 1970, onde um grupo de hippies é assassinado por um grupo de satanistas no deserto. Em seguida, somos levados para a Alemanha, onde um homem mata uma mulher e arranca seu coração, e, antes de ser preso pela policia, comete suicídio.

 

Após essa introdução, somos apresentados aos seus protagonistas, um estranho velho que quase é atropelado por Miriam, uma professora local. A partir daí, uma serie de eventos estranhos começam a acontecer, principalmente após a morte do velho, eventos que aparentemente não têm nenhuma relação entre si e com a trama propriamente dita. Ao meu ver, a própria trama se desenrola próximo ao final do filme, com a volta de personagens que haviam aparecido anteriormente.

 

Mas, apesar do roteiro um tanto confuso no início, como de costume para os demais filmes de Soavi, temos uma técnica muito boa, apostando em algumas cenas no lirismo e na beleza, além de uma direção de arte digna de nota, misturado a uma fotografia inspirada, principalmente nas cenas ambientadas no porão da casa de Miriam, com uma tonalidade azul forte, misturada com uma luz que vem de uma janela redonda.

 

Essa é uma característica muito presente nos filmes de Michele Soavi, talvez inspirado por Argento e por seus antecessores; mas o fato é que o diretor dá um toque muito pessoal em suas obras, deixando-as sempre bonitas e fantasiosas.

 

Um exemplo é uma sequência em que uma chuva de pólen cai sobre os cenários, começando pela sequência da escola; uma sequência muito bonita e muito bem feita, e que remete aos filmes anteriores – e futuros – de Soavi. Ainda sobre essa cena da escola, uma das crianças utiliza uma mascara de pássaro enquanto espera por seus pais; outro exemplo da técnica de Soavi, além de ser um indicio da presença de um pássaro em si no filme.

 

Além da beleza e do lirismo, Soavi faz uso de lentes grande-angulares em algumas cenas, principalmente na cena em que o velho pinga um estranho liquido em seus olhos. O take seja a ser um tanto desconfortante, visto que Soavi faz questão de focar nos olhos do ator Herbert Lom, de maneira profunda, enquanto ele pinga o liquido em seus olhos. Faz lembrar os takes nos olhos de Marylin Burns em O Massacre da Serra Elétrica, mas com um toque a mais.

 

Conforme mencionado acima, o roteiro não é um dos grandes pontos do filme, visto que nunca deixa claro o que está acontecendo ou qual a relação entre alguns eventos, deixando as respostas apenas para os momentos finais, onde somos apresentados à uma seita de satanistas, entre eles, o mesmo homem que apareceu no prólogo. Ao invés de explicações, temos uma enxurrada de eventos sobrenaturais acontecendo, aparentemente todos ligados ao porão da casa de Miriam. Eu já assisti ao filme algumas vezes e tive algumas dificuldades para entender o que está acontecendo.

 

Mas, apesar desse roteiro um tanto confuso, vale uma conferida, seja pela direção inspirada de Michele Soavi, seja pelo seu elenco, liderado por Kelly Curtis e Herbert Lom. Os dois atores interpretam muito bem seus papeis, principalmente Lom, que dá vida ao misterioso velho, que se revela membro da seita satânica.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Obras-Primas do Terror – Volume 8, com áudio em italiano e em versão restaurada, com um depoimento do diretor.

 

Enfim, A Filha do Demônio é um filme bom. Uma obra fantasiosa e lírica, comandada com maestria por Michele Soavi, conforme é comum em seus filmes. A fotografia e a direção de arte também merecem menção, principalmente nas cenas do porão, com uma iluminação que enche os olhos. O roteiro não é o grande atrativo, mas a direção e a técnica compensam e valem uma conferida. Recomendado. 


Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 11 de dezembro de 2023

O EXORCISTA (1973). Dir.: William Friedkin.

 

NOTA: 10



Existem filmes que são atemporais. Isso se refere a todos os filmes de todos os gêneros, inclusive aos filmes de terror.

 

O EXORCISTA, dirigido por William Friedkin, é um desses casos. Desde o seu lançamento, em Dezembro de 1973 – há 50 anos – ,o filme mantem o seu impacto até hoje como o maior filme de terror de todos os tempos.

 

Mas o que eu posso dizer a respeito desse filme, que não tenha sido dito anteriormente por outras pessoas ao longo dos anos?

 

Bom, acho que posso começar pelo obvio, não é? É um filme excelente. Mas por que é um filme excelente? Por vários motivos, principalmente no que diz respeito à técnica.

 

O filme foi dirigido por William Friedkin, um dos grandes nomes da Nova Hollywood, a partir de um roteiro de William Peter Blatty, baseado em seu livro.

 

Friedkin era um diretor milenar e soube empregar suas técnicas na direção do filme e faz isso muito bem. O cineasta fez uso de ângulos e movimentos de câmera criativos para criar as cenas, a partir de câmera na mão e mecanismos até então inéditos no cinema.

 

Além disso, ele soube criar cenas verdadeiramente tensas, aos poucos, até culminar na sequencia do exorcismo, que com certeza é a mais lembrada até hoje.

 

Minha historia com esse filme começou por causa da minha mãe, que assistiu a ele no cinema e se impressionou muito, tanto que ficou com muito medo, por anos. Acredito que a primeira vez que soube desse filme, foi no vídeo de comemoração de 75 anos da Warner Bros., onde foram exibidos diversos clipes de vários filmes do estúdio. Não me lembro o que aconteceu depois, mas eu descobri que a minha mãe havia assistido no cinema e tinha medo dele. Ao longo dos anos, a presença do filme foi proibida em casa, por vários motivos, até que em 2001, quando compramos nosso primeiro aparelho de DVD, a minha mãe alugou esse filme. Eu não consegui assistir a ele por completo, mas a sequencia do exorcismo me assustou muito. Ao longo dos anos, eu consegui assistir a ele por completo, e atualmente, faço isso todo ano, no mês de Outubro.

 

Mas antes de voltar a falar sobre o filme, devo dizer que essa resenha corresponde à chamada Versão que Você Nunca Viu, lançada no ano 2000, com cenas adicionais, que é a que estava disponível no mercado até recentemente.

 

Dado o recado, vamos continuar.

 

Conforme mencionei acima, o diretor William Friedkin constrói a tensão aos poucos, apostando mais no desenvolvimento dos personagens e das cenas, apresentando um pouco de terror, depois voltando a cenas dramáticas, e depois voltando para o terror, até chegar, como eu disse, na sequencia do exorcismo.

 

Ou seja, O Exorcista é contado na técnica slowburn, que é uma técnica que me chama muito a atenção, porque ajuda a criar a tensão com mais maestria e até naturalidade. Não que apresentar o terror nos primeiros cinco minutos não funcione, até funciona, mas depende do filme.

 

Outra coisa que chama a atenção é o elenco. Todos os atores estão muito bem, sem atuações exageradas ou caricatas. Quem merece destaque, com certeza, é a atriz Linda Blair, no papel mais famoso da sua carreira. A jovem atriz passa tudo aquilo que estava presente no roteiro, aliado à direção de Friedkin, e claro, os efeitos especiais de maquiagem. A jovem Regan é uma das personagens mais emblemáticas do cinema de horror de todos os tempos, sem duvida.

 

O roteiro de William Platty também é um ponto positivo. O roteiro possui umas três ou quatro histórias paralelas, que se entrelaçam com maestria, principalmente a trama do Padre Karras, que quase se torna a trama principal, porque, de acordo com o diretor Friedkin, o personagem de Jason Miller era o verdadeiro alvo do demônio; então, tudo que acontece na tela, é apenas um pretexto para atrair Karras e testar sua fé.

 

Os efeitos especiais também merecem destaque, criados pelo mestre Dick Smith. De acordo com o maquiador, ele fez vários testes até chegar ao resultado que vemos na tela, porque a maquiagem foi um desafio para ele. Até hoje, os resultados impressionam e assustam, e criaram uma das imagens mais icônicas do cinema de horror de todos os tempos.

 

Uma das questões mais pesadas do filme, é a historia do Padre Karras com sua mãe, sem duvida. É possível perceber que Karras não aguenta aquela situação, que se tornou um peso enorme para ele, principalmente porque a mãe está doente e mora sozinha. Toda vez que vejo essa historia no filme, com base em experiências pessoais, eu sinto que tudo aquilo é muito pesado para ele.

 

O Padre Merrin é outro personagem que merece ser mencionado, graças à interpretação afiada do ator Max von Sydow. A sequencia de apresentação do personagem, no Norte do Iraque, é muito boa, porque o que a gente precisa saber sobre ele, que ele é um padre mas também é um arqueólogo, e que está doente. Uma das melhores, é quando ele encontra a cabeça do demônio enterrada na terra e sua expressão facial muda na hora; e a cena final desse prologo, quando ele encontra a estátua do seu antigo inimigo, é muito boa e muito assustadora, principalmente por causa da imagem do demônio.

 

A atuação da atriz Ellen Burstyn também é muito boa, e a atriz passa toda a dor e angustia que estão presentes no roteiro, em conjunto com a direção de Friedkin. É possível perceber que aquela mãe está sofrendo com a situação da filha, e não sabe o que fazer. Primeiramente, ela leva Regan à vários médicos, mas eles não identificam nenhum problema, e enquanto isso, as manifestações demoníacas continuam; finalmente, após perceber que não há nada de errado fisicamente com Regan, ela decide procurar um padre para realizar um exorcismo, reapresentando assim, o Padre Merrin.

 

O Exorcista faz parte de uma leva de filmes que são considerados amaldiçoados, por causa de diversos fatores, acidentes e mortes que ocorreram no set de filmagem, como por exemplo, o incêndio que aconteceu um dia no set, onde apenas o quarto de Regan foi poupado, o que obrigou o diretor Friedkin a chamar um padre para abençoar os sets. Não vou entrar em mais detalhes porque acredito que não se deve mexer em um vespeiro como esse.

 

Para encerrar, vou mencionar a grande sequencia do exorcismo. Ela é, sem dúvida, a melhor sequencia do filme, onde tudo aquilo que foi apresentado aos poucos levou à ela. O que a torna assustadora é justamente a técnica de direção de Friedkin. O diretor optou por mantê-la dentro do quarto, com os padres fazendo o que podem para exorcizar o demônio de Regan, o que leva à tragédia que todos nós conhecemos. Mas é uma sequencia que impressiona e assusta é hoje, por causa de tudo que acabei de falar aqui. É uma das sequencias mais emblemáticas do cinema de horror de todos os tempos.

 

Foi lançado em Dezembro de 1973 e se tornou um campeão de bilheteria, tendo sido indicado a 10 Oscars®, mas no entanto, levou apenas dois, após um boicote armado pelos membros mais velhos da Academia. Além das indicações ao Oscar®, recebeu também indicações ao Globo de Ouro, tendo levado quatro, entre eles, o de Melhor Filme Drama. Até hoje, é considerado um dos maiores filmes de todos os tempos.

 

Está fora de catalogo há muitos anos, mas lá fora, foi recentemente lançado em Blu-ray 4k, numa celebração aos 100 anos dos estúdios Warner.

 

Enfim, O Exorcista é um filme excelente. Um filme muito bem feito, com a técnica milenar e criativa de William Friedkin, aliado a um roteiro afiado e um elenco inspirado. As atuações são excelentes, e nenhum dos atores está atuando de forma exagerada e caricata. Os efeitos especiais também são o grande destaque, principalmente os efeitos de maquiagem de Dick Smith, que criou uma das imagens mais icônicas do cinema de horror. Sem dúvida, o maior filme de terror de todos os tempos, e um verdadeiro clássico. 



AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.