sábado, 12 de outubro de 2024

GEMINI (1999). Dir.: Shinya Tsukamoto.

 

NOTA: 8.5


GEMINI é um dos melhores filmes de terror que eu já vi.

 

Não apenas isso; é um dos filmes mais perturbadores e sujos que já vi, graças à técnica de direção de Shinya Tsukamoto. Mais detalhes sobre isso logo depois.

 

Primeiro, deixe-me dizer que eu tinha um certo preconceito com o cinema de terror oriental, principalmente porque eu achava que não era o tipo de cinema que eu fosse gostar, mais por causa das diferenças em relação ao cinema ocidental.

 

Mas, hoje em dia, tais preconceitos não existem mais, e já me considero um fã de filmes de terror orientais, em especial, do cinema de terror japonês, principalmente dos kwaidan.

 

Mas, hoje não estou aqui para falar de um kwaidan, e sim, de um filme de terror japonês ambientado já no começo do século XX, no caso, o filme de Tsukamoto.

 

Gemini é o clássico filme sobre gêmeos, ou seja, no gênero do terror, estamos falando da história do gêmeo bom e do gêmeo mal. Mas, não se engane, este aqui é um grande exemplar do gênero.

 

Na trama, o Dr. Daitokuji Yukio é um bem-sucedido médico na Tokyo de 1910, que tem sua vida virada de cabeça para baixo quando seu irmão gêmeo mata sua família e se apodera de sua vida pessoal e de sua esposa.

 

No fundo, é uma clássica trama de gêmeos que trocam de lugar, mas no fundo, é muito mais do que isso, porque descobrimos que existe um plano de vingança por trás de tudo isso, viso que Sutekichi, o gêmeo malvado, foi abandonado ainda bebê e criado na favela, enquanto Yukio foi criado na riqueza.

 

Quando Sutekichi descobre que existe outro homem igual a ele, dá início ao seu plano de vingança, matando primeiro os pais de seu irmão, para depois se apossar de sua vida e de sua esposa, que, conforme descobrimos, também morava na favela e era esposa de Sutekichi.

 

É um filme com uma trama de vingança bem amarrada, e parece ficar melhor a cada revisão, principalmente porque existem segredos escondidos ao longo da projeção, que parecem surgir toda vez que vemos o filme de novo; pelo menos comigo foi assim, principalmente agora, depois dessa última conferida.

 

Aliada à essa trama de vingança, temos uma técnica muito boa, que mistura câmera de mão, montagem frenética e truques de filmagem, principalmente quando os gêmeos estão juntos, que, apesar de serem poucas cenas, são muito bem dirigidas e enquadradas.

 

O diretor Tsukamoto tem uma grande habilidade para dirigir cenas frenéticas, não sei se isso faz parte do seu estilo de contar histórias, mas aqui, funciona muito bem. As cenas causam um certo desconforto à primeira vista, e não é fácil imaginar como elas devem ter sido filmadas, principalmente as sequências na favela, que fazem um belo contraste com as cenas na casa de Yukio. A favela é filmada com cores quentes, enquanto que a casa de Yukio é filmada com cores frias.

 

Além da técnica exemplar, o elenco também não faz feio, principalmente o ator Masahiro Motoki, que interpreta os gêmeos. Logo na primeira conferida, fica fácil distinguir um do outro, principalmente por causa de suas vestes; Yukio se veste de maneira impecável, enquanto Sutekichi se veste em trapos; além disso, ele tem uma marca de nascença na perna, o que torna mais fácil distinguir os dois, principalmente após Sutekichi assumir a identidade do irmão.

 

A atriz e modelo Ryo também não faz feio, e sua Rin transmite tudo aquilo que o diretor deve ter pedido, a doçura na casa de Yukio, e a maldade na favela. A caracterização da atriz também é muito boa, e combina com as fases da personagem.

 

Além de ser uma trama de vingança, Gemini também é um filme que pode ser interpretado como uma regressão ao estado animalesco, visto que Yukio praticamente se transforma em um animal quando é deixado pelo irmão no poço da propriedade, sendo obrigado a comer comida do chão, além de ficar coberto de sujeira.

 

O que mais pode ser dito, é que Gemini também possui uma conclusão aberta à interpretação, visto que realmente nunca fica evidente qual dos gêmeos venceu no final.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Obras-Primas do Terror: Horror Japonês, com muitos extras.

 

Enfim, Gemini é um filme muito bom. Uma trama de horror e vingança contada de maneira brilhante por Shinya Tsukamoto, graças à sua câmera de mão frenética, montagem rápida e fotografia que contrasta bem os cenários. O elenco também merece destaque, porque estão todos atuando muito bem, principalmente os dois atores principais. Um dos melhores filmes de terror que já vi, e um dos melhores do cinema japonês.


Créditos: Versátil Home Vídeo.

 

terça-feira, 8 de outubro de 2024

GATO NEGRO (1981). Dir.: Lucio Fulci.

 

NOTA: 8


GATO NEGRO é o encontro entre o escritor Edgar Allan Poe, e o diretor Lucio Fulci.

 

Lançado em 1981, o filme faz parte da grande fase de Fulci no horror, que começou com o clássico Zombie (1979), onde o cineasta mostrou que o seu lugar era no terror.

 

Gato Negro faz parte desse período, e pessoalmente, eu o considero um dos filmes mais bizarros dessa época. Bizarro porque, apesar de ser muito livremente baseado em O Gato Preto, o roteiro foca em uma trama com elementos paranormais, misturada com trama de serial killer, mas, nesse caso, o tal serial killer é o gato preto do título.

 

Parece estranho, mas, também é muito divertido, porque, os níveis de absurdo fazem o espectador fã de Fulci curtir o longa até o final da projeção.

 

Na trama, os habitantes de um vilarejo inglês são assassinados de maneira misteriosa, e, preocupados com o desaparecimento de um casal de jovens, recebem a visita de um inspetor da Scotland Yard, que conta com a ajuda de uma fotografa, que acredita que o responsável pelas mortes é um gato preto que pertence a um professor.

 

Parece ser uma trama um tanto simples, não? Bem, na superfície, até que é, mas, no fundo, ela é bem mais complicada.

 

É uma trama um tanto complexa em certos momentos, porque envolve um pouco de paranormalidade, principalmente por causa do Professor Miles, que possui o dom de se comunicar com os mortos.

 

Eu vou ser sincero aqui, e dizer que tais habilidades do professor não servem para praticamente nada, principalmente por causa de uma cena no cemitério, onde Miles tenta convencer um amigo morto a dizer onde está um determinado item. Infelizmente, isso nunca é explicado, e nunca mais é mencionado no roteiro.

 

Tirando esse problema, eu confesso que me diverti com Gato Negro, e digo que é um ótimo filme de animal assassino, além de ser um ótimo filme de Fulci.

 

Animais assassinos às vezes rendem bons filmes, e este aqui, felizmente, é um desses casos. E o filme não nega a que veio.

 

Logo na primeira cena, somos presenteados com um acidente causado pelo estranho felino, onde o proprietário de um veículo se choca contra o para-brisa, num espetáculo de gore. A partir daí, prepare-se para não levar o filme a sério, com o gato matando diversos personagens ao longo da projeção.

 

As cenas de morte acontecem em momentos aparentemente importantes, e de forma quase aleatória, mas, são muito criativas. Falo de pessoas sufocadas, queimadas e perfuradas por canos de metal. Além disso, não podemos deixar de presenciar cenas com o felino usando suas garras afiadas.

 

A maquiagem é muito boa, e aqui, Fulci quase dá uma pisada no freio no quesito gore, porque não temos corpos mutilados e pessoas com os olhos arrancados, mas, quando os efeitos aparecem, eles convencem muito bem. Ao meu ver, isso era algo comum no cinema de terror italiano da época; a preocupação em criar efeitos convincentes, principalmente nos filmes de Fulci.

 

Além dos efeitos, temos também a direção afiada de Fulci, principalmente nas cenas envolvendo o gato. Em determinados momentos, Fulci faz sua câmera imitar o ponto de vista do animal, ou seja, ela fica próxima ao chão, e as lentes aparentam ser distorcidas. Em relação aos atores, Fulci também consegue fazer um bom trabalho, e quase todos estão muito bem em seus papéis.

 

E por último, temos as locações inglesas. O filme foi rodado em três vilarejos no interior da Inglaterra, além dos estúdios em Roma. As tomadas do vilarejo são muito boas, e chegam até a ser nostálgicas e convidativas. Nostálgicas porque parece que estamos assistindo a algum filme britânico dos anos 70.

 

Outras locações que merecem menção, são a tumba que aparece no começo do filme, e o próprio cemitério do vilarejo. A tumba é cheia de teias de aranhas, esqueletos e ossos espalhados; e o cemitério é envolto pela névoa, e fica mais sinistro durante a noite. Dois cenários perfeitos para um filme de terror.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, na coleção Edgar Allan Poe no Cinema – Vol.2, em versão restaurada com áudio em italiano. 

 

Enfim, Gato Negro é um filme muito bom. Uma história de animal assassino contada com maestria pelo Padrinho do Gore, Lucio Fulci, livremente baseado na clássica história de Edgar Allan Poe. A direção de Fulci é um dos pontos positivos, com sua câmera que simula o ponto de vista do felino; além disso, o filme conta com boas cenas de morte criativas, levemente carregadas no gore. Um filme que faz parte da melhor fase de Fulci no gênero, e um de seus trabalhos mais interessantes.


 

Créditos: Versátil Home Vídeo.


segunda-feira, 16 de setembro de 2024

OS FANTASMAS AINDA SE DIVERTEM (2024). Dir.: Tim Burton.

 

NOTA: 9.5


Beetlejuice está de volta.

 

36 anos após sua primeira aparição em Os Fantasmas se Divertem, o fantasma mais famoso do pedaço está de volta em OS FANTASMAS AINDA SE DIVERTEM, a tão aguardada continuação da comédia dark dirigida por Tim Burton, que retorna na direção também.

 

Só digo uma coisa. Eu amei esse filme! A espera valeu a pena.

 

Beetlejuice 2 é tão assustador, divertido e absurdo quanto o primeiro. Eu me diverti muito com esse filme, e posso dizer que, após cinco anos afastado do cinema, Burton continua um grande cineasta, que sabe imprimir seu toque clássico em seus filmes, e transformá-los em grandes obras.

 

O retorno de Beetlejuice era aguardado por todos nós desde os anos 90, quando Burton foi apresentado a diversas ideias para uma continuação, mas, nenhuma delas foi para frente. Não sei com detalhes quais foram essas ideias, mas digo que, enquanto pensava em como um segundo filme seria, o diretor acabou comandando a continuação de Batman, e o filme foi engavetado. Felizmente, o tempo foi generoso, e Burton entregou um de seus melhores filmes.

 

E não temos apenas o retorno do Suco, como também, de duas personagens do primeiro filme.

 

Na trama, Lydia Deetz retorna à Winter River para o funeral de seu pai, que morreu de forma súbita. Ao seu lado, estão sua madrasta Delia, e também sua filha Astrid. Enquanto se recuperam do baque da morta súbita de Charles, Astrid acaba descobrindo a maquete dos Maitland no sótão da casa, e também descobre sobre Beetlejuice. Ao mesmo tempo, ela conhece um garoto que a leva para o mundo dos mortos. Desesperada, Lydia pede ajuda à Beetlejuice para trazê-la de volta.

 

Essa é a trama de Beetlejuice 2. Eu posso dizer que gostei dela, porque é uma variação da trama do primeiro filme, onde o casal Barbara e Adam recorre ao Suco para expulsar os Deetz de sua casa. Aqui, a coisa é diferente. Os roteiristas fizeram muito bem em mostrar como os personagens evoluíram durante os 36 anos que separam os dois filmes, principalmente Lydia. Aqui, ela se tornou apresentadora de um programa sobre eventos sobrenaturais, ao mesmo tempo que precisa lidar sua filha rancorosa e rebelde. Delia, por outro lado, também apresentou mudanças, mas, se mostra a mesma mulher preocupada com a própria reputação, do que com a família.

 

Eu pessoalmente não achei ruim esse fato, na verdade, até esperava por isso, porque, convenhamos, Delia não poderia apresentar outra personalidade.

 

Quem realmente mudou foi Lydia, que, além de ser uma celebridade, também é uma mulher insegura consigo mesma, e que luta para reconquistar o amor de Astrid, que se revoltou com a mãe após perder o pai.

 

Como não acompanhei nenhuma crítica ou resenha do filme, porque queria ter a minha própria impressão do mesmo, não sei o que as pessoas acharam de Astrid, porque a garota é uma adolescente rebelde, que critica a mãe o tempo todo. Eu confesso que não sabia o que esperar dessa personagem, então, eu digo que fui surpreendido. Astrid é rancorosa, além de cética, mas, no fundo, tem um bom coração.

 

Além das três mulheres da família Deetz, temos também alguns novos personagens, como Rory, o empresário e namorado de Lydia, que acompanha a família na viagem à Winter River, e faz de tudo por ela, inclusive, recuperar seus comprimidos do lixo. O personagem é bem legal, e se mostra apito a ajudar, mas, em determinado momento do filme, suas intenções são reveladas.

 

Ao lado de Rory, temos o fantasma Wolf Jackson, um ex-ator de filmes de espionagem, que se tornou policial no Outro Lado, e possui um papel muito importante na trama, porque ele está atrás de alguém que está sugando a alma dos fantasmas. O personagem é bem divertido, e mostra que, mesmo depois de morto, não deixou seu lado canastrão de lado.

 

Para fazer companhia aos dois, temos também os ajudantes de cabeça encolhida, os Encolhidos. Eles são muito legais, e passam o filme inteiro fazendo atrapalhadas, além de trabalharem como secretários no Outro Lado, mais ou menos como vimos no primeiro filme, com a fantasma da senhora que cuidava do caso dos Maitland.

 

E por fim, temos Delores, a ex-noiva de Beetlejuice. A personagem já surge mostrando que não está para brincadeira, numa cena hilária, onde ela aparece se reconstruindo, após um pequeno acidente provocado por um faxineiro, numa ponta bem bacana de Danny DeVito. A mulher pode ser definida como uma Morticia Addams com grampos, uma vez que ela se parece muito com a matriarca da Família Addams. Uma adição muito legal ao universo do Outro Lado.

 

E claro que não poderia faltar o nosso querido fantasma mais famoso do pedaço. O Suco mostra que não mudou nada após todos esses anos, mas isso não é um defeito. O personagem não poderia ter sido escrito de outra forma, apelando para piadas de mal gosto e tiradas sagazes, além do humor ácido. E convenhamos que Michael Keaton continua com tudo no papel.

 

A direção de Burton também é um ponto positivo. Conforme mencionei acima, mesmo após cinco anos afastado do cinema, o cineasta mostrou que fazer filmes é sua paixão, e ele não falhou em momento nenhum, seja com seu elenco, seja com sua equipe. Ele conseguiu tirar grandes atuações de seus atores, e todos se mostraram bem à vontade em reprisar seus papéis. Os quesitos técnicos também não ficam atrás, com os enquadramentos e movimentos de câmera criativos, tanto no nosso mundo, quando no Outro Lado.

 

E é claro que o diretor não iria deixar de colocar sua marca no filme. É possível ver a impressão de Burton durante todo o filme, do começo ao fim, e isso fica evidente principalmente em algumas cenas importantes. A melhor delas é a narração que Beetlejuice faz sobre como conheceu Delores. A sequência é filmada como se fosse um filme gótico italiano, uma grande homenagem ao Maestro Mario Bava, devo dizer, porque parece uma sequência extraída direto de A Maldição do Demônio (1960), primeiro filme do cineasta italiano.

 

Além de homenagear um de seus ídolos, Burton fez questão de usar o máximo de efeitos práticos possível; então, temos aqui inúmeros fantasmas criados com maquiagem de verdade, além os Encolhidos, e do verme de areia, que foi todo criado em stop-motion. Eu amei as cenas com o verme, porque não havia outro jeito de criá-los, que não fosse esse.

 

No entanto, o filme tem um pequeno problema. Eu senti que Delores não foi tão bem aproveitada quanto deveria, porque, ela aparece pouco, e sua participação no final foi bem rápida. Eu esperava que a personagem tivesse um papel ainda mais importante no filme, que poderia gerar uma espécie de conflito entre ela, Beetlejuice, e Lydia, mas, infelizmente, não foi o que aconteceu... Nesse ponto, o filme perdeu um ponto.

 

Mas, apesar desse pequeno problema, eu amei assistir a Beetlejuice 2. Foi como revistar velhos amigos, que não via há muito tempo, e pude me divertir com suas nova histórias.

 

Enfim, Os Fantasmas Ainda se Divertem é um filme excelente. Uma comédia de horror contada com grande maestria, com tudo que se pode esperar de um filme de Tim Burton. A direção do cineasta é um dos pontos positivos, e ele se mostra muito capaz de comandar após sua ausência das telas. Os efeitos especiais, a maquiagem e o design de produção também merecem ser mencionados, porque remetem a tudo que tinha no primeiro filme. E o retorno do elenco principal deixa o filme ainda mais delicioso, principalmente o personagem-título, que continua mais atrevido do que nunca. Um dos melhores filmes do diretor Tim Burton.



quinta-feira, 15 de agosto de 2024

AVISO.



 

AVISO.


O LIVROS & FILMES DE HORROR ficará em recesso por tempo indeterminado.


Muito obrigado.

sábado, 20 de julho de 2024

NOSFERATU – O VAMPIRO DA NOITE (1979). Dir.: Werner Herzog.

 

NOTA: 10


NOSFERATU – O VAMPIRO DA NOITE é um filme maravilhoso.

 

É um daqueles casos de refilmagens que não ofendem a obra original, e merecem estar junto com ela numa sessão dupla.

 

Como já deu para perceber, o filme de Herzog é uma refilmagem do Clássico de Murnau, que é um marco do Expressionismo Alemão, além de ser a primeira adaptação para cinema do livro de Bram Stoker.

 

Aqui não é diferente, e o filme pode ser encarado dessas duas maneiras por qualquer um que adore a obra de Stoker. Até porque, o filme foi lançado em um ano que pode ser chamado de “Ano do Drácula no Cinema”, visto a quantidade de adaptações e filmes de vampiros que foram lançados.

 

A trama é basicamente a mesma do filme de Murnau, então, não vou descrevê-la aqui, e irei me concentrar apenas nos quesitos técnicos.

 

Conforme disse acima, o filme é maravilhoso, e isso se deve principalmente às habilidades de Herzog como diretor, e isso ele tem de sobra.

 

O cineasta é capaz de criar cenas lindas de várias formas, sem apelar para artifícios; tudo é feito de forma natural, e no tempo certo, e deixam o filme ainda melhor a cada revisão.

 

O principal fator que deixa o filme lindo são as locações. O filme foi rodado na Alemanha e na França, e o diretor soube aproveitar os cenários de maneira única, assim como Murnau fez em seu filme. As cenas diurnas são o grande destaque, com foco nas montanhas e vales, além de cachoeiras e grutas.

 

O castelo do conde não fica atrás. A locação é belíssima, e nas cenas diurnas, fica ainda melhor, com aspecto gótico e com decorações mórbidas, além de ser repleto de morcegos pendurados nas janelas.

 

A locação para a cidade de Wismar também é linda, e possui um aspecto de parada no tempo, além de contar com uma belíssima praça central, diante de uma torre de relógio.

 

Sempre que vejo as locações desse filme eu fico em paz, porque elas são simplesmente lindas, sem exceção.

 

Além das locações, preciso falar sobre o elenco também. Nosferatu marca mais uma parceria entre Herzog e o ator Klaus Kinski, aqui no papel do vampiro. Não é novidade para ninguém que o ator era problemático no set, e que ambos tiveram momentos difíceis em sua parceria ao longo dos anos.

 

Kinski está excelente como o vampiro, e sua caracterização se distancia completamente do filme de Murnau, e aqui, o conde é retratado como uma figura trágica, que não pode morrer, e que sofre por amar e não ser amado. E assim como no filme de Murnau, ele vai à Wismar para espalhar a peste, representada por um exército de ratos.

 

Além de Kinski, temos também as presenças de Isabelle Adjani e Bruno Ganz, como Lucy e Jonathan, respectivamente, e os dois também estão excelentes.

 

Isabelle interpreta uma Lucy fragilizada, que ama o marido e teme por sua vida quando ele vai viajar para a Transilvânia. Mas não é só isso. Sua Lucy também é uma mulher determinada, que está disposta a se sacrificar para salvar a vida do marido e também acabar com a peste. A caracterização da personagem também é excelente, com seu rosto pálido e cabelos negros; e fica ainda melhor quando ela está de camisola branca, que dá um belo contraste.

 

Ganz, por outro lado, interpreta Harker, e o personagem pode ser dividido em duas fases. No começo do filme, ele é um homem seguro, que não tem medo de viajar para uma terra distante, e não liga para as conversas supersticiosas dos locais. No entanto, após fugir do castelo, ele se transforma em outra pessoa, em um homem fragilizado, com aspecto doente, que não reconhece mais a esposa. E a coisa fica pior no final do filme.

 

Como eu disse anteriormente, Herzog sabe criar ótimas cenas, e ele faz isso com maestria. As cenas aqui acontecem aos poucos, de maneira lenta mesmo, mas não ficam entediantes. São várias cenas aqui, e fica difícil dizer qual é a melhor, mas eu destaco a sequência em o conde morde Lucy; é uma cena tensa, que deixa o espectador angustiado, porque, quando achamos que ela acabou, ela continua.

 

Além de criar cenas de ritmo lento, Herzog também faz uso de imagens de arquivo de morcegos voando em câmera lenta, para simular a chegada do vampiro, e também indicar sua presença em cena. Assim como as cenas mencionadas acima, esses takes de morcegos voando são maravilhosos, principalmente por causa dos animais que os protagonizam.

 

Assim como o filme de Murnau, o filme de Herzog é um filme sobre a peste, representada na forma de um exército de ratos. Quando eles chegam à Wismar, a bordo do navio abandonado, o caos está instalado, e as pessoas não tem outra alternativa, a não ser sucumbir e morrer. As cenas da presença da peste são tristes, e eu destaco uma em particular: a sequência em que Lucy está andando pela praça e se depara com várias pessoas adoecidas dançando alegremente e comendo ao ar livre. É a clássica representação da Dança da Morte, vista na época da Peste Negra, mas sem a presença do Ceifador. A sequência é acompanhada por uma trilha sonora lúgubre, que a deixa ainda mais melancólica.

 

E já que toquei nisso, deixe-me falar sobre a trilha sonora, antes de encerrar. Herzog utilizou música clássica, além de uma banda para compor a trilha sonora de seu filme, e a trilha não decepciona. Desde a primeira cena, nas catacumbas de múmias, a trilha fúnebre se faz presente, e passa uma sensação de tensão, que vai crescendo à medida que ela mesma vai crescendo. É uma trilha sonora perfeita para o clima lúgubre e melancólico do filme.

 

Foi lançado em DVD no Brasil pela Versátil Home Vídeo, primeiramente em versão individual, depois na caixa Nosferatu, que contém também o filme de Murnau. A versão disponível na caixa é restaurada e está no formato Widescreen Anamórfico, além de vir acompanhada de muitos extras.

 

Para uma ótima experiência, assista primeiro o filme de Murnau, e na sequência, embarque neste filme aqui.

 

Enfim, Nosferatu – O Vampiro da Noite é um filme excelente. Uma obra melancólica e fúnebre, que enche os olhos com suas locações maravilhosas, além de contar com as técnicas milenares de direção de Werner Herzog. O elenco principal também é o destaque, e os atores estão excelentes em suas performances, e a trilha sonora deixa o espectador ainda mais imerso no longa, com seu tema fúnebre e melancólico. Um exemplo de refilmagem que não ofende a obra original, e merece estar ao seu lado em uma sessão dupla. Altamente recomendado.


Créditos: Versátil Home Vídeo.


sexta-feira, 19 de julho de 2024

A CASA DO ESPANTO (1986). Dir.: Steve Miner.

 

NOTA: 8.5


A CASA DO ESPANTO é um dos filmes da minha coleção que eu gosto muito.

 

Desde a primeira vez que o assisti, há mais de 20 anos, eu gostei muito dele, e me diverti muito com tudo aquilo que vi na tela, e essa sensação segue até os dias de hoje.

 

Além disso, este é um daqueles filmes dos anos 80 que misturam terror e humor de maneira muito boa e realista. Se o filme fosse apenas um filme de terror de casa assombrada, tudo bem, mas o modo como as coisas são feitas aqui, contribui para deixá-lo único.

 

Na trama, o escritor Roger Cobb se muda para a casa da tia após a morte dela, com o objetivo de escrever um livro sobre suas experiências no Vietnã. Mas ao mesmo tempo, ele decide investigar mais a fundo, o desaparecimento do filho, que supostamente foi raptado dentro da casa.

 

A trama básica é essa, mas, conforme o filme vai andando, as coisas bizarras vão acontecendo uma atrás da outra, e o longa se revela como um filme de casa assombrada, mas não no sentido literal.

 

Aqui, não temos apenas fantasmas; nós temos criaturas de outra dimensão, monstros e zumbis, que têm como único objetivo, infernizar a vida do protagonista, e impedir que ele resolva o mistério por trás do desaparecimento do filho.

 

O roteiro é muito bom em misturar terror e humor, e na verdade, eu mesmo não considero este um filme de terror; na minha opinião, ele é uma comédia de humor negro, visto a quantidade de situações absurdas que o protagonista enfrenta ao longo da narrativa.

 

Além das criaturas bizarras, nós temos também personagens excêntricos, como o vizinho enxerido do protagonista; a ex-esposa dele – talvez a mais normal entre os personagens –; a vizinha bonitona; e os fãs do escritor, os tipos mais variados de figuras. O vizinho é um personagem bem legal, pois está sempre aparecendo nos momentos mais inoportunos, mas se mostra um amigo para o protagonista. As cenas de interação entre os dois são muito boas e engraçadas também, principalmente quando Roger o convida para capturar uma das criaturas.

 

Outro personagem que merece menção, é o parceiro de guerra de Roger, o fortão Big Ben, que aparece nas cenas de flashback da guerra. Big Ben é o típico personagem casca-grossa, mas não deixa de ser engraçado quando o roteiro pede. As cenas entre ele e Roger também são muito bem escritas e dão um contraste bacana entre eles, expondo suas diferenças em combate.

 

Agora que já falei os personagens, vou falar das criaturas. Há várias delas aqui, que vão desde monstros saindo do armário, até zumbis que voltam do túmulo, passando por seres tentaculares e voadores de outra dimensão. A melhor delas é mulher de vestido roxo e unhas vermelhas, que é uma personagem muito engraçada desde a primeira vez em que aparece, e ela apanha muito durante o filme.

 

No entanto, o principal monstro do filme é a versão zumbi de Ben, que se mostra o verdadeiro vilão do filme, e tem um motivo pessoal para ir atrás de Roger.

 

A direção de Steve Miner também merece ser mencionada aqui, porque o diretor faz uso de técnicas criativas para contar sua história, sendo a mais engenhosa delas o plano sequência que acontece durante os créditos iniciais, que começa na parte de trás da casa e termina na fachada da mesma, uma sequência inteira sem cortes, que não deve ter sido fácil de ser feita na época.

 

A trilha sonora de Harry Manfredini também é muito boa, principalmente o tema principal, que remete a um filme de terror de fato. Em certos momentos, a trilha lembra muito a da franquia Sexta-Feira 13, que é do mesmo compositor, e isso não é um defeito.

 

As cenas de humor e terror são muito boas também, e não apelam para muitos clichês. Os momentos de verdadeiro terror acontecem quando Roger atravessa os portais para outra dimensão, ou então, quando é perseguido pelo zumbi; já as cenas de humor acontecem graças às criaturas, que são muito engraçadas de fato, principalmente a mulher de vestido roxo.

 

E para finalizar, a própria casa em si é um personagem, principalmente a sua fachada em estilo colonial, que é bem memorável e assustadora.

 

Enfim, A Casa do Espanto é um filme muito bom. Um filme de terror de casa assombrada, com toques de humor espertos, aliados a uma direção competente, e um roteiro criativo. Os efeitos especiais merecem menção também, principalmente as criaturas, que são bem convincentes. A fotografia faz um ótimo trabalho, principalmente quando destaca a fachada da casa, que é bem memorável. Uma ótima mistura de terror e humor.




sexta-feira, 12 de julho de 2024

O SANGUE DE DRÁCULA (1970). Dir.: Peter Sasdy.

 

NOTA: 7.5


Entre 1958 e 1974, a Hammer Films produziu uma série de filmes protagonizados pelo Conde Drácula, criado pelo escritor Bram Stoker. Ao todo, foram nove filmes, sete deles estrelados pelo grande Christopher Lee, no papel que o consagrou como astro do horror. Somente dois filmes não contaram com o astro no elenco.

 

O SANGUE DE DRÁCULA, lançado em 1970, é o quinto filme da franquia, e o quarto a contar com o astro no elenco.

 

Com direção de Peter Sasdy, este é um filme que apresenta suas qualidades, e consegue ser arrepiante em alguns momentos, mas, ainda assim, começa a apresentar alguns problemas.

 

Mas, antes de falar sobre os problemas, deixe-me falar sobre as qualidades.

 

Como os demais filmes da franquia até então, este é um filme bem feito, que presa pelo aspecto gótico e também com uma atmosfera de terror sempre presente.

 

Na trama, um vendedor é atacado em sua carruagem e acaba se deparando com o Conde Drácula sendo destruído – com cenas do filme anterior – e coleta seu sangue, juntamente com sua capa. Após esse prólogo, três homens conhecem um lorde que compra os pertences do conde e o traz de volta à vida por meio de um ritual satânico.

 

Pois bem, aqui, temos mais uma vez o Conde Drácula percorrendo o interior em busca de vingança contra aqueles que o prejudicaram, neste caso, os três homens que mataram seu servo antes do ritual ser completado.

 

Essa formula da vingança do conde já havia sido usada no filme anterior – e voltaria a ser usada no filme seguinte –, então, não há muitas novidades aqui, para falar a verdade.

 

Mas, no entanto, temos a presença do astro Christopher Lee como o Conde Drácula, e, como sempre, é o que faz o filme valer a pena. Mesmo com a pouca presença, o ator consegue nos satisfazer com sua interpretação magistral do conde, passando todo o ar ameaçador e demoníaco que o personagem pede, além de ser uma presença muito elegante.

 

O resto do elenco também compensa, principalmente a atriz Linda Hayden, que faz a mocinha que se torna escrava do vilão.

 

Esse é a sacada do roteiro. Ao invés da mocinha totalmente indefesa, temos aqui uma mocinha que no começo, se mostra como indefesa e doce, mas, após se encontrar com o conde, transforma-se em sua escrava, e não poupa ninguém.

 

Deixe-me falar também sobre os outros personagens. O pai da mocinha, e seus dois amigos, são aqueles clássicos homens que se fingem de bons moços, mas, que na verdade, saem à noite para se divertir em clubes masculinos pela cidade. Os três amigos da mocinha também funcionam e convencem, e claro, um deles é o par romântico dela, uma coisa que também se tornou registrado nessa franquia – a presença do casal protagonista de mocinhos.

 

Quem merece menção também é o lorde satanista, interpretado por Ralph Bates, um ator bem conhecido na Hammer. Apesar da pouca presença, o personagem é bem interpretado, e passa aquela aura misteriosa que o roteiro pede. Funciona bem.

 

Eu, no entanto, tenho alguns problemas com a mistura de temática satanista com vampirismo, porque, eu acho que são dois temas que não tem muita relação entre si, e isso seria explorado no penúltimo filme da franquia. Pode ser que eu esteja errado, mas, acredito que as coisas devem ser separadas. No entanto, admito que é um bom recurso para trazer o conde de volta, apenas para dar uma variada.

 

Outro problema presente no roteiro, é a falta de utilização de alguns personagens secundários. Um deles é o policial que resolve investigar as mortes dos três homens, mas, ele acaba sendo mal aproveitado, e sua participação não é muito desenvolvida.

 

O mesmo pode ser dito do namorado da amiga da mocinha, que não faz nada o filme inteiro, é atacado por um vampiro, e desaparece sem nenhuma cerimônia. Ele poderia ao menos ter voltado como vampiro, assim, o mocinho poderia matá-lo.

 

O cenário que serve de esconderijo para o conde é muito bom, uma velha igreja abandonada, que rende momentos arrepiantes, além de proporcionar um bom combate final, que culmina na derrota do vilão.

 

Enfim, O Sangue de Drácula é um bom filme. Uma continuação decente da franquia, que segue exatamente onde o filme anterior parou, além de proporcionar momentos de suspense e terror na medida certa, e de arrepiar com eficiência. O grande destaque é o astro Christopher Lee, novamente entregando uma brilhante performance como Drácula. Um filme recomendado.




AVISO.

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