quinta-feira, 19 de agosto de 2021

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS (1972). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 9.5



Lucio Fulci foi um dos mestres do terror italiano. Desde que resolveu se aventurar no gênero, tornou-se especialista em produções repletas de sangue e gore. No entanto, antes de se aventurar em produções gore, Fulci se aventurou no Giallo, e nos deu grandes exemplares do gênero, como por exemplo, Premonição (1977), Uma Sobre a Outra (1968), Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (1971).

 

O SEGREDO DO BOSQUE DOS SONHOS é outro Giallo do diretor. Lançado em 1972, marca a segunda parceria de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan, após a colaboração em Uma Lagartixa. O Bosque dos Sonhos é um dos melhores Gialli de Fulci e também o mais polêmico, o que levou a ser excomungado da igreja católica.

 

Polêmicas à parte, o filme é um dos melhores exemplares do gênero, e um dos meus favoritos. O longa apresenta um dos temas mais pesados do gênero: o assassinato de crianças.

 

Não é segredo para ninguém que a morte de crianças é um dos maiores tabus do cinema, e aqui, Fulci faz uso desse tabu sem o menor pudor, com cenas de assassinatos cruéis. Tudo bem, o número de vítimas do assassino não é muito grande, mas mesmo assim, somos brindados com momentos de tensão que parecem piorar a cada revisão.

 

Aqui como em seus outros Gialli, aqui, Fulci não faz uso do assassino tradicional, com luvas pretas, mas mesmo assim, essa é uma grande variação do gênero. Como eu disse, eu aprecio algumas variações do Giallo, mas ainda prefiro o Giallo clássico. Mas mesmo assim, esse filme consegue ser muito agradável.

 

O principal detalhe é a ambientação. Ao contrário dos demais, O Bosque dos Sonhos é ambientado no interior da Itália, e Fulci soube capturar excelentes tomadas do interior, dando um ar convidativo para o filme. Devo dizer que essa ambientação é um dos meus fatores favoritos sobre o filme, e me passa uma ótima sensação. E além da ambientação de interior, temos também ótimos personagens, que passam a sensação de serem realmente pessoas simples do campo. E em relação a isso, Fulci também não teve o menor pudor em mostrar as pessoas como realmente são, então, temos aqui personagens malcuidados, com as roupas e os rostos sujos de terra e suor; além de figurantes idosos desdentados. Tudo isso aumenta ainda mais o realismo e deixa as cenas de tensão ainda melhores.

 

Sobre isso, digo o seguinte: temos aqui cenas dignas de programas sensacionalistas da TV, com o povo se juntando na porta da delegacia para exigir a captura do assassino, ou para linchá-lo em público. E claro, a coisa fica pior com a chegada de vários repórteres, dispostos a tudo para conseguir uma exclusiva. Em resumo, temos um verdadeiro circo midiático e popular. É possível notar que as pessoas daquele vilarejo querem um culpado a qualquer custo, e estão dispostos até a fazer justiça com as próprias mãos, conforme visto na cena do cemitério. Todos esses detalhes aumentam ainda mais o teor chocante do filme e o deixam ainda mais perturbador.

 

E não para por aí. Além da questão do assassino de crianças, temos também uma forte questão sexual, que fica ainda mais perturbadora porque envolve as crianças, principalmente os meninos. Logo no inicio do filme, Fulci nos presenteia com uma cena de nudez da atriz Barbara Bouchet – uma das musas do gênero – cuja personagem possui um forte apelo sexual e também um ar de mistério, que contribui para torna-la suspeita dos crimes. Patrizia, sua personagem, não demonstra pudor ao tentar seduzir um garoto que trabalha para ela, utilizando palavras de cunho sexual explicito. Realmente, uma cena que não seria realizada nos dias de hoje. Na verdade, eu tenho certeza que o filme não seria realizado nos dias de hoje, principalmente por causa de questões politicamente corretas, devo dizer, há muita coisa errada nesse filme, além dos assassinatos das crianças. Claro, Fulci não as exibe na tela, mas deixa a critério do espectador. Eu mesmo tenho algumas teorias perturbadoras envolvendo o personagem do padre.

 

Como mencionado acima, O Bosque dos Sonhos marcou a segunda colaboração de Fulci com a atriz brasileira Florinda Bolkan. Aqui, ela interpreta a Bruxa do vilarejo, uma mulher que vive sozinha no bosque a pratica feitiços com bonecos de cera. Logo de cara, Fulci faz questão de mostra-la como uma das suspeitas dos crimes, uma vez que ela é vista na cena de um dos crimes. Além disso, ela é mal vista pela população, que tem o habito de cuspir no chão sempre que a vê. E quando a polícia consegue captura-la, a coisa não muda de figura. A população se revolta com toda sua força e se mostra ainda mais hostil. E temos a cena do cemitério, talvez a cena mais cruel e violenta do filme, onde ela é açoitada com correntes, tudo ao som de Ornella Vanoni. A atriz entrega uma ótima atuação aqui.

 

Essa cena e a cena final mostram que Fulci sabia lidar com o gore ainda em seus primeiros filmes de terror, e o diretor não poupa ninguém. A cena do cemitério é a mais violenta do filme todo, graças à atuação e aos efeitos especiais de maquiagem, que lembram a cena de abertura de Terror nas Trevas (1981), que também contou com a presença de correntes.

 

E em certo ponto do filme, Fulci faz questão de mostrar um boneco do Pato Donald, fazendo alusão ao título do filme. E a revelação do assassino, bem como seu motivo para os crimes, são tão pesados que levaram o diretor a ser excomungado pela Igreja Católica; uma prova de que o diretor não tinha o menor medo de mostrar questões pesadas na tela.

 

Bom, seja como for, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um dos melhores filmes de Lucio Fulci e um dos melhores exemplares do Giallo.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo na coleção Giallo, em versão restaurada com áudio italiano.

 

Enfim, O Segredo do Bosque dos Sonhos é um filme perturbador. Um Giallo com clima de interior que enche a tela. A direção de Lucio Fulci é um dos destaques, e o diretor consegue criar cenas de tensão que deixam o espectador nervoso, além de focar em assuntos proibidos sem o menor pudor. Uma história pesada, cheia de momentos revoltantes, e de suspense. Um filme excelente. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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sexta-feira, 23 de julho de 2021

O MACACO (Stephen King).

 

NOTA: 8.5



Que Stephen King é um mestre na arte de contar histórias, todos sabemos disso, e, sinceramente, até agora, não li nenhum livro ou conto de sua autoria que me decepcionou.

 

O MACACO, presente na antologia Tripulação de Esqueletos, é um desses exemplos. É um dos contos mais arrepiantes do Mestre que eu já li. Na verdade, reli.

 

A primeira vez que li essa historia foi na edição da Objetiva, mas foi há muito tempo; e quando peguei o livro para reler algum conto, tive muita dificuldade porque as letras eram muito pequenas, então, comprei a edição da Suma, e essa semana, sentei para ler esse conto.

 

E que leitura. O Macaco é um conto verdadeiramente arrepiante, sobre os nossos pesadelos mais profundos, que sempre voltam para nos assombrar, cedo ou tarde.

 

O autor constrói uma história simples sobre um objeto aparentemente inocente, mas que fundo é um instrumento do terror, que carrega algo de ruim dentro de ruim. Eu já tinha visto a capacidade do Mestre em criar uma história assim em Christine e A Máquina de Lavar Roupa, e aqui, ele se mostra mais uma vez sua habilidade.

 

Mas mais do que uma história de um objeto maldito, O Macaco também é uma história de loucura, e ambiguidade, uma vez que em certos momentos, ficamos na dúvida se o macaco é mesmo um objeto maldito, ou se tudo não passa de imaginação do protagonista, que é assombrado por ele desde criança.

 

E francamente, não vejo objeto melhor para assombrar alguém do que um macaco de corda. Eu sinceramente, morro de medo desses brinquedos, principalmente por causa do seu sorriso sinistro e seus olhos penetrantes. Basta procurar na internet qualquer imagem de um macaco de brinquedo com címbalos, que vão ver o que quero dizer. Essas coisas são assustadoras, e quem já viu Toy Story 3 deve ter ideia do que estou falando...

E em se tratando de uma história de Stephen King, não pode deixar de ter aquele toque especial do autor, e nesse caso, ele não faz questão de esconder que o perigo está nos címbalos do macaco, que a cada toque, algo terrível acontece com alguém relacionado ao protagonista, coisas horríveis mesmo, uma mais assustadora que a outra.

 

E claro, temos também um pequeno toque de loucura, uma vez que, após reencontrar o macaco, o protagonista muda completamente sua personalidade, indo de um pai e marido amorosos, para um pai que agride seu filho mais velho com crueldade. E tal comportamento ameaça a instabilidade de sua família, mas o pior de tudo, é que eles não sabem o motivo de tal mudança.

 

E outra coisa que autor faz bem é o uso de flashbacks para explicar a relação do protagonista com o macaco, além de demonstrar as habilidades malditas com mesmo com as pessoas envolvidas com o protagonista, além de envolve-lo em um jogo de terror psicológico de arrepiar.

 

Enfim, O Macaco é um ótimo conto. Uma história simples, mas assustadora, sobre pesadelos de infância, que sempre conseguem voltar. A escrita de Stephen King é o grande destaque, e o autor consegue contar a história com sua habilidade de sempre, levando ao leitor para dentro da narrativa. Um conto arrepiante, digno de pesadelos. Muito bem recomendado. 



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sexta-feira, 2 de julho de 2021

CANINOS BRANCOS (Jack London).

 

NOTA: 9.5



Eu adoro lobos-cinzentos. São algumas das minhas criaturas favoritas, principalmente por causa de sua beleza. E eu já comentei sobre eles. A primeira vez foi sobre o meu primeiro livro, O Vale dos Lobos, publicado em 2014, pelo Grupo Editorial Scortecci; e a segunda vez foi sobre o filme Lobos (1981), filme de terror que me inspirou a escrever o livro.

 

E aqui estou, mais uma vez, para falar sobre lobos. Mas desta vez, não será uma história de horror. Pelo contrário, é uma história linda: CANINOS BRANCOS, do autor Jack London.

 

Na verdade, este texto é sobre uma releitura, uma vez que eu já havia lido o livro antes, numa edição da Editora Martin Claret. No entanto, aquela não foi uma leitura muito prazerosa, porque eu resolvi ler cada uma das partes do livro num dia diferente – o livro é dividido em cinco partes. E nessa leitura, eu não me agarrei com firmeza na história.

 

Bom, agora com essa releitura, a coisa foi diferente. Eu pude me prender à leitura no tempo certo, lendo um pouco de cada vez, principalmente porque o livro é composto basicamente por texto, e não contem muitos diálogos.

 

Aliás, preciso dizer que esse é um detalhe que torna a leitura desse livro complicada, uma vez que London faz uso de muito texto para descrever as aventuras de seu personagem-título. Mas ao mesmo tempo que é uma leitura complicada, é também prazerosa e impressionante porque eu quase não leio livros com poucos diálogos e poucos personagens humanos.

 

Isso mesmo, quase não temos personagens humanos nessa história, e faz sentido, porque não é uma história sobre pessoas, mas sim, sobre um lobo.

 

London faz deste livro quase uma biografia do personagem, contando para nós como e onde ele nasceu, passando por sua juventude, até chegar a vida adulta. Se isso não é uma biografia, não sei o que deve ser. E o autor não poupa Caninos Brancos de perrengues, e que perrengues. Existem passagens violentas no livro, que cortam o coração do leitor, e é difícil escolher a pior. Eu confesso que enquanto estava lendo, eu senti um aperto no coração.

 

E as coisas pioram quando ele se torna propriedade de um homem branco que o compra de um cacique. Não vou dizer o que acontece, para não dar spoilers, mas é tão terrível quanto os perrengues que ele enfrenta na floresta e na aldeia dos índios.

 

Mas apesar disso, Caninos Brancos é um grande livro. London se mostrou um excelente autor, e soube contar sua história com total maestria. E o livro contém grandes cenas, todas protagonizadas pelo personagem-título; as melhores, na minha opinião, acontecem no final da história.

 

Antes de encerrar, devo dizer que o motivo que me levou a ler – ou nesse caso, reler – o livro foi a adaptação lançada em 1993 e produzida pela Disney. É um filme excelente, e durante a leitura, eu pude visualizar o ator animal que interpretou o lobo, o cão Jed.

 

Essas são as qualidades que fazem de Caninos Brancos um livro excelente e um grande romance do escritor Jack London.

 

Enfim, esse é um excelente livro. Uma linda história de aventura, ação, drama e amor contada com uma maestria ímpar. O autor Jack London se mostrou um grande contador de histórias e criou um dos maiores romances dos Estados Unidos. Um livro maravilhoso. Altamente recomendado.



JACK LONDON


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O CHICOTE E O CORPO (1963). Dir.: Mario Bava.

 

NOTA: 10



Não há duvidas que Mario Bava era um mestre do cinema de horror, conforme já mencionei em outras resenhas aqui.

 

Bem, hoje, irei falar sobre mais um de seus filmes: O CHICOTE E O CORPO (1963), um dos meus favoritos dele, e que conta com o astro Christopher Lee no elenco.

 

O que dizer sobre esse filme? Bom, devo dizer o óbvio: é um filme maravilhoso, e tudo isso se deve ao próprio Bava. O diretor sabia muito bem como queria contar uma historia e o que deveria usar para isso, e aqui, ele faz isso de sua melhor arma: a criatividade. Bava era extremamente criativo com o uso da câmera e da luz, e graças a isso, foi o responsável pelos mais belos filmes de terror de todos os tempos.

 

O Chicote e o Corpo é um deles, e como mencionei, um dos meus favoritos. É uma verdadeira história de terror gótico, de castelo assombrado, com tudo que tem direito, e que somente o gênero poderia trazer de melhor. E mais, é visualmente deslumbrante. Toda vez que eu assisto ao filme, eu me surpreendo com as imagens colocadas na tela. Eu não me canso de assistir a esse filme. E fica melhor a cada revisão.

 

É o tipo de filme de terror que os italianos sabiam fazer, com todos os toques góticos e sobrenaturais, misturados com uma pitada de suspense psicológico.

 

A fotografia é o principal destaque do filme. Assim como fizera em seus outros filmes, Bava criou uma obra colorida, onde todas as cores pulsam na tela em tons vivos. Sim, é um filme de terror colorido, do tipo de faz falta hoje em dia. Não se engane, eu gosto de filmes de terror em preto e branco, mas, com filmes de terror coloridos, parece que a coisa é mais diferente. E na versão lançada em DVD pela Versátil, a qualidade é muito melhor do que as outras versões disponíveis.

 

E claro, Bava também foi o responsável pela direção de fotografia e pelos efeitos especiais, e como sempre, mostrou-se muito habilidoso e fez um excelente trabalho, uma vez que ele começou sua carreira no cinema atuando nessas respectivas áreas.

 

Como todo filme de terror gótico, a história é ambientada num castelo, nesse caso, um castelo à beira-mar. Bava soube fazer uso do cenário, sempre destacando seu interior claustrofóbico e seu exterior clássico, com as torres que se destacam ao longe. A praia é também um ótimo cenário, com as ondas quebrando na areia, e completamente deserta.

 

O elenco também é um ponto positivo, com destaque para o grande Christopher Lee, em sua segunda colaboração com Bava. Mesmo com pouca presença em tela, o astro dá um show de atuação no papel de Kurt Menliff, o vilão do filme. O personagem é um verdadeiro sádico, que sente prazer perverso em torturar a esposa do irmão, que foi sua amante, com requintes de crueldade, agredindo-a com o chicote, a fim de despertar seu apetite sexual. Aliás, esse é um ponto que deve ser mencionado. O filme possui um forte tom de erotismo, apesar de não conter cenas de nudez, mas mesmo assim, é possível captar os toques de erotismo e sensualidade.

 

E claro, O Chicote e o Corpo é um excelente filme de fantasmas com toques de suspense. Os italianos sabiam fazer grandes filmes de fantasmas, misturados com outros gêneros, e nesse caso, temos uma mistura de história de fantasma com história de assassinato misterioso, uma vez que temos duas cenas de assassinatos e não sabemos quem é o culpado. Eu acho uma ótima combinação para esse filme, porque prende ainda mais a atenção do espectador.

 

E sendo um filme de fantasmas, temos também o espírito que ronda o castelo e assombra seus familiares, nesse caso, Nevenka, conduzindo-a a episódios de histeria e levando-a a loucura completa. E isso funciona muito bem.

 

Antes de encerrar, devo mencionar o som. Conforme mencionei na resenha de Seis Mulheres para o Assassino (1964), também de Bava, o som é um elemento a parte. E aqui, não é diferente. O áudio em italiano é maravilhoso, e parece ecoar para fora da tela, como se estivéssemos no assistindo no cinema; além disso, o vento é quase um personagem, soprando desde o começo do filme, deixando clara a sua presença. Eu gosto muito de filmes de terror onde o vento pode ser ouvido, para mim passa uma sensação agradável e fantasmagórica. E a trilha sonora de Carlo Rustichelli é maravilhosa, com um ar melancólico que casa muito bem com o filme.

 

Esses são os atrativos que fazem deste um excelente filme de terror italiano, do tipo que somente eles sabiam fazer.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror, em versão restaurada com áudio em italiano. 

 

Enfim, O Chicote e o Corpo é um filme excelente. Uma historia de fantasmas com elementos eróticos e psicológicos que prendem a atenção do espectador. A direção de Mario Bava é o melhor aspecto do filme, e, aliado a uma fotografia colorida, deixam-no ainda mais bonito, e melhor a cada revisão. O astro Christopher Lee entrega uma excelente atuação. Um verdadeiro espetáculo visual, do jeito que somente Bava sabia fazer. Altamente recomendado.



Créditos: Versátil Home Vídeo

 

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segunda-feira, 31 de maio de 2021

CRUELLA (2021). Dir.: Craig Gillespie.


NOTA: 10



Devo dizer que desde o seu surgimento, no começo da década passada, os novos live-actions da Disney tem dado o que falar. Até o presente momento, fomos presenteados com novas versões das animações clássicas do estúdio, algumas boas e outras ruins. No entanto, uma coisa é justa: todos foram sucesso de bilheteria.

 

Pois bem, hoje vou falar sobre um deles, de cara, um dos melhores: CRUELLA (2021), filme de origem de uma das maiores vilãs do estúdio.

 

O que posso dizer sobre ele? Bem, vou ser direto. É um filme espetacular! Sem duvida, um filme onde tudo contribui a seu favor, e consegue deixar qualquer um de queixo caído.

 

Cruella é magnifico, um verdadeiro show de extravagância, cores, luzes, e, principalmente, estilo. É sério. Quem conhece a personagem sabe que ela tem estilo sobrando para dar e vender, mas, ter a oportunidade de ver de onde tudo surgiu e como começou é uma experiência única. Ou seja, Cruella é um filme de origem.

 

Todos nós sabemos que são filmes de origem, e, francamente, alguns são até dispensáveis. Mas, esse não é o caso. Confesso que Cruella é aquela personagem que não precisa ter seu passado mostrado, mas, aqui, eles conseguiram fazer isso de uma forma brilhante, sem apelar para o óbvio. E o melhor, não transforma a personagem em uma vítima, ou sugere que ela no fundo é incompreendida. Não. Aqui, temos a verdadeira Cruella De Vil, a Rainha da Maldade, esbanjando glamour e... crueldade.

 

Eu confesso que desde o primeiro trailer, a minha empolgação estava lá em cima, e após assistir ao filme, eu pude ver que eu estava certo. O filme é tudo aquilo que prometeu e um pouco mais. É divertido, tenso, dramático, engraçado e cheio de ação. E não passa pano nas maldades de sua protagonista, conforme mencionado. E no fundo, está certo. Se uma personagem é má, deve-se mostra-la como tal, e não tentar apresentar um argumento fajuto de que ela foi mal interpretada.

 

O que temos aqui é o nascimento daquela Cruella que nós conhecemos e amamos, sempre esbanjando glamour e estilo com toda a pompa. E que estilo. Os figurinos são espetaculares, cada um melhor que o anterior. Um verdadeiro desfile na tela, literalmente.


A direção de arte e o design de produção também merecem pontos. A Londres da década de 70 é muito bem retratada, toda colorida e exuberante.


E a própria direção é fantástica. O diretor Gillespie fez um excelente trabalho e arrancou performances inspiradas de seu elenco, principalmente de Emma Stone e Emma Thompson, nos papeis de Cruella e da Barones, respectivamente. Ambas as atrizes brilham nos papéis, assim como o restante do elenco.

 

Devo dizer que o filme respeita, e muito, os materiais de origem, no caso, a animação de 1961, e o livro de Dodie Smith, sem apelar para easter eggs forçados. Aqui, temos, sim, easter eggs, mas são aqueles easter eggs respeitosos, que aparecem porque devem aparecer, e não para lucrar em cima do material original. Além disso, o roteiro não dá quase nenhuma dica explicita a respeito da historia original, apenas apresenta seus personagens principais, mas não dá tanto destaque; então, sim, aqui temos Roger e Anita, mas eles são reduzidos a coadjuvantes, uma decisão mais do que acertada. E quem conhece a história, seja da animação, seja do live-action de 1996, sabe que Cruella e Anita têm uma relação de longa data, algo mostrado aqui de maneira rápida, mas também acertada.

 

E o que é de Cruella sem os dálmatas? Bom, não espere os 101 dálmatas da história original. Aqui, nós temos apenas três, e já é o suficiente para estabelecer a relação da vilã com eles. Aliás, relação essa que vem desde o passado, conforme mostrado no prólogo.

 

Aliás, o prólogo é outro acerto do roteiro, mostrando o passado conturbado da protagonista, sua relação com as pintas e como conheceu seus capangas, Horácio e Gaspar. Inclusive, o roteiro adota uma sacada que, acredito eu, nunca havia sido abordada antes: Cruella, Horacio e Gaspar se conhecem há muito tempo e são velhos parceiros no crime.

 

Aliás, crimes é o que não faltam, principalmente roubos. Então, além de ser um filme origem, é um filme sobre roubos, no melhor estilo do gênero, e do tipo que empolga.

 

Eu confesso que fiquei empolgado nas cenas de ação, justamente porque elas são muito bem feitas. E o que seria de Cruella sem um pouco de ação, não é? Vimos isso na animação e também nos dois live-actions. E mais uma coisa: não espere cenas para crianças, porque temos algumas que realmente não são apropriadas para menores – mas sem nada muito pesado.

 

Para finalizar, vou repetir: o filme cumpriu as minhas expectativas e as superou desde a primeira cena.

 

Enfim, Cruella é um filme excelente. Divertido, empolgante, engraçado, dramático e cheio de ação. Figurinos espetaculares, combinados com uma direção de arte maravilhosa, uma direção firme e um elenco afiado, formam uma excelente combinação e criam um filme que enche os olhos. Maravilhoso e cheio de surpresas e diversão. Excelente. 





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quinta-feira, 27 de maio de 2021

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS (1966). Dir.: Terence Fisher.


NOTA: 10



Entre 1958 e 1974, a Hammer Films produziu uma série de filmes protagonizados pelo Conde Drácula, criado pelo escritor Bram Stoker. Ao todo, foram nove filmes, sete deles estrelados pelo grande Christopher Lee, no papel que o consagrou como astro do horror. Somente dois filmes não contaram com o astro no elenco.

 

DRÁCULA – O PRÍNCIPE DAS TREVAS, o terceiro filme da série, é o segundo filme que contou com o astro no elenco. Lançado em 1966 e dirigido por Terence Fisher, em seu último envolvimento com a série, este é o melhor filme de todos os nove, melhor até que o primeiro filme, O Vampiro da Noite (1958). E motivos para isso não faltam.

 

É um filme muito bem feito, com todo o charme presente nos dois filmes anteriores, além de contar com uma ótima direção e ótimos atores. Impossível encontrar um defeito, mesmo porque eles não existem.

 

É um filme onde tudo acontece na hora certa, sem apelar para sustos artificiais e efeitos especiais duvidosos. Pelo contrário, aqui temos um verdadeiro filme de terror gótico, com tudo que o gênero soube trazer para nós.

 

A começar pela atmosfera. O filme tem aquela atmosfera interiorana que é sempre muito agradável e convidativa e que parece ficar melhor a cada revisão. Em seguida, quando os personagens já estão dentro do castelo, temos aquela atmosfera de medo e mistério que nunca vai embora, e depois, retornamos para a atmosfera anterior.

 

Outra coisa que torna o filme espetacular é a direção de arte. O castelo do conde é o melhor cenário do filme, com sua ambientação isolada e abandonada, mas mesmo assim, banhada na cor vermelha. O mosteiro também é um dos melhores, principalmente o escritório do Padre Sandor, que possui um aspecto familiar. E as paisagens também não ficam atrás, com a floresta e a choupana. Realmente, é o tipo de coisa que não se vê mais hoje em dia.

 

E claro, não posso deixar de citar o elenco. O diretor Fisher é um ótimo diretor de atores, e soube arrancar atuações realistas de seus interpretes; nenhum dos atores atua de maneira forçada ou caricata e os personagens são realmente criveis. No entanto, quem rouba a cena, é o astro Christopher Lee, em sua melhor interpretação do conde. Mesmo com pouca presença em tela, Lee conseguiu criar o melhor Drácula da série, com seu ar maligno e perverso. E o melhor, ele não precisou dizer nada. Diz a lenda que o astro não gostou do roteiro, e aceitou participar do filme apenas com a condição de que iria aparecer depois de 50 minutos de rodagem e que não diria uma palavra. Bem, dito e feito. O conde aparece somente após a metade do filme, mas enche a tela com sua presença. Maravilhoso, sem dúvida.

 

E o astro protagonizou cenas memoráveis. Minha favorita é quando ele sai do castelo atrás da mocinha, com a capa voando com o vento e se abrindo como asas de morcego. Uma cena que mostra a elegância do ator e do personagem. E como de costume, temos também o Drácula sedutor, que hipnotiza suas vítimas antes de ataca-las e cobre-se com a capa quando vai mordê-las. O Drácula Clássico.

 

Bem, como mencionado, esses são os atributos que fazem deste um grande filme de terror, e um dos melhores filmes de vampiro de todos os tempos.

 

Foi lançado em DVD no Brasil em três ocasiões. As duas primeiras, em edições individuais; a terceira, no Box Drácula – The Ultimate Hammer Collection. Lá fora, foi lançado em Blu-ray duas vezes, em versões maravilhosamente restauradas e coloridas.

 

Enfim, Drácula – O Príncipe das Trevas é um filme excelente. Uma obra assustadora e fascinante, com cenas que prendem a atenção e enchem os olhos. Christopher Lee entrega sua melhor atuação como Drácula, sem a menor dúvida. O melhor filme da série do Drácula da Hammer Films, e um dos melhores filmes do estúdio, com todo o charme que somente eles sabiam fazer. Altamente recomendado.



 

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FARSA TRÁGICA (1964). Dir.: Jacques Tourneur.


NOTA: 9.5 



Não há dúvidas que a American International Pictures foi responsável por alguns dos melhores filmes de terror dos anos 60, muitos deles, parte do fantástico Ciclo Edgar Allan Poe, de Roger Corman, estrelados por Vincent Price.

 

Pois bem, hoje vou falar sobre um dos filmes do estúdio, que não faz parte do Ciclo Poe, mas é estrelado por Vincent Price e por outros grandes atores do cinema de horror: FARSA TRÁGICA (1964), dirigido por Jacques Tourneur, responsável pelo clássico Sangue de Pantera (1942). Devo dizer que este é um dos melhores filmes de terror que já tive o prazer de assistir.

 

Justamente por ser uma produção da A.I.P., de James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, que, como já comentei em outras resenhas, trouxe de volta o terror gótico para o cinema, e este aqui é um de seus melhores exemplares. Mas espere, não vá encontrar castelos empoeirados a beira-mar; pelo contrário. Aqui nós temos uma pequena comunidade da Nova Inglaterra como cenário, mais precisamente, uma casa funerária, administrada pelo Sr. Trumbull e pelo Sr. Gillie, dois agentes funerário completamente idiotas.

 

Sim, esta é uma comédia de horror, e uma das melhores, graças ao roteiro inspirado, que coloca os momentos cômicos na hora e na medida certas, quase sem apelar para exageros. Mas não se engane, pois mesmo se tratando de uma comédia, ainda assim, este é um filme de terror com tudo que tem direito.

 

A começar pela própria ambientação. A história toda se passa dentro da casa funerária de Trumbull e Gillie, além de conter cenas ambientadas no cemitério envolto em nevoas e em casarões antigos; dois dos principais elementos presentes no terror gótico daquela época. E além disso, temos também um elemento importante que configura no gênero, um morto que volta à vida, não como zumbi, mas por se tratar de alguém catalético. E todos esses elementos funcionam muito bem, porque cada um tem o seu proposito dentro da história.

 

O roteiro de Richard Matheson é afiado, conforme mencionado acima e consegue divertir e assustar na medida certa. E temos grandes cenas de humor, todas protagonizadas por Price, que entrega uma ótima atuação, sendo perverso e engraçado – principalmente engraçado – ao mesmo tempo. O restante do elenco também é inspirado e não parece caricato nunca.

 

Temos também a direção de Jacques Tourneur, especialista no gênero, responsável por filmes memoráveis, muitos deles produzidos pela RKO. Tourneur se mostra um grande diretor, e conseguiu criar cenas ótimas, principalmente por conta do orçamento da qual dispunha. Devo destacar também a direção de arte, que criou cenários fabulosos, principalmente o cemitério e as mansões grandiosas.

 

Mas, vamos falar do humor. Conforme mencionei, o humor deste filme é mais focado nos diálogos e atuações do que em ações, então, não espere muitas pessoas caindo e tropeçando – temos isso, sim, mas não aos montes. Ao invés disso, os atores são os responsáveis por arrancar risos do espectador, especialmente Price, que se mostrou um grande ator de comédia. Suas cenas são impagáveis, com destaque para a cena do jantar após o funeral que deu errado. Toda vez que eu assisto, eu dou risada, porque é muito engraçada mesmo. Há outros momentos assim, mas esse é o meu favorito.



 

Outra coisa que merece destaque é o elenco, formado por grandes astros do horror. Além de Price, temos também Peter Lorre, Basil Rathbone, Joe E. Brown, e Boris Karloff. Loree, Rathbone e Karloff são velhos conhecidos do gênero. Lorre estrelou o clássico M (1931), de Fritz Lang; Rathbone interpretou Sherlock Holmes no cinema em 14 produções, entre elas, O Cão dos Baskerville (1939) e Boris Karloff... Karloff tornou-se famoso pela sua interpretação como a Criatura em Frankenstein (1931), de James Whale. Então, é, ou não é um elenco de astros do horror? E como já mencionei, todos estão perfeitos nos papeis, principalmente Karloff como o velho Amos Hinchley, e Rathbone como o Sr. Black, o dono do imóvel que recita Macbeth antes de dormir. Eles também têm suas cenas hilárias, principalmente no final do filme.

 

Como em toda comédia, aqui temos velhos truques para tornar o filme mais engraçado, sendo os mais utilizados, sons de assobios e baques; e o efeito de acelerar a cena, utilizado no início e no final do filme. Ambos os efeitos são bem executados e não soam artificiais.

Bem, conforme mencionado, esses são os aspectos que fazem desse um filme muito divertido e arrepiante na medida certa. É uma comédia cheia de erros – não erros técnicos, mas erros nas ações dos personagens – que a deixam mais engraçada.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror – Vol.3, após anos fora de catalogo.

 

Enfim, Farsa Trágica é uma verdadeira comédia de horror. Grandes astros do terror, juntos em uma história muito engraçadas, cheia de erros, trapalhadas, personagens idiotas e sustos. Um filme de terror gótico, com tudo que tem direito. Diverte sem apelar para truques. Muito bem feito, assustador e divertido. Excelente. 


Créditos: Versátil Home Vídeo


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AVISO.

  O LIVROS & FILMES DE HORROR está em recesso. Obrigado.